1 somatico 5 DA PARALISIA À TRANSFORMAÇÃO: BLOCOS CONSTRUTORES

5 DA PARALISIA À TRANSFORMAÇÃO: BLOCOS CONSTRUTORES

O medo é o assassino da mente. O medo é a pequena

morte que traz total obliteração.

Eu enfrentarei meu medo. Permitirei que ele

passe sobre e através de mim.

E, quando ele tiver passado por mim, vou me virar

para ver o caminho do medo.

Onde o medo tiver estado não haverá nada.

Somente eu permanecerei.

Duna, Frank Herbert

Aquele que não entender a natureza do medo

nunca encontrará o destemor.

Budismo Shambala

No capítulo anterior, vimos como os animais e os seres humanos ficam aprisionados em uma paralisia dominada pelo medo e, dessa forma, ficam traumatizados. Neste capítulo, apresento o antídotopara o trauma: os mecanismos biológicos centrais que os terapeutas precisam conhecer e ser capazes de desencadear nos pacientes para ajudá-los a resolver suas reações traumáticas. O engajamento desses processos biológicos é essencial tanto no tratamento da fase aguda que se dá imediatamente após incidentes ameaçadores e devastadores, tais como estupro, acidentes e desastres, quanto na transformação do TEPT crônico.

Até que a experiência física central do trauma – sentir-se paralisado de medo, congelado ou entrar em colapso e ficar entorpecido – se desenrole e se transforme, a pessoa permanece presa, à mercê do próprio medo e desamparo, que estão entrelaçados. As sensações de paralisia ou colapso parecem intoleráveis, totalmente inaceitáveis; elas nos aterrorizam e ameaçam nos aprisionar e nos derrotar. Essa percepção de experiências aparentemente insuportáveis nos leva a evitá-las e negá-las, a nos enrijecermos para nos defender e depois nos separarmos delas. Entretanto, recorrer a esse tipo de defesaé como beber água salgada para saciar uma sede intensa: embora possa proporcionar alívio temporário, só piorará o problema drasticamente e será, em longo prazo, contraproducente. Para desembaraçar esse emaranhado de medo e paralisia, precisamos ser capazes de, voluntariamente, entrar em contato com as sensações físicas que nos amedrontam e vivenciá-las; temos de ser capazes de confrontá-las por tempo suficiente para que elas se modifiquem e se transformem. Para resistirmos ao artifício defensivo de evitação, a melhor estratégia é nos movermos na direção do medo, entrar em contato com a imobilidade em si e explorar conscientemente as várias sensações, texturas, imagens e os pensamentos associados a qualquer desconforto que possa surgir.

Para trabalhar com reações traumáticas, tais como os estados de medo intenso, a Experiência Somática®¹ oferece aos terapeutas nove elementos essenciais. Essas ferramentas básicas para renegociare transformar o trauma não são lineares, rígidas ou unidirecionais. Na verdade, em sessões de terapia, esses passos serão interligados e interdependentes, podendo ser acessados repetidas vezes e em qualquer ordem. Entretanto, para que esse processo psicobiológico seja construído sobre uma base sólida, os Passos 1, 2 e 3 devem necessariamente ocorrer primeiro e seguir exatamente essa sequência. Sendo assim, o terapeuta precisará:

Criar um ambiente de relativa segurança.

Oferecer apoio, amparar a exploração inicial e a aceitação da sensação.

Estabelecer a pendulaçãoe a contenção: o poder inato de ritmo.

Usar a titulação para criar estabilidade, resiliência e organização crescentes. Titulação significa tocar cuidadosamente na menor gotade ativação que tenha base na sobrevivência, e em outras sensações difíceis, para evitar retraumatizar o paciente.

Proporcionar uma experiência corretiva, suplantando as respostas passivas de colapso e desamparo com respostas defensivas, empoderadas, ativas.

Separar ou desacoplara associação condicionada de medo e desamparo da resposta de imobilidade biológica (normalmente de duração limitada, mas agora desajustada).

Resolver os estados de hiperativação guiando com delicadeza a descargae a redistribuição da enorme energia de sobrevivência mobilizada pela ação de preservar a vida, ao mesmo tempo que liberta essa energia para que ela dê suporte a um funcionamento cerebral de alto nível.

Promover a autorregulação para restaurar o equilíbrio dinâmicoe o alerta relaxado.

Orientar para o aqui e agora, entrar em contato com o ambiente e restabelecer a capacidade de interação social.




Passo 1 – Criar um ambiente de relativa segurança

Depois do meu acidente, a primeira vaga sensação que meu corpo percebeu que não fosse de profundo desamparo e desorientação aconteceu quando a pediatra se aproximou e sentou-se ao meu lado. Por mais simples que isso possa parecer, sua presença calma e centrada me deu um breve lampejo de esperança de que as coisas poderiam ficar bem. Um apoio reconfortante como esse, no meio do caos, é um elemento crítico que os terapeutas de trauma devem proporcionar a seus pacientes desestabilizados e atormentados. Esse é o real ponto de partida para retornar ao equilíbrio. O terapeuta deve, em outras palavras, ajudar a criar um ambiente de relativa segurança, uma atmosfera que transmita refúgio, esperança e possibilidade. Para as pessoas traumatizadas, isso pode ser uma tarefa muito delicada. Felizmente, em condições propícias, o sistema nervoso humano está preparado e é capaz tanto de receber quanto de oferecer uma influência reguladora a outra pessoa². Ainda bem que a biologia está do nosso lado. Essa transferência de socorro, nosso direito inato como mamíferos, é gerada pelo tom terapêutico e pela aliança de trabalho que você cria ao entrar em sintonia com os sentimentos de seus pacientes.

Estando o terapeuta centrado, calmo e seguro, com alerta relaxado, contenção compassiva e paciência evidente, a angústia do paciente começa a diminuir. Embora mínima, sua vontade de explorar é instigada, estimulada e percebida como sua. Ainda que a resistência seja inevitável, ela será suavizada e diminuirá com o ambiente reconfortante criado pelo terapeuta qualificado. Um possível obstáculo, porém, acontece entre as sessões; quando estão sem a presença reguladora e calma do terapeuta, os pacientes talvez se sintam despreparados e atirados de volta ao covil do leão, repleto de sensações caóticas, quando expostos aos mesmos estímulos que os dominavam anteriormente. O terapeuta que proporciona apenas uma sensação de segurança (por mais eficaz que ela seja) só tornará seu paciente cada vez mais dependente – e dessa forma aumentará o desequilíbrio de poder entre ambos. Para evitar essa sabotagem, os próximos passos têm como objetivo ajudar o paciente a se mover na direção do estabelecimento e do domínio

da capacidade de acalmar a si mesmo e de seus sentimentos de empoderamento e autorregulação.

Passo 2 – Oferecer apoio, amparar a exploração inicial e a aceitação da sensação

Pessoas traumatizadas perderam tanto seu rumo no mundo quanto a orientação vital de suas motivações interiores. Separadas das sensações primitivas, dos instintos e dos sentimentos provenientes do interior de seu corpo, elas são incapazes de se orientar para o aqui e agora. Os terapeutas devem ser capazes de ajudar o paciente a navegar pelo labirinto do trauma, auxiliando-o a encontrar o caminho de volta para suas sensações corporais e para sua capacidade de acalmar a si mesmo.

Para se autorregular e ser autenticamente autônomas, é fundamental que as pessoas traumatizadas aprendam a acessar, tolerar e utilizar suas sensações internas. Contudo, seria imprudente tentar manter o foco no próprio corpo sem uma preparação adequada. De início, ao entrar em contato com sensações internas, pode-se sentir a ameaça de um medo profundo do desconhecido. O foco prematuro nas sensações também pode ser devastador, causando potencialmente uma retraumatização. Para muitas pessoas feridas, o corpo se tornou um inimigo: a vivência de quase toda sensação é interpretada como um prenúncio inesperado de terror e desamparo renovados.

Para resolver essa situação tão complexa, caso o terapeuta (quando estiver iniciando uma conversa) perceba uma alteração positiva momentânea no afeto do paciente que indique alívio e vitalidade – em sua expressão facial, por exemplo, ou uma mudança na postura –, poderá aproveitar a oportunidade e tentar levar o paciente a prestar atenção em suas sensações. Um contato internocom experiências positivas vai, gradualmente, dando ao paciente a confiança necessária para explorar a paisagem interna de seu corpo e desenvolver uma tolerância para com todas as suas sensações, sejam elas confortáveis ou desconfortáveis, agradáveis ou desagradáveis.




O paciente pode agora começar a permitir que suas sensações escondidas e renegadas – principalmente aquelas de paralisia, desamparo e fúria – emerjam para a consciência. Ele desenvolve sua experiência organísmica escolhendo entre os dois estados opostos: resistência/medo e aceitação/exploração. Com um leve movimento de vaivém, oscilando entre a resistência e a aceitação, o medo e a exploração, o paciente vai aos poucos se despojando de sua couraça protetora. O terapeuta o conduz para um ritmo confortável – uma alteração assistida entre o medo paralisante e as sensações puras associadas à imobilidade. Na psicologia da Gestalt, esses movimentos de vaivém entre dois estados diferentes são descritos como alternâncias de figura/fundo (veja a Figura 5.1). Essa alteração, por sua vez, reduz o domínio exercido pelo medo e permite maior acesso (pela emoção) às sensações de imobilidade mais essenciais e desimpedidas. O vaivém da atenção (entre medo/resistência e as sensações de imobilidade física não adulteradas) aprofunda o relaxamento e intensifica a vitalidade. É o começo da esperança e a aquisição de ferramentas que darão poder ao paciente quando ele começar a navegar na paisagem interoceptiva do trauma e da cura (ou a vivência sentida diretamente nas vísceras, nas juntas e nos músculos). Essas habilidades conduzem a um processo transformador inato e essencial: a pendulação.

Percepção de figura e fundo

 

Figura 5.1  Esta figura demonstra a alternância da percepção de figura e fundo. Você vê o vaso ou o rosto? Continue olhando. O que vê agora? Você provavelmente vai notar que o vaso e o rosto se alternam, mas não podem ser percebidos ao mesmo tempo. Esse conceito nos ajuda a entender como o medo é dissociado da imobilidade. Quando alguém vivencia a imobilidade pura, não pode sentir (como o vaso e o rosto) medo ao mesmo tempo. Isso facilita a expansão e a descarga gradual da ativação mostrada na Figura 5.2.

Passo 3 – Pendulação e contenção: o poder inato de ritmo

Esperando o pior, você olha e, em vez disso,

ali está a face radiante que você queria

ver.

Sua mão se abre e se fecha e se abre e

se fecha.

Se estivesse sempre fechada ou sempre

aberta,

você ficaria paralisado.

Sua presença mais profunda está em cada pequena

contração e expansão.

Os dois gestos lindamente equilibrados e coordenados

como as asas dos pássaros.

Rumi (1207-1273)

Todos os filhos de Deus têm ritmo, quem poderia

pedir algo além disso?

Porgy and Bess

Enquanto o trauma implica estar congelado ou aprisionado, a pendulação é o ritmo organísmico inato de contração e expansão. Em outras palavras, significa libertar-se, ao constatar (sentindo interiormente), talvez pela primeira vez, que por pior que estejamos nos sentindo esses sentimentos podem e vão mudar. Sem esse conhecimento (vivenciado), a pessoa em estado de aprisionamentonão quer habitar o próprio corpo. Para fazer frente à tendência humana aparentemente inextricável de evitar sensações horríveis e desagradáveis, uma terapia eficaz (e a promoção da resiliência em geral) deve oferecer uma forma de enfrentar os dragões do medo, da raiva, do desamparo e da paralisia. O terapeuta precisa inspirar confiança a seus pacientes de que não serão aprisionados e tragados, dando-lhes primeiramente uma provinhade uma experiência interior agradável. É assim que nossos pacientes se movem na direção do autoempoderamento. A capacidade de pendular desenvolve a confiança.

Uma estratégia surpreendentemente eficaz de lidar com sensações difíceis consiste em ajudar a pessoa a encontrar uma sensação oposta: uma




sensação localizada em determinada região do corpo, numa postura específica ou num pequeno movimento; ou ainda uma sensação associada à sensação de estar menos congelado, menos vulnerável, mais forte e/ou mais fluido. Se o desconforto do paciente se alterar, ainda que só por um momento, o terapeuta pode incentivá-lo a se concentrar nessa fugaz sensação física, trazendo à tona uma nova percepção; percepção essa na qual ele se descobre e se instala em uma ilha de segurançaque lhe parece, no mínimo, boa. Descobrir essa ilha contradiz os sentimentos gerais de mal-estar, informando à pessoa que, de algum modo, seu corpo pode, afinal, não ser o inimigo. Ele pode, na verdade, ser considerado um aliado no processo de recuperação. Quando uma quantidade suficiente dessas pequenas ilhas é encontrada e percebida, elas podem ser unidas a uma massa crescente de terra, capaz de resistir às violentas tempestades do trauma. A escolha e mesmo o prazer se tornam uma possibilidade a partir dessa estabilidade crescente, uma vez que novas conexões sinápticas são formadas e fortalecidas. A pessoa aos poucos aprende a alterar sua percepção entre as regiões de relativo conforto e aquelas de desconforto e angústia.

Essa mudança evoca uma das mais importantes reconexões da sabedoria inata do corpo: a experiência da pendulação, o ritmo do corpo, natural e restaurador, de contração e expansão, que nos diz que tudo que sentimos tem duração limitada... que o sofrimento não vai durar para sempre. A pendulação conduz todas as criaturas vivas por sensações e emoções difíceis. Além disso, não requer esforço algum; é completamente inata. A pendulação é o ritmo primitivo expresso como um movimento que vai da constrição à expansão – e de volta à contração – mas vai, gradualmente, se abrindo para uma expansão cada vez maior (veja a Figura 5.2). É um movimento involuntário e interno de vaivém entre essas duas polaridades. A pendulação atenua a intensidade de sensações difíceis como o medo e a dor. Nunca será demais enfatizar a importância da capacidade humana de se mover por entre sensações difíceis e ruins, abrindo-se para aquelas de expansão e bem-estar: ela é essencial para a cura do trauma e, de forma mais geral, para aliviar o sofrimento. É imprescindível que o paciente conheça e vivencie esse ritmo. O constante fluxo e refluxo desse ritmo lhe diz que, por pior que esteja se sentindo (na fase da contração), a expansão inevitavelmente sobrevirá, trazendo com ela um sentimento de abertura, alívio e fluidez. Ao mesmo tempo, uma expansão muito rápida ou grande demais pode ser assustadora, levando o paciente a se contrair antes da hora contra a expansão. Assim, o terapeuta precisa moderar o grau e a velocidade desse ritmo. Quando os pacientes percebem que o movimento e o fluxo são uma possibilidade, começam a se mover adiante no tempo, aceitando e integrando sensações presentes que antes haviam sido devastadoras.

Ciclos de expansão e contração

 

Figura 5.2  Esta figura descreve o ciclo de expansão e contração através do processo de pendulação. Essa conscientização fundamental faz que as pessoas saibam que, não importa o que estejam sentindo, essa sensação se modificará. A percepção da pendulação guia a liberação contida e gradual (descarga) de energias de trauma, conduzindo à expansão corporal e à resolução bem-sucedida do trauma.




Vejamos três situações universais que registram a capacidade inata da pendulação de restaurar sentimentos de alívio e de fluxo de vida. 1) Todos nós já assistimos à inconsolável angústia de uma criança que, após uma queda feia, corre gritando para a mãe e desaba em seus braços. Após um curto período, a criança começa a se orientar de volta para o mundo; depois, busca um momento de retorno ao seu refúgio seguro (talvez por meio de um olhar rápido para a mãe ou da conexão pelo toque); e aí, finalmente, volta a brincar como se nada tivesse acontecido. 2) Pense em um adulto que está destroçado pela reação extremamente dolorosa à súbita perda de um ente querido. Essa pessoa pode desmoronar, acreditando que o sofrimento não terá fim e resultará em sua morte. O luto pode se estender por um longo tempo, mas há um claro fluxo e refluxo na maré da angústia. Aos poucos, o ritmo da aceitação e da dor gera uma liberação que acalma e um retorno à vida. 3) Finalmente, lembre-se da última vez em que você estava dirigindo e por um triz não se envolveu em um acidente. Seus nervos estavam à flor da pele (os pelos eriçados), você sentia medo e raiva, o coração batendo forte, prestes a explodir no peito. Então uma onda de alívio lhe fez lembrar que você não tinha sido atirado para dentro do horror que é um acidente. Esse momento de alívio normalmente é seguido por um segundo flashback do quase acidente, o que provoca outra rodada de susto, agora mais fraco, seguida por uma nova onda de alívio restaurador. Esse ritmo reparador ocorre de forma involuntária, em geral na sombra da consciência, felizmente permitindo que você se concentre na tarefa que tem pela frente. Assim, a pendulação lhe ajuda a recuperar o equilíbrio e retornar à vida cotidiana.

Quando esse processo natural de resiliência se encontra desativado, ele deve ser cuidadosa e gradualmente despertado. Os mecanismos que regulam o humor, a vitalidade e a saúde de uma pessoa dependem da pendulação. Quando esse ritmo é vivenciado, há, no mínimo, um equilíbrio tolerável entre o agradável e o desagradável. As pessoas aprendem que, não importa o que estejam sentindo (por mais horrível que pareça), essa sensação vai durar somente alguns segundos ou minutos. E, por pior que seja uma sensação ou um sentimento específico, saber que ele vai mudar liberta-nos da sensação de estarmos condenados. O cérebro registra essa nova experiência diminuindo a predisposição para o alarme/a derrota.

Onde antes havia imobilidade e colapso devastadores, o sistema nervoso agora encontra seu caminho de volta ao equilíbrio. Paramos de achar que tudo é perigoso e aos poucos as portas da percepção se abrem para novas possibilidades. Ficamos prontos para os próximos passos.

Passo 4 – Titulação

Os Passos 3 e 4 – pendulação e titulação – formam uma díade bem amarrada que permite que as pessoas acessem com segurança e integrem estados muito enérgicos e críticos baseados na sobrevivência. Juntos, fazem que o trauma seja processado sem devastação, e assim a pessoa não volta a se traumatizar.

Nos Passos 5, 6 e 7, atinge-se a restauração gradual de respostas ativas defensivas e protetoras – junto com o término cuidadosamente calibrado da resposta de imobilidade. Esse processo, aliado à descarga da energia reprimida, reduz a hiperativação. Juntos esses passos formam a base da transformação do trauma. Particularmente, a saída da imobilidade está associada a sensações intensas baseadas na ativação, bem como às fortes emoções de fúria e fuga frenética, repleta de medo. É por esse motivo que o processo de liberação do trauma deve ser trabalhado com avanços muito pequenos.

Utilizo o termo titulação para indicar o processo gradual, feito em etapas, de renegociação do trauma. Esse processo é similar a certas reações




químicas. Imagine dois béqueres de vidro, um cheio de ácido hidroclorídico (HCl) e outro com soda cáustica (NaOH). Essas substâncias corrosivas ao extremo (o ácido e a base, respectivamente) causariam queimaduras graves se você colocasse o dedo em qualquer um dos dois recipientes; na verdade, se você deixasse o dedo ali por alguns minutos, ele simplesmente se dissolveria, uma vez que ambas as substâncias químicas são corrosivas. Então você preferiria torná-las seguras neutralizando-as e, se soubesse um pouco de química, talvez as mesclasse para obter uma mistura inofensiva de água e sal de cozinha, dois dos principais elementos constitutivos da vida. Essa reação é descrita da seguinte maneira: HCl + NaOH = NaCl + H2O. Se você simplesmente as derramasse juntas, obteria uma explosão violenta, que o cegaria e a outra pessoa que estivesse no laboratório. Por outro lado, se você habilmente usasse uma válvula de vidro (bureta), poderia adicionar uma dessas substâncias à outra gota a gota. E com cada gota haveria uma pequena efervescência de sal de frutas, mas logo depois tudo ficaria tranquilo. A cada gota a mesma diminuta reação se repetiria (veja a Figura 5.3). Finalmente, após determinado número de gotas, tanto a água quanto os cristais de sal começariam a se formar. Com várias titulações, você obteria a mesma reação química neutralizadora, mas sem a explosão. É esse o efeito que queremos alcançar na resolução do trauma: ao lidar com forças potencialmente corrosivas, os terapeutas devem de alguma maneira neutralizar as sensações de energiaintensa e os estados emocionais primitivos de raiva e fuga não direcionada sem desencadear uma ab-reação explosiva.

Titulação

 

Figura 5.3 A titulação no laboratório de química é uma forma de combinar duas substâncias corrosivas e potencialmente explosivas em uma mistura controlada que transforma os reagentes de maneira gradual.

Passo 5 – Restaurando respostas ativas

Durante meu acidente, quando fui arremessado contra o para-brisa do carro, meu braço se retesou para impedir o impacto na cabeça. A quantidade de energia despendida em uma reação protetora como essa é enorme; os músculos se enrijecem em um esforço máximo para evitar um golpe letal. Além disso, no momento em que meu ombro se chocou contra o vidro e fui atirado no ar e depois na rua, meu corpo ficou flácido.

Quando seus músculos desistemdessa maneira e entram em colapso, você se sente desamparado e derrotado. Contudo, por baixo desse colapso, esses músculos flácidos (hipotônicos) ainda carregam os sinais que protegem você, embora tenham perdidoo poder, o vigor e a capacidade de fazer isso.




Nossa memória sensório-motora está preparada e pronta para executar as ordens para promover nossa proteção e segurança. No meu caso, com consciência interoceptiva, o padrão de defesa ativo foi restaurado aos poucos e a energia começou a voltar para meus braços. Permiti que meus músculos fizessem o que tinham desejadoe estavam preparados para fazer no momento exatamente anterior ao impacto, antes de entrarem em colapso, impotentes. Trazer isso à consciência permitiu que eu vivenciasse uma profunda sensação de empoderamento. De forma semelhante, Nancy, a jovem de 24 anos (minha primeira paciente de trauma do Capítulo 2), e eu descobrimos, sem querer, que ela poderia agora escapar e não mais ser fisicamente contida e aterrorizada (em vez de continuar se sentindo dominada e subjugada pelos cirurgiões como fizera aos 4 anos). Essas novas experiências desmentiram e repararam nossas experiências de terror e desamparo.

Em resumo, essas respostas ativas e autoprotetoras são restabelecidas da seguinte forma: padrões específicos de tensão (conforme vividos pela consciência interoceptiva) sugeremmovimentos específicos que podem se expressar em movimentos minúsculos ou micromovimentos. As posições que meus braços e mãos espontânea e vigorosamente assumiram durante o acidente evitaram que minha cabeça batesse no para-brisa e em seguida se abrisse ao se chocar contra a rua. Mais tarde, quando estava na ambulância, revivi esses movimentos reflexivos instintivos e os expandi por meio da conscientização da sensação – processo que me permitiu vivenciar conscientemente a ativação de fibras musculares à medida que meu corpo se preparava para se movimentar. Essas ações antes haviam ficado incompletas e permaneceram inconscientes. Ao me chocar de forma violenta, primeiro contra o para-brisa e depois na rua, esses reflexos musculares foram truncados, deixando-me com os músculos em colapso e contraídos e também com uma enorme reserva de energia latente. Em vez de me sentir desamparado e vítima desse terrível acontecimento, desenvolvi um forte sentimento de minha própria capacidade de agir com autonomia, domínio e mestria. Além disso, a restauração de respostas defensivas funciona como uma titulação automática das energias de raiva. Em outras palavras, a energia explosiva que se expressaria como raiva intensa e fuga não direcionada agora estava canalizada para uma agressão saudável, direcionada e eficaz.

O empoderamento se origina diretamente do ato de expulsar a atitude física de derrota e desamparo e de restaurar o sistema biologicamente significativo de defesa ativa – isto é, o triunfo incorporado de proteção bem-sucedida e a realidade visceral de competência. Essa renegociação (como veremos no Passo 6) também ajuda a dissolver a culpa e o autojulgamento arraigados que podem ser subprodutos do desamparo e da raiva reprimida/dissociada. Ao acessar uma experiência ativa e vigorosa, contrariamos a passividade da paralisia e do colapso.

Em vista da importância primordial de restaurar essas instintivas respostas ativas de cura do trauma que se perderam (ou melhor, foram

extraviadas) – correndo o risco de me repetir –, abordarei esse assunto de um ângulo um pouco diferente. Pode-se dizer que a experiência do medo se origina das reações primitivas a ameaças nas quais a fuga se frustra (isto é, se ela foi de alguma forma – real ou assim percebida – impedida ou combatida)³. Ao contrário do que se poderia esperar, quando as principais reações de luta ou fuga (ou outras ações protetoras) são executadas livremente, a pessoa não necessariamente vivencia o medo, mas sim as sensações essenciais de luta ou fuga. Relembrando, a reação a ameaças demanda uma mobilização inicial de luta ou fuga. É apenas quando essa reação falha que ela se torna uma resposta default de congelamento, de paralisia de medoou de colapso involuntário.

No meu caso, na ambulância, foi em meus membros – nos micromovimentos dos braços, elevando-se para proteger a cabeça de um ferimento mortal – que vivenciei, pela primeira vez, uma experiência oposta que contradizia minha sensação de desamparo. No caso de Nancy, foram suas pernas correndo para escapar do bisturi do cirurgião. Em ambos os casos, explorar conscientemente e com precisão nosso caminho através desses reflexos ativos de autoproteção nos trouxe uma percepção física de sermos capazes de agir e de termos poder. Juntas, essas experiências contrariaram nossos sentimentos de desamparo devastador. Pouco a pouco, nosso corpo entendeu que não éramos vítimas indefesas, que havíamos sobrevivido às provações e estávamos intactos e vivos em nosso âmago.




Ao mesmo tempo que instilam reações ativas de defesa (que reduzem o medo), as pessoas aprendem que, quando vivenciam as sensações físicas de paralisia, fazem-no cada vez com menos medo – o trauma afrouxa suas garras. Com essa descoberta fundamentada no corpo, a interpretação da mente a respeito do que aconteceu e do significado que esse fato terá na vida da pessoa e naquilo que ela é muda profundamente.

Passo 6 – Desacoplando o medo da imobilidade

Minhas observações clínicas, obtidas durante mais de quatro décadas de trabalho com milhares de pacientes, me levaram ao entendimento de que a capacidade "fisio-lógica" de entrar e depois sair da resposta inata (inerente) de imobilidade é a chave tanto para evitar os efeitos debilitantes e prolongados do trauma quanto para a cura até mesmo dos sintomas mais arraigados. Basicamente, deve-se separar o medo e o desamparo da resposta biológica (em geral, de duração limitada) de imobilidade, conforme descrito no Capítulo 4. Para uma pessoa traumatizada, ter a capacidade de tocar suas sensações de imobilidade, mesmo que por um breve momento, restaura a finalização no seu próprio ritmo e permite que o desemaranhardo medo e do congelamento tenha início.

De igual importância na resolução do trauma é a restrição terapêutica de não permitir que o desemaranhar se precipite. Tal como aconteceu com a reação química não titulada, um desacoplamento abrupto pode ser explosivo, assustador e potencialmente retraumatizante para o paciente. Pela titulação, o paciente é não raro conduzido gradualmente para dentro e para fora das sensações de imobilidade, a cada vez retornando a um equilíbrio tranquilizador (a efervescência do sal de frutas). Ao sair da imobilidade, ocorre uma iniciação pelo fogo; as intensas sensações repletas de energia, biologicamente associadas à fuga não direcionada e à fúria de contra-ataque, são liberadas. É compreensível que as pessoas sintam medo tanto de entrar na imobilidade quanto de sair dela, especialmente quando não têm consciência do benefício que isso traz. Examinemos esses medos de maneira mais aprofundada.

Medo de entrar na imobilidade: evitamos vivenciar as sensações de imobilidade porque são muito intensas e nos deixam desamparados e vulneráveis. Algumas dessas sensações podem até mesmo se assemelhar ao estado de morte. Quando consideramos que a simples ideia de algo tão rotineiro quanto ser obrigado a ficar sentado imóvel na cadeira do dentista pode nos fazer retrair, começamos a entender o desafio de entrar voluntariamente na imobilidade. Podemos antever a dor de ser aprisionado sem possibilidade de fuga. Para pessoas ansiosas e traumatizadas, ter de ficar deitado, imóvel, durante uma ressonância magnética ou uma tomografia computadorizada pode ser aterrorizante. No caso das crianças, às vezes esses procedimentos são muitíssimo mais difíceis. Sentar-se quieto a uma mesa, impossibilitado de se mover por horas a fio, é um desafio para qualquer jovem. Para uma criança ansiosa ou sensível, pode ser insuportável, talvez até contribuindo para o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade. Isso pode ser particularmente verdadeiro para crianças que tiveram de passar por procedimentos imobilizadores, como quando é necessário utilizar gesso ou suportes metálicos para correção ortopédica dos quadris, pernas, tornozelos ou pés durante o estágio de desenvolvimento, fase em que as crianças em geral estão aprendendo a andar, correr e explorar o mundo.




Até mesmo adultos que meditam muitas vezes têm dificuldade de ficar imóveis. Aqueles poucos afortunados que conseguem entrar em uma cama quentinha, ficar deitados totalmente imóveis e logo entrar em um sono restaurador receberam uma bênção preciosa. Entretanto, para muitas pessoas (talvez a maioria), em geral a hora de dormir é repleta de ansiedade. Ela mesma pode se tornar um pesadelo. Sentindo-se frustrado, você tenta permanecer deitado, imóvel, enquanto conta carneirinhos. Sua mente fica rodando, você se sente incapaz de se deixar levar e se entregar aos braços de Morfeu. E, quando algumas pessoas acordam durante (ou logo após) o sono REM, seu corpo ainda está literalmente paralisado pelos mecanismos neurológicos destinados a inibir a fuga ou luta (ou mesmo a movimentação ativa) durante um sonho como forma de autoproteção e para impedir que machuquem outra pessoa. Acordar dessa paralisia do sononatural pode ser aterrorizante, principalmente quando as pessoas têm a sensação de estar separadas do próprio corpo, característica frequente da imobilidade. Para outras pessoas, a paralisia induzida pelo sono REM é uma experiência fora do corpo curiosa, agradável e até mesmo mística. Para aqueles que acham essa separação do corpo aterrorizante, as reações de pânico são típicas. No caso das vítimas de trauma, a imobilidade potencializada pelo medo é sua dolorosa companheira, dia e noite.

Embora seja compreensível que alguém queira evitar a imobilidade, isso tem um preço. O cérebro registra como perigosa qualquer experiência que se rejeita, ou, de forma coloquial, aquilo a que resistimos persiste. Assim, como já mencionei, a célebre frase que diz que o tempo cura todas as feridassimplesmente não se aplica ao trauma. Em curto prazo, a supressão de sensações de imobilidade parece (para nossa mente com tendência à negação) manter a paralisia e a impotência a distância. Contudo, com o tempo, torna-se evidente que essas manobras evasivas representam um fracasso total. Este varrer para baixo do tapetenão só prolonga o inevitável, mas também costuma tornar o encontro com a imobilidade, que cedo ou tarde ocorrerá, mais assustador. É como se a mente reconhecesse a extensão de nossa resistência e, em reação a isso, a interpretasse como mais um indício de perigo. Se, por outro lado, a pessoa utilizar a ajuda fundamental da titulação e da pendulação, poderá tocar cuidadosa e brevemente aquele vazio semelhante à morte sem desmoronar. Portanto, a resposta de imobilidade pode se mover adiante no tempo rumo à sua conclusão natural, à sua finalização no próprio ritmo.

Medo de sair da imobilidade: na natureza, quando um animal que está sendo caçado sucumbe à resposta de imobilidade, permanece estático por um tempo. Em seguida, com a mesma facilidade com que parou de se mover, se contorce, se reorienta e sai correndo. Mas, se o predador não saiu do lugar e viu a presa voltando à vida, a história terá um fim bem diferente. Quando a presa volta à vida e vê o predador ali, pronto para um segundo ataque (dessa vez letal), ela tem uma reação-padrão de fúria total e contra-ataca ou tenta escapar numa fuga desenfreada e sem direção certa. Nesse caso, a reação é impetuosa e inconsequente. Conforme mencionei no Capítulo 4, certa vez vi um rato revidar o ataque de um gato que estava batendo nele com as patas (fazendo que o rato saísse de seu estupor) e em seguida sair correndo, deixando o felino atordoado, como o Tom do desenho animado Tom & Jerry. Assim como o animal imobilizado desperta (na presença do predador), pronto para um violento contra-ataque, a pessoa traumatizada também passa abruptamente da paralisia e do desligamento à hiperagitação e à fúria. O medo dessa fúria e as sensações intensas associadas a ela impedem uma saída tolerável da imobilidade, a não ser que haja informação, preparação, titulação e orientação.

O medo da raiva é também o medo da violência – ambos em relação a outras pessoas e a si mesmo. A saída da imobilidade é inibida pelo seguinte impasse: para voltar à vida, a pessoa precisa vivenciar as sensações de raiva e de intensa energia. Entretanto, ao mesmo tempo, tais sensações evocam a possibilidade de perigo mortal. Essa possibilidade inibe um contato prolongado exatamente com as sensações que tornam mais leve a vivência da imobilidade, o que leva à sua resolução. Lembre-se do que escreveu Kahlbaum (no Capítulo 4) em 1874: "Na maioria dos casos, a catatonia é precedida de profunda tristeza e ansiedade, e, em geral, por estados e afetos depressivos direcionados ao próprio paciente". Como a raiva associada ao fim da imobilidade é intensa e potencialmente violenta, muitas vezes as pessoas traumatizadas, sem perceber, direcionam-na contra si próprias na forma de depressão, ódio de si mesmas e autoagressão.




A incapacidade de sair da resposta de imobilidade gera uma frustração insuportável, vergonha e um ódio corrosivo de si mesmo. O terapeuta deve se aproximar desse nó górdio com cuidado e desatá-lo mediante uma titulação calculada e cuidadosa, confiando na prática da pendulação e com o firme propósito de travar amizade com sensações agressivas. Assim, a pessoa é capaz de sair desse impasse de matar ou morrerque é sua forma de contra-atacar. À medida que começa a se abrir, aceitando aos poucos suas sensações intensas, ela aumenta sua capacidade de agressão saudável, prazer e bem-estar.

Assim, não é surpresa que pessoas traumatizadas se contraiam e se protejam da própria raiva feito animais socializados. Mas vamos analisar a consequência cumulativa de suprimir a raiva. Uma imensa quantidade de energia precisa ser despendida (em um sistema já desgastado) para manter a raiva e outras emoções primitivas a distância. Essa ação de direcionar para dentroa raiva de si mesmo, e a necessidade de se defender contra sua irrupção, levam a uma vergonha debilitante, bem como a uma inevitável exaustão. Essa involução acrescenta outra camada à complexidade e à aparente intransigência do estado traumático que nos envenena. Por essas razões, a titulação se torna uma medida ainda mais crucial para interromper esse ciclo de vergonhaque se autoperpetua.

Se a pessoa foi molestada ou sofreu outras formas de abuso, um substrato de autocensura já está instalado por baixo de um trauma posterior na vida adulta. Na verdade, tendo em vista que a imobilidade é vivenciada como uma resposta passiva, muitas vítimas de abuso e estupro sentem imensa vergonha por não terem conseguido lutar contra seu agressor. Essa percepção e o sentimento devastador de derrota podem ocorrer, não importando a realidade da situação: o tamanho relativo do agressor não tem nenhuma importância, nem o fato de que a imobilidade pode até mesmo ter protegido a vítima de outro ataque ou de uma possível morte. E eu nem mesmo incluí aqui a camada extra de confusão e vergonha que ocorre dentro da complexa dinâmica de segredo e traição de uma família incestuosa.

Quando pessoas traumatizadas começam a readquirir sua sensação de autonomia e poder, gradualmente chegam a um estado de perdão e aceitação de si mesmas. Elas entendem, cheias de compaixão, que tanto sua imobilidade quanto sua raiva são um imperativo instintivo, biologicamente estimulado, e não algo de que se envergonhar como se fosse um defeito de caráter. Elas reconhecem sua raiva indiferenciadamente como uma potência e um agente, uma força vital de autopreservação que deve ser aproveitada e usada em benefício próprio. Em virtude de sua profunda importância na resolução do trauma, vou me repetir: o medo que alimenta a imobilidade pode ser categorizado, de forma ampla, como dois medos separados: o de entrar na imobilidade, que é o medo da paralisia, do aprisionamento, do desamparo e da morte; e o de sair da imobilidade, da energia intensa das sensações de contra-ataque fundamentadas na raiva. Presa pelos dois lados (de entrada e saída), a imobilidade implacavelmente repele seu antídoto de tal modo que parece impossível rompê-la. No entanto, quando o terapeuta habilidoso ajuda o paciente a desacoplar o medo da imobilidade restaurando a finalização da imobilidade no seu próprio ritmo, a recompensa gratificante é a capacidade do paciente de se mover adiante no tempo. Essa experiência de ir adiantedissipa o medo, o aprisionamento e o desamparo, rompendo esse interminável ciclo de feedback de terror e paralisia.

À medida que o medo se desacopla das sensações de imobilidade, talvez você coce a cabeça e pergunte: para onde vai o medo? A resposta curta e desconcertante é que, quando titulado, o medosimplesmente não existe como uma entidade independente. O medo agudo propriamente dito que ocorreu na época do acontecimento traumático, é claro, não existe mais. O que acontece, no entanto, é que a pessoa provoca e perpetua um novo estado de medo (ela literalmente causa medo a si mesma), tornando-se o seu predador autoimposto ao se proteger das sensações residuais de imobilidade e fúria. Se a paralisia em si não precisa ser realmente aterrorizante, o que é assustador é nossa resistência em nos sentirmos paralisados ou furiosos. Como não sabemos que essa é uma situação temporária, e como nosso corpo não registra que agora estamos seguros, permanecemos presos ao passado em vez de viver o presente. A pendulação ajuda a dissolver essa resistência. Devemos prestar atenção às palavras da banda dos anos 1960 Dan Hicks and His Hot Licks: É de mim que tenho medo... não vou me aterrorizar.




Durante a terapia, um progresso gradual (titulado) da experiência de se mover adiantecontinua se desenvolvendo, até que o medo (agora recuando para um segundo plano) é encoberto por uma resposta de imobilidade vivenciada integralmente. Em geral, a pessoa percebe essa sensação física e reconhece-a com comentários simples, tais como: Sinto-me paralisado, como se eu não pudesse me mover, ou Parece que estou morto, ou até mesmo Engraçado – estou morto e isso não me assusta. Além disso, alguns podem até mesmo vivenciar estados de felicidade semelhantes àqueles descritos em estudos sobre experiências de quase-morte. Ao sair da imobilidade, as pessoas relatam que sentem vibrações de formigamento por todo o corpo, ou dizem sentir-se profundamente vivas e reais.

Quando a resposta inata de paralisia se resolve de forma natural, as sensações de energia purasão aceitas; a pessoa se abre para um canal de alívio existencial, gratidão transformadora e vitalidade. O poeta místico William Blake celebrou a relação intrínseca entre a energia e o corpo: O Corpo é a porção da Alma identificada pelas Sensações, a principal entrada da Alma neste momento. A energia é a única vida e ela vem do Corpo [...] e a energia é puro deleite.

Passo 7 – Resolver os estados de ativação promovendo a descarga da energia de sobrevivência mobilizada para preservar a vida

Quando as respostas passivas de alguém são substituídas por respostas ativas no momento de saída da imobilidade, um processo fisiológico específico ocorre: a pessoa sente ondas de tremor e estremecimento involuntários, seguidas de mudanças espontâneas na respiração – de uma respiração comprimida e superficial para outra, profunda e relaxada. Essas reações involuntárias servem, essencialmente, para descarregar a enorme energia que, embora mobilizada para preparar o organismo para lutar, fugir ou se autoproteger, não foi plenamente executada. (Veja no Capítulo 1 minha experiência dessas reações e, no Capítulo 2, as reações de Nancy quando descarregou a energia de ativação que havia sido represada em sintomas sempre crescentes desde a cirurgia de retirada de amígdalas a que fora submetida na infância.) Talvez a maneira mais fácil de visualizar a liberação de energia seja por meio de uma analogia da física. Imagine uma mola firmemente presa ao teto acima de você. Um peso é amarrado à ponta que está solta (veja a Figura 5.4). Você estende o braço e puxa o peso em sua direção, esticando a mola e criando nela uma energia potencial. Ao soltá-la, o peso oscila para cima e para baixo até que toda a energia da mola tenha sido descarregada. Dessa forma, a energia potencial contida na mola é transformada em energia cinética. A mola finalmente para quando toda a energia potencial acumulada que foi convertida em energia cinética for completamente descarregada.

Descarga de ativação traumática e restauração do equilíbrio

 

Figura 5.4  O ato de esticar a mola aumenta sua energia potencial. Ao soltar a mola, essa energia é transformada em energia cinética, na qual é descarregada, e o equilíbrio se restaura.




De forma semelhante, seus músculos são energizados (alongados) na preparação para a ação. Entretanto, quando essa mobilização não é executada (seja com luta ou fuga ou outra reação protetora qualquer, tal como retesamento, contorção, retração ou esquivamento), essa energia potencial fica armazenadaou arquivadacomo um procedimento inacabado dentro da memória implícita do sistema sensório-motor. Quando uma associação consciente ou inconsciente é ativada por um estímulo geral ou específico, todas as defesas químicas e hormonais originais reenergizam os músculos como se a ameaça original ainda estivesse lá. Mais tarde, essa energia poderá ser liberada na forma de tremor e vibração. Correndo o risco de uma simplificação exagerada, posso dizer que uma quantidade de energia (ativação) semelhante àquela mobilizada para a luta ou fuga tem de ser descarregada, por meio de uma ação efetiva e/o de tremores e estremecimento. Isso pode se dar de maneira drástica, como aconteceu com Nancy (Capítulo 2), ou de forma mais sutil. Podem ser expressos como fasciculações suaves e/ou mudanças na temperatura da pele. Junto com essas liberações autônomas do sistema nervoso, as respostas autoprotetoras e defensivas que ficaram incompletas no momento do incidente (e se encontram adormecidas como energia potencial) costumam ser liberadas por micromovimentos. Quase imperceptíveis, esses movimentos às vezes são chamados de pré-movimentos. Dessa forma, os Passos 4 a 7 se conectam.

Passo 8 – Restaurar a autorregulação e o equilíbrio dinâmico

Uma consequência direta da descarga da energia de sobrevivência mobilizada para a luta ou fuga é a restauração do equilíbrio e da estabilidade (como no exemplo da mola). O fisiologista francês do século XIX Claude Bernard, considerado o pai da fisiologia experimental, cunhou o termo homeostase para descrever "a constância do ambiente interno [milieu intérieur] como a condição para uma vida livre e independente". Mais de 150 anos depois, esse continua sendo o princípio subjacente e fundamental da manutenção da vida. Entretanto, visto que o equilíbrio não é um processo estático, usarei o termo equilíbrio dinâmico em vez de homeostase para descrever o que acontece quando o sistema nervoso hiperativa-se em resposta a uma ameaça e então é reinicializado, apenas para ser ativado e reinicializado novamente. Essa reinicialização contínua não só restaura o nível de ativação pré-ameaça, mas também promove o estado mutável de alerta relaxado. Ao longo do tempo, isso contribui para a construção de uma forte resiliência. Finalmente, a vivência interoceptiva de equilíbrio, sentida nas vísceras e no seu ambiente interno, é de salubre bem-estar: ou seja, a sensação profunda de que – seja o que for que você esteja sentindo em dado momento, por mais terrível que seja a situação ou desagradável a ativação – você tem uma base segura, um ponto de apoio dentro de seu organismo.

Passo 9 – Reorientar o ambiente para o aqui e agora

O trauma poderia ser chamado de distúrbio na capacidade de alguém de estar ancorado no presente e de saber se relacionar com outros seres humanos. Junto com a restauração do equilíbrio dinâmico, a capacidade de presença, de estar no aqui e agora, se torna uma realidade. Isso acontece em conjunto com o desejo e a capacidade de interação social incorporado.

A capacidade de interação social tem grandes consequências para a saúde e a felicidade. Quando crianças, somos estimulados a tomar parte do sistema nervoso social de nossos pais e a encontrar alegria e contentamento nessa participação. Além disso, a fascinação com o rosto de outra pessoa se estende para o ambiente e para o encantamento da novidade. As cores tornam-se vibrantes quando a pessoa percebe formas e texturas como se as estivesse vendo pela primeira vez – o próprio milagre da vida se revelando.

Além disso, o sistema de interação social é por natureza autocalmante, sendo, portanto, uma proteção inerente contra a possibilidade de que nosso organismo seja sequestradopelo sistema de ativação simpático e/ou congelado em uma submissão pelo sistema mais primitivo de desligamento de emergência. É provável que o ramo de interação social do sistema nervoso seja tanto cardioprotetor quanto imunoprotetor. Talvez seja por isso que as pessoas com fortes vínculos pessoais tenham uma vida mais longa e saudável. Elas também mantêm habilidades cognitivas mais aguçadas na terceira idade. De fato, um estudo que analisou os efeitos do jogo de bridge na redução dos sintomas de demência concluiu que a principal variável independente era a socialização (e não as habilidades lógicas per se). E, finalmente, estar envolvido no mundo social não é só estar engajado no aqui e agora, mas também ter um sentimento tanto de pertencimento quanto de segurança. Assim, em última análise, libertar os pacientes do isolamento repercussivo que o medo e a imobilidade criam tem o potencial de trazer não só a libertação dos sintomas debilitantes, mas também o de gerar energia para o estabelecimento de conexões e relacionamentos prazerosos.




 


 

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