4 IMOBILIZADO PELO MEDO: APRENDENDO COM OS ANIMAIS

 4 IMOBILIZADO PELO MEDO: APRENDENDO COM OS ANIMAIS

Ele é o único adversário real da vida,

só o medo pode derrotar a vida.

Yann Martel, A vida de Pi

A única coisa que devemos temer é o próprio medo.

Franklin Delano Roosevelt, discurso de posse,1933

Todos os animais mais desenvolvidos apresentam reações de medo. Ao entender a natureza biológica do medo, podemos compreender a verdadeira raiz mestra do trauma. Esse entendimento também esclarece nossa capacidade inata de nos recuperarmos dos estados contraídos de medo e pavor. Em muitos grupos de primatas, os ataques de predadores e coortes são imprevisíveis, frequentes e incansáveis



¹. Esses primatas veem membros de sua tribo ser despedaçados por hienas, panteras e outros felinos de grande porte. O pavor é companhia frequente desses animais; mas, em última instância, a sobrevivência requer que essas fortes reações emocionais sejam essencialmente transitórias.

Compartilhamos com nossos ancestrais imediatos, os macacos e os gorilas, uma hereditariedade de ansiedade de predação. Esse destino inspirou um autor a chamar a existência primata de "um único e contínuo pesadelo de ansiedade².

Povos pré-históricos devem ter passado horas a fio, dia após dia, amontoados em cavernas frias e escuras, certos de que poderiam ser capturados a qualquer momento e rasgados em pedaços. Embora a maioria de nós não more mais em cavernas, conservamos uma forte expectativa de que um perigo nos espreita, seja ele proveniente de outros indivíduos de nossa espécie ou de predadores.

Para evitar que uma nação assustada entrasse em pânico, Franklin D. Roosevelt descreveu a natureza destrutiva do medo como o pavor inominável, irracional e injustificado que paralisa os esforços necessários para que uma retirada se converta em avanço. Foi esse medo paralisante que ultrapassou sua utilidade de sobrevivência nos humanos. Esse medo intratável impede que a pessoa retorne ao equilíbrio e à vida normal. A habilidade de transitar sem dificuldade entre esses estados emocionais intensos é popularmente chamada de fluxo, de estar presenteou no momento atualem contraposição a estar preso na sua história passada. A maneira pela qual os mamíferos se recuperam de um medo extremo e de outros estados emocionais intensos, tais como raiva e perda, pode ser instrutiva para nossa recuperação de um trauma. Ela é também uma chave para nossa sanidade e nossa capacidade de viver de forma plena e espontânea.

A postura do perigo

Tão certo como ouvimos o sangue em nossos ouvidos,

os ecos de um milhão de guinchos noturnos

de macacos,

cuja última visão do mundo foram os olhos

de uma pantera,

deixaram seu rastro em nosso sistema nervoso.

Paul Shepherd, The others [Os outros]

No Serengueti³

Somos animais de bando e temos grande afinidade com outros mamíferos que vivem em grupo. Vivemos em grupos familiares e tribos, tornamo-nos membros de clubes, contamos com vizinhos e amigos, formamos partidos políticos e nos identificamos com a comunidade de nosso país (e mesmo de outros países). Reconhecer nossa condição de mamíferos nos dá importantes informações a respeito da natureza do trauma e da recuperação, e também sobre a forma como interagimos com nossos pacientes e outros humanos.

Uma manada de gazelas pasta tranquilamente à beira de um riacho vicejante. O estalo de um pequeno galho, o farfalhar de um arbusto, uma sombra fugidia ou algumas moléculas de determinado odor alertam um membro da manada. Ele detém seu movimento e se retesa em prontidão. Esse cessar abrupto de movimento torna menos provável que o animal seja detectado pelo predador. Também permite que a gazela faça uma pausa, o que lhe possibilita organizar uma rota de fuga ideal. Além disso, os outros animais da manada instantaneamente entram em sintonia com essa mudança de postura e também param de se mexer. Todos juntos fazem uma varredura (muito mais ouvidos, narizes e olhos) para melhor localizar e identificar a fonte de ameaça. Um esquadrão do exército fazendo uma patrulha em território inimigo apresentará semelhante reação a uma ameaça potencial.

Imagine-se passeando serenamente em um campo aberto. Uma sombra de repente se move e entra no campo de sua visão periférica. Como você reage? Instintivamente, seus movimentos cessam. Talvez você se abaixe um pouco, ficando com a postura curvada, e sua frequência cardíaca mude, pois o sistema nervoso autônomo foi acionado. Depois dessa reação momentânea de parada, seus olhos ficam bem abertos. De modo involuntário, sua cabeça se volta na direção da sombra (ou som) a fim de localizá-la e identificá-la. Os músculos do pescoço, das costas, das pernas e dos pés estão trabalhando juntos para virar seu corpo, que se estende e se alonga. Seus olhos se estreitam enquanto a pelve e a cabeça se movem horizontalmente para lhe dar uma visão panorâmica ideal do ambiente ao redor. Qual é seu estado interno? Que outros aspectos intangíveis seus você sente ou percebe em reação à visão da sombra que se move? A maioria das pessoas se sentirá alerta e envolvida, até mesmo curiosa. Talvez você sinta uma ponta de empolgação e expectativa ou, possivelmente, de perigo.




Os animais e os humanos também precisam saber se alguém de sua espécie tem intenções agressivas. Ignorar tais sinais pode muito bem nos colocar em perigo. Em sessões com centenas de vítimas de estupro, descobri que muitas delas conseguiam se lembrar da presença de sinais de perigo que tinham ignorado ou desconsiderado. Podiam se lembrar do homem que as encarava quando saíram de um restaurante ou da sombra fugidia que notaram ao passar por uma esquina.

Também trabalhei com diversos estupradores que descreveram de forma gráfica e precisa como sabiam (com base na postura e no modo de andar de uma mulher) quem estava com medo (ou escorada por falsa bravata) e assim seria uma presa fácil. A precisão e a exatidão das avaliações feitas por esses criminosos eram verdadeiramente perturbadoras. Embora sua capacidade de criar empatia e de ler emoções sutis fosse seriamente comprometida, a habilidade predatória de ler o medo e a vulnerabilidade era engenhosamente refinada. Eles faziam uso deliberado das habilidades inatas que tendemos a desconsiderar, o que nos coloca em risco.

A postura e os músculos faciais de uma pessoa sinalizam estados emocionais não só para os outros, mas também para ela mesma. Veremos nas sessões seguintes que, como criaturas sociais, é pela empatia que fazemos nossas comunicações mais profundas. Para tanto, temos de ser capazes de ressoaras sensações e emoções dos outros; em outras palavras, precisamos ser capazes de sentir as mesmas coisas que as pessoas ao nosso redor sentem. A maneira pela qual indicamos isso é principalmente não verbal, por meio da postura e das emoções expressivas.

A sintonia biológica ou postural também é a base para a ressonância terapêuticaque é fundamental para que se possa ajudar as pessoas a se

curar de traumas. Um terapeuta que não tenha consciência de como seu corpo responde (isto é, ressoa) ao medo, à raiva, ao desamparo e à vergonha em outra pessoa não será capaz de conduzir seus pacientes através do rastreamento de suas sensações e ajudá-los a navegar de forma segura pelas águas às vezes traiçoeiras (embora terapêuticas) das sensações traumáticas. Ao mesmo tempo, ao aprender a rastrear as próprias sensações, os terapeutas podem evitar absorver o medo, a raiva e o desamparo de seus pacientes. É importante entender que, quando os terapeutas consideram necessário se proteger das sensações e emoções de seus pacientes, impedem, de maneira inconsciente, que eles as vivenciem terapeuticamente. Ao nos distanciarmos de sua angústia, distanciamo-nos deles e dos medos contra os quais estão lutando. Assumir uma postura de autoproteção significa abandonar os pacientes antes da hora. Ao mesmo tempo, também aumentamos muito a probabilidade de que se exponham à traumatização secundária ou indireta e a um esgotamento. Os terapeutas precisam aprender, com seus encontros bem-sucedidos com os próprios traumas, a estar presentes com os pacientes. É por essa razão que a cura do trauma deve necessariamente envolver a consciência do corpo vivo, sensível, sabedor, tanto no paciente quanto no terapeuta. Talvez a prova mais contundente de empatia bem-sucedida, diz o analista Leston Havens, seja a ocorrência em nosso corpo de sensações que o paciente descreve como suas.

Pelos olhos de uma neurocientista

A capacidade de detectar perigo na postura de outra pessoa foi estudada pela neurocientista Beatrice Gelder. Sua pesquisa demonstrou que o cérebro de um observador reasponde à linguagem corporal de alguém numa postura que denota medo de forma mais intensa do que diante de expressão facial de medo. Como a Medusa Górgone, o olhar de medo pode paralisar ou evocar nossas reações que têm o medo como base. Entretanto, por mais fortes que sejam as expressões faciais para comunicar perigo, a postura tensa de alguém e seus movimentos furtivos nos deixam ainda mais desconfortáveis. Você também não se assustaria com o repentino recuo de uma pessoa que estivesse caminhando à sua frente uma fração de segundo antes de escutar o sibilar e o guizo de uma cobra? Esse tipo de comportamento de imitação ocorre em todo o mundo animal. Se, por exemplo, um pássaro de um bando que está no chão de repente levanta voo, todos os outros pássaros o seguirão imediatamente; eles não precisam saber por quê. O hipotético pássaro do contra que não acompanha o bando talvez não viva para passar seus genes adiante.




Associados, um rosto assustado, hipervigilância e uma postura contraída e tensa são bastante eloquentes. Eles nos induzem a preparar o corpo para a ação, a localizar a fonte de ameaça e então reagir imediatamente. Talvez uma pessoa tensase preparando para atacar por causa de um medo exacerbado seja vista como uma ameaça. Na vida cotidiana, a maioria de nós lida com pessoas cronicamente assustadas ou irritadas simplesmente evitando-as sempre que possível. Por outro lado, quando encontramos pessoas cuja postura expressa graça e aceitação, sua tranquilidade nos acalma. Assim, somos especialmente afetados pela serenidade, compaixão e profunda calma de indivíduos como Nelson Mandela, Thich Nhat Hanh, o Dalai-Lama ou uma mãe amorosa que amamenta o filho.

A pesquisa de Gelder mostra o poder de posturas de medo na ativação de regiões específicas do cérebro do observador – regiões que posturas de bem-estar e neutralidade deixam inativas. Além disso, essas áreas do cérebro, estimuladas pelo reconhecimento de posturas corporais de medo, são diferenciadas das regiões ligadas à leitura de rostos amedrontados. Os centros de reconhecimento postural incluem múltiplas regiões do cérebro, algumas que processam emoções e outras que, principalmente, nos preparam para a ação. De acordo com Gelder, pode-se quase dizer que, quando vemos um corpo amedrontado, reagimos com todo o nosso corpo. Essa observação corrobora o princípio darwiniano de que a habilidade humana de ler corpos rapidamente e reagir de forma inequívoca e instantânea é muito vantajosa. Ler o corpo dos outros nos predispõe a ações que aumentam nossas chances de sobrevivência. Para sermos eficientes e imediatos, essa ressonância postural contorna a mente consciente. A deliberação racional poderia comprometer a sobrevivência, confundindo-nos e retardando nossa reação. As reações de sobrevivência em circunstâncias ameaçadoras geralmente precisam ser rápidas e assertivas, e não ponderadas. De acordo com os pesquisadores Rizzolatti e Sinigaglia, "nossa percepção dos atos motores e das respostas emotivas [grifo meu] dos outros parece estar unida por um mecanismo de espelho que permite que o cérebro compreenda imediatamente o que estamos vendo, sentindo ou imaginando que as outras pessoas estejam fazendo, pois ativa as mesmas estruturas neurais [...] responsáveis por nossas ações e emoções".

Caso o cérebro neocortical (pensamento) criasse um entrave para os circuitos instintivos (baseados na ação), talvez travássemos um diálogo interno mais ou menos assim: A mandíbula e os ombros daquele cara que está se aproximando parecem tensos e demonstram raiva. Seus olhos parecem evasivos... mas a camisa – bom, a cor é realmente bonita e parece com aquela que comprei na C&A. Enquanto o centro de processamento de baixo para cimade sobrevivência está alertando seu corpo (Evite esse cara, ponto – sem discussão!), seu processamento de cima para baixo¹ serpenteia por uma análise muito mais lenta, baseada na linguagem.

Assim como as gazelas, os seres humanos têm uma profunda sintonia com o perigo e são preparados para agir de forma decisiva diante dele. A postura, os gestos e as expressões faciais das pessoas revelam a história não contada daquilo que aconteceu e não aconteceu quando foram ameaçadas e derrotadas. Posturas habituais nos contam que os caminhos precisam ser percorridos novamente e resolvidos. Para facilitar o processamento de baixo para cima, os terapeutas devem ter uma percepção precisa do imperativo instintivo que foi contrariado em seu paciente em um momento de medo avassalador. O corpo-mente traumatizado foi, em outras palavras, colocado em prontidão, mas falhou na orquestração plena de seu significativo curso de ação. Tal como no meu acidente (Capítulo 1), temos de ajudar os pacientes a descobrir em que local de seu corpo eles se prepararam para a ação e que ação foi bloqueada.

Outra pesquisa confirma a pertinência da leitura corporal instantânea. Um estudo recente realizado pelo exército americano aponta que a velocidade com que o cérebro lê emoções na linguagem corporal dos outros e interpreta sensações em nosso corpo é fundamental para que se evitem ameaças iminentes – como armadilhas camufladas que podem conter bombas¹¹. Nesse mesmo artigo, o neurologista António Damásio acrescenta que as emoções são programas de ação prática que trabalham para resolver um problema, muitas vezes antes de tomarmos consciência dele. Esses processos trabalham de forma contínua em pilotos, líderes de expedições, pais, em todos nós.




Abordagens terapêuticas que negligenciam o corpo, concentrando-se sobretudo nos pensamentos (processamento de cima para baixo), serão consequentemente limitadas. Proponho, em vez disso, que nos estágios iniciais do trabalho restaurador o processamento de baixo para cimaseja o procedimento operacional padrão. Em outras palavras, abordar primeiro a fala corporaldo paciente e depois, gradualmente, recrutar sua emoção, percepção e cognição não é apenas valioso, mas essencial. A cura pela falapara os sobreviventes de trauma deve dar lugar à voz sem palavras das expressões corporais – silenciosas, mas extraordinariamente intensas – que emergem para se pronunciarem benefício da sabedoria do self mais profundo.

Desafios da terapia

Os terapeutas que trabalham com pessoas traumatizadas em geral assimilame espelham as posturas dos pacientes e, consequentemente, suas emoções de medo, pavor, raiva, fúria e desamparo. A forma como respondemos a esses significantes será crucial para que possamos ajudar pessoas traumatizadas a lidar com essas difíceis sensações e emoções. Se recuarmos porque não conseguimos contê-las e aceitá-las, estaremos abandonando

nossos pacientes... Se nos sentirmos sobrecarregados, sufocados, estaremos ambos perdidos. Se incorporarmos uma pequena porção da equanimidade e composturade um Dalai-Lama, seremos capazes de compartilhar e ajudar a conter o pavor dos pacientes em um cobertor de compaixão.

Não devemos subestimar o poder das reações de medo e a rapidez com que podem se tornar impróprias. No caso de um incêndio, por exemplo, as pessoas tenderão a assumir a postura corporal tensa e amedrontada daqueles que estão a seu lado. Elas estão prontas para entrar em ação e sair correndo da sala de cinema. Entretanto, esse comportamento também pode ser o estopim de um pânico contagiante. Ao mesmo tempo que cada pessoa espelha a postura de medo dos que estão ao seu redor, cada um percebe o medo e transmite essa postura de temor para outros membros do grupo. A transmissão de medo pela ressonância postural cria uma escalada da situação, um ciclo de feedback positivo (com consequências negativas). O contágio do pânico pode se espalhar para o grupo todo de forma quase instantânea. Roosevelt nos alertou de maneira presciente para que evitássemos esse tipo de contágio. Se o momento se apresentar, podemo-nos perguntar, em benefício próprio, se há realmente algo ameaçador. No exemplo do incêndio no cinema, antes de correr, avalie a situação de forma isolada. Se você sentir cheiro de fumaça, não hesite; por outro lado, se você vir um grupo de adolescentes rindo, seu cérebro racional talvez lhe diga para conferir a situação um pouco melhor antes de correr a todo vapor para a saída. A avaliação racional pode temperar de forma eficiente o comando instintivo extremo quando a pessoa ao nosso lado (que estamos espelhando) está enganada ou tendo uma reação exagerada. Muitas vezes, entretanto, na terapia a tentativa de substituir o instinto pela razão se torna um sério fracasso, provavelmente um desastre.

Na situação terapêutica, o profissional tem de encontrar um equilíbrio entre espelhar a angústia do paciente a ponto de aprender a respeito das sensações dele, mas não em excesso, de forma que aumente o nível de medo do paciente – como se dá no contágio de pânico. Isso só acontecerá se o terapeuta conhecer bem os meandros de suas próprias sensações e emoções e se sentir relativamente confortável com elas. Só então poderemos verdadeiramente ajudar os pacientes a conter sensações e emoções perturbadoras de forma que possam aprender que, por pior que estejam se sentindo, isso não vai durar para sempre.

Paralisia de medo

No Serengueti, a reação de susto de um membro da manada dá o sinal para que as outras gazelas se preparem para o pior e examinem cuidadosa e vigilantemente o entorno a fim de localizar a fonte potencial de ameaça. Se, no entanto, elas não conseguem detectar o predador que as espreita, baixam a guarda de imediato e voltam inocentemente a se alimentar¹². Logo depois, outra gazela para o que está fazendo ao escutar o som de um pequeno galho que se quebra e, uma vez mais, a manada é alertada, seu sistema nervoso coletivoé ativado, sintonizando e preparando os animais para uma ação total. Todos se retesam em uníssono quando seus músculos se tensionam em preparação para um esforço máximo de fuga.

Aproveitando a ocasião, um guepardo que estava à espreita salta de trás de um denso arbusto. A manada toda dá um salto como um único organismo, voando como uma flecha na direção oposta do predador que se aproxima. Uma gazela jovem vacila por uma fração de segundo, depois recupera o equilíbrio. Na confusão, o guepardo dá o bote na direção de sua vítima. A caçada começa em uma velocidade de 105 quilômetros por hora! No momento de contato (ou pouco antes, quando percebe que o fim está próximo), a jovem gazela desfalece e cai no chão. O animal parado como uma pedra entrou em um estado alterado de consciência, comum a todos os mamíferos quando a morte parece iminente. A gazela não está fingindoestar morta e pode, na verdade, nem estar ferida



¹³. Ela está paralisada de medo.

Paralisia, uma raiz ancestral

A gente morre para poder viver.

Gambá pai falando com os filhos no

desenho animado Os sem-floresta

A primeira linha de defesa contra um predador, um agressor ou qualquer outra fonte de perigo é geralmente uma defesa ativa. Você se esquiva, se desvia e se retrai; você se retorce e levanta os braços para se proteger de um golpe mortal. E a mais conhecida, você foge dos predadores potenciais ou luta contra eles quando percebe que é mais forte que seu adversário, ou se ele o encurralou. Além das muito conhecidas reações de luta ou fuga, há uma terceira reação, menos conhecida, à ameaça: imobilização. Os etologistas chamam esse estado "default" de paralisia de imobilidade tônica (IT). Ela é uma das três principais reações instintivas de que podem dispor répteis e mamíferos quando confrontados com a ameaça que um predador representa. Isso ocorre quando reações ativas (como lutar) provavelmente não serão eficientes para fugir ou eliminar a fonte de ameaça. A familiaridade das outras duas, luta ou fuga, deve-se em grande parte à influência global e massiva do célebre trabalho sobre o sistema nervoso simpático-adrenal realizado por Walter B. Cannon nos anos 1920¹. Muito menos valorizadas, no entanto, são as profundas implicações da resposta humana de imobilidade na formação e no tratamento do trauma¹. Considerando os mais de 75 anos de pesquisa nos campos da etologia e da psicologia desde a descoberta de Cannon, as reações de luta ou fuga poderiam ser resumidas da seguinte forma: parada (maior vigilância, exame minucioso), fuga (primeiro, tentar fugir), luta (se o animal ou a pessoa são impedidos de fugir), congelamento (pavor – paralisia de medo) e desmoronamento (colapso em desamparo). Em suma: o trauma ocorre quando estamos muito amedrontados e somos fisicamente contidos ou nos sentimos aprisionados. Nós congelamos, paralisados, e/ou entramos em colapso em um desamparo avassalador. Nota: Embora alguns autores recentes em geral se refiram à reação inicial de parada como congelamento, evitarei uma possível confusão utilizando o termo congelamento apenas para descrever os comportamentos que envolvam a imobilidade tônica¹.

No congelamento, os músculos se enrijecem para se defender de um golpe mortal e você se sente paralisado de medo. Por outro lado, quando você vivencia a morte como algo de clara iminência (como quando caninos afiados estão prontos para aniquilá-lo), seus músculos falham como se tivessem perdido toda a energia. Nessa reação "default" (quando se torna crônica, como acontece no trauma), você se sente em um estado de resignação irremediável e não dispõe da energia necessária para nutrir a vida e seguir adiante. Esse desmoronamento, derrota e perda da vontade de viver estão no âmago do trauma.

Ficar paralisado de medoou congelado no medo– ou esmorecer e ficar entorpecido – descreve de forma precisa a vivência física, visceral e corporal de medo intenso e trauma. Visto que o corpo encena todas essas opções de sobrevivência, é para a narração do corpo que os terapeutas devem se voltar a fim de entender essas reações e mobilizá-las na transformação do trauma.

Pode ser útil para os terapeutas (e seus pacientes) saber que a imobilidade parece servir a pelo menos quatro importantes funções de sobrevivência nos mamíferos. Em primeiro lugar, é a derradeira estratégia de sobrevivência, coloquialmente conhecida como se fingir de morto. Entretanto, não se trata de um fingimento, mas sim de uma tática biológica inata seriíssima. Para um animal lento e pequeno, a fuga ou a luta dificilmente serão bem-sucedidas. Ao resistir passivamente, na nobre tradição de Gandhi, a inércia do animal costuma inibir a agressão do predador e reduzir seu impulso de matar e comer. Além disso, um animal imóvel em geral é abandonado (especialmente se ele também exala um odor pútrido de carne em decomposição, como é o caso da gambá) e não é comido por predadores tais como o coiote – a não ser, é claro, que esse animal esteja muito faminto¹. Com essa simulação de morte, o animal talvez viva e consiga escapar, arrastando-se até o dia seguinte. De forma semelhante, o guepardo




pode levar sua presa imóvel para um local seguro, distante de rivais potenciais, e voltar para a toca a fim de buscar seus filhotes (para compartilhar com eles a caça). Enquanto está ausente, a gazela pode acordar de sua paralisia e, em um momento de descuido do guepardo, fugir apressadamente. Em segundo lugar, a imobilidade nos dá certo grau de invisibilidade: é muito menos provável que um corpo inerte seja visto por um predador. Terceiro, a imobilidade pode contribuir para a sobrevivência do grupo: quando caçados por um bando de predadores, o colapso de um indivíduo pode distrair o bando tempo suficiente para que o resto da manada escape.

Por fim, mas não menos importante, há uma quarta função biológica da imobilidade: o fato de ela deflagrar um estado profundamente alterado de torpor. Nesse estado, a dor extrema e o pavor são atenuados – assim, se o animal sobreviver ao ataque, ele estará, embora ferido, menos tomado por uma dor intensa e, assim, possivelmente será capaz de escapar caso haja oportunidade. Esse efeito analgésico humanodecorre de uma inundação de endorfinas, que compõem o sistema de alívio da dor produzido pelo próprio corpo e semelhante à morfina¹. Para a gazela, isso significa que ela não terá de sofrer toda a agonia de ser rasgada em pedaços pelos dentes afiados e pelas garras do guepardo. Provavelmente, isso também acontece com as vítimas de estupro ou de acidentes¹. Nesse estado de analgesia, a vítima pode testemunhar o acontecimento como se estivesse fora do corpo, como se estivesse acontecendo com outra pessoa (como pude observar no meu acidente). Tal distanciamento, chamado de dissociação, ajuda a tornar suportável aquilo que é insuportável.

O explorador africano David Livingstone registrou detalhadamente essa experiência em seu encontro com um leão nas planícies da África:

Ouvi um grito. Assustado, ao olhar em volta, vi o leão exatamente no ato de saltar sobre mim. Eu estava em cima de uma coisa não muito alta; ele pegou meu ombro quando saltou, e nós dois juntos caímos no chão. Rugindo assustadoramente perto do meu ouvido, ele me sacudiu da mesma forma que um terrier sacode um rato. O choque produziu um estupor semelhante àquele que parece que o rato sente depois da primeira sacudida do gato. Isso causou um tipo de devaneio no qual não havia nenhuma sensação de dor nem sentimento de pavor, embora eu estivesse inteiramente consciente de tudo que estava acontecendo. Era parecido com o que pacientes que estão parcialmente sob influência de clorofórmio descrevem, que veem toda a operação, mas não sentem a faca. Essa condição singular não era resultado de nenhum processo mental. A sacudida aniquilou o medo e fez que não existisse nenhuma sensação de pavor ao olhar para a fera. Esse estado peculiar é provavelmente produzido em todos os animais que são mortos por carnívoros; e, se isso for verdade, é uma providência misericordiosa de nosso benevolente criador para atenuar a dor da morte [grifos meus].²

Enquanto Livingstone atribui essa dádiva a seu benevolente criador, não é necessário invocar um "design inteligente" para valorizar a função biologicamente adaptativa de diminuir as arestas afiadas de dor aguda, terror e pânico. Se conseguirmos nos manter plenamente focados e perceber as coisas em câmera lenta, é mais provável que sejamos capazes de tirar vantagem de uma oportunidade potencial de fuga ou pensar em uma estratégia engenhosa para escapar do predador. Por exemplo, um amigo me contou que certa vez estava retirando dinheiro de um caixa eletrônico para uma viagem internacional. Quando se virou para ir embora, um grupo de bandidos o agarrou e encostou uma faca em seu pescoço. Como em um sonho, ele serenamente disse que aquele era o dia de sorte deles, e que ele havia acabado de sacar muito dinheiro para uma viagem que faria em breve. Os assaltantes, atônitos, calmamente pegaram o dinheiro e sumiram na escuridão. Estou certo de que algum grau de dissociação ajudou meu amigo a sobreviver a essa difícil situação sem que ficasse tão aterrorizado a ponto de ser incapaz de lidar com ela de forma estratégica.

De fato, o valor adaptativo e benevolente da dissociação é ilustrado por outra história fascinante, desta vez do aventureiro Redside, das selvas do subcontinente indiano:

[Ele] havia tropeçado quando atravessava um riacho de águas rápidas, deixando cair seu pente de balas dentro da água... agora sem munição, notou uma enorme tigresa à sua espreita. Pálido e suando de medo, começou a recuar... Mas já era tarde demais. A tigresa atacou, agarrou-o pelo ombro e o arrastou por cerca de 400 metros até o local onde seus filhotes brincavam. Como se lembrou depois, Redside ficou surpreso ao notar que seu medo desapareceu assim que a tigresa o capturou e quase não sentiu nenhuma dor ao ser arrastado e intermitentemente espancado enquanto a tigresa brincou de gato e ratocom ele por cerca de uma hora. Ele se lembra distintamente do sol, das árvores e do olhar da tigresa, assim como do intenso esforço mentale suspense sempre que conseguia se afastar rastejando, apenas para ser pego e arrastado de volta todas as vezes, enquanto os filhotes observavam e tentavam alegremente imitar a mamãe. Ele disse que, embora tivesse plena consciência do extremo perigo que corria, sua mente de alguma forma permaneceu comparativamente calmae sem pavor. Ele até mesmo contou às pessoas que o salvaram, que atiraram na tigresa no último instante, que ele considerava sua provação menos assustadora do que meia hora na cadeira do dentista.



²¹

Embora Livingstone e Redside parecessem ter saído surpreendentemente incólumes dos encontros desagradáveis com felinos predadores, Livingstone, contudo, desenvolveu uma reação inflamatória no ombro que se manifestou até o fim de sua vida, sempre na data de aniversário do ataque. Infelizmente, para muitas pessoas traumatizadas, tais reações dissociativas ou memórias corporaisnão são irrelevantes e transitórias, mas levam a uma ampla variedade de sintomas permanentes chamados de psicossomáticos (físicos) – que podem ser convenientemente chamados de dissociação psicossomática²² –, assim como a uma incapacidade de se concentrar, orientar e agir no tempo presente – no aqui e agora. Embora os seres humanos traumatizados não permaneçam, de fato, fisicamente paralisados, eles se perdem em um tipo de nevoeiro de ansiedade, desligamento parcial crônico, dissociação, depressão prolongada e torpor. Muitos são capazes de ganhar a vida e/ou formar uma família em um tipo de congelamento funcionalque limita gravemente seu prazer de viver. Eles carregam seu fardo com a energia diminuída em uma árdua luta para sobreviver, apesar dos sintomas. Além disso, nós, seres humanos, que nos apegamos a símbolos e imagens, podemos continuar a nos ver (mentalmente) à porta da morte muito tempo depois de o perigo real haver passado. Uma visão do assaltante ou estuprador com uma faca em seu pescoço pode se reciclar sem cessar, como se ainda estivesse acontecendo.

Como a biologia se torna patologia

Embora os estados de imobilização e dissociação (como os descritos por Livingstone e Redside) sejam drásticos, eles não necessariamente levam a um trauma. Ainda que não tenha desenvolvido nenhum medo limitante, Livingstone apresentou uma reação localizada no ombro afetado a cada aniversário do ataque que sofreu. No caso de meu acidente, percebo que agora tenho um pouco mais de cuidado ao atravessar a rua – principalmente no Brasil, onde frequentemente dou aulas e onde veículos em movimento podem ser um desafio considerável para os pedestres. Por outro lado, não apresento nenhum tipo de reação de medo ou de ansiedade no que diz respeito ao trânsito. Talvez meu amigo que foi assaltado também seja agora um pouco mais cuidadoso com relação a ir a caixas eletrônicos à noite. Mas nem ele, Livingstone, Redside ou eu ficamos traumatizados, embora tenhamos, sem dúvida alguma, vivenciado a parada, o terror, a imobilização e a dissociação. Falando por mim, sinto (e meus amigos confirmam) que eu na verdade me fortaleci e me tornei mais resiliente depois de haver percorrido com êxito meu acidente e tudo que se seguiu. Meus amigos notaram que eu parecia mais ancorado, focado e alegre.

Isso me leva à questão central: o que determina se uma exposição extrema a um acontecimento (potencialmente) traumatizante terá efeito

debilitante de longa duração como no transtorno de estresse pós-traumático? E de que forma compreender a dinâmica da resposta de imobilidade estabelece soluções para essa questão crucial?

Deixe-me reiterar. Em geral, um animal na natureza, se não for morto, se recupera de sua imobilidade e vive para ver um novo dia. Ele fica mais prudente, mas não enfraquecido ou desgastado. Por exemplo, um cervo aprende a evitar determinado local onde já foi atacado por um leão da montanha. Embora minha hipótese se baseie em observações de campo não comprovadas empiricamente, as entrevistas que fiz com especialistas em gestão cinegética do mundo todo a corroboram. Além disso, é difícil imaginar de que forma um animal selvagem (ou toda a sua espécie, na verdade) teria sobrevivido se desenvolvesse rotineiramente os sintomas debilitantes que muitos humanos desenvolvem²³. Essa imunidadenatural claramente não é o caso no que diz respeito a nós, humanos modernos... mas por que e o que podemos fazer com relação a isso?

Imobilidade de longa duração

Quando estava terminando minha tese de doutorado em Berkeley em 1977, continuei fazendo visitas diárias às estantes bolorentas da biblioteca da graduação, onde deparei com a chave decisiva para meu entendimento do trauma. Esse artigo, escrito por Gordon Gallup e Jack D. Maser, deu forma à questão central de como a resposta de imobilidade, normalmente de duração limitada, se torna duradoura e às vezes eterna². Por seu trabalho, eu gostaria de fazer uma indicação pessoal para que ganhassem retroativamente o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1973 – junto com os três etologistas já mencionados.

Em um experimento cuidadosamente planejado e controlado, os autores demonstraram que, se um animal sentir medo e for contido, o período durante o qual ficará imóvel (depois que não estiver mais sendo contido) aumenta de forma drástica. Há uma correlação quase perfeitamente linear entre o nível de medo que o animal vivencia quando está sendo contido e a duração da imobilidade



². Quando o animal não é exposto a uma situação assustadora antes de ser contido, a imobilidade em geral dura de alguns segundos a cerca de um minuto². Em um contraste radical, quando é repetidamente assustado e contido, o animal pode permanecer imóvel por até 17 horas!

Por minha experiência clínica e meu entendimento, uma potencialização tão grande tem implicações clínicas profundas para a compreensão e o tratamento do trauma humano. Discutirei de que forma a potencializaçãoou intensificação da imobilidade causada pelo medo pode levar a um ciclo de feedback que se autoperpetua causando uma quase paralisia permanente na pessoa traumatizada. Essa condição, acredito, sustenta diversos dos sintomas mais debilitantes do trauma, em especial entorpecimento, desligamento, dissociação, sentimentos de aprisionamento e desamparo.

Alguns anos atrás, no Brasil, tive a oportunidade de observar a interação entre medo e imobilidade dentro de um ambiente de laboratório, e assim obtive uma verificação direta do trabalho seminal de Gallup e Maser sobre imobilidade tônica. Embora haja pouquíssimos pesquisadores nesse campo tão importante, conheci uma ativamente envolvida em pesquisa animal experimental sobre imobilidade tônica no laboratório de Leda Menescal de Oliveira, na Escola de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Seu trabalho se concentrava nos caminhos cerebrais ativados na imobilidade tônica².

Leda e seu grupo foram extraordinariamente generosos em compartilhar seu tempo e expertise. Durante minha visita, pude observar e participar diretamente da metodologia experimental de pesquisadores cujo trabalho havia me inspirado nos anos 1970. Essas experiências realizadas em uma sala fracamente iluminada consistiam em pegar uma cobaia, segurá-la com firmeza, virá-la de cabeça para baixo e então colocá-la deitada de costas em uma gamela de madeira em formato de V. Quando isso é feito sem luta, o animal fica deitado sem se mover por alguns segundos, podendo chegar a um ou dois minutos; depois se vira e calmamente sai andando, pondo fim à imobilidade em seu próprio ritmo. As cobaias de laboratório talvez tenham algum medo inerente dos seres humanos (uma possível variável que pode confundir). Mesmo assim, esses animais ainda parecem sair relativamente rápido de sua imobilidade, e os efeitos posteriores não eram aparentes, presumindo-se assim inexistentes ou muito brandos.

Um exemplo claro de finalização em ritmo próprio vem das artes. Na peça Picasso no Lapin Agile², o jovem Pablo tira o casaco da bela jovem que o acompanha a esse cabaré de Paris. Executando elegantemente suas artimanhas de sedução, ele põe a mão para fora da janela onde uma pomba branca está pousada. Devagar, mas sem hesitação, ele pega o pássaro firmemente com as duas mãos. Quando ele o vira, o pássaro fica completamente imóvel. Ele então o deixa cair em direção à rua, três andares abaixo. A jovem se assusta e leva a mão à boca de forma instintiva. No último instante, a pomba reassume a posição correta e sai voando, ilesa, pela noite de Montmartre. Picasso então se volta para sua voluptuosa presa humana, trazendo seu corpo imóvel para um abraço lascivo.

Essa é uma amostra instrutiva de como os animais negociam a imobilidade e como o ato sexual consensual e a liberação orgástica envolvem alguma imobilidade quando o medo não está presente. A imobilidade, quando inexiste o medo, é benigna e até mesmo prazerosa, como no exemplo da mãe gata carregando, de forma segura, seu filhote lânguido na boca.

De volta ao laboratório: a finalização em ritmo próprio claramente não ocorre quando se incute, propositalmente, medo no animal antes de capturá-lo (ou quando ele sai da imobilidade) e/ou ele é colocado deitado de costas de forma recorrente. No último caso, a cobaia (ou outro animal) permanece paralisada por muito mais do que alguns minutos. Quando esse processo de indução de medo é repetido inúmeras vezes, o animal permanece imóvel por um período bem mais longo – a ponto de sairmos para almoçar e voltarmos e o animal ainda estar inerte deitado de costas.

Aplicações para a terapia do trauma

Apenas uma pequena quantidade de cientistas comportamentais se interessou de fato pela mobilidade tônica como base biológica do trauma. Alguns desses autores recentes sugeriram que a imobilidade é intrinsecamente traumática². Com base em minha experiência posso afirmar que essa visão induz a erros. Ela limita nossa compreensão do trauma e restringe a possibilidade de uma intervenção terapêutica eficaz. Meu trabalho clínico com milhares de pacientes confirmou que a imobilidade pode existir com ou sem medo. Na verdade, acredito que somente quando a imobilidade se torna inextricável e simultaneamente acoplada a um medo intenso e outras fortes emoções negativas temos o ciclo de feedback de trauma arraigado na forma de transtorno de estresse pré-traumático persistente. Minha experiência, que teve início com Nancy (veja o Capítulo 2) e depois ao trabalhar com tantos outros pacientes traumatizados, me ensinou que a verdadeira chave para a resolução do trauma é a capacidade de desacoplar e separar o medo da imobilidade. Entretanto, antes de voltar aos animais, devo considerar os estudos de dois indivíduos bastante observadores: o neurologista K. L. Kahlbaum e o detetive ficcional Sherlock Holmes.



Como um dos pioneiros a estudar cientificamente a imobilidade tônica nos humanos (que chamou de catatonia), Kahlbaum acertou quando, em 1874, escreveu: Na maioria dos casos, a catatonia é precedida de profunda tristeza e ansiedade, e, em geral, por estados e afetos depressivos direcionados ao próprio paciente³. Ele está dizendo, acredito, que tanto a imobilidade quanto uma exposição significativa ao medo ou à tristeza profunda precisam ocorrer para que (os estados transitórios de) a imobilidade tônica se converta em paralisia/ciclo de feedback depressivo autoinduzido – ou seja, em um estado de catatonia crônica ou (discutivelmente) transtorno de estresse pré-traumático.

Sherlock Holmes, o verdadeiro paradigma de um observador cuidadoso e preciso, parece confirmar a opinião de Kahlbaum na história do sr. Hall Pycroft. Holmes diz a Watson:

Eu nunca havia visto um rosto com tantas marcas de profunda tristeza... e de algo que vai além da tristeza... pavor, como acontece com poucos homens na vida toda. Sua sobrancelha reluzia de suor. As maçãs de seu rosto eram do mesmo branco pálido desbotado da barriga de um peixe e seu olhar era desvairado e ele olhava fixamente... Ele olhava para seu ajudante como se não conseguisse reconhecê-lo.³¹

Essa combinação de agitação desvairada, rosto extremamente pálido e dissociação de quem está fora de si (olhar fixamente com os olhos arregalados como se não reconhecesse alguém) descreve de forma precisa a paralisia de medo aguda dos seres humanos. Embora as pessoas traumatizadas talvez não apresentem todas essas características o tempo todo, são elas que dão forma à subcorrente de choque traumático do TEPT.

Os poucos psicólogos que escrevem sobre a imobilidade tônica (IT) como modelo para o trauma parecem concordar que tanto o medo quanto a contenção física (ou, pelo menos, a sensação de que não é possível escapar) são necessários para induzi-la. Concordo plenamente com isso. Entretanto, em um excelente artigo recente, Marx e colegas³² acrescentam: Tudo que conhecemos sobre a literatura animal e humana até agora indica que a reação de IT pode, ela mesma, ser traumatizante³³. É disso que respeitosamente discordo: minha experiência clínica me obriga a me afastar dessa especulação.

Depois de mais de quatro décadas observando meus pacientes traumatizados com um discernimento à la Sherlock e conduzindo-os para fora de estados congelados de medo e pavor, descobri que os elementos dinâmicos do medo, da imobilidade tônica e do trauma pintam um retrato muito mais complexo e mais cheio de nuanças. Estou convencido de que o estado de imobilidade não é em si e por si mesmo traumático. Quando, por exemplo, a imobilidade é induzida em indivíduos não traumatizados por catalepsia hipnótica, eles em geral vivenciam a imobilidade como algo neutro, interessante ou até mesmo prazeroso. As mães mamíferas costumam pegar os filhotes para transportá-los de um lado para o outro, e esses bebês, quando estão sob o poder dos dentes de uma mãe amorosa, param de se contorcer e seu corpo fica flácido. Igualmente, durante o ato sexual, e em particular no orgasmo, a fêmea de muitas espécies animais fica imóvel no auge do prazer, o que leva (discutivelmente) a um aumento da possibilidade de fertilização. Contraste isso com o trauma, no qual um medo intenso (e outros fortes afetos negativos), quando associado à resposta de imobilidade, se torna aprisionador e consequentemente traumático. Essa diferença indica uma clara fundamentação lógica para um modelo de terapia do trauma que separa o medo e outros fortes afetos negativos da resposta biológica de imobilidade (normalmente de duração limitada). A separação dos dois componentes quebra o ciclo de feedback que realimenta a resposta de trauma. Isso, estou convencido, é a pedra filosofal que dá forma à terapia do trauma.

Marx e seus colegas de fato parecem retificar sua posição em uma direção mais compatível com a minha quando sugerem que, com finalidade clínica, talvez importe menos se a IT nos humanos é um fenômeno ‘tudo ou nada’, já que a intensidade da reação de IT nos humanos pode ser um importante fator na instauração e na manutenção da psicopatologia pós-traumática³. Questões como essa exemplificam áreas importantes para uma discussão interdisciplinar. Na verdade, um dos impedimentos do progresso de uma terapia do trauma verdadeiramente eficaz é o fato de que médicos, experimentalistas e teóricos não trabalham em parceria para tratar de questões tão cruciais quanto essa.




Em resumo: observei que uma precondição para o desenvolvimento de transtorno de estresse pós-traumático é que a pessoa esteja com medo e, ao mesmo tempo, se sinta aprisionada. A interação de medo intenso com imobilidade é fundamental na formação do trauma, em sua manutenção e em sua desconstrução, resolução e transformação. Vou aprofundar as implicações terapêuticas dessa relação nos Capítulos 5 a 9.

A espiral de vergonha, culpa e imobilidade

Não deve ser nenhuma surpresa, dada a natureza da imobilidade induzida pelo medo, a maioria das vítimas de estupro descrever que se sentiu paralisada (e também sufocada às vezes) e incapaz de se mover. Ser contido fisicamente e aterrorizado por alguém muito maior, mais forte e mais pesado é uma garantia potencial de indução à imobilidade duradoura e, consequentemente, ao trauma. O estupro não só força a pessoa a se manter imóvel, mas também induz uma imobilidade interna por causa do terror (imobilidade potencializada pelo medo). De acordo com estudos, 88% das vítimas de violência sexual na infância e 75% das vítimas de violência sexual na idade adulta relataram níveis de paralisia, de moderado a alto, durante o ataque³. Além disso, por causa dos altos níveis de dissociação, é provável que muitas vítimas não se lembrem de ter se sentido paralisadas ou neguem a paralisia por se sentirem extremamente culpadas de não ter lutado.

De forma semelhante, os soldados sob fogo cerrado raramente conseguem fugir ou lutar. Eles costumam manter-se imóveis perto do chão (resistindo aos impulsos tanto de luta ativa quanto de fuga), enquanto calmamentetentam estabilizar, apontar e disparar suas armas. Entrevistei um soldado que havia sido ameaçado de ser levado à corte marcial por covardia sob fogo. Ele era tradutor e havia sido integrado a uma equipe de ataque das forças especiais no Iraque – embora o húngaro e o servo-croata fossem as únicas línguas estrangeiras que conhecia; ele não sabia farsi nem nenhuma língua árabe! Ele não havia sido treinado para combate e, quando esse habilidoso pelotão da marinha caiu em uma emboscada, ele não revidou atirando. Ao entrevistar esse soldado desesperado, arrasado, humilhado e aterrorizado, percebi que sua recusaem atirar era, na verdade, paralisia involuntária – uma reação normal à situação bastante anormal de ver sangue, morte e desmembramento de seus companheiros. Ao contrário dos oficiais da marinha, ele não havia recebido nenhum treinamento para dominar o medo³. Sua reação instintiva à ameaça avassaladora impediu a ação³.

Essa história se dirige às culturas modernas que tendem a julgar a imobilização e a dissociação diante de ameaças avassaladoras como uma fraqueza equivalente à covardia. Por baixo desse julgamento punitivo existe um medo generalizado de se sentir aprisionado e desamparado. Esse medo do medo e do desamparo, e de se sentir aprisionado, pode vir a dominar a vida da pessoa na forma de vergonha recorrente e debilitante. Juntos, a vergonha e o trauma formam uma combinação particularmente virulenta e interligada.

Culpa e ódio de si mesmo são comuns entre sobreviventes de abuso e estupro, que julgam a si mesmos de forma dura por não terem entrado na briga, mesmo quando ela não era uma opção viável de sobrevivência. Contudo, tanto a vivência de paralisia quanto o julgamento crítico de si mesmo a respeito de fraquezae desamparo são componentes comuns do trauma. Além disso, quanto mais jovem, quanto mais imatura em termos de desenvolvimento for a vítima ou mais insegura for a sua vinculação, mais provavelmente ela reagirá ao estresse, à ameaça ou ao perigo com paralisia em vez de luta ativa. As pessoas que não tiveram um vínculo inicial sólido com um primeiro cuidador, e por isso carecem de uma base de segurança, são muito mais vulneráveis à vitimização e traumatização, e é mais provável que desenvolvam os arraigados sintomas de vergonha, dissociação e depressão³. Além disso, como os padrões psicofisiológicos do trauma e da vergonha são semelhantes, há uma associação intrínseca de vergonha e trauma. Isso inclui colapso dos ombros, diminuição da frequência cardíaca, desvio do olhar, náusea etc.³

A vergonha também se alimenta da frequente e equivocada percepção das pessoas traumatizadas de que elas são, de algum modo, a causa (ou, pelo menos, merecedoras) de seu infortúnio. Outro fator (fortemente corrosivo) entra em jogo na formação da vergonha: embora ela pareça ser um componente quase estrutural do trauma, é muito comum que o trauma seja infligido pelas pessoas que deveriam proteger e amar a criança. As crianças que sofrem abuso de um membro da família ou de um amigo sem dúvida carregam mais esse fardo confuso e caótico. A vergonha se torna profundamente enraizada na forma de uma sensação difusa de ser uma pessoa máque permeia todos os aspectos da vida. Erosão semelhante do sentimento essencial de dignidade também pode ser encontrada em adultos que foram torturados, em quem foram deliberadamente infligidos dor, desorientação, terror e outras violações



⁴⁰. Embora os princípios de desacoplamento do medo e da imobilidade discutidos neste capítulo se apliquem a esses casos, o processo terapêutico é em geral muito mais complexo. Ele requer uma habilidade mais ampla de negociação da relação terapêutica de modo

que o terapeuta não seja enredado assumindo o papel (em uma projeção) de perpetrador(es) ou salvador.

Da mesma forma como entram eles saem: a conexão da fúria

Quando um pombo que está sossegado bicando um grão é abordado silenciosamente por trás, pego com suavidade e depois virado de cabeça para baixo, ele fica imobilizado. O pombo, como as cobaias que vi no Brasil ou a pomba de Picasso na peça, permanecerá nessa posição, com os pés esticados para cima. Depois de um ou dois minutos, ele sairá desse estado, que se assemelha a um transe, se colocará na posição certa e sairá pulando ou voando. O episódio está resolvido.

Entretanto, se o pombo se assustar com a pessoa que se aproxima, ele tentará escapar voando. Quando for pego, depois de uma perseguição frenética, e forçado a ficar de cabeça para baixo, novamente sucumbirá à imobilidade. Desta vez, porém, o animal aterrorizado não só permanecerá congelado por muito mais tempo, mas quando sair do transe provavelmente estará em um estado de agitação frenética. Ele poderá se debater furiosamente, bicando, mordendo ou arranhando com as garras de forma aleatória, ou então sair correndo em um frenesi de movimento sem direção certa¹. Quando tudo mais falhar, esse derradeiro (e desorganizado) meio de defesa ainda poderá salvar sua vida.

De forma semelhante, quando um gato doméstico bem alimentado pega um rato, este, contido pelas patas do gato, para de se mover e seu corpo fica flácido. Sem a resistência do rato, o gato fica entediado e às vezes bate de leve no animal inerte, aparentemente tentando reanimá-lo para recomeçar o jogo (não muito diferente de Jimmy Stewart dando tapinhas em sua heroína desfalecida para acordá-la do desmaio). A cada redespertar, perseguição e terror reativado, o rato entra mais profundamente na imobilidade e por um tempo maior. Quando ele enfim revive, em geral sai correndo tão rápido (e de forma tão imprevisível) que pode até assustar o gato. Essa explosão repentina e não direcionada de energia poderia também fazê-lo correr na direção do gato ou para longe dele. Já vi um rato atacar ferozmente o focinho de um gato atônito. Tal é a natureza da saída da imobilidade na qual a indução tenha sido recorrente e acompanhada de medo e fúria. Os humanos, além disso, se reaterrorizam por seu medo (equivocado) das próprias sensações e emoções intensas. Isso é semelhante ao que pode acontecer quando pacientes psiquiátricos catatônicos saem da imobilidade. É comum estarem extremamente agitados, e é possível que ataquem a equipe que os atende. Uma vez tive a oportunidade de trabalhar com um paciente que tinha permanecido em estado catatônico por dois ou três anos. Depois de me sentar cuidadosamente ao seu lado (aproximando-me pouco a pouco, durante vários dias), falei com ele de forma suave sobre o tremor e o estremecimento que eu havia observado em pessoas e animais quando saem de um choque. Eu também havia falado com o psiquiatra-chefe, que concordou em não lhe dar uma injeção de torazina (nem o colocar em uma camisa de força) caso ele ficasse agitado, a não ser que isso fosse um risco evidente para ele mesmo ou para outras pessoas. Duas semanas depois, recebi um telefonema do psiquiatra. O homem havia começado a estremecer e tremer, começou a chorar e foi enviado para uma moradia provisória seis meses depois.

Recapitulando, o medo tanto aumenta e prolonga a imobilidade quanto torna o processo de sair da imobilidade assustador e potencialmente violento. Uma pessoa que esteja muito amedrontada ao entrar no estado de imobilidade provavelmente sairá dele de maneira semelhante. Da mesma forma como entram eles saemera a expressão utilizada pelos médicos da Unidade Cirúrgica Militar Móvel do Exército Americano para descrever as reações dos pacientes feridos em combate. Se um soldado entra em cirurgia apavorado e precisa ser fisicamente contido, decerto sairá da anestesia em um estado de desorientação frenético e violento.

As consequências são lamentavelmente as mesmas quando crianças assustadas são abruptamente separadas dos pais antes de uma cirurgia². Se vão para a cirurgia em um estado de agitação, são amarradas e depois cercadas por monstros mascaradosde avental cirúrgico, elas saem da anestesia amedrontadas e bastante desorientadas. David Levy, em 1945, estudou crianças hospitalizadas, muitas das quais estavam sendo tratadas de ferimentos que exigiam imobilização, como talas, gesso e ataduras. Ele descobriu que essas crianças desafortunadas desenvolveram sintomas de shell shock semelhantes aos dos soldados que voltavam dos fronts de guerra na Europa e no norte da África



³. Cerca de 65 anos depois, um pai preocupado conta uma história familiar demaissobre a pequenacirurgia de joelho de seu filho Robbie, uma garantia potencial de trauma.

O médico me diz que está tudo bem. O joelho está bom, mas não está tudo bem para o menino que acorda de um pesadelo induzido por medicamentos, debatendo-se na cama do hospital – um menino doce que nunca machucou ninguém, na confusão mental causada pela anestesia, olhando fixamente feito um animal selvagem, batendo na enfermeira, gritando Eu estou vivo?e me forçando a agarrar seus braços... olhando diretamente dentro dos meus olhos sem saber quem eu sou.⁴⁴

Os efeitos da imobilização observados por Levy em crianças também ocorrem em adultos. Em um estudo recente, mais de 52% dos pacientes ortopédicos que estavam sendo tratados de fraturas desenvolveram transtorno de estresse pós-traumático total, com a maioria não se recuperando e piorando com o passar do tempo⁴⁵.

Esse resultado não deveria ser nenhuma surpresa quando se reconhece que muitos procedimentos ortopédicos são realizados depois de acidentes assustadores, viagens estressantes de ambulância feitas com a pessoa amarrada e visitas apavorantes e despersonalizadas realizadas na emergência. Além disso, muitos desses pacientes também foram submetidos a cirurgias imediatas e quase sempre em estado de agitação. Essa cadeia de acontecimentos muitas vezes precede a imobilização e é seguida de dolorosos regimes de reabilitação. Em um estudo recente com crianças submetidas até mesmo a pequenosprocedimentos ortopédicos, para citar os autores,

um alto nível de sintomas de transtorno de estresse pós-traumático (em mais de 33% de todas as crianças estudadas) é comum no período de recuperação que se segue a um trauma ortopédico pediátrico, mesmo entre pacientes com ferimentos relativamente menos graves. As crianças que deram entrada nos hospitais por causa de um ferimento apresentam um alto risco de desenvolver tais sintomas.⁴⁶

Embora os hospitais tenham se tornado mais humanos (em especial para as crianças – embora pelo estudo acima se note que não foi nem de longe suficiente), ainda não se consegue evitar que as pessoas que precisam ser submetidas a procedimentos dolorosos ou anestesia geral sintam um medo injustificado. Na verdade, algumas dessas pessoas despertamparcialmente durante a anestesia e muitas desenvolvem os mais pavorosos e complexos sintomas de TEPT⁴⁷. Nas palavras de uma sobrevivente (ela própria instrumentadora),

sinto um vazio cósmico, como se a minha alma tivesse abandonado o meu corpo e não conseguisse voltar... pesadelos horrorosos são minha companhia constante... e muitas vezes me chocam tanto que eu desperto totalmente. Quando meus olhos se abrem, ainda não há descanso porque as paredes e o teto ficam vermelhos como sangue.⁴⁸

Essa descrição arrebatadora ilustra o horror de vivenciar uma combinação de pavor, dor extrema e incapacidade de se mover ou de explicar sua situação.

Biologicamente, pacientes ortopédicos, soldados, vítimas de estupro e crianças hospitalizadas reagem como animais selvagens lutando pela vida depois de ser capturados de forma aterrorizante. Seu impulso de atacar com fúria exacerbadaou de fugir em um desespero frenético não é só biologicamente adequado; na verdade, é um efeito biológico comum. Quando um animal capturado e aterrorizado sai da imobilidade, sua sobrevivência

talvez dependa de uma agressão violenta direcionada ao predador ainda presente. Nos seres humanos, tal violência, entretanto, trouxe consequências trágicas para os indivíduos e para a sociedade. Tive a oportunidade de conversar com a mãe de Ted Kaczynski (o Unabomber, cuja vingança foi travada contra a impessoalidade da tecnologia) e com o pai de Jeffrey Dahmer (assassino serial que desmembrava suas vítimas). Ambos me contaram histórias terríveis de como seus filhos, ainda pequenos, haviam sido aniquiladospor experiências hospitalares apavorantes. Ambos descreveram como, depois de hospitalizações assustadoras, essas crianças mergulharam no próprio mundo. Enquanto tais experiências de fúria que levam à violência pervertida são (felizmente) raras, o pavor e a raiva evocados por procedimentos clínicos (infelizmente) não são.

Fúria voltada contra si

Com os seres humanos, o impulso que se dirige a uma agressão violenta pode se tornar aterrorizante em si mesmo e então se voltar para a própria pessoa, como Kahlbaum observou tão bem em seu trabalho seminal sobre catatonia⁴⁹. Essa volta para dentro (ou retroflexão) resulta em mais paralisia, supressão, passividade e resignação. Essa súbita variação entre desligamento e explosões de fúria impotentemal direcionadas se torna a reação estereotípica da pessoa diante de futuros desafios que requerem respostas sutilmente diferenciadas, baseadas em sentimentos e com muito mais nuanças.



No meu acidente (veja o Capítulo 1), quando saí do choque, senti uma onda de fúria ardenteenquanto meu corpo continuava a tremer e sacolejar; então, senti uma fúria abrasadorairromper de dentro de minha barriga. Eu realmente queria matar a jovem que tinha me atropelado, e pensei: Como essa garota idiota pôde me atropelar na faixa de pedestres? Ela não estava prestando atenção? Maldita! Eu queria matá-la, e parecia realmente ter podido fazer isso. Como a fúria está relacionada à vontade de matar, não é difícil entender como esse impulso pode ser assustador, e de que maneira a fúria pode se transformar em medo a fim de evitar tais impulsos assassinos.

Ao permitir que meu corpo fizesse aquilo que ele precisava fazer – ao não interromper a tremedeira ao mesmo tempo que rastreava minhas sensações corporais internas –, consegui permitir e conter as emoções extremas de sobrevivência de fúria e pavor sem me sentir arrasado. Contenção, é preciso que se entenda, NÃO é supressão; é, ao contrário, a construção de um recipiente maior, mais forte para acomodar esses sentimentos difíceis. E misericordiosamente, dessa forma, saí desse acidente a salvo do trauma e mais resiliente para desafios futuros.

Quando as pessoas revisitam, se movem através de e depois saem da imobilidade na terapia, em geral vivenciam alguma raiva. Essas sensações primitivas de fúria (quando contidas) representam movimentos de volta à vida. Porém, a raiva e outras sensações corporais intensas podem ser assustadoras se acontecerem de forma abrupta. Na terapia eficaz, o terapeuta apoia e conduz o paciente cuidadosamente por esse processo tão intenso. A condução deve ser lenta, utilizando uma aproximação gradual, de forma que o paciente não se sinta massacrado.

Na essência, a fúria consiste (biologicamente) no desejo de matar⁵⁰. Quando algumas mulheres que foram estupradas começam a sair do choque (muitas vezes meses ou mesmo anos depois), elas podem ter o impulso de matar seus agressores. Uma vez ou outra lhes foi possível converter esse impulso em ação. Algumas dessas mulheres foram julgadas e condenadas por assassinato porque o tempo decorrido foi considerado prova de premeditação. Injustiças certamente foram cometidas devido à usual ignorância do drama biológico que essas mulheres estavam vivendo. Várias dessas mulheres talvez estivessem agindo de acordo com as profundas (e atrasadas) reações autoprotetoras de fúria e contra-ataque que vivenciaram quando saíram da imobilidade agitada; e, desse modo, sua retaliação (embora muito atrasada) talvez tenha sido biologicamente motivada, e não necessariamente vingança premeditada. Se um tratamento eficaz estivesse disponível para as mulheres traumatizadas, essas mortes talvez tivessem sido evitadas.

Por outro lado, as pessoas não traumatizadas que sentem raiva têm plena consciência de que (por mais que estejam com vontade de mataro cônjuge ou um filho) obviamente não tentariam realmente matar o objeto de sua raiva. Quando as vítimas de trauma começam a sair da imobilidade, em geral vivenciam explosões de raiva intensa ou fúria. Mas, com medo de realmente machucar outras pessoas (ou a si mesmas), esforçam-se ao máximo para desviar e suprimir essa fúria, quase antes de a sentirem.

Quando alguém está inundado de fúria, as partes frontais do cérebro se desligam¹. Por causa desse desequilíbrio extremo, a capacidade de recuar e observar suas sensações e emoções se perde; em vez disso, a pessoa se torna essas emoções e sensações². Por essa razão, a fúria pode ficar totalmente avassaladora, causando pânico e reprimindo tais impulsos primitivos, voltando-os para dentro e impedindo uma saída natural da resposta de imobilidade. Manter essa supressão requer um gasto tremendo de energia. A pessoa está, em essência, fazendo consigo mesma aquilo que os pesquisadores fizeram com os animais para reforçar e prolongar sua imobilização. As vítimas de trauma repetidamente assustam a si próprias quando começam a sair da imobilidade. A manutenção da imobilidade potencializada pelo medovem de dentro. O ciclo vicioso de sensação/fúria/medo intensos prende a pessoa à resposta biológica de trauma. Uma pessoa traumatizada está literalmente aprisionada, recorrentemente assustada e reprimida – por suas reações fisiológicas persistentes e por medo dessas reações e emoções. Esse ciclo vicioso de medo e imobilidade (também conhecido como imobilidade potencializada pelo medo) impede que a resposta, um dia, se complete plenamente e se resolva como acontece com os animais selvagens.

Os mortos-vivos




A fúria/contra-ataque é uma consequência de imobilização recorrente induzida pelo medo; a outra é a morte. A morte pode acontecer, por exemplo, quando o gato insiste em recapturar o rato, repetindo o ciclo muitas vezes. O gato bate na presa até que o rato entra tão profundamente na imobilidade que morre, embora não esteja ferido. Enquanto apenas pouquíssimos seres humanos de fato morram de medo, as pessoas cronicamente traumatizadas passam pela vida sem se sentir de fato vivas ou comprometidas com a existência. Essas pessoas estão vazias em seu âmago. Eu ando por aí, afirmou uma sobrevivente de um estupro grupal, mas não sou mais eu... estou vazia e fria... talvez fosse melhor estar morta, ela disse em nossa primeira sessão.

A imobilidade crônica produz os sintomas emocionais do trauma mais básicos: entorpecimento, desligamento, aprisionamento, desamparo, depressão, medo, pavor, fúria e desespero. A pessoa permanece amedrontada, incapaz de se imaginar em segurança, protegida de um constante inimigo (interno) e incapaz de voltar a se envolver na vida. Os sobreviventes de trauma severo e prolongado (crônico) descrevem a vida como a dos mortos-vivos. Murray escreveu sobre esse estado de forma comovente: É como se as fontes primitivas de vitalidade da pessoa tivessem secado, como se estivessem vazias no âmago de sua existência³. No pungente filme de 1965 O homem do prego, o ator Rod Steiger faz o papel de Sol Nazerman, judeu sobrevivente do holocausto insensibilizado que, a despeito de seu preconceito, desenvolve afeição paternal por um adolescente latino que trabalha para ele. Quando, na cena final, o jovem é morto, Sol empala a própria mão em um espeto de papel para sentir alguma coisa – qualquer coisa.

Trauma e imobilidade: uma saída

Recapitulando: o trauma surge quando as respostas de imobilidade de uma pessoa não se resolvem; ou seja, quando ela não consegue fazer a transição de volta à vida normal e a resposta de imobilidade se acopla cronicamente ao medo e a outras emoções negativas intensas como pavor, repulsa e desamparo.

Depois que esse acoplamento foi estabelecido, as próprias sensações físicas de imobilidade evocam o medo. A pessoa traumatizada se condicionou a ter medo de suas sensações internas (físicas) que agora geram o medo que prolonga e aprofunda (potencializa) a paralisia. O medo gera paralisia, e o medo das sensações de paralisia gera mais medo, provocando uma paralisia ainda mais profunda. Dessa forma, uma resposta adaptativa de duração limitada se torna crônica e desajustada. O ciclo de feedback se fecha em si mesmo. Nessa espiral descendente, nasce o vórtice do trauma.

A boa terapia do trauma ajuda as pessoas a resolver os sintomas próprios dele. O ciclo de feedback se rompe ao desacoplar o medo da imobilidade (veja as Figuras 4.1a e 4.1b). A terapia eficaz rompe, ou despotencializa, esse ciclo de feedback trauma-medo, ajudando a pessoa a aprender de maneira segura a contersensações, emoções e impulsos intensos sem se sentir dominada por eles. Dessa forma, habilita-se a resposta de imobilidade a se resolver como deve ser.

Gráfico de duração da imobilidade em diferentes cenários




 

Figura 4.1a  Esta figura mostra a duração e a gravidade do congelamentoem três situações. O primeiro cenário é semelhante ao de um gambá sendo atacado e se fingindo de morto. O gambá congela e o predador, perdendo interesse naquele cadáver inerte, vai embora em busca de uma presa mais viva. O gambá, agora sozinho, se sacode, livrando-se desse encontro, e segue seu caminho sem nenhum dano. Isso se chama finalização em ritmo próprio. O segundo cenário ilustra o que acontece a um animal que está saindo da imobilidade, é fisicamente contido e sente medo. Ele é jogado de volta no pavor, sendo a imobilidade muito mais profunda e duradoura. Esse pavor paralisante é efeito da imobilidade potencializada pelo medo e leva ao TEPT. É por isso que a frase O tempo cura todas as feridassimplesmente não se aplica ao trauma. O terceiro cenário mostra o que acontece em uma bem-sucedida sessão de terapia. Aos poucos, o terapeuta guia o paciente para que ele toque por um curto tempo nas sensações da imobilidade, e depois o orienta a desacoplar a imobilidade do medo. Dessa forma, o paciente pode descarregar a hiperativação subjacente e recobrar o equilíbrio.

Ciclo medo/imobilidade

 

Figura 4.1b  É assim que ficamos aprisionados no ciclo de medo/imobilidade.




Desacoplar o medo e permitir que a resposta de imobilidade de curta duração se complete é, em princípio, algo simples. O terapeuta ajuda a reduzir a duração da imobilidade diminuindo suavemente o nível de medo. Em outras palavras, a tarefa do terapeuta é ajudar o paciente, pouco a pouco, desacoplar o medo da paralisia, a fim de gradualmente restaurar o término em seu próprio ritmo. Dessa maneira, o ciclo de feedback (medo-imobilidade) é rompido; digamos que ele perde o gás. Quando o paciente aprende a vivenciar as sensações físicas da imobilidade na ausência do medo, as garras do trauma afrouxam e o equilíbrio retorna. Nos próximos quatro capítulos, discutirei de que forma os terapeutas podem ajudar os pacientes a aprender a desacoplar a medo da imobilidade e a restaurar respostas defensivas ativas. Quando os pacientes conseguem fazer isso, muitas vezes descrevem a sensação física da imobilidade (na ausência do medo) com uma mistura de curiosidade e alívio profundo ou, frequentemente, como acordar de um pesadelo.

Há uma importante advertência a essa simples receita. Onde o trauma tiver sido enraizado de forma prolongada e profunda, outros fatores entram no jogo: primeiro, a própria faculdade de mudar e de voltar a se envolver na vida fica prejudicada. Esse aspecto foi retratado de modo pungente no fascinante romance de Louise Erdrich, The master butchers singing club. No primeiro capítulo, o protagonista, Fidelis, deixa as trincheiras da Primeira Guerra Mundial e volta para a comida e o carinho de sua mãe. Ele dorme pela primeira vez na própria cama, familiar e confortável, uma experiência que há anos não tinha.

Agora que estava em casa, compreendeu, ele ainda precisava estar vigilante. Lembranças surgiriam sorrateiramente, emoções sabotando seu cérebro pensante. Voltar à vida depois de morrer para si mesmo era perigoso. Havia coisas demais para sentir, então, pensou, devia ir em busca

apenas de sensações superficiais.

Também descobrimos que, quando criança, Fidelis respirava superficialmente e ficava imóvel [...] sempre que uma tristeza se abatia sobre ele. Quando era um jovem soldado, sempre soube, desde o início, que seu talento para a imobilidade era a chave para a sobrevivência. A necessidade humana de voltar gradualmente da terra dos mortos-vivos para a terra dos vivos precisa ser entendida, respeitada e honrada. Coisas demais, cedo demais, ameaçam devastar a frágil estrutura do ego e a personalidade adaptativa. É por isso que o ritmo com que as pessoas resolvem o trauma deve ser gradual e desconcentrado.

Instinto e razão

Em última análise, acredito que é o equilíbrio dinâmico entre as partes do cérebro mais primitivas e as mais desenvolvidas/refinadas que permite que o trauma se resolva e emoções difíceis sejam integradas e transformadas. O tratamento eficaz ajuda as pessoas a manter o córtex pré-frontal observadorligado enquanto ele simultaneamente vivencia as sensações primitivas básicas geradas nas porções arcaicas do cérebro (o sistema límbico, o hipotálamo e o tronco cerebral; veja a Figura 4.2). A chave para essa delicada tarefa é ser capaz de vivenciar, de forma segura, tanto as sensações corporais e as emoções intensas quanto as sutis. O que se verifica é que há uma estrutura cerebral em par que parece fazer exatamente isso: implantados entre o sistema límbico e o córtex pré-frontal estão a ínsula (mais perto do sistema límbico) e o cingulado (mais perto do córtex). Resumindo, a ínsula recebe um input das estruturas internas do corpo, inclusive dos músculos, juntas e vísceras. Juntos, a ínsula e o cingulado nos ajudam a compreender essas sensações primitivas tecendo-as em sentimentos, percepções e cognições ricas em nuanças⁵⁴. Acessar essa função é a solução para o processo de transformação do trauma e das difíceis emoções descritas nos capítulos seguintes.

Equilibrando instinto e razão

 




Figura 4.2  Esta figura ilustra a importância de manter ligado o córtex pré-frontal no tronco cerebral e no sistema límbico durante a ativação de sobrevivência. Perceba como os impulsos nervosos circulam entre as estruturas cerebrais instintivas do tálamo e do hipotálamo (que controla a secreção da glândula pituitária, vital para a manutenção da homeostase do órgão e das células) e o lobo frontal (ou cérebro racional).

A restauração do equilíbrio e do ritmo entre instinto e razão também tem papel importante na cura da separação mente/corpo. A integração entre corpo e mente, entre o hemisfério direito e o esquerdo do cérebro e entre regiões cerebrais primitivas e desenvolvidas gera integridade e nos torna completamente humanos. Até que isso aconteça, somos, como notou Margaret Mead, o elo perdido entre macacos e humanos.

 





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