Pensamos sobre algo, fazemos uma apreciação intelectual a respeito, e entendemos. Ao fazermos somente isto, porém, ainda não existe o feeling sobre o algo pensado. Não há ainda sentido de julgamento, não lhe conferimos valor, não houve, portanto, envolvimento total. O ato de pensar é bem diferente do ato de sentir, que é dar valor a uma sensação. Quando perguntamos a alguém qual foi o seu feeling a respeito de alguma coisa, a única resposta cabível do indivíduo seria: é bom, é mau, terrível ou belo. Teríamos dado, então, através do feeling, um valor a esse algo.
Quanto aos humores, o assunto é espinhoso, pois eles apresentam uma particularidade estranha: é como se fossem uma pequena psicose ou possessão, e aparecem no homem que foi dominado pela parte feminina de sua natureza. É o que se chama "estar de veneta".
Muitas vezes o indivíduo tem de fazer uma escolha entre feeling e humores. Um exclui o outro. Os humores impedem o real feeling. Se ele estiver entrando num tipo de humor - ou, melhor falando, quando um humor o "agarra" - ele automaticamente estará excluindo sua capacidade para ter um feeling verdadeiro e, por conseguinte, relacionamento e criatividade. Na velha linguagem do mito, seduziu ou foi seduzido pela sua feminilidade interior.
Se um homem usar externamente sua feminilidade, ela não terá um pingo de eficácia, pois quando está completamente dominado por humores ele é como um relógio de sol, que não funciona à luz do luar. Sua anima lhe serve como a "musa inspiradora", quando manifestada no lugar certo, mas não lhe serve bem quando ele a usa como uma roupagem externa para relacionar-se com o mundo exterior. "Usar" é o termo correto, pois qualquer um ao seu redor vai sentir-se "usado" quando ele lida com o mundo enquanto presa dos humores. Sedução, mesmo! Feeling, ao contrário, é a parte sublime que integra o "equipamento" do homem para levar calor humano, gentileza e percepção.
Quantas vezes não projetamos nosso relacionamento com a anima, ou, à falta dela, na mulher de carne e osso. A mulher é um milagre da natureza, uma beleza que será obscurecida se tentarmos impingir a ela as leis aplicadas à mulher interior. Do mesmo modo, a interior será prejudicada se a tratarmos como se fosse a de carne e osso.9
É raro o homem que sabe bastante sobre seu componente interior feminino, sua anima, ou que consegue com ela manter um relacionamento satisfatório. No entanto, se ele pretende qualquer desenvolvimento interior, é essencial que descubra sua anima, que a coloque, por assim dizer, numa garrafa e a feche com uma rolha. É claro que vai precisar tirá-Ia de lá um dia, mas antes terá de aprender como não ser dominado por seus humores e, por conseguinte, suas seduções. Mas colocar a rolha e fechar a garrafa é só o primeiro passo para se lidar com a anima. a seguinte, e bem mais importante, é aprender como relacionar-se com ela, tê-Ia como a companheira interior que caminhará com ele e lhe trará calor, força e entusiasmo no decurso da vida.
Em última análise, ele só tem duas alternativas: ou a rejeita, e ela se voltará fatalmente contra ele em forma de humores e seduções insidiosas, ou a aceita e se relaciona bem com ela. Portanto, deixar-se cair nas garras dos humores significa que ele a interpretou mal, ou seja, tratou-a como a mulher de fora. É aí que perde de vez a capacidade de relacionar-se, de avaliar. E não importa se o humor é "bom ou mau".

8. Humor, exatamente falando, deveria ser a palavra estrita para descrever a experiência do homem, já que o mesmo fenômeno, com relação à mulher, é bastante diferente e requereria um outro termo. Mas esse outro termo não existe, e não temos a linguagem adequada para descrever essa experiência paralela na vida da mulher. Neste contexto, o paralelo dos humores da mulher com relação aos do homem é que ela se rende ao seu lado masculino, assim ficando sujeita a uma característica áspera, rígida, desafiante, típica de uma masculinidade medíocre. Acontece o mesmo com relação aos humores do homem, os quais também denotam um tipo de feminilidade medíocre. Para maior elucidação do tema, ver She - A Chave do Entendimento da Psicologia Feminina (Editora Mercuryo, São Paulo, 1993). (N. A.)
9. V. We - A Chave da Psicologia do Amor Romântico, também de Robert A. Johnson, Editora Mercuryo, São Paulo, 1987, para maiores esclarecimentos. (N. A.)
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