No começo, Psiquê era uma criatura adorável, feminina e ingênua. Para galgar um novo degrau em seu desenvolvimento e conseguir uma nova vida, foi-lhe estipulado - pelo oráculo e pela evolução - morrer para aquela preocupação pueril, talvez narcisista, com sua beleza e ingenuidade, a fim de aprender a lidar com as dificuldades da vida, sem, porém, excluir suas facetas escuras e feias, e usando sempre as potencialidades de um ser já amadurecido.
Quem melhor que Perséfone para entender tudo isso? A Perséfone da mitologia também fora, de início, uma donzela pura e linda, tal qual Psiquê: cheia de vida, de juventude, de frescor primaveril. Sua beleza era sua maior preocupação, e foi justamente ela que lhe causou a perda da inocência, quando se atirou de encontro ao seu destino. Tudo porque um dia ficou extasiada com uma flor lindíssima - o Narciso -, que fora criada especialmente por Zeus com o propósito de afastá-Ia de seus amigos e fazer com que Hades a pudesse raptar e desposar. Depois do rapto, Deméter, sua mãe, passou a buscá-Ia desesperadamente. Zeus, então, deu sua permissão para que a jovem voltasse do mundo dos mortos uma vez por ano, durante a primavera e o verão.
Perséfone aprendera tudo sobre a beleza: seu preço e seu valor. Trazia-a, pois, anualmente para a Terra durante essas estações. Quando a deusa via sua beleza murchar com as primeiras geadas, tornava aos infernos. Sim, ela sabia tudo sobre a efemeridade da beleza e o quanto ela é desejada.
É, portanto, para junto de Perséfone que Psiquê é encaminhada, quando de sua última tarefa. Que melhor pessoa? Para quem mais poderia ela ser mandada, justamente quando necessitava morrer para a preocupação - infantil e original - com sua beleza e seu narcisismo, que a distanciavam do amadurecimento?
Quando Psiquê desobedece às instruções relacionadas ao cofrezinho (outra felix culpa, uma queda do estado de graça, necessária ao desenrolar do drama?), ela toma o elemento feminino, divino, para uso próprio, e ele lhe causa a perda da consciência. É esse o momento mais perigoso da jornada, exatamente o ponto no qual muitos se perdem. Identificar-se com o mistério é cair na inconsciência, que significa o fim para um maior desenvolvimento.
Psiquê trabalhou para executar as três tarefas e, por meio delas, conseguir uma conscientização maior, mais detalhada, em seu processo de auto-conhecimento. Finalmente defrontou-se com a tarefa da individuação, plenitude, inteireza. Isso, porém, exigiu-lhe uma descida às regiões abissais do inconsciente, do Hades, que só pôde ser empreendida depois de ela adquirir controle bastante para trabalhar conscientemente. Muitas mulheres, no entanto, conseguem fazer a jornada em segurança até esse ponto para acabar caindo na armadilha de identificar-se com o misterioso charme de Perséfone. Se isso acontecer, nenhum desenvolvimento mais lhes será possível, uma vez que se tornam verdadeiros fósseis espirituais, sem nenhuma dimensão humana.
Psiquê também teria sucumbido nesta prova, não fosse essa mesma falha ter ativado o poder masculino de Eros - ou seu lado masculino interior -, e o levado a salvá-Ia. Foi a picada da flecha do amor que a despertou e resgatou de seu sono mortal. Somente o amor poderá salvar você dos perigos de uma espiritualidade parcial.
Esse sono de Psiquê nos recorda o sono de morte de Cristo na tumba, ou o de Jonas no ventre da baleia. É o grande sono, a grande morte, o grande colapso que antecede a vitória final.
Eros realiza sua tarefa divina e Psiquê é recebida no céu como imortal. Seu contato com Eros é difícil e perigoso, mas no final brinda-a com a imortalidade. Portanto, a salvação é o prêmio da totalidade, que não é conseguida só pelo trabalho, mas é dádiva dos deuses. Podese, pois, presumir que quem esteve fortalecendo a jovem todo o tempo foi Eros; que foi ele, como animus, que se manifestou como formiga, junco, águia e torre.
Se tomarmos o mito todo como a própria história da mulher, Eros é realmente seu animus que está se tornando forte, saudável, deixando de lado as características do moleque malandro para ser um homem maduro, merecedor de se tornar seu companheiro. Tudo é conseguido, sim, com o trabalho da jovem, mas também com a colaboração efetiva dele.
Neste mito, como em muitos outros, a morte é apenas um sono. O animus - em sua dimensão no mundo interior do Olimpo - é capaz de salvar o ego e elevar Psiquê a uma vida nova, a um novo estado de existência. Ego e animus, agora, mantêm um relacionamento adequado, pleno e total. Ela é agora rainha, e o fruto dessa união é alegria, êxtase, totalidade e divindade.
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