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6. Um mapa para a terapia
6UM MAPA PARA A TERAPIA O mapa pode não ser o território, mas com certeza ajuda a nos orientar. Peter A. Antigas vozes sem palavras Assim como os mapas ajudam-nos a encontrar determinado lugar em uma cidade, os mapas do organismo¹ humano são importantes para per- correr o território do trauma e dar forma à sua cura. O revolucionário trabalho de Stephen Porges, diretor do Brain Body Center [Centro Corpo Cérebro] do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Illinois, forneceu-nos um “mapa do tesouro” – eloquente, bem fundamentado e claramente emba- sado – dos sistemas psicofisiológicos que governam o estado traumático. Esses mesmos sistemas também funcionam como mediadores dos senti- mentos vitais de bem-estar e pertencimento. A teoria polivagal da emoção de Porges² elucida os caminhos para a recuperação e a integração descritas no Capítulo 5. Além disso, seu modelo esclarece por que certas abordagens habituais à psicoterapia do trauma com frequência fracassam. Resumidamente, a teoria de Porges afirma que, nos seres humanos, três subsistemas básicos de energia neural dão suporte ao estado global do sistema nervoso e aos comportamentos e emoções correlacionados. O mais primitivo desses três subsistemas (com cerca de 500 milhões de anos) se origina das primeiras espécies de peixes³. Esse sistema primitivo tem como funções a imobilização, a conservação metabólica e o desligamento. Seu alvo são os órgãos internos. O próximo no desenvolvimento evolutivo é o sistema nervoso simpático. Esse sistema de ativação global evoluiu do pe- ríodo reptiliano há cerca de 300 milhões de anos. Sua função é a mobilização e a ação aprimorada (como na luta ou fuga); seu alvo no corpo são os membros. Por último, o terceiro sistema, filogeneticamente mais recente (originado há cerca de 80 milhões de anos), existe apenas nos mamíferos. Esse subsistema neural é mais refinado nos primatas, nos quais atua como mediador de complexos comportamentos sociais e de vínculo. É o ramo do sis- tema nervoso parassimpático que regula o chamado nervo vago mamífero ou “inteligente”, que é neuroanatomicamente ligado aos nervos craniais que atuam como mediadores da expressão facial e da vocalização. Esse sistema mais recentemente adquirido aciona os músculos da garganta, do rosto, do ouvido médio, do coração e dos pulmões, que são inconscientemente intermediados e juntos comunicam nossas emoções, tanto para os outros quan- to para nós mesmos⁴. Esse sistema mais refinado orquestra os relacionamentos, os vínculos e os laços afetivos e também atua como mediador da inteli- gência emocional. A Figura 6.1 resume os subsistemas nervosos básicos dos mamíferos. As funções básicas desses sistemas filogenéticos estão resu- midas nas Figuras 6.2a a 6.2d. Diagrama simplificado dos componentes polivagais
Figura 6.1 Hierarquia filogenética de estratégias de reação
Figura 6.2a Esta figura mostra como algumas partes do corpo são afetadas pelos subsistemas evolutivos. Raízes evolutivas
Figura 6.2b A figura mostra o controle neural dos três sistemas filogenéticos: vago primitivo, simpático/adrenal e vago “inteligente” (mamífero). Teoria polivagal: estágios filogenéticos de controle nervoso
Figura 6.2c O quadro acima resume os estágios filogenéticos dos sistemas simpático e polivagal. Teoria polivagal: subsistemas emergentes de “emoção” Figura 6.2d Isso mostra o efeito que os sistemas filogenéticos têm no aumento (sinal de +) ou na diminuição (sinal de -) da atividade dos sistemas de diversos órgãos. Os sistemas nervosos estão sintonizados para avaliar riscos potenciais no entorno – um processo de avaliação inconsciente que Porges chama de “neurocepção”⁵. Se sentimos que o ambiente é seguro, nosso sistema de interação social inibe as estruturas troncocerebrais e límbicas mais primi- tivas que controlam a luta ou a fuga. Depois de um leve susto, você poderá, por exemplo, ser acalmado por outra pessoa – como quando uma mãe diz para o filho: “Está tudo bem; foi só o vento”. Em geral, quando nos sentimos ameaçados ou apreensivos, primeiro olhamos para os outros, desejando chamar sua atenção, atrair seu olhar e sua voz e comunicar nossos sentimentos para garantir a segurança coletiva. Esses são os chamados comportamentos de apego. O apego é prati- camente a única defesa das crianças pequenas, já que em geral elas não conseguem se proteger lutando ou fugindo. O apego para criar segurança cos- tuma ser uma estratégia de sobrevivência de mamíferos e primatas contra predadores. Tendo de lidar com muitas ameaças, é menos provável que o indivíduo seja “capturado”. Além disso, se alguém no seu grupo o ameaça, talvez você tente primeiro “ser gentil” antes de lançar mão da luta ou fuga. Entretanto, quando comportamentos “pró-sociais” não resolvem a situação ameaçadora, um sistema menos desenvolvido é acionado. Mobili- zamos nossa reação de luta ou fuga. Finalmente, nessa “hierarquia default” – quando nenhum dos sistemas mais recentes (interação social ou luta/ fuga) resolvem a situação, ou quando a morte parece iminente –, o último recurso é acionado. Esse sistema mais primitivo, que governa a imobilidade, o desligamento e a dissociação, assume o controle e domina todos os esforços de sobrevivência⁶. O conceito de hierarquias default – descrito pela primeira vez pelo ilustre neurologista do final do século XIX Hughlings Jackson⁷ – continua sendo um princípio fundamental da neurologia⁸ e é uma regra básica da teoria de Porges. Basicamente, Jackson observou que, quando o cérebro está ferido ou pressionado, retorna a um nível de funcionamento mais primitivo no que se refere à evolução. Se houver uma recuperação subsequente, esse re- torno será revertido, trazendo a pessoa de volta às funções mais refinadas. Esse é um exemplo do processamento “de baixo para cima”, tão importante na terapia do trauma. Quanto mais primitivo é o sistema operativo, mais poder ele tem de assumir o controle da função global do organismo, o que faz inibindo os sub- sistemas neurológicos mais recentes e mais refinados, impedindo, de forma eficaz, que funcionem. De maneira específica, o sistema de imobilização reprime quase completamente o sistema de engajamento/apego. Quando estamos “mortos de medo”, restam-nos poucos recursos para orquestrar os comportamentos complexos que atuam como mediadores entre o apego e a tranquilização; a interação social é suprimida. O sistema nervoso simpá- tico também bloqueia o sistema de interação social, mas não de forma completa, como o faz o sistema de imobilização (a mais primitiva das três defe- sas). A imobilidade e a hiperativação são, como explicamos, respostas organísmicas à ameaça e ao estresse prolongado. Quando elas estão em atividade, o perigo (no caso de luta ou fuga) e a destruição (com a imobilidade) são aquilo que a pessoa percebe – não importa qual seja a realidade da situação externa. O sistema nervoso humano não faz, de imediato, uma distinção entre uma fonte potencial de perigo no entorno, como uma sombra que se move de repente, e a angústia a respeito de uma situação ocorrida muito tempo atrás⁹. Quando a angústia é gerada interiormente (pelos mús- culos e vísceras), a pessoa sente uma urgência obsessiva de localizar a fonte de ameaça ou (quando isso não é possível) de fabricar uma a fim de expli- car a si mesma que existe uma fonte identificável de ameaça. Pessoas muito traumatizadas e cronicamente negligenciadas ou que sofreram abuso são dominadas pelo sistema de imobilização/desligamento. Por outro lado, aquelas com traumas agudos (normalmente ocasionados por um único acontecimento recente e sem histórico de trauma, negligência ou abuso repetidos) são, em geral, dominadas pelo sistema simpático de luta ou fuga. Elas tendem a sofrer com flashbacks e taquicardia, enquanto as
pessoas cronicamente traumatizadas não costumam demonstrar nenhuma mudança, nem mesmo uma diminuição da frequência cardíaca. Essas pes- soas tendem a ser atormentadas por sintomas dissociativos, entre eles dispersão, falta de senso de realidade, despersonalização e vários problemas somáticos e de saúde. Entre os sintomas somáticos estão asma, dor persistente, fadiga crônica e falta de envolvimento. Em uma pesquisa muito interessante, a atividade cerebral de pessoas que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) foi registrada por imagens de ressonância magnética funcional (RMF) enquanto ouviam a leitura de um “roteiro traumático”, que era a descrição explícita e detalhada de um trauma grave sofrido por alguém (como um acidente ou um estupro)¹⁰. Ao avaliar a localização e a intensidade da atividade cerebral, a RMF retratou-as como um arco-íris de cores¹¹. Então, por exemplo, cores azuis (frias) indicavam uma relativa redução na atividade cerebral, enquanto as cores vermelhas (quentes) poderiam indicar um aumento dessa atividade. A angústia dos voluntários foi intensificada pelo fato de estarem com a ca- beça imobilizada, confinada em um tipo de cesto metálico muito barulhento. Nesses estudos, pelo menos 30% dos sujeitos apresentaram uma dimi- nuição da atividade da ínsula e do córtex cingulado. O TEPT desses voluntários era caracterizado por dissociação e imobilidade (vagal). Por outro lado, cerca de 70% dos sujeitos estudados na pesquisa exibiram principalmente os sintomas mais simples de hiperativação e demonstraram um aumento drástico na atividade dessas mesmas áreas¹². A ínsula e o cingulado são partes do cérebro que recebem informações sensoriais dos receptores dentro do corpo (interocepção) e formam a base daquilo que sentimos e reconhecemos como nossa identidade¹³. A baixa atividade retrata dissociação, en- quanto a atividade excessiva está ligada à ativação simpática. Em minha longa experiência clínica, descobri que muitas pessoas (talvez a maioria) apresentam alguns sintomas dos dois sistemas. A expressão dos sintomas parece depender de uma variedade de fatores, inclusive do tipo e da gravidade do trauma, da idade em que ocorreu e dos padrões traumáticos e conteúdos ativados durante o tratamento. É bem provável que também haja fatores constitucionais e de gênero em jogo. Além disso, essas constelações de sintomas tendem a mudar com o tempo e até mesmo em uma única sessão¹⁴. O mais importante é que o tratamento deve ser abordado de forma diferente segundo qual desses três sistemas seja ativado durante as sessões e quais fiquem inativos. Para conduzir os processos de cura e transformação de forma eficaz nos pacientes, os terapeutas devem ser capazes de perceber e rastrear os vestígios e as expressões fisiológicas desses sistemas organísmicos. Uma vez que cada sistema polivagal hierárquico tem padrão próprio e único de expressões autônomas e musculares, os terapeutas precisam perceber esses indicadores – cor da pele, respiração, sinais posturais e expressões faciais – a fim de determinar o estágio (imobilização, hiperativação ou interação social) no qual estão seus pacientes e quando estão em transição para outro estágio. Como vimos com Nancy, no Capítulo 2, um paciente pode ser submetido a uma montanha-russa desgovernada que transita pelos três subsis- temas evolutivos, o que demanda mudanças paralelas de estratégia¹⁵. Quando, por exemplo, a pessoa está em hiperativação simpática, o terapeuta pode observar um retesamento dos músculos na parte anterior do pescoço (principalmente nos escalenos anteriores, esternoclidomastoídeos e nos músculos superiores dos ombros), postura rígida, nervosismo geral, olhar agitado, aumento na frequência cardíaca (que pode ser notado na artéria carótida na parte anterior do pescoço), dilatação das pupilas, respiração entrecortada e rápida e mãos frias, que podem parecer azuladas em especial na ponta dos dedos, assim como palidez e suor frio nas mãos e testa. Por outro lado, uma pessoa que está se encaminhando para o desligamento normal- mente entra em colapso (como se o diafragma perdesse todo o seu vigor) e seu olhar é fixo ou vidrado, parecendo atravessar o que vê. Há uma mar- cante redução da respiração, uma desaceleração abrupta e debilidade da frequência cardíaca e contração das pupilas. Além disso, a pele normalmente fica pálida, com um branco desbotado ou mesmo acinzentado. E, concluindo, a pessoa socialmente envolvida tem uma frequência cardíaca de repouso em torno de 70 e poucos batimentos, respiração ampla e relaxada, mãos agradavelmente mornas e uma abertura de pupila moderada. Os terapeutas raramente estão treinados para fazer tais observações (embora possam praticar um pouco assistindo a episódios da série Lie to me)¹⁶. Dos três sistemas básicos instintivos de defesa, o de imobilidade é controlado pelo mais primitivo dos subsistemas fisiológicos. Esse sistema neural (mediado pela parte mielinizada do nervo vago) controla a conservação de energia e é acionado apenas quando a pessoa percebe que a morte é iminente¹⁷ – seja a ameaça vinda do exterior, na forma de uma ameaça mortal, ou interna, como uma doença ou um ferimento grave¹⁸. Esses dois desa- fios requerem que a pessoa fique imóvel e conserve sua energia vital. Quando esse sistema mais arcaico domina, a pessoa não se move. Quase sem respirar, sua voz é estrangulada; e ela está com tanto medo que não consegue chorar – permanece imóvel preparando-se para a morte ou para a restau- ração celular. Esse último recurso (sistema de imobilização) tem a finalidade de atuar de forma aguda e apenas por breves períodos. Quando é ativado de forma crônica, os seres humanos ficam aprisionados no limbo escuro e triste da não existência, no qual a pessoa não está nem vivendo verdadeiramente nem morrendo de fato. A tarefa inicial do terapeuta para conseguir acessar esses pacientes que se encontram desligados é ajudá-los a mobilizar sua energia: ajudá-los, primeiro, a se conscientizar de sua paralisia fisiológica e de seu desligamento de maneira que possam normalizar esse estado e mudar o foco na direção da mobilização (simpática). O próximo passo é conduzir de forma suave o paciente pela repentina ativação defensiva/de autoproteção, subjacente ao estado simpático, e de volta ao equilíbrio, ao aqui e agora e a um reenvolvimento com a vida. Em geral, quando o paciente começa a sair do estado de congelamento, o segundo sistema mais primitivo (ativação simpática) é acionado em preparação para a luta ou fuga. Lembre-se de como Nancy passou da ativação simpática (sua frequência cardíaca disparou sem controle) para o pavor incontrolável, depois repentinamente para o desligamento (sua frequência cardíaca despencou de súbito), e então, por fim, para a mobilização e a des- carga quando ativou os músculos de corrida e fugiu da imagem do tigre. Na fase simpática/de mobilização, uma tarefa terapêutica importante é asse- gurar que o paciente contenha essas intensas sensações de ativação sem ser dominado por elas (descrevi esse processo no Capítulo 5). Dessa forma, essas sensações são vivenciadas como ondas de energia intensas, mas com as quais é possível lidar, bem como sensações associadas à agressão e à autoproteção. Entre as experiências sensoriais estão vibração, formigamento e ondas de frio e calor (descrevi esses dois fenômenos no Capítulo 1 e em meu relato sobre Nancy no Capítulo 2). Quando conseguimos atravessar as sensações de ativação, que às vezes se assemelham aos pinotes de um cavalo bravo, e começamos a travar amizade com elas de forma lenta e constante, aos poucos nos tornamos capazes de descarregar a energia que havia sido canalizada para os sintomas de hiperativação. Esse estágio inicial e parte fundamental da autorregulação, que também é o ingrediente básico para a restauração do equilíbrio, foi o que tirou a mim e a Nancy do limbo e nos trouxe de volta à vida. É somente após esse ponto de intervenção que o sistema de interação social, o ter- ceiro subsistema evolutivo, começa a se religar. A pessoa que consegue sair da imobilidade e depois passar pela ativação simpática começa a sentir uma calma restauradora e cada vez mais profunda. Junto com essas sensações de estar relativamente ou bastante bem, surge uma necessidade, pode- se até dizer uma fome, de contato olho no olho¹⁹. Visto que esse intenso desejo pode, dolorosamente, não ter sido satisfeito em momentos críticos dos três estágios da infância e na adolescência (ou pode ter sido associado a vergonha, invasão e abuso), muitas vítimas de trauma precisam de orien- tação especial para negociar essa barreira de intimidade. Tal orientação terapêutica só poderá acontecer quando for fisiologicamente possível acessar esse sistema de interação social – ou seja, quando o sistema nervoso não estiver mais sob o jugo dos sistemas de imobilização e hiperativação. A utilização intencional de uma expressão humana – mental ou física – preservada, franca e verdadeira do próprio profissional de saúde pode ser profundamente terapêutica. Apesar da natural preponderância dos sistemas de imobilização vagal e de ativação simpática na supressão da interação social, a capacidade do contato humano de ajudar a mudar o estado fisiológico interno de outra pessoa (por meio de envolvimento olho no olho e de
um toque adequado) não deve ser subestimada. Assim, como relatei no Capítulo 1, a pediatra de rosto doce que sentou ao meu lado depois de meu aci- dente me deu a centelha de esperança de que eu necessitava naquele exato momento para seguir em frente. O delicado poder do rosto humano de confortar a “fera selvagem” foi retratado em um filme cujo título é bastante revelador, O náufrago. Tom Hanks faz o papel de Chuck Noland, um homem que fica isolado em uma ilha remota e desabitada depois de sofrer um acidente aéreo do qual é o único sobrevivente. Parte da carga do avião também vai parar na ilha, e ela contém uma bola de vôlei branca da marca Wilson. Noland adequadamente passa a chamar a bola de “Wilson” e sem constrangimento a adota como mascote²⁰. Para sua surpresa, ela adquire vida própria, tornando-se confi- dente de seus pensamentos mais íntimos. Um dia, durante um ataque de fúria causado pela impotência diante da situação em que se encontrava, No- land joga a bola no mar, mas então – dando-se conta de quanto está apegado a Wilson – mergulha para trazê-la de volta. De volta à praia, ele desenha, como uma criança, traços faciais²¹ (olhos, nariz e boca) na bola de vôlei²². Wilson é agora seu mais íntimo companheiro, com quem compartilha pensamentos conturbados, os mais profundos anseios e sentimentos angustiados de solidão e desespero, assim como alegres triunfos. A ligação de Noland com Wilson é estranhamente reminiscente dos patinhos órfãos do etologista Konrad Lorenz e do forte vínculo (imprinting) que estabeleceram com uma bola branca depois que sua mãe foi afastada deles logo que saíram do ovo²³. Uma vez permanentemente ligados à bola como a uma mãe substituta, preferiam a bola a qualquer outra coisa, até mesmo a uma pata viva, fofinha e coberta de penas. Finalmente, o personagem de Hanks se dá conta de que a ilha parece não fazer parte de nenhuma rota de navios e de que nunca será resgatado se ficar ali. Em sua malfadada tentativa de sair da ilha em uma jangada que construiu, Wilson é arrastado durante uma violenta tempestade, e Hanks fica inconsolável em seu pesar. O contato olho no olho, alma a alma, reduz o impacto do mar revolto dos redemoinhos interiores. É ele que nos ajuda a amainar qualquer turbu- lência emocional. Portanto, apesar da gigantesca força primitiva dos sistemas de imobilização e de hiperativação, os terapeutas devem reconhecer o poder que o reconhecimento facial e a interação social têm de acalmar seus pacientes, de satisfazer suas necessidades emocionais mais profundas e de motivar muitos comportamentos, tanto conscientes quanto inconscientes. Para não desapontá-los, Noland, às portas da morte, é finalmente resgatado. Quando volta para casa, pega todos os pacotes que sobreviveram ao acidente e, viajando por todo o país, devolve-os aos donos. Sim, isso mesmo: olho no olho. Privados de contato facial (e até mesmo cegos de nascença usam as mãos para “ver” outros rostos), sentimo-nos (como o personagem de Hanks) rejeitados, descartados, à deriva, isolados de nossas necessidades mais profundas e de nosso desejo de ter um propósito na vida. A maioria de nós ficaria louca sem alguma forma de contato olho no olho. Junto com o reconhecimento facial, o som, a entonação e o ritmo da voz humana (pro- sódia) também têm efeito igualmente tranquilizador. Mesmo para pacientes que não conseguem tolerar o contato olho no olho, o som da voz do tera- peuta – como a mãe acalentando seu bebê – pode ser muito reconfortante e envolvente. Em um trabalho revelador, o dr. Horvitz, importante cientista da computação, recentemente demonstrou seu sistema de voz, que pergunta aos pacientes sobre seus sintomas e responde com empatia²⁴. Quando uma mãe relatou que o filho estava com diarreia, o rosto na tela disse, em tom de solidariedade: “Que pena; eu sinto muito”. Essa simples declaração a tranquilizou e a ajudou a interagir com o programa de forma segura e autônoma. Um médico disse ao dr. Horvitz: “É maravilhoso que o sistema reaja à emoção humana... eu não tenho tempo para isso”. Talvez esse sistema com- putacional seja equivalente à bola de Chuck Noland. Sua “empatia” programada certamente ajuda, mas é um substituto precário do original. Esse é um exemplo deprimente da crescente alienação de nossa cultura pós-moderna, que troca mensagens de texto 24 horas por dia. Enquanto muitos jovens mantêm contato com dezenas de pessoas por hora em relacionamentos cibernéticos, o autêntico envolvimento olho no olho está claramente em fran- co declínio. Como é triste e perturbador ver que o médico acreditava não ter um mínimo de tempo para essa comunicação tão básica e salutar – con- tato que ajudaria a humanizar os dois. Se praticado com regularidade, poderia até mesmo ajudar médico e paciente a prevenir o mal de Alzheimer ou outros tipos de demência²⁵. Por que a terapia não dá certo Muitas pessoas traumatizadas, e principalmente aquelas que o são de forma crônica, vivem em um mundo com muito pouco ou nenhum apoio emocional, o que as torna ainda mais vulneráveis. Depois de um acontecimento devastador – violência, estupro, cirurgia, guerra ou um acidente de automóvel – ou em consequência de uma infância de negligência e abuso prolongados, as pessoas traumatizadas, mesmo aquelas que moram com um amigo, um familiar ou um companheiro, tendem a se isolar. Às vezes, apegam-se de forma excessiva a outras pessoas na esperança de que, de alguma forma, elas as ajudem e protejam. Seja como for, essas pessoas são privadas da verdadeira intimidade – o clima saudável de pertencimento – que todos almejamos e da qual necessitamos para prosperar. As vítimas de trauma, ao mesmo tempo, têm pavor de intimidade e a evitam. Então, seja como for, evitando ou se apegando de forma excessiva, elas são incapazes de manter as ligações equilibradas, estáveis e benéficas de que todos nós precisamos, o vínculo igualitário descrito pelo teólogo judeu Martin Buber como a relação “eu-tu”²⁶. Quando sua solidão fica pesada demais, as pessoas traumaticamente desconectadas podem ir em busca de “ligações” cada vez mais irreais (e às vezes perigosas). Elas veem cada nova possibilidade (ou impossibilidade) de relacionamento como a fonte de proteção e cuidado que acalmará sua ansiedade interna e manterá à tona sua frágil percepção do self. Ter tido uma infância de negligência e abuso as predispõe a relacionamentos caóticos. Essas pessoas continuam procurando o amor “só em lugares errados” – uma atitude insensata, como nos lembra uma canção. Mesmo quando o sal- vador idealizado (fantasioso) a trata mal, a pessoa parece alheia aos primeiros sinais desse abuso e se enreda cada vez mais em uma ligação nociva exatamente porque é tão familiar ou tem “cara de família”. Corrigir tais padrões inadequados é o que provoca maior aflição em muitos terapeutas, que veem, sem poder fazer nada, os pacientes serem re- petidamente despertados e seduzidos por relacionamentos autodestrutivos, revivendo seu trauma original. Muitos terapeutas se apegam à esperança de que eles, de alguma forma, poderão oferecer aos pacientes o relacionamento positivo, afirmativo (eu-tu) que atenuará a psique fraturada do paciente e restaurará sua alma ferida, tornando-a inteira novamente. Porém, o que acontece com frequência é que a dependência do paciente em relação ao tera- peuta se intensifica e sai do controle, como foi tão bem mostrado no ótimo filme Nosso querido Bob²⁷ (1991). Nesse filme, Bob, o paciente “aban- donado”, é tão dependente e seus sentimentos a respeito de ficar sozinho são tão intoleráveis que ele vai atrás de seu psiquiatra como um cão fare- jador e o segue em uma viagem de família para Cape Cod. Por outro lado, se o paciente percebe o terapeuta, que deve ser uma pessoa capaz de curar, como um abusador “substituto”, a terapia normal- mente leva o paciente a sentir decepção profunda e/ou fúria incontrolável. As vítimas de trauma não se tornam inteiras apenas por intermédio da rela- ção terapêutica. Mesmo com a melhor das intenções e com habilidades de empatia extremamente desenvolvidas, os terapeutas em geral erram o alvo aqui. A teoria polivagal e o princípio jacksoniano de dissolução nos ajudam a entender como e por que isso acontece²⁸. Quando a pessoa traumatizada está presa na resposta de imobilização ou no sistema de ativação simpática, a função de interação social fica fisiologicamente comprometida; a pri- meira, em especial, tanto inibe a ativação simpática quanto pode suprimir o sistema de interação social quase de maneira completa. Aquele cujo sistema de interação social está suprimido tem dificuldade de ler emoções positivas no rosto e na postura das outras pessoas e também é incapaz de sentir seus próprios afetos cheios de nuanças. Assim, a pessoa acha difícil saber se pode confiar no outro (saber se é ameaçador
ou seguro, amigo ou inimigo). De acordo com a teoria polivagal, estar em desligamento (imobilidade/congelamento/ou colapso) ou em hiperativação simpática (luta ou fuga) diminui bastante a capacidade da pessoa de receber e incorporar empatia e apoio. O dispositivo de segurança e bem-estar de- cididamente não está à mão. As pessoas traumatizadas estão dominadas pelo desligamento (o sistema de imobilidade) a tal ponto que estão fisiolo- gicamente indisponíveis para o contato olho no olho e para o sereno compartilhar de sentimentos e apego. E, ao passo que a imobilidade quase nunca é total (como acontece, por exemplo, na esquizofrenia catatônica), seu poder de suprimir a vida e a capacidade de interação social de uma pessoa é ex- trema. Um jovem descreve sua situação sombria da seguinte maneira: “Eu me sinto completamente sozinho no universo, dissociado da raça humana... Não tenho certeza nem mesmo de que existo... Todos são parte da flor; eu ainda sou parte da raiz”²⁹. Não é de surpreender que, por mais que tentem, inúmeros pacientes traumatizados tenham pouca capacidade de receber apoio e carinho de seus terapeutas bem-intencionados – não porque não que- rem, mas porque estão presos na raiz primitiva de imobilidade com a capacidade de ler rostos, corpos e emoções extremamente reduzida; eles ficam isolados da raça humana. Por essas razões um paciente desses pode não se acalmar de imediato diante dos sentimentos positivos e da atitude empática do terapeuta, vindo até a considerá-lo uma ameaça potencial. Incapaz de reconhecer manifestações de carinho e cuidado no rosto e nas posturas alheias, esse paciente acha muito difícil perceber se uma pessoa é inofensiva ou realmente confiável. E quando há uma grande expectativa com relação ao terapeuta um lapso qualquer ou um pequeno deslize não intencional por parte deste último pode fazer desmoronar por completo toda a relação. Quando os pacientes dissociados e desligados (desconectados) se retraem de forma involuntária, sentem ainda mais autorrecriminação e culpa. Atormentados por sua perda de controle, são incapazes de aceitar e de responder ao afeto e à segurança que o terapeuta lhes oferece e podem estabe- lecer uma transferência improdutiva e “atuação”. Essa discrepância inerente deixa, com frequência, paciente e terapeuta desorientados e frustrados, com uma sensação de não estarem cumprindo seus papéis. O paciente pode ver esse fracasso como uma confirmação devastadora de sua incapa- cidade, contribuindo para uma vida inteira de fracassos (assim percebidos). Os terapeutas também podem se sentir confusos, desamparados, inca- pazes e se autocensurar. Tais situações, nas quais dois parceiros estão atados um ao outro, podem facilmente se transformar em complicados nós gór- dios. Esses becos sem saída terapêuticos talvez levem ao término da terapia. Uma saída Pessoas desligadas (desconectadas) e dissociadas não estão “dentro do corpo”, e são, como já vimos, quase incapazes de estabelecer um contato aqui e agora verdadeiro, por mais que tentem. Apenas quando conseguem pela primeira vez acionar seus sistemas de ativação (o bastante para arrancá- las da imobilidade e da dissociação), e depois descarregar essa ativação, é que se torna fisiologicamente possível estabelecer contato e receber apoio. Felizmente, existe uma maneira de escapar da dominação que o sistema de imobilização exerce sobre os outros dois sistemas que são menos primi- tivos – algo que os terapeutas precisam aprender a exercitar. O trabalho de Lanius e Hopper sobre RMF mencionado anteriormente respalda essa solução terapêutica. Essa fascinante pesquisa, que registra a atividade na parte do cérebro associada à consciência dos estados corporais e das emoções, faz uma clara distinção entre ativação simpática e disso- ciação em indivíduos traumatizados. A área cerebral associada à consciência dos estados corporais e das emoções é chamada de ínsula anterior direita e está localizada na parte frontal do cérebro límbico (emocional), espremido bem abaixo do córtex pré-frontal – o lócus da nossa consciência mais refi- nada. A pesquisa demonstrou que a ínsula³⁰ é vigorosamente inibida durante o desligamento e a dissociação, confirmando que esses indivíduos trau- matizados são incapazes de sentir o corpo, de diferenciar suas emoções ou mesmo de saber quem realmente são (ou quem os outros são)³¹. Por outro lado, quando os indivíduos estão em um estado de ativação simpática, essa mesma área fica fortemente ativada. Esse aumento drástico na atividade da ínsula anterior direita indica uma clara diferenciação que vai de pouca ou nenhuma consciência corporal (na imobilidade/desligamento e dissociação) a um ti-po de “hipersensação” na ativação simpática. Além disso, o estado simpático, pelo menos, proporciona a possibilidade de consciência, proces- samento e resolução coerentes. Esses dados dão respaldo aos passos cruciais para a resolução do trauma descritos no Capítulo 5 (Passo 5) e escla- recem ainda mais a estratégia de ajudar os pacientes a ir do desligamento à mobilização à medida que aprendem a lidar com suas sensações físicas (corporais) quando começam a entrar na ativação simpática. Uma pesquisa análoga e seminal foi desenvolvida por Bessel van der Kolk³². Ele e seus colegas leram uma história traumática a um grupo de paci- entes e compararam duas regiões cerebrais em cada um deles (medidas por RMF). Os pesquisadores descobriram que a amígdala cerebral, conhecida como “detector de fumaça” ou de medo, se acendia com atividade elétrica; ao mesmo tempo, uma região no córtex cerebral esquerdo chamada área de Broca se obscurecia. Esta última é o principal centro de linguagem – a parte do cérebro que apreende o que estamos sentindo e transforma isso em palavras. Esses escaneamentos cerebrais também demonstram que o trauma consiste em um pavor sem palavras. Muitas vezes, quando pessoas trau- matizadas tentam expressar seus sentimentos por palavras – como quando, por exemplo, o terapeuta pede ao paciente que lhe conte sobre o estupro que sofreu –, elas falam como se o fato tivesse acontecido com outra pessoa (veja a história de Sharon no Capítulo 8). Ou então os pacientes tentam falar a respeito de seu pavor, ficam frustrados e se sentem inundados, sobrepujados, incorrendo em mais desligamento na área de Broca, e assim en- tram em um ciclo de feedback retraumatizante de frustração, desligamento e dissociação. Essa barreira de linguagem nas pessoas traumatizadas torna especialmente importante trabalhar com as sensações – a única língua que o cérebro reptiliano sabe falar. Isso não só ajuda as pessoas a sair do desligamento e da dissociação como diminui a frustração do paciente, que se sente menos sobrepujado ao lidar com material traumático. O corpo precisa estar fazendo alguma coisa para manter a ínsula, o córtex cingulado e a área de Broca ativados. Mesmo que a capacidade de envolvimento esteja inibida pelo sistema nervoso simpático, ela não está totalmente sufocada da mesma forma debilitante como acontecia com o sis- tema de imobilidade, mais primitivo. Em ativação simpática, os pacientes respondem melhor aos estímulos e sugestões de seu terapeuta, e também ficam mais receptivos à sua presença tranquilizadora. Por sua vez, é exatamente essa receptividade que ajuda a atenuar a ativação simpática. Quando o paciente começa a dar essa guinada para fora da imobilidade entrando na ativação simpática, o terapeuta perspicaz aproveita essa oportunidade momentânea – primeiro detectando a mudança do paciente e depois facilitando a conscientização de sua transição. O terapeuta, além de se empenhar para ampliar a conscientização do paciente a respeito do que está acontecendo com ele, ajuda-o a evitar ser totalmente tomado por uma ativação simpática intensa. Isso auxilia os pacientes a sair da imobilidade e a se mover através de ciclos completos de ativação, descarga/desativação e equi- líbrio (Passos 7 e 8 do Capítulo 5). Dessa forma, a pessoa aprende que o que sobe (se ativa) pode e vai descer. Os pacientes aprendem a acreditar que uma ativação moderada se desenrola por si mesma quando não a evitamos nem recuamos diante dela: ou seja, quando não interferimos no curso natural das sensações de ativação. Assim o terapeuta pode ganhar o dia – dando a seus pacientes o dom dessa experiência corporal. A conexão cérebro/corpo Tudo que aumenta, diminui, limita ou expande o poder de ação do corpo aumenta, diminui, limita ou expande o poder de ação da mente. E tudo que aumenta, diminui, limita ou expande o poder de ação da mente também aumenta, diminui, limita ou expande o
poder de ação do corpo. Espinosa (1632-1677), Ética Muitos terapeutas, percebendo como é difícil acessar os pacientes extremamente dissociados e desligados/desconectados, desenvolveram vali- osos métodos cognitivos e emocionais para ajudar a estabelecer essa conexão³³. As abordagens somáticas também podem ser extremamente úteis, ou mesmo fundamentais, nesse esforço de cura. Elas ajudam os pacientes a sair da imobilidade, entrar na ativação simpática – pela mobilização –, passar para a descarga da ativação e finalmente chegar ao equilíbrio, à incorporação e à interação social. Os exercícios seguintes de conscientização somati- camente fundamentados dão início a esse processo auxiliando os pacientes a sair do desligamento e da dissociação. O primeiro é um exercício simples que os pacientes podem fazer sozinhos para ajudar a avivar sua sensação corporal e minimizar o desligamento, a dissociação e o colapso. Como podem praticá-lo na privacidade de casa, eles são poupados de um potencial constrangimento ou vergonha em seu processo de despertar. Esse exercício, e os seguintes, deve ser feito regularmente, por um bom tempo – e os terapeutas também devem praticá-lo. Por cerca de dez minutos (algumas vezes por semana), tome uma chuveirada suave e intermitente da seguinte forma: exponha o corpo em inter- valos regulares à água, que deve estar a uma temperatura agradável. Direcione a atenção para a região do corpo onde está concentrada a estimulação ritmada. Conduza sua consciência a cada parte de seu corpo. Por exemplo, posicione as costas das mãos embaixo do chuveiro, depois as palmas e os pulsos, em seguida a cabeça, ombros, axilas, os dois lados do pescoço etc. Tente incluir todas as partes do corpo e preste atenção à sensação em cada região, mesmo que seja uma sensação de vazio, dormência ou desconforto. Enquanto estiver fazendo isso, diga: “Este é o meu braço, a minha cabeça, o meu pescoço” etc. “Seja bem-vindo de volta”. Você também pode fazer esse exercício dando leves batidinhas nas mesmas partes do corpo com a ponta dos dedos. Quando feitos regularmente e por um longo período, esse exercício e os próximos ajudarão a restabelecer a consciência do limite de seu corpo pelo despertar de sensações da pele. Uma continuação para esse exercício do chuveiro consiste em levar a consciência de limite para os músculos. Comece usando uma mão para pegar e suavemente apertar o antebraço oposto; depois aperte o braço, os ombros, pescoço, coxas, panturrilhas, pés etc. É essencial ficar atento à sen- sação dentro de seus músculos enquanto os aperta. Você pode começar a identificar a rigidez ou flacidez do tecido, assim como sua vitalidade. Em geral, músculos retesados, contraídos, são associados ao temor e à hipervigilância do sistema de ativação simpática. Por outro lado, ao contrário do que se poderia imaginar, os músculos ficam flácidos quando o corpo entra em colapso dominado pelo sistema de imobilização. No caso de músculos flá- cidos, você precisa persistir e segurá-los suavemente, quase como se estivesse carregando um bebê. Com a prática do toque suave e atento e dos exer- cícios de resistência, você aprenderá a trazer a vida de volta para esses músculos, à medida que as fibras passam a se ativar coerentemente, e assim vitalizar o organismo. Esses dois exercícios devem ser feitos regularmente, diversas vezes por semana. À medida que a consciência corporal aumenta, eleva-se também a consciência de uma sensação mais palpável de limite, além de surgir uma vitalidade maior. Para alguns pacientes, aulas de ioga moderada ou de artes marciais, tais como tai chi, aikido ou chi kun, pode ser benéficas para restaurar a conexão com o corpo e em definir os limites corporais. Para que essas aulas sejam úteis, o professor precisa ter experiência em trabalhar com pessoas traumatizadas. Mudando o paradigma A maioria dos psicoterapeutas trabalha com os pacientes estando ambos sentados em cadeiras. Como sentar requer pouca informação proprio- ceptiva e cinestésica para manter a postura ereta, o corpo facilmente se torna ausente e desaparece para seu dono. Lembre-se do estudo de Lanius e Hopper com a RMF no qual pacientes dissociados demonstraram uma grande redução de atividade nas partes do cérebro (ínsula e cingulado) que registram as sensações do corpo. Em contrapartida, ficar de pé exige que a pessoa se envolva em pelo menos um pouco de atividade interoceptiva e conscientização para manter o equilíbrio via integração proprioceptiva e cinestésica. Muitas vezes, essa simples mudança de posição pode fazer dife- rença entre a capacidade, ou não, de o paciente se manter presente no corpo enquanto processa sensações e sentimentos difíceis. Outra variante favo- rável é convidar o paciente a sentar em uma bola de ginástica de tamanho adequado. Uma vez que ficar sentado em uma bola requer múltiplos ajustes para manter o equilíbrio, isso não só ajuda o paciente a ficar em contato com sensações internas devido ao feedback da superfície maleável, mas tam- bém faz as explorações na consciência muscular, o aterramento, o centramento, os reflexos protetores e a força interna trazer uma dimensão comple- tamente nova para o desenvolvimento da consciência corporal. O terapeuta, é claro, deve se assegurar de que o paciente está bem presente e integrado para não cair da bola e se machucar. A próxima técnica também ajuda os pacientes a se manter conscientes de suas sensações corporais enquanto aprendem a lidar com a asserti- vidade e a agressão. Primeiro, peça ao paciente que fique em pé e olhe para você. É importante certificar-se de que ele esteja confortável com a distância entre vocês. Em seguida, peça-lhe que repare nas coisas de que está ciente enquanto seus pés tocam o chão. Depois, incentive-o a ampliar sua per- cepção, subindo pelos tornozelos, panturrilhas e coxas. Para estimular uma sensação de aterramento, continue esse exercício propondo uma alter- nância de peso, lenta e suave, de um pé para o outro. Você também pode sugerir que o paciente imagine os pés como ventosas (como os pés dos sapos) enraizadas na terra de maneira flexível. Em seguida, peça-lhe que preste atenção nos quadris, na coluna, no pescoço e por último na cabeça. Agora diga a ele para notar como seus ombros estão unidos ao pescoço como uma tenda. A conscientização da respiração é estimulada quando pedi- mos ao paciente que sinta os ombros suavemente subindo e descendo a cada respiração. Agora faça-o centrar-se no peito e na barriga e, usando a respiração, ajude-o a localizar o centro de gravidade em seu abdome. Novamente, peça a ele que alterne o peso de um pé para o outro e depois acres- cente uma leve oscilação para a frente e para trás. Esse tipo de movimento requer uma capacidade proprioceptiva bastante sofisticada (posição das ar- ticulações) e uma percepção da tensão muscular (cinestesia)³⁴. À medida que o paciente faz esses movimentos, peça que imagine um fio de prumo partindo de seu centro até o chão abaixo de seus pés. Finalmente, peça a ele que perceba como esse fio se move junto com seu leve movimento de oscilação. Um paciente que tenha desenvolvido essa consciência centrada está pronto para seguir para a posição demonstrada na Figura 6.3a³⁵.
Figuras 6.3a e 6.3b Exercício de conscientização física para desenvolver a vivência da agressão saudável. Posicionamento da mão para suscitar agres- são saudável (Figura 6.3a). A ideia, agora, é fazer o paciente sentir os pés no chão, sentir seu centro e então empurrar de forma firme, porém suave, a mão do terapeuta (veja a Figura 6.3b). O terapeuta deverá oferecer resistência suficiente apenas para permitir que o paciente sinta que está empurrando para fora de seu centro. Você solicitará a ele que sinta como o movimento parece se originar de sua barriga e se expressa passando por seus ombros, braços e mãos. Continue falando com o paciente para assegurar-se de que a resistência está boa – nem demais nem de menos – e de que a distância o faz sentir-se seguro. Caso o paciente se sinta inseguro, primeiro pergunte a ele se consegue indicar onde gostaria que você ficasse. Agora sugira que tente notar em que lugar do corpo ele sente insegurança ou instabilidade, e depois peça-lhe para notar o que acontece se voltar sua atenção para os pés e as pernas. Peça a ele que tente reviver a sensação de aterramento estabelecida no início do exercício. Quando o paciente for capaz de sentir segurança, peça-lhe que repare em que lugar do corpo ele se sente seguro agora e descreva como está vivenciando sua sensação (em geral, completamente nova) do self. Repita essa ativi- dade de resistência diversas vezes, fazendo que o paciente empurre com as duas mãos, até que haja um afrouxamento e surja uma sensação de confi- ança. O próximo passo desse exercício demanda um dar e receber entre terapeuta e paciente, cada um alternadamente empurrando e recebendo o movimento. Quando o corpo é capaz de vivenciar uma sensação relaxada de força, a mente consegue experimentar uma sensação relaxada de alerta e foco. A próxima ferramenta somática tem por finalidade ajudar os sobreviventes de TEPT a aprender que, mesmo quando se sentem paralisados, há uma reação ativa latente de corrida e fuga dentro deles. Uma nova vivência dessa defesa adormecida contradiz o encontro traumático com o conge- lamento e o aprisionamento (veja a Figura 6.4). É essencial que o terapeuta coloque no chão uma almofada firme e volumosa o bastante para que possa absorver o impacto dos movimentos de corrida, caso eles aconteçam. Comece pedindo ao paciente que faça movimentos de corrida estando sentado. Incentive-o a alternar as pernas suavemente, levantando e abaixando, enquanto presta atenção na forma como quadris, pernas, tornozelos e pés se organizam de dentro para fora. A chave é fazer que o paciente fique completamente consciente de suas pernas enquanto realiza esses movi- mentos. Em outras palavras, ele precisa permanecer presente para essa vivência corporal, em vez de apenas executar ou dramatizar o ato de correr de forma mecânica. Isso não é uma representação, mas sim um aumento intencional da percepção cinestésica e proprioceptiva, que diz ao paciente de que maneira seu corpo e cérebro, juntos, estão preparados para protegê-lo acionando padrões de movimento de fuga inatos. Depois, quando o paci- ente trouxer algum material traumático ligado à sensação de estar congelado ou de não conseguir fugir, faça-o deixar isso de lado e, novamente, sentir as pernas. Faça que seu paciente comece a correr sem sair do lugar, como fez antes, para incorporar essa nova consciência de poder. Dessa forma, a vivência direta da “sabedoria do corpo” se desenrola enquanto os músculos descarregam sua energia latente.
Figura 6.4 Praticando de forma segura a reação de correr para fugir com o objetivo de combater a sensação de estar aprisionado e impotente. É importante desenvolver a consciência da corrida. A fala da barriga
Há muito tempo já se sabe que o cérebro pode influenciar nossos órgãos internos. Quando esse processo não funciona bem, a pessoa se torna a desafortunada portadora da chamada doença psicossomática. A ideia principal do efeito de mão única da mente sobre o corpo evoluiu para o “para- digma psicossomático” dos anos 1930 até 1950. Hoje em dia, isso é senso comum, e poucos médicos negam que uma mente extenuada e emoções instáveis afetam o corpo humano na forma de distúrbios “funcionais”, entre eles pressão alta, sintomas gastrintestinais, dor crônica, fibromialgia e enxaquecas, assim como inúmeras outras doenças denominadas idiopáticas. Em 1872, entretanto, muito antes do aparecimento da medicina psicos- somática, o extraordinário Charles Darwin percebeu que havia uma vital ligação de mão dupla entre cérebro e corpo: Quando o coração é afetado, ele reage no cérebro; e o estado do cérebro reage através do pneumogástrico no coração; então, qualquer estímulo ocasionará muita ação e reação mútuas entre eles, os dois mais importantes órgãos do corpo.³⁶ [grifo meu] O nervo “pneumogástrico” ao qual Darwin se refere não é outro senão o nervo vago descrito na teoria polivagal de Porges. O nervo vago primitivo (desmielinizado) do sistema de imobilização liga o cérebro à maioria dos órgãos internos. Ele é o segundo maior nervo do nosso corpo, comparável em tamanho à medula espinal. Especificamente, esse nervo trabalha sobretudo para o sistema gastrintestinal, influindo na ingestão, digestão, assimi- lação e excreção. Ele também afeta de forma significativa o coração e os pulmões, como Darwin claramente identificou. Além disso, há um maciço plexo de nervos embutido no revestimento da própria parede gastrintestinal. Essa complexa rede de neurônios senso- riais, motores e interneurônios (células nervosas que fazem a conexão entre os neurônios sensoriais e motores) integra os órgãos digestivos e excre- tores para que funcionem de forma coerente³⁷. Esse intrincado sistema tem aproximadamente o mesmo número de neurônios e matéria branca que o cérebro de um gato. Por causa dessa complexidade, por vezes foi chamado de segundo cérebro ou cérebro entérico; os outros três são o cérebro reptiliano (instintivo), o paleomamífero (límbico/emocional) e o neocórtex dos primatas (expandido, racional). O sistema nervoso entérico é nosso cérebro mais antigo, tendo evoluído há centenas de milhões de anos. Ele produz muitos hormônios benéficos, inclusive 95% da serotonina do corpo³⁸, sendo por- tanto uma fábrica essencial e natural de hormônios do bem-estar, além de local de armazenamento destes³⁹. Surpreendentemente, 90% do nervo vago que liga vísceras e cérebro é sensorial! Em outras palavras, para cada fibra nervosa motora⁴⁰ que retransmite comandos do cérebro para o intestino, nove nervos sensoriais enviam informações sobre o estado das vísceras para o cérebro. As fibras sensoriais no nervo vago captam as complexas telecomunicações que estão ocorrendo no intestino e as retransmitem, primeiro para o tronco cerebral (médio) e de- pois para o tálamo. A partir daí, esses sinais influenciam quase todo o cérebro, e “decisões” subliminares que influenciam profundamente nossas ações são tomadas. Muitas coisas das quais gostamos ou não gostamos, coisas que nos atraem ou nos repelem, assim como medos irracionais, são resultado dessas computações implícitas em nosso estado interno. Pode-se dizer que os humanos têm dois cérebros: um no intestino (o cérebro entérico) e o “cérebro lá de cima”, instalado no domo abobadado do crânio. Esses dois cérebros têm comunicação direta um com o outro, estabelecida pelo imponente nervo vago. E se quisermos falar de números – nove nervos sensoriais/aferentes para cada nervo motor/eferente – as vísceras parecem ter mais a dizer aos nosso cérebro (na razão de 9:1) do que o cére- bro tem a dizer às vísceras⁴¹! Vamo-nos aprofundar no exame das funções desse enorme nervo, que além de unir órgãos e cérebro também funciona primordialmente na dire- ção do intestino para o cérebro. Em primeiro lugar, por que razão é importante para o corpo falar com o cérebro? Partindo da perspectiva da evolução (e a parcimônia usual da natureza), não é provável que tal miríade de fibras nervosas fosse distribuída para tornar possível uma comunicação bidirecional se essa conexão não tivesse importância vital. A maioria de nós já sentiu um frio na barriga quando alguém nos pediu para falar em público. Por outro lado, dizemos que algumas pessoas são “amargas” ou “biliosas”⁴². Às vezes também dizemos que estamos com um “nó nas tripas” ou “revirados por dentro”⁴³. Ou podemos estar “com um peso no coração”. E abençoados são os momentos em que nos entregamos à alegria de “sentir dor na barriga” de tanto rir. Podemos ainda estar com “o coração aberto”, sentindo paz interior e amor ao próximo. Nas ocasiões em que obtemos sucesso, o peito “se enche de orgulho”. É essa a variedade de mensagens pungentes que emana de nossas vísceras. Quando estamos ativados para lutar ou fugir (ativação simpática), as vísceras se contraem e a motilidade do sistema gastrintestinal é inibida. Afi- nal de contas, não faz sentido gastar uma enorme quantidade de energia metabólica na digestão quando ela pode ser mais bem utilizada na aceleração do ritmo cardíaco e no fortalecimento da contração do coração, e também para tensionar os músculos para que estejam prontos para a ação iminente. Quando somos mortalmente ameaçados, ou quando a ameaça é interna (por exemplo, por causa de uma gripe ou pela ingestão de comida conta- minada por bactérias), a reação de sobrevivência é vomitar ou expelir o conteúdo do intestino com uma diarreia e depois nos deitarmos imóveis, como se estivéssemos economizando energia. É possível que as presas também recorram a essa reação quando um predador as ataca de repente, saindo de um lugar muito próximo. Nesse caso, a violenta expulsão do conteúdo intestinal do animal pode de fato torná-lo mais leve, o que lhe dá mais chance de escapar. Essa vantagem, que dura apenas uma fração de segundo, pode significar a diferença entre viver ou morrer. Já presenciei isso diversas vezes, ao ver um leão da montanha dar um bote em um grupo de cervos que bebia água no rio North St. Vrain, que passa atrás de minha casa no Colorado. Os poderosos efeitos tanto do nervo simpático quanto do vago nas vísceras têm funções fundamentais de sobrevivência. A ativação desses dois sistemas deve ser breve, em resposta a uma súbita emergência repentina. Quando ficam presos (seja em esgotamento simpático ou superatividade vagal), a função de sobrevivência é drasticamente subvertida: a pessoa pode acabar sofrendo com dores no intestino, como no caso de persistente hi- perativação simpática, ou ser atormentada por espasmos de cólicas e diarreia em hiperatividade vagal crônica⁴⁴. Quando o equilíbrio não é restaurado, esses estados se tornam crônicos, e a doença se instala. Juntos, esses complexos sistemas (o vago e o plexo entérico), como acontece em um bom casamento, colocam o intestino e o cérebro em perfeita harmonia ou em uma terrível e interminável batalha. Quando há equilíbrio coerente entre os dois, o fulcro hedonista (relacionado ao prazer ou às sensações prazerosas) se inclina na direção do paraíso. Quando a relação reguladora está desajustada, os portões do inferno se escancaram como a enorme boca da infelicidade. O meio é a mensagem Nosso sistema nervoso avalia as ameaças de duas formas básicas. Primeiro, usamos os órgãos externos dos sentidos para discernir e aquilatar a ameaça com base em características patentes presentes no entorno. Então, por exemplo, uma súbita sombra nos alerta sobre um risco potencial, ao passo que os contornos de um enorme urso assomando à nossa frente ou a lustrosa silhueta agachada de um leão da montanha nos avisam que esta- mos realmente em perigo. Também avaliamos ameaças diretamente a partir do estado de nossas vísceras e de nossos músculos – nossos órgãos internos dos sentidos. Se os músculos estão tensos, inconscientemente interpretamos essas tensões como um prenúncio da existência de perigo, mesmo na ausên- cia de algum perigo real. Músculos contraídos no pescoço e nos ombros podem, por exemplo, sinalizar para o cérebro que você provavelmente vai apanhar. Pernas tensas, junto com olhos furtivos, podem indicar que você precisa correr e fugir, já braços retesados talvez sinalizem que você está pronto para lutar. Sofremos uma angústia ainda maior quando nossas vísceras são persistentemente superestimuladas pelo nervo vago. Se estamos
nauseados, sentindo os músculos entrando em colapso, as vísceras retorcidas e falta de energia, isso nos faz sentir desamparados e desesperados – mesmo que não haja de fato uma ameaça que possa nos dizimar. Em outras palavras, a intensa agitação em si sinaliza ameaça grave e pavor para o cérebro, mesmo quando não há nada errado – pelo menos externamente. Nosso estado muscular e visceral influencia tanto nossa percepção quanto nossa avaliação das intenções alheias. Embora possamos por vezes acreditar que certas pessoas não nos farão mal, ainda assim nos sentimos em perigo⁴⁵. Mesmo algo tão inofensivo quanto um quarto, uma esquina ou um campo ensolarado podem parecer apavorantes. Inversamente, sentir os músculos e a barriga relaxados (e bem tonificados) pode sinalizar segu- rança, mesmo quando nosso dia a dia está uma confusão. Para ilustrar esse fato, certa vez ouvi alguém dizer o seguinte depois de uma massagem cor- poral completa: “O mundo não é um lugar tão ruim, afinal. Sinto-me ótimo”. Se, por um lado, uma boa massagem é uma forma fantástica de propor- cionar à pessoa uma nova maneira de se sentir bem, por outro, será necessário haver uma mudança mais profunda no contínuo diálogo que se dá na estrada cérebro-intestino para liberar mais do que apenas o congestionamento causado por estresse crônico e trauma. As intensas reações viscerais associadas à ameaça visam ser agudas e temporárias. Logo que o perigo passa, essas reações (seja inibição da moti- lidade gástrica pelo sistema nervoso simpático ou violenta superestimulação da motilidade pelo nervo vago primitivo) precisam cessar para que o orga- nismo retorne ao equilíbrio, renovado e fluindo no aqui e agora. Quando o equilíbrio não é restaurado, a pessoa permanece em angústia aguda e, fu- turamente, crônica. Para evitar o trauma, assim como para revertê-lo depois que ele já aconteceu, as pessoas precisam ter consciência de suas sensações viscerais⁴⁶. Além disso, nossas sensações viscerais são vitais para a orquestração de sentimentos positivos de vitalidade e para a condução da vida. Elas também são a fonte de grande parte de nossa intuição. Como podemos aprender com as práticas xamânicas e espirituais assimiladas por milhares de anos no mundo inteiro, sentimentos de bem-estar são incorporados diretamente como sensações viscerais. Quando ignoramos nossos “instintos viscerais”, pagamos um alto preço, ou pior, colocamo-nos em grave risco. Em estados de imobilização e desligamento, as sensações em nossas vísceras são tão apavorantes que de costume as bloqueamos da consci- ência. Mas essa estratégia de “ausência” na melhor das hipóteses só mantém o status quo, fazendo que cérebro e corpo permaneçam irremedi- avelmente presos em um engarrafamento de informações. Em seguida apresento outra estratégia simples para desfazer o nó cérebro/intestino. Um som eficiente: “vuu” A primeira sede de nossa consciência primitiva está no plexo solar, o grande centro nervoso localizado atrás do estômago. É a partir desse centro que, em primeiro lugar, estamos dinamicamente conscientes. D. H. Lawrence, A psicanálise e o inconsciente Assim como inúmeras outras pessoas, já experimentei diversas práticas de canto e de “vocalização” antigas que facilitam o processo de cura e aju- dam a abrir as “portas da percepção”. Em cerimônias religiosas e espirituais em todas as culturas, cantar e entoar cânticos são práticas usadas para “aliviar a carga” da existência terrena. Quando nos abrimos para cantar em tons profundos, ressoantes, vindos da parte inferior do abdome, também abrimos o peito (coração e pulmões), a boca e a garganta, estimulando de forma prazerosa os diversos ramos serpenteantes do nervo vago⁴⁷. Alguns cantos tibetanos vêm sendo usados com sucesso há milhares de anos. Em minha prática, utilizo um som emprestado (com algumas mo- dificações) de alguns desses cantos. Esse som abre, expande e faz vibrar as vísceras de uma forma que dá novos sinais a sistemas nervosos desligados ou hiperestimulados. A prática é bastante simples: emita um som “vuuu...” prolongado, concentrando-se nas vibrações estimuladas na barriga en- quanto expira todo o ar. Quando apresento a meus pacientes o som “vuu”, em geral peço que imaginem o som grave de uma sirene que atravessa um nevoeiro denso e es- curo avisando às embarcações que elas estão se aproximando da terra firme e guiando-os para casa com segurança. Essa imagem atua em diferentes níveis. Primeiro, a imagem do nevoeiro representa a névoa do entorpecimento e da dissociação. A sirene representa o farol que guia a embarcação (alma) perdida de volta para um porto seguro, para casa na respiração e na barriga. Essa imagem também inspira o paciente a assumir o papel de herói que protege marinheiros e passageiros de um perigo iminente, além de lhe permitir não ser tão sério e, assim, poder brincar. O mais importante são os efeitos fisiológicos da imagem. As vibrações sonoras de “vuu” avivam sensações das vísceras, ao passo que a expiração completa produz o perfeito equilíbrio de oxigênio e dióxido de carbono⁴⁸. Antes de começar o exercício, encontre um lugar confortável onde sentar. Agora, inspire lentamente, faça uma pequena pausa e, em seguida, ao expirar, suavemente emita o som “vuu”, sustentando-o durante toda a expiração. Faça o som vibrar como se estivesse vindo da sua barriga. Quando tiver expirado todo o ar, faça uma breve pausa e permita que a próxima inspiração encha sua barriga e seu peito devagar. Quando sentir que a inspi- ração já está completa, faça outra pausa e novamente emita o som “vuu” na expiração até que ela pareça completa. É importante deixar que o som e o ar saiam totalmente, em seguida fazer uma pausa e esperar que a próxima inspiração aconteça por conta própria, quando ela estiver pronta para acon- tecer. Repita esse exercício várias vezes e depois descanse. Em seguida, concentre-se em seu corpo, principalmente no abdome, a cavidade interna que abriga seus órgãos. Essa “vocalização”, com ênfase tanto na espera quanto na permissão, tem múltiplas funções. Primeiro, direcionar o som para a barriga provoca um tipo especial de sensação enquanto mantém o ego observador “online”. As pessoas costumam relatar diversos tipos de vibração e formigamento, assim como mudanças de temperatura – normalmente de frio (ou quente) para fresco e morno. Essas sensações são em geral agradáveis (com alguma prática, ao menos). O mais importante é que elas contradizem as sensações associadas ao estado de imobilidade que nos causam agonia, náusea, tor- por, que nos fazem sentir revirados por dentro e sem vigor. É bem provável que a mudança nas mensagens aferentes (dos órgãos para o cérebro) possi- bilite que 90% do nervo vago sensório (ascendente) influencie de forma vigorosa os 10% que vão do cérebro para os órgãos a fim de restaurar o equilíbrio⁴⁹. Porges concorda com esse sistema regulador fundamental: “O feedback aferente das vísceras fornece um mediador essencial da acessi- bilidade dos circuitos pró-sociais associados aos comportamentos de interação social”.⁵⁰ As saudáveis sensações suscitadas pela combinação de respiração e das reverberações de som permitem que a pessoa entre em contato com uma segurança e uma confiança internas e com certo senso de orientação no aqui e agora. Elas também facilitam um grau de contato frente a frente, olho no olho, voz a ouvido, eu-tu, e assim possibilitam que o paciente negocie uma pequena abertura para o “sistema de interação social”. Este, então, ajuda-o a desenvolver forte resiliência por meio de ciclos cada vez mais amplos de ativação simpática (carga) e descarga e, com isso, a aprofundar a regulação e o relaxamento. Charles Darwin, posso imaginar satisfeito, teria aprovado a aplicação clínica do “vuu” em sua sagaz, anatômica e fisiológica obser- vação de 1872. Há ainda outro exercício que pode propiciar aos pacientes uma forma de lidar com os angustiantes sintomas de ativação e regulá-los. Essa técnica de “autoajuda” foi extraída de um sistema de “fluxos de energia” chamado Jin Shin Jyutsu⁵¹. As Figuras 6.5a a 6.5d demonstram uma sequência simples
de Jin Shin que serve para ajudar os pacientes a aprender a regular a ativação e aprofundar o relaxamento⁵². Mais uma vez, sugiro que os terapeutas pri- meiro experimentem esses exercícios em si mesmos antes de ensiná-los aos pacientes. Incentive-os a praticá-los em casa, primeiro quando estiverem calmos e depois quando estiverem angustiados. Cada posição pode ser mantida por dois a dez minutos. O paciente deve buscar uma sensação de fluxo de energia ou de relaxamento. Fluxos de energia Jin Shin Jyutsu Figuras 6.5a e 6.5b As figuras mostram as posições do braço/da mão para conter a ativação e promover a autocompaixão.
Figuras 6.5c e 6.5d Vemos aqui as posições do braço/da mão que ajudam a estabelecer fluxos de energia entre a parte superior e a parte inferior do corpo. Esses exercícios promovem o relaxamento. Comentários sobre feedback e regulação vital Em 1932, Sir Charles Sherrington recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina ao demonstrar que o sistema nervoso é constituído de uma combinação de células nervosas excitatórias e inibitórias. É o equilíbrio desses dois sistemas neurais que nos permite mover os membros de forma fluida, coordenada e precisa. Sem a inibição, nossos movimentos seriam de todo espásticos e descoordenados. Embora o trabalho de Sherrington tenha sido essencialmente sobre o sistema sensório-motor (no nível da medula espinal), o equilíbrio dos sistemas excitatórios exercido pelos inibi- tórios ocorre em todo o sistema nervoso e é considerado um de seus princípios fundamentais. Essa organização é a arquitetura básica de autorregulação. Vamos dar uma olhada em uma analogia da vida cotidiana. Em sua forma mais simples (mecanoelétrica), regulação é o que permite que a temperatura de nossa casa seja mantida dentro de uma faixa con- fortável, seja qual for a temperatura do lado de fora. Então digamos que em um dia de inverno gostaríamos de manter a temperatura dentro de casa em agradáveis 21º C. Para isso, colocamos o termostato na temperatura desejada. Com isso, o sistema de calefação é acionado. Entretanto, ele não fica li- gado o tempo todo. Se ficasse, a temperatura continuaria a subir, e teríamos de abrir as janelas para diminuir o calor. Mas aí, quando a temperatura bai- xasse, teríamos de fechar as janelas novamente. O motivo pelo qual não precisamos fazer isso tudo é que a temperatura é controlada por um ciclo de feedback negativo. Como o sistema inibitório de Sherrington, a temperatura sobe até, digamos, 22 graus. Então, o sistema de calefação se desliga e permanece desligado até a temperatura cair a 20 graus, quando o sistema é de novo acionado. Isso traz a temperatura de volta aos 22 graus, o que nos dá uma média de 21 graus. Com a ajuda de um agasalho leve de algodão, obtemos um ambiente relativamente confortável. Se, por outro lado, o
sistema de calefação aumentasse quando a temperatura subisse, teríamos uma situação bastante desconfortável. Não só precisaríamos tirar o agasalho, como logo estaríamos andando nus pela casa. No primeiro exemplo, temos uma temperatura harmoniosamente controlada, mediada por um sistema de feedback negativo (com consequências positivas). No segundo, temos um ciclo de feedback positivo com consequências negativas; nossa casa se transforma em uma sauna. Na angústia e no trauma, acredito que um ciclo de feedback positivo com consequências extremamente negativas esteja estabelecido. De fato, a mai- oria de nós reconhece que as emoções negativas fundamentais logo se transformam em ciclos de feedback positivo de fuga que se autofortalecem. Medo e raiva podem rapidamente explodir em pavor e fúria. Aqui o trauma é a ouroboros, a serpente que engole a própria cauda, recriando-se eterna- mente. Na enervação recíproca descoberta por Sherrington, o sistema nervoso opera sobretudo como um sistema de feedback negativo muito parecido – mas infinitamente mais complicado – com o termostato de uma casa. A autorregulação do complexo sistema nervoso exibe o que chamamos de propri- edades emergentes, que normalmente são um tanto imprevisíveis e ricas em nuanças. Elas costumam levar a novas e criativas soluções e são muito apreciadas quando acontecem na vida e na psicoterapia. Então, enquanto o sistema nervoso opera de acordo com o princípio da autorregulação, a psi- que opera de acordo com as propriedades emergentes da autorregulação criativa. Podemos dizer que, enquanto o sistema nervoso se autorregula, a psi- que se ocupa dessas propriedades emergentes, ou seja, da autorregulação criativa. A relação entre as vísceras e o cérebro baseia-se num complexo sis- tema autorregulador. A riqueza das propriedades emergentes criativas permite que essas técnicas de “vocalização” e de respiração (como o som “vuu”) deem início a mudanças por todo o sistema nervoso. Em uma situação de ameaça mortal da qual não se pode escapar, o tronco cerebral, ou cérebro reptiliano, envia sinais intensos para as vísceras, fazendo que algumas entrem em hiperatividade (como acontece com o sistema gastrintestinal) e ou- tras se contraiam e se fechem, como acontece com os bronquíolos dos pulmões ou o batimento do coração. No primeiro caso (hiperatividade), temos sintomas como frio no estômago, nós no intestino ou diarreia ruidosa e incontrolável. Nos pulmões, temos sensações de aperto e sufocação que, quando crônicas, podem levar aos sintomas da asma. Da mesma maneira, o efeito do vago primitivo no coração é diminuir o batimento a um nível tão baixo que pode de fato levar à morte (vodu).⁵³ Como essas sensações são apavorantes, elas mesmas podem se tornar a fonte de ameaça. Então, em vez de vir de fora, a ameaça agora emana das profundezas de nossas entranhas, pulmões, coração e outros órgãos, podendo causar exatamente o mesmo efeito sobre as vísceras do que aquele causado pela ameaça original. Essa situação é o infeliz arranjo que propicia um ciclo de feedback positivo com consequências negativas desastrosas. Além disso, como as pessoas traumatizadas estão vivenciando sinais (intensos) de ameaça, elas projetam esse turbilhão interno para fora e assim veem o mundo como o responsável por sua angústia interna – e então se retiram da verdadeira fonte do pro- blema e de sua solução potencial. Essa dinâmica também destrói tanto o corpo quanto os relacionamentos. O som “vuu” – ao focar, em primeiro lugar, a conscientização no local interno do verdadeiro problema – permite que a pessoa comece a trans- formar sua vivência, que passa de terrível para agradável. Assim, a situação que era de ciclo de feedback positivo (com consequências negativas) passa a ser de ciclo de feedback negativo, que ajuda a restaurar o equilíbrio homeostático, a estabilidade e, portanto, as sensações de bem-estar. Essa mu- dança, ainda que breve, abre uma oportunidade para que o paciente sinta o calor da relação terapêutica que lhe dá apoio e, por sua vez, também pro- porciona um amortecedor contra a torrente de hiperativação (simpática) que vem logo a seguir. Assim, o sistema autorregulador (ciclo de feedback negativo) diminui a ativação, possibilitando sensações muito mais profundas, estáveis e duradouras de bem-estar, assim como um sistema nervoso e uma psique mais resilientes.⁵⁴
6UM MAPA PARA A TERAPIA
O mapa pode não ser o território, mas
com certeza ajuda a nos orientar.
Peter A.
Antigas vozes sem palavras
Assim como os mapas ajudam-nos a encontrar determinado lugar em uma cidade, os mapas do organismo¹ humano são importantes para percorrer o território do trauma e dar forma à sua cura. O revolucionário trabalho de Stephen Porges, diretor do Brain Body Center [Centro Corpo Cérebro] do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Illinois, forneceu-nos um mapa do tesouro– eloquente, bem fundamentado e claramente embasado – dos sistemas psicofisiológicos que governam o estado traumático. Esses mesmos sistemas também funcionam como mediadores dos sentimentos vitais de bem-estar e pertencimento. A teoria polivagal da emoção de Porges
² elucida os caminhos para a recuperação e a integração descritas no Capítulo 5. Além disso, seu modelo esclarece por que certas abordagens habituais à psicoterapia do trauma com frequência fracassam.
Resumidamente, a teoria de Porges afirma que, nos seres humanos, três subsistemas básicos de energia neural dão suporte ao estado global do sistema nervoso e aos comportamentos e emoções correlacionados. O mais primitivo desses três subsistemas (com cerca de 500 milhões de anos) se origina das primeiras espécies de peixes³. Esse sistema primitivo tem como funções a imobilização, a conservação metabólica e o desligamento. Seu alvo são os órgãos internos. O próximo no desenvolvimento evolutivo é o sistema nervoso simpático. Esse sistema de ativação global evoluiu do período reptiliano há cerca de 300 milhões de anos. Sua função é a mobilização e a ação aprimorada (como na luta ou fuga); seu alvo no corpo são os membros. Por último, o terceiro sistema, filogeneticamente mais recente (originado há cerca de 80 milhões de anos), existe apenas nos mamíferos. Esse subsistema neural é mais refinado nos primatas, nos quais atua como mediador de complexos comportamentos sociais e de vínculo. É o ramo do sistema nervoso parassimpático que regula o chamado nervo vago mamífero ou inteligente, que é neuroanatomicamente ligado aos nervos craniais que atuam como mediadores da expressão facial e da vocalização. Esse sistema mais recentemente adquirido aciona os músculos da garganta, do rosto, do ouvido médio, do coração e dos pulmões, que são inconscientemente intermediados e juntos comunicam nossas emoções, tanto para os outros quanto para nós mesmos⁴. Esse sistema mais refinado orquestra os relacionamentos, os vínculos e os laços afetivos e também atua como mediador da inteligência emocional. A Figura 6.1 resume os subsistemas nervosos básicos dos mamíferos. As funções básicas desses sistemas filogenéticos estão resumidas nas Figuras 6.2a a 6.2d.
Diagrama simplificado dos componentes polivagais
Figura 6.1
Hierarquia filogenética de estratégias de reação
Figura 6.2a Esta figura mostra como algumas partes do corpo são afetadas pelos subsistemas evolutivos.
Raízes evolutivas
Figura 6.2b A figura mostra o controle neural dos três sistemas filogenéticos: vago primitivo, simpático/adrenal e vago inteligente(mamífero).
Teoria polivagal: estágios filogenéticos de controle nervoso
Figura 6.2c O quadro acima resume os estágios filogenéticos dos sistemas simpático e polivagal.
Teoria polivagal: subsistemas emergentes de emoção
Figura 6.2d Isso mostra o efeito que os sistemas filogenéticos têm no aumento (sinal de +) ou na diminuição (sinal de -) da atividade dos sistemas de diversos órgãos.
Os sistemas nervosos estão sintonizados para avaliar riscos potenciais no entorno – um processo de avaliação inconsciente que Porges chama de neurocepção⁵. Se sentimos que o ambiente é seguro, nosso sistema de interação social inibe as estruturas troncocerebrais e límbicas mais primitivas que controlam a luta ou a fuga. Depois de um leve susto, você poderá, por exemplo, ser acalmado por outra pessoa – como quando uma mãe diz para o filho: Está tudo bem; foi só o vento.
Em geral, quando nos sentimos ameaçados ou apreensivos, primeiro olhamos para os outros, desejando chamar sua atenção, atrair seu olhar e sua voz e comunicar nossos sentimentos para garantir a segurança coletiva. Esses são os chamados comportamentos de apego. O apego é praticamente a única defesa das crianças pequenas, já que em geral elas não conseguem se proteger lutando ou fugindo. O apego para criar segurança costuma ser uma estratégia de sobrevivência de mamíferos e primatas contra predadores. Tendo de lidar com muitas ameaças, é menos provável que o indivíduo seja capturado. Além disso, se alguém no seu grupo o ameaça, talvez você tente primeiro ser gentilantes de lançar mão da luta ou fuga.
Entretanto, quando comportamentos pró-sociaisnão resolvem a situação ameaçadora, um sistema menos desenvolvido é acionado. Mobilizamos nossa reação de luta ou fuga. Finalmente, nessa "hierarquia default" – quando nenhum dos sistemas mais recentes (interação social ou luta/fuga) resolvem a situação, ou quando a morte parece iminente –, o último recurso é acionado. Esse sistema mais primitivo, que governa a imobilidade, o desligamento e a dissociação, assume o controle e domina todos os esforços de sobrevivência⁶.
O conceito de hierarquias default – descrito pela primeira vez pelo ilustre neurologista do final do século XIX Hughlings Jackson⁷ – continua sendo um princípio fundamental da neurologia⁸ e é uma regra básica da teoria de Porges. Basicamente, Jackson observou que, quando o cérebro está ferido ou pressionado, retorna a um nível de funcionamento mais primitivo no que se refere à evolução. Se houver uma recuperação subsequente, esse retorno será revertido, trazendo a pessoa de volta às funções mais refinadas. Esse é um exemplo do processamento de baixo para cima, tão importante na terapia do trauma.
Quanto mais primitivo é o sistema operativo, mais poder ele tem de assumir o controle da função global do organismo, o que faz inibindo os subsistemas neurológicos mais recentes e mais refinados, impedindo, de forma eficaz, que funcionem. De maneira específica, o sistema de imobilização reprime quase completamente o sistema de engajamento/apego. Quando estamos mortos de medo, restam-nos poucos recursos para orquestrar os comportamentos complexos que atuam como mediadores entre o apego e a tranquilização; a interação social é suprimida. O sistema nervoso simpático também bloqueia o sistema de interação social, mas não de forma completa, como o faz o sistema de imobilização (a mais primitiva das três defesas).
A imobilidade e a hiperativação são, como explicamos, respostas organísmicas à ameaça e ao estresse prolongado. Quando elas estão em atividade, o perigo (no caso de luta ou fuga) e a destruição (com a imobilidade) são aquilo que a pessoa percebe – não importa qual seja a realidade da situação externa. O sistema nervoso humano não faz, de imediato, uma distinção entre uma fonte potencial de perigo no entorno, como uma sombra que se move de repente, e a angústia a respeito de uma situação ocorrida muito tempo atrás⁹. Quando a angústia é gerada interiormente (pelos músculos e vísceras), a pessoa sente uma urgência obsessiva de localizar a fonte de ameaça ou (quando isso não é possível) de fabricar uma a fim de explicar a si mesma que existe uma fonte identificável de ameaça.
Pessoas muito traumatizadas e cronicamente negligenciadas ou que sofreram abuso são dominadas pelo sistema de imobilização/desligamento. Por outro lado, aquelas com traumas agudos (normalmente ocasionados por um único acontecimento recente e sem histórico de trauma, negligência ou abuso repetidos) são, em geral, dominadas pelo sistema simpático de luta ou fuga. Elas tendem a sofrer com flashbacks e taquicardia, enquanto as
pessoas cronicamente traumatizadas não costumam demonstrar nenhuma mudança, nem mesmo uma diminuição da frequência cardíaca. Essas pessoas tendem a ser atormentadas por sintomas dissociativos, entre eles dispersão, falta de senso de realidade, despersonalização e vários problemas somáticos e de saúde. Entre os sintomas somáticos estão asma, dor persistente, fadiga crônica e falta de envolvimento.
Em uma pesquisa muito interessante, a atividade cerebral de pessoas que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) foi registrada por imagens de ressonância magnética funcional (RMF) enquanto ouviam a leitura de um roteiro traumático, que era a descrição explícita e detalhada de um trauma grave sofrido por alguém (como um acidente ou um estupro)¹⁰. Ao avaliar a localização e a intensidade da atividade cerebral, a RMF retratou-as como um arco-íris de cores¹¹. Então, por exemplo, cores azuis (frias) indicavam uma relativa redução na atividade cerebral, enquanto as cores vermelhas (quentes) poderiam indicar um aumento dessa atividade. A angústia dos voluntários foi intensificada pelo fato de estarem com a cabeça imobilizada, confinada em um tipo de cesto metálico muito barulhento. Nesses estudos, pelo menos 30% dos sujeitos apresentaram uma diminuição da atividade da ínsula e do córtex cingulado. O TEPT desses voluntários era caracterizado por dissociação e imobilidade (vagal). Por outro lado, cerca de 70% dos sujeitos estudados na pesquisa exibiram principalmente os sintomas mais simples de hiperativação e demonstraram um aumento drástico na atividade dessas mesmas áreas
¹². A ínsula e o cingulado são partes do cérebro que recebem informações sensoriais dos receptores dentro do corpo (interocepção) e formam a base daquilo que sentimos e reconhecemos como nossa identidade¹³. A baixa atividade retrata dissociação, enquanto a atividade excessiva está ligada à ativação simpática.
Em minha longa experiência clínica, descobri que muitas pessoas (talvez a maioria) apresentam alguns sintomas dos dois sistemas. A expressão dos sintomas parece depender de uma variedade de fatores, inclusive do tipo e da gravidade do trauma, da idade em que ocorreu e dos padrões traumáticos e conteúdos ativados durante o tratamento. É bem provável que também haja fatores constitucionais e de gênero em jogo. Além disso, essas constelações de sintomas tendem a mudar com o tempo e até mesmo em uma única sessão¹⁴. O mais importante é que o tratamento deve ser abordado de forma diferente segundo qual desses três sistemas seja ativado durante as sessões e quais fiquem inativos.
Para conduzir os processos de cura e transformação de forma eficaz nos pacientes, os terapeutas devem ser capazes de perceber e rastrear os vestígios e as expressões fisiológicas desses sistemas organísmicos. Uma vez que cada sistema polivagal hierárquico tem padrão próprio e único de expressões autônomas e musculares, os terapeutas precisam perceber esses indicadores – cor da pele, respiração, sinais posturais e expressões faciais – a fim de determinar o estágio (imobilização, hiperativação ou interação social) no qual estão seus pacientes e quando estão em transição para outro estágio.
Como vimos com Nancy, no Capítulo 2, um paciente pode ser submetido a uma montanha-russa desgovernada que transita pelos três subsistemas evolutivos, o que demanda mudanças paralelas de estratégia¹⁵. Quando, por exemplo, a pessoa está em hiperativação simpática, o terapeuta pode observar um retesamento dos músculos na parte anterior do pescoço (principalmente nos escalenos anteriores, esternoclidomastoídeos e nos músculos superiores dos ombros), postura rígida, nervosismo geral, olhar agitado, aumento na frequência cardíaca (que pode ser notado na artéria carótida na parte anterior do pescoço), dilatação das pupilas, respiração entrecortada e rápida e mãos frias, que podem parecer azuladas em especial na ponta dos dedos, assim como palidez e suor frio nas mãos e testa. Por outro lado, uma pessoa que está se encaminhando para o desligamento normalmente entra em colapso (como se o diafragma perdesse todo o seu vigor) e seu olhar é fixo ou vidrado, parecendo atravessar o que vê. Há uma marcante redução da respiração, uma desaceleração abrupta e debilidade da frequência cardíaca e contração das pupilas. Além disso, a pele normalmente fica pálida, com um branco desbotado ou mesmo acinzentado. E, concluindo, a pessoa socialmente envolvida tem uma frequência cardíaca de repouso em torno de 70 e poucos batimentos, respiração ampla e relaxada, mãos agradavelmente mornas e uma abertura de pupila moderada. Os terapeutas raramente estão treinados para fazer tais observações (embora possam praticar um pouco assistindo a episódios da série Lie to me)¹⁶.
Dos três sistemas básicos instintivos de defesa, o de imobilidade é controlado pelo mais primitivo dos subsistemas fisiológicos. Esse sistema neural (mediado pela parte mielinizada do nervo vago) controla a conservação de energia e é acionado apenas quando a pessoa percebe que a morte é iminente¹⁷ – seja a ameaça vinda do exterior, na forma de uma ameaça mortal, ou interna, como uma doença ou um ferimento grave¹⁸. Esses dois desafios requerem que a pessoa fique imóvel e conserve sua energia vital. Quando esse sistema mais arcaico domina, a pessoa não se move. Quase sem respirar, sua voz é estrangulada; e ela está com tanto medo que não consegue chorar – permanece imóvel preparando-se para a morte ou para a restauração celular.
Esse último recurso (sistema de imobilização) tem a finalidade de atuar de forma aguda e apenas por breves períodos. Quando é ativado de forma crônica, os seres humanos ficam aprisionados no limbo escuro e triste da não existência, no qual a pessoa não está nem vivendo verdadeiramente nem morrendo de fato. A tarefa inicial do terapeuta para conseguir acessar esses pacientes que se encontram desligados é ajudá-los a mobilizar sua energia: ajudá-los, primeiro, a se conscientizar de sua paralisia fisiológica e de seu desligamento de maneira que possam normalizar esse estado e mudar o foco na direção da mobilização (simpática). O próximo passo é conduzir de forma suave o paciente pela repentina ativação defensiva/de autoproteção, subjacente ao estado simpático, e de volta ao equilíbrio, ao aqui e agora e a um reenvolvimento com a vida.
Em geral, quando o paciente começa a sair do estado de congelamento, o segundo sistema mais primitivo (ativação simpática) é acionado em preparação para a luta ou fuga. Lembre-se de como Nancy passou da ativação simpática (sua frequência cardíaca disparou sem controle) para o pavor incontrolável, depois repentinamente para o desligamento (sua frequência cardíaca despencou de súbito), e então, por fim, para a mobilização e a descarga quando ativou os músculos de corrida e fugiu da imagem do tigre. Na fase simpática/de mobilização, uma tarefa terapêutica importante é assegurar que o paciente contenha essas intensas sensações de ativação sem ser dominado por elas (descrevi esse processo no Capítulo 5). Dessa forma, essas sensações são vivenciadas como ondas de energia intensas, mas com as quais é possível lidar, bem como sensações associadas à agressão e à autoproteção. Entre as experiências sensoriais estão vibração, formigamento e ondas de frio e calor (descrevi esses dois fenômenos no Capítulo 1 e em meu relato sobre Nancy no Capítulo 2).
Quando conseguimos atravessar as sensações de ativação, que às vezes se assemelham aos pinotes de um cavalo bravo, e começamos a travar amizade com elas de forma lenta e constante, aos poucos nos tornamos capazes de descarregar a energia que havia sido canalizada para os sintomas de hiperativação. Esse estágio inicial e parte fundamental da autorregulação, que também é o ingrediente básico para a restauração do equilíbrio, foi o que tirou a mim e a Nancy do limbo e nos trouxe de volta à vida. É somente após esse ponto de intervenção que o sistema de interação social, o terceiro subsistema evolutivo, começa a se religar. A pessoa que consegue sair da imobilidade e depois passar pela ativação simpática começa a sentir uma calma restauradora e cada vez mais profunda. Junto com essas sensações de estar relativamente ou bastante bem, surge uma necessidade, pode-se até dizer uma fome, de contato olho no olho¹⁹. Visto que esse intenso desejo pode, dolorosamente, não ter sido satisfeito em momentos críticos dos três estágios da infância e na adolescência (ou pode ter sido associado a vergonha, invasão e abuso), muitas vítimas de trauma precisam de orientação especial para negociar essa barreira de intimidade. Tal orientação terapêutica só poderá acontecer quando for fisiologicamente possível acessar esse sistema de interação social – ou seja, quando o sistema nervoso não estiver mais sob o jugo dos sistemas de imobilização e hiperativação.
A utilização intencional de uma expressão humana – mental ou física – preservada, franca e verdadeira do próprio profissional de saúde pode ser profundamente terapêutica. Apesar da natural preponderância dos sistemas de imobilização vagal e de ativação simpática na supressão da interação social, a capacidade do contato humano de ajudar a mudar o estado fisiológico interno de outra pessoa (por meio de envolvimento olho no olho e de
um toque adequado) não deve ser subestimada. Assim, como relatei no Capítulo 1, a pediatra de rosto doce que sentou ao meu lado depois de meu acidente me deu a centelha de esperança de que eu necessitava naquele exato momento para seguir em frente.
O delicado poder do rosto humano de confortar a fera selvagemfoi retratado em um filme cujo título é bastante revelador, O náufrago. Tom Hanks faz o papel de Chuck Noland, um homem que fica isolado em uma ilha remota e desabitada depois de sofrer um acidente aéreo do qual é o único sobrevivente. Parte da carga do avião também vai parar na ilha, e ela contém uma bola de vôlei branca da marca Wilson. Noland adequadamente passa a chamar a bola de Wilsone sem constrangimento a adota como mascote²⁰. Para sua surpresa, ela adquire vida própria, tornando-se confidente de seus pensamentos mais íntimos. Um dia, durante um ataque de fúria causado pela impotência diante da situação em que se encontrava, Noland joga a bola no mar, mas então – dando-se conta de quanto está apegado a Wilson – mergulha para trazê-la de volta. De volta à praia, ele desenha, como uma criança, traços faciais²¹ (olhos, nariz e boca) na bola de vôlei²². Wilson é agora seu mais íntimo companheiro, com quem compartilha pensamentos conturbados, os mais profundos anseios e sentimentos angustiados de solidão e desespero, assim como alegres triunfos. A ligação de Noland com Wilson é estranhamente reminiscente dos patinhos órfãos do etologista Konrad Lorenz e do forte vínculo (imprinting) que estabeleceram com uma bola branca depois que sua mãe foi afastada deles logo que saíram do ovo²³. Uma vez permanentemente ligados à bola como a uma mãe substituta, preferiam a bola a qualquer outra coisa, até mesmo a uma pata viva, fofinha e coberta de penas.
Finalmente, o personagem de Hanks se dá conta de que a ilha parece não fazer parte de nenhuma rota de navios e de que nunca será resgatado se ficar ali. Em sua malfadada tentativa de sair da ilha em uma jangada que construiu, Wilson é arrastado durante uma violenta tempestade, e Hanks fica inconsolável em seu pesar.
O contato olho no olho, alma a alma, reduz o impacto do mar revolto dos redemoinhos interiores. É ele que nos ajuda a amainar qualquer turbulência emocional. Portanto, apesar da gigantesca força primitiva dos sistemas de imobilização e de hiperativação, os terapeutas devem reconhecer o poder que o reconhecimento facial e a interação social têm de acalmar seus pacientes, de satisfazer suas necessidades emocionais mais profundas e de motivar muitos comportamentos, tanto conscientes quanto inconscientes. Para não desapontá-los, Noland, às portas da morte, é finalmente resgatado. Quando volta para casa, pega todos os pacotes que sobreviveram ao acidente e, viajando por todo o país, devolve-os aos donos. Sim, isso mesmo: olho no olho.
Privados de contato facial (e até mesmo cegos de nascença usam as mãos para veroutros rostos), sentimo-nos (como o personagem de Hanks) rejeitados, descartados, à deriva, isolados de nossas necessidades mais profundas e de nosso desejo de ter um propósito na vida. A maioria de nós ficaria louca sem alguma forma de contato olho no olho. Junto com o reconhecimento facial, o som, a entonação e o ritmo da voz humana (prosódia) também têm efeito igualmente tranquilizador. Mesmo para pacientes que não conseguem tolerar o contato olho no olho, o som da voz do terapeuta – como a mãe acalentando seu bebê – pode ser muito reconfortante e envolvente.
Em um trabalho revelador, o dr. Horvitz, importante cientista da computação, recentemente demonstrou seu sistema de voz, que pergunta aos pacientes sobre seus sintomas e responde com empatia²⁴. Quando uma mãe relatou que o filho estava com diarreia, o rosto na tela disse, em tom de solidariedade: Que pena; eu sinto muito. Essa simples declaração a tranquilizou e a ajudou a interagir com o programa de forma segura e autônoma. Um médico disse ao dr. Horvitz: É maravilhoso que o sistema reaja à emoção humana... eu não tenho tempo para isso. Talvez esse sistema computacional seja equivalente à bola de Chuck Noland. Sua empatiaprogramada certamente ajuda, mas é um substituto precário do original. Esse é um exemplo deprimente da crescente alienação de nossa cultura pós-moderna, que troca mensagens de texto 24 horas por dia. Enquanto muitos jovens mantêm contato com dezenas de pessoas por hora em relacionamentos cibernéticos, o autêntico envolvimento olho no olho está claramente em franco declínio. Como é triste e perturbador ver que o médico acreditava não ter um mínimo de tempo para essa comunicação tão básica e salutar – contato que ajudaria a humanizar os dois. Se praticado com regularidade, poderia até mesmo ajudar médico e paciente a prevenir o mal de Alzheimer ou outros tipos de demência²⁵.
Por que a terapia não dá certo
Muitas pessoas traumatizadas, e principalmente aquelas que o são de forma crônica, vivem em um mundo com muito pouco ou nenhum apoio emocional, o que as torna ainda mais vulneráveis. Depois de um acontecimento devastador – violência, estupro, cirurgia, guerra ou um acidente de automóvel – ou em consequência de uma infância de negligência e abuso prolongados, as pessoas traumatizadas, mesmo aquelas que moram com um amigo, um familiar ou um companheiro, tendem a se isolar. Às vezes, apegam-se de forma excessiva a outras pessoas na esperança de que, de alguma forma, elas as ajudem e protejam. Seja como for, essas pessoas são privadas da verdadeira intimidade – o clima saudável de pertencimento – que todos almejamos e da qual necessitamos para prosperar. As vítimas de trauma, ao mesmo tempo, têm pavor de intimidade e a evitam. Então, seja como for, evitando ou se apegando de forma excessiva, elas são incapazes de manter as ligações equilibradas, estáveis e benéficas de que todos nós precisamos, o vínculo igualitário descrito pelo teólogo judeu Martin Buber como a relação eu-tu²⁶.
Quando sua solidão fica pesada demais, as pessoas traumaticamente desconectadas podem ir em busca de ligaçõescada vez mais irreais (e às vezes perigosas). Elas veem cada nova possibilidade (ou impossibilidade) de relacionamento como a fonte de proteção e cuidado que acalmará sua ansiedade interna e manterá à tona sua frágil percepção do self. Ter tido uma infância de negligência e abuso as predispõe a relacionamentos caóticos. Essas pessoas continuam procurando o amor só em lugares errados– uma atitude insensata, como nos lembra uma canção. Mesmo quando o salvador idealizado (fantasioso) a trata mal, a pessoa parece alheia aos primeiros sinais desse abuso e se enreda cada vez mais em uma ligação nociva exatamente porque é tão familiar ou tem cara de família.
Corrigir tais padrões inadequados é o que provoca maior aflição em muitos terapeutas, que veem, sem poder fazer nada, os pacientes serem repetidamente despertados e seduzidos por relacionamentos autodestrutivos, revivendo seu trauma original. Muitos terapeutas se apegam à esperança de que eles, de alguma forma, poderão oferecer aos pacientes o relacionamento positivo, afirmativo (eu-tu) que atenuará a psique fraturada do paciente e restaurará sua alma ferida, tornando-a inteira novamente. Porém, o que acontece com frequência é que a dependência do paciente em relação ao terapeuta se intensifica e sai do controle, como foi tão bem mostrado no ótimo filme Nosso querido Bob²⁷ (1991). Nesse filme, Bob, o paciente abandonado, é tão dependente e seus sentimentos a respeito de ficar sozinho são tão intoleráveis que ele vai atrás de seu psiquiatra como um cão farejador e o segue em uma viagem de família para Cape Cod.
Por outro lado, se o paciente percebe o terapeuta, que deve ser uma pessoa capaz de curar, como um abusador substituto, a terapia normalmente leva o paciente a sentir decepção profunda e/ou fúria incontrolável. As vítimas de trauma não se tornam inteiras apenas por intermédio da relação terapêutica. Mesmo com a melhor das intenções e com habilidades de empatia extremamente desenvolvidas, os terapeutas em geral erram o alvo aqui. A teoria polivagal e o princípio jacksoniano de dissolução nos ajudam a entender como e por que isso acontece²⁸. Quando a pessoa traumatizada está presa na resposta de imobilização ou no sistema de ativação simpática, a função de interação social fica fisiologicamente comprometida; a primeira, em especial, tanto inibe a ativação simpática quanto pode suprimir o sistema de interação social quase de maneira completa.
Aquele cujo sistema de interação social está suprimido tem dificuldade de ler emoções positivas no rosto e na postura das outras pessoas e também é incapaz de sentir seus próprios afetos cheios de nuanças. Assim, a pessoa acha difícil saber se pode confiar no outro (saber se é ameaçador
ou seguro, amigo ou inimigo). De acordo com a teoria polivagal, estar em desligamento (imobilidade/congelamento/ou colapso) ou em hiperativação simpática (luta ou fuga) diminui bastante a capacidade da pessoa de receber e incorporar empatia e apoio. O dispositivo de segurança e bem-estar decididamente não está à mão. As pessoas traumatizadas estão dominadas pelo desligamento (o sistema de imobilidade) a tal ponto que estão fisiologicamente indisponíveis para o contato olho no olho e para o sereno compartilhar de sentimentos e apego. E, ao passo que a imobilidade quase nunca é total (como acontece, por exemplo, na esquizofrenia catatônica), seu poder de suprimir a vida e a capacidade de interação social de uma pessoa é extrema. Um jovem descreve sua situação sombria da seguinte maneira: Eu me sinto completamente sozinho no universo, dissociado da raça humana... Não tenho certeza nem mesmo de que existo... Todos são parte da flor; eu ainda sou parte da raiz²⁹. Não é de surpreender que, por mais que tentem, inúmeros pacientes traumatizados tenham pouca capacidade de receber apoio e carinho de seus terapeutas bem-intencionados – não porque não querem, mas porque estão presos na raiz primitiva de imobilidade com a capacidade de ler rostos, corpos e emoções extremamente reduzida; eles ficam isolados da raça humana.
Por essas razões um paciente desses pode não se acalmar de imediato diante dos sentimentos positivos e da atitude empática do terapeuta, vindo até a considerá-lo uma ameaça potencial. Incapaz de reconhecer manifestações de carinho e cuidado no rosto e nas posturas alheias, esse paciente acha muito difícil perceber se uma pessoa é inofensiva ou realmente confiável. E quando há uma grande expectativa com relação ao terapeuta um lapso qualquer ou um pequeno deslize não intencional por parte deste último pode fazer desmoronar por completo toda a relação.
Quando os pacientes dissociados e desligados (desconectados) se retraem de forma involuntária, sentem ainda mais autorrecriminação e culpa. Atormentados por sua perda de controle, são incapazes de aceitar e de responder ao afeto e à segurança que o terapeuta lhes oferece e podem estabelecer uma transferência improdutiva e atuação. Essa discrepância inerente deixa, com frequência, paciente e terapeuta desorientados e frustrados, com uma sensação de não estarem cumprindo seus papéis. O paciente pode ver esse fracasso como uma confirmação devastadora de sua incapacidade, contribuindo para uma vida inteira de fracassos (assim percebidos). Os terapeutas também podem se sentir confusos, desamparados, incapazes e se autocensurar. Tais situações, nas quais dois parceiros estão atados um ao outro, podem facilmente se transformar em complicados nós górdios. Esses becos sem saída terapêuticos talvez levem ao término da terapia.
Uma saída
Pessoas desligadas (desconectadas) e dissociadas não estão dentro do corpo, e são, como já vimos, quase incapazes de estabelecer um contato aqui e agora verdadeiro, por mais que tentem. Apenas quando conseguem pela primeira vez acionar seus sistemas de ativação (o bastante para arrancá-las da imobilidade e da dissociação), e depois descarregar essa ativação, é que se torna fisiologicamente possível estabelecer contato e receber apoio. Felizmente, existe uma maneira de escapar da dominação que o sistema de imobilização exerce sobre os outros dois sistemas que são menos primitivos – algo que os terapeutas precisam aprender a exercitar.
O trabalho de Lanius e Hopper sobre RMF mencionado anteriormente respalda essa solução terapêutica. Essa fascinante pesquisa, que registra a atividade na parte do cérebro associada à consciência dos estados corporais e das emoções, faz uma clara distinção entre ativação simpática e dissociação em indivíduos traumatizados. A área cerebral associada à consciência dos estados corporais e das emoções é chamada de ínsula anterior direita e está localizada na parte frontal do cérebro límbico (emocional), espremido bem abaixo do córtex pré-frontal – o lócus da nossa consciência mais refinada. A pesquisa demonstrou que a ínsula³⁰ é vigorosamente inibida durante o desligamento e a dissociação, confirmando que esses indivíduos traumatizados são incapazes de sentir o corpo, de diferenciar suas emoções ou mesmo de saber quem realmente são (ou quem os outros são)³¹. Por outro lado, quando os indivíduos estão em um estado de ativação simpática, essa mesma área fica fortemente ativada. Esse aumento drástico na atividade da ínsula anterior direita indica uma clara diferenciação que vai de pouca ou nenhuma consciência corporal (na imobilidade/desligamento e dissociação) a um ti-po de hipersensaçãona ativação simpática. Além disso, o estado simpático, pelo menos, proporciona a possibilidade de consciência, processamento e resolução coerentes. Esses dados dão respaldo aos passos cruciais para a resolução do trauma descritos no Capítulo 5 (Passo 5) e esclarecem ainda mais a estratégia de ajudar os pacientes a ir do desligamento à mobilização à medida que aprendem a lidar com suas sensações físicas (corporais) quando começam a entrar na ativação simpática.
Uma pesquisa análoga e seminal foi desenvolvida por Bessel van der Kolk³². Ele e seus colegas leram uma história traumática a um grupo de pacientes e compararam duas regiões cerebrais em cada um deles (medidas por RMF). Os pesquisadores descobriram que a amígdala cerebral, conhecida como detector de fumaçaou de medo, se acendia com atividade elétrica; ao mesmo tempo, uma região no córtex cerebral esquerdo chamada área de Broca se obscurecia. Esta última é o principal centro de linguagem – a parte do cérebro que apreende o que estamos sentindo e transforma isso em palavras. Esses escaneamentos cerebrais também demonstram que o trauma consiste em um pavor sem palavras. Muitas vezes, quando pessoas traumatizadas tentam expressar seus sentimentos por palavras – como quando, por exemplo, o terapeuta pede ao paciente que lhe conte sobre o estupro que sofreu –, elas falam como se o fato tivesse acontecido com outra pessoa (veja a história de Sharon no Capítulo 8). Ou então os pacientes tentam falar a respeito de seu pavor, ficam frustrados e se sentem inundados, sobrepujados, incorrendo em mais desligamento na área de Broca, e assim entram em um ciclo de feedback retraumatizante de frustração, desligamento e dissociação.
Essa barreira de linguagem nas pessoas traumatizadas torna especialmente importante trabalhar com as sensações – a única língua que o cérebro reptiliano sabe falar. Isso não só ajuda as pessoas a sair do desligamento e da dissociação como diminui a frustração do paciente, que se sente menos sobrepujado ao lidar com material traumático.
O corpo precisa estar fazendo alguma coisa para manter a ínsula, o córtex cingulado e a área de Broca ativados. Mesmo que a capacidade de envolvimento esteja inibida pelo sistema nervoso simpático, ela não está totalmente sufocada da mesma forma debilitante como acontecia com o sistema de imobilidade, mais primitivo. Em ativação simpática, os pacientes respondem melhor aos estímulos e sugestões de seu terapeuta, e também ficam mais receptivos à sua presença tranquilizadora. Por sua vez, é exatamente essa receptividade que ajuda a atenuar a ativação simpática. Quando o paciente começa a dar essa guinada para fora da imobilidade entrando na ativação simpática, o terapeuta perspicaz aproveita essa oportunidade momentânea – primeiro detectando a mudança do paciente e depois facilitando a conscientização de sua transição. O terapeuta, além de se empenhar para ampliar a conscientização do paciente a respeito do que está acontecendo com ele, ajuda-o a evitar ser totalmente tomado por uma ativação simpática intensa. Isso auxilia os pacientes a sair da imobilidade e a se mover através de ciclos completos de ativação, descarga/desativação e equilíbrio (Passos 7 e 8 do Capítulo 5). Dessa forma, a pessoa aprende que o que sobe (se ativa) pode e vai descer. Os pacientes aprendem a acreditar que uma ativação moderada se desenrola por si mesma quando não a evitamos nem recuamos diante dela: ou seja, quando não interferimos no curso natural das sensações de ativação. Assim o terapeuta pode ganhar o dia – dando a seus pacientes o dom dessa experiência corporal.
A conexão cérebro/corpo
Tudo que aumenta, diminui, limita ou expande o poder de ação do corpo aumenta, diminui, limita ou expande o poder de ação da mente. E tudo que aumenta, diminui, limita ou expande o poder de ação da mente também aumenta, diminui, limita ou expande o
poder de ação do corpo.
Espinosa (1632-1677), Ética
Muitos terapeutas, percebendo como é difícil acessar os pacientes extremamente dissociados e desligados/desconectados, desenvolveram valiosos métodos cognitivos e emocionais para ajudar a estabelecer essa conexão³³. As abordagens somáticas também podem ser extremamente úteis, ou mesmo fundamentais, nesse esforço de cura. Elas ajudam os pacientes a sair da imobilidade, entrar na ativação simpática – pela mobilização –, passar para a descarga da ativação e finalmente chegar ao equilíbrio, à incorporação e à interação social. Os exercícios seguintes de conscientização somaticamente fundamentados dão início a esse processo auxiliando os pacientes a sair do desligamento e da dissociação.
O primeiro é um exercício simples que os pacientes podem fazer sozinhos para ajudar a avivar sua sensação corporal e minimizar o desligamento, a dissociação e o colapso. Como podem praticá-lo na privacidade de casa, eles são poupados de um potencial constrangimento ou vergonha em seu processo de despertar. Esse exercício, e os seguintes, deve ser feito regularmente, por um bom tempo – e os terapeutas também devem praticá-lo.
Por cerca de dez minutos (algumas vezes por semana), tome uma chuveirada suave e intermitente da seguinte forma: exponha o corpo em intervalos regulares à água, que deve estar a uma temperatura agradável. Direcione a atenção para a região do corpo onde está concentrada a estimulação ritmada. Conduza sua consciência a cada parte de seu corpo. Por exemplo, posicione as costas das mãos embaixo do chuveiro, depois as palmas e os pulsos, em seguida a cabeça, ombros, axilas, os dois lados do pescoço etc. Tente incluir todas as partes do corpo e preste atenção à sensação em cada região, mesmo que seja uma sensação de vazio, dormência ou desconforto. Enquanto estiver fazendo isso, diga: "Este é o meu braço, a minha cabeça, o meu pescoçoetc. Seja bem-vindo de volta". Você também pode fazer esse exercício dando leves batidinhas nas mesmas partes do corpo com a ponta dos dedos. Quando feitos regularmente e por um longo período, esse exercício e os próximos ajudarão a restabelecer a consciência do limite de seu corpo pelo despertar de sensações da pele.
Uma continuação para esse exercício do chuveiro consiste em levar a consciência de limite para os músculos. Comece usando uma mão para pegar e suavemente apertar o antebraço oposto; depois aperte o braço, os ombros, pescoço, coxas, panturrilhas, pés etc. É essencial ficar atento à sensação dentro de seus músculos enquanto os aperta. Você pode começar a identificar a rigidez ou flacidez do tecido, assim como sua vitalidade. Em geral, músculos retesados, contraídos, são associados ao temor e à hipervigilância do sistema de ativação simpática. Por outro lado, ao contrário do que se poderia imaginar, os músculos ficam flácidos quando o corpo entra em colapso dominado pelo sistema de imobilização. No caso de músculos flácidos, você precisa persistir e segurá-los suavemente, quase como se estivesse carregando um bebê. Com a prática do toque suave e atento e dos exercícios de resistência, você aprenderá a trazer a vida de volta para esses músculos, à medida que as fibras passam a se ativar coerentemente, e assim vitalizar o organismo.
Esses dois exercícios devem ser feitos regularmente, diversas vezes por semana. À medida que a consciência corporal aumenta, eleva-se também a consciência de uma sensação mais palpável de limite, além de surgir uma vitalidade maior. Para alguns pacientes, aulas de ioga moderada ou de artes marciais, tais como tai chi, aikido ou chi kun, pode ser benéficas para restaurar a conexão com o corpo e em definir os limites corporais. Para que essas aulas sejam úteis, o professor precisa ter experiência em trabalhar com pessoas traumatizadas.
Mudando o paradigma
A maioria dos psicoterapeutas trabalha com os pacientes estando ambos sentados em cadeiras. Como sentar requer pouca informação proprioceptiva e cinestésica para manter a postura ereta, o corpo facilmente se torna ausente e desaparece para seu dono. Lembre-se do estudo de Lanius e Hopper com a RMF no qual pacientes dissociados demonstraram uma grande redução de atividade nas partes do cérebro (ínsula e cingulado) que registram as sensações do corpo. Em contrapartida, ficar de pé exige que a pessoa se envolva em pelo menos um pouco de atividade interoceptiva e conscientização para manter o equilíbrio via integração proprioceptiva e cinestésica. Muitas vezes, essa simples mudança de posição pode fazer diferença entre a capacidade, ou não, de o paciente se manter presente no corpo enquanto processa sensações e sentimentos difíceis. Outra variante favorável é convidar o paciente a sentar em uma bola de ginástica de tamanho adequado. Uma vez que ficar sentado em uma bola requer múltiplos ajustes para manter o equilíbrio, isso não só ajuda o paciente a ficar em contato com sensações internas devido ao feedback da superfície maleável, mas também faz as explorações na consciência muscular, o aterramento, o centramento, os reflexos protetores e a força interna trazer uma dimensão completamente nova para o desenvolvimento da consciência corporal. O terapeuta, é claro, deve se assegurar de que o paciente está bem presente e integrado para não cair da bola e se machucar.
A próxima técnica também ajuda os pacientes a se manter conscientes de suas sensações corporais enquanto aprendem a lidar com a assertividade e a agressão. Primeiro, peça ao paciente que fique em pé e olhe para você. É importante certificar-se de que ele esteja confortável com a distância entre vocês. Em seguida, peça-lhe que repare nas coisas de que está ciente enquanto seus pés tocam o chão. Depois, incentive-o a ampliar sua percepção, subindo pelos tornozelos, panturrilhas e coxas. Para estimular uma sensação de aterramento, continue esse exercício propondo uma alternância de peso, lenta e suave, de um pé para o outro. Você também pode sugerir que o paciente imagine os pés como ventosas (como os pés dos sapos) enraizadas na terra de maneira flexível. Em seguida, peça-lhe que preste atenção nos quadris, na coluna, no pescoço e por último na cabeça. Agora diga a ele para notar como seus ombros estão unidos ao pescoço como uma tenda. A conscientização da respiração é estimulada quando pedimos ao paciente que sinta os ombros suavemente subindo e descendo a cada respiração. Agora faça-o centrar-se no peito e na barriga e, usando a respiração, ajude-o a localizar o centro de gravidade em seu abdome. Novamente, peça a ele que alterne o peso de um pé para o outro e depois acrescente uma leve oscilação para a frente e para trás. Esse tipo de movimento requer uma capacidade proprioceptiva bastante sofisticada (posição das articulações) e uma percepção da tensão muscular (cinestesia)³⁴. À medida que o paciente faz esses movimentos, peça que imagine um fio de prumo partindo de seu centro até o chão abaixo de seus pés. Finalmente, peça a ele que perceba como esse fio se move junto com seu leve movimento de oscilação. Um paciente que tenha desenvolvido essa consciência centrada está pronto para seguir para a posição demonstrada na Figura 6.3a
³⁵.
Figuras 6.3a e 6.3b Exercício de conscientização física para desenvolver a vivência da agressão saudável. Posicionamento da mão para suscitar agressão saudável (Figura 6.3a).
A ideia, agora, é fazer o paciente sentir os pés no chão, sentir seu centro e então empurrar de forma firme, porém suave, a mão do terapeuta (veja a Figura 6.3b). O terapeuta deverá oferecer resistência suficiente apenas para permitir que o paciente sinta que está empurrando para fora de seu centro. Você solicitará a ele que sinta como o movimento parece se originar de sua barriga e se expressa passando por seus ombros, braços e mãos. Continue falando com o paciente para assegurar-se de que a resistência está boa – nem demais nem de menos – e de que a distância o faz sentir-se seguro. Caso o paciente se sinta inseguro, primeiro pergunte a ele se consegue indicar onde gostaria que você ficasse. Agora sugira que tente notar em que lugar do corpo ele sente insegurança ou instabilidade, e depois peça-lhe para notar o que acontece se voltar sua atenção para os pés e as pernas. Peça a ele que tente reviver a sensação de aterramento estabelecida no início do exercício. Quando o paciente for capaz de sentir segurança, peça-lhe que repare em que lugar do corpo ele se sente seguro agora e descreva como está vivenciando sua sensação (em geral, completamente nova) do self. Repita essa atividade de resistência diversas vezes, fazendo que o paciente empurre com as duas mãos, até que haja um afrouxamento e surja uma sensação de confiança. O próximo passo desse exercício demanda um dar e receber entre terapeuta e paciente, cada um alternadamente empurrando e recebendo o movimento. Quando o corpo é capaz de vivenciar uma sensação relaxada de força, a mente consegue experimentar uma sensação relaxada de alerta e foco.
A próxima ferramenta somática tem por finalidade ajudar os sobreviventes de TEPT a aprender que, mesmo quando se sentem paralisados, há uma reação ativa latente de corrida e fuga dentro deles. Uma nova vivência dessa defesa adormecida contradiz o encontro traumático com o congelamento e o aprisionamento (veja a Figura 6.4). É essencial que o terapeuta coloque no chão uma almofada firme e volumosa o bastante para que possa absorver o impacto dos movimentos de corrida, caso eles aconteçam. Comece pedindo ao paciente que faça movimentos de corrida estando sentado. Incentive-o a alternar as pernas suavemente, levantando e abaixando, enquanto presta atenção na forma como quadris, pernas, tornozelos e pés se organizam de dentro para fora. A chave é fazer que o paciente fique completamente consciente de suas pernas enquanto realiza esses movimentos. Em outras palavras, ele precisa permanecer presente para essa vivência corporal, em vez de apenas executar ou dramatizar o ato de correr de forma mecânica. Isso não é uma representação, mas sim um aumento intencional da percepção cinestésica e proprioceptiva, que diz ao paciente de que maneira seu corpo e cérebro, juntos, estão preparados para protegê-lo acionando padrões de movimento de fuga inatos. Depois, quando o paciente trouxer algum material traumático ligado à sensação de estar congelado ou de não conseguir fugir, faça-o deixar isso de lado e, novamente, sentir as pernas. Faça que seu paciente comece a correr sem sair do lugar, como fez antes, para incorporar essa nova consciência de poder. Dessa forma, a vivência direta da sabedoria do corpose desenrola enquanto os músculos descarregam sua energia latente.
Figura 6.4 Praticando de forma segura a reação de correr para fugir com o objetivo de combater a sensação de estar aprisionado e impotente. É importante desenvolver a consciência da corrida.
A fala da barriga
Há muito tempo já se sabe que o cérebro pode influenciar nossos órgãos internos. Quando esse processo não funciona bem, a pessoa se torna a desafortunada portadora da chamada doença psicossomática. A ideia principal do efeito de mão única da mente sobre o corpo evoluiu para o paradigma psicossomáticodos anos 1930 até 1950. Hoje em dia, isso é senso comum, e poucos médicos negam que uma mente extenuada e emoções instáveis afetam o corpo humano na forma de distúrbios funcionais, entre eles pressão alta, sintomas gastrintestinais, dor crônica, fibromialgia e enxaquecas, assim como inúmeras outras doenças denominadas idiopáticas. Em 1872, entretanto, muito antes do aparecimento da medicina psicossomática, o extraordinário Charles Darwin percebeu que havia uma vital ligação de mão dupla entre cérebro e corpo:
Quando o coração é afetado, ele reage no cérebro; e o estado do cérebro reage através do pneumogástrico no coração; então, qualquer estímulo ocasionará muita ação e reação mútuas entre eles, os dois mais importantes órgãos do corpo.³⁶ [grifo meu]
O nervo pneumogástricoao qual Darwin se refere não é outro senão o nervo vago descrito na teoria polivagal de Porges. O nervo vago primitivo (desmielinizado) do sistema de imobilização liga o cérebro à maioria dos órgãos internos. Ele é o segundo maior nervo do nosso corpo, comparável em tamanho à medula espinal. Especificamente, esse nervo trabalha sobretudo para o sistema gastrintestinal, influindo na ingestão, digestão, assimilação e excreção. Ele também afeta de forma significativa o coração e os pulmões, como Darwin claramente identificou.
Além disso, há um maciço plexo de nervos embutido no revestimento da própria parede gastrintestinal. Essa complexa rede de neurônios sensoriais, motores e interneurônios (células nervosas que fazem a conexão entre os neurônios sensoriais e motores) integra os órgãos digestivos e excretores para que funcionem de forma coerente³⁷. Esse intrincado sistema tem aproximadamente o mesmo número de neurônios e matéria branca que o cérebro de um gato. Por causa dessa complexidade, por vezes foi chamado de segundo cérebro ou cérebro entérico; os outros três são o cérebro reptiliano (instintivo), o paleomamífero (límbico/emocional) e o neocórtex dos primatas (expandido, racional). O sistema nervoso entérico é nosso cérebro mais antigo, tendo evoluído há centenas de milhões de anos. Ele produz muitos hormônios benéficos, inclusive 95% da serotonina do corpo³⁸, sendo portanto uma fábrica essencial e natural de hormônios do bem-estar, além de local de armazenamento destes³⁹.
Surpreendentemente, 90% do nervo vago que liga vísceras e cérebro é sensorial! Em outras palavras, para cada fibra nervosa motora⁴⁰ que retransmite comandos do cérebro para o intestino, nove nervos sensoriais enviam informações sobre o estado das vísceras para o cérebro. As fibras sensoriais no nervo vago captam as complexas telecomunicações que estão ocorrendo no intestino e as retransmitem, primeiro para o tronco cerebral (médio) e depois para o tálamo. A partir daí, esses sinais influenciam quase todo o cérebro, e decisõessubliminares que influenciam profundamente nossas ações são tomadas. Muitas coisas das quais gostamos ou não gostamos, coisas que nos atraem ou nos repelem, assim como medos irracionais, são resultado dessas computações implícitas em nosso estado interno.
Pode-se dizer que os humanos têm dois cérebros: um no intestino (o cérebro entérico) e o cérebro lá de cima, instalado no domo abobadado do crânio. Esses dois cérebros têm comunicação direta um com o outro, estabelecida pelo imponente nervo vago. E se quisermos falar de números – nove nervos sensoriais/aferentes para cada nervo motor/eferente – as vísceras parecem ter mais a dizer aos nosso cérebro (na razão de 9:1) do que o cérebro tem a dizer às vísceras⁴¹!
Vamo-nos aprofundar no exame das funções desse enorme nervo, que além de unir órgãos e cérebro também funciona primordialmente na direção do intestino para o cérebro. Em primeiro lugar, por que razão é importante para o corpo falar com o cérebro? Partindo da perspectiva da evolução (e a parcimônia usual da natureza), não é provável que tal miríade de fibras nervosas fosse distribuída para tornar possível uma comunicação bidirecional se essa conexão não tivesse importância vital.
A maioria de nós já sentiu um frio na barriga quando alguém nos pediu para falar em público. Por outro lado, dizemos que algumas pessoas são amargasou biliosas⁴². Às vezes também dizemos que estamos com um nó nas tripasou revirados por dentro⁴³. Ou podemos estar com um peso no coração. E abençoados são os momentos em que nos entregamos à alegria de sentir dor na barrigade tanto rir. Podemos ainda estar com o coração aberto, sentindo paz interior e amor ao próximo. Nas ocasiões em que obtemos sucesso, o peito se enche de orgulho. É essa a variedade de mensagens pungentes que emana de nossas vísceras.
Quando estamos ativados para lutar ou fugir (ativação simpática), as vísceras se contraem e a motilidade do sistema gastrintestinal é inibida. Afinal de contas, não faz sentido gastar uma enorme quantidade de energia metabólica na digestão quando ela pode ser mais bem utilizada na aceleração do ritmo cardíaco e no fortalecimento da contração do coração, e também para tensionar os músculos para que estejam prontos para a ação iminente. Quando somos mortalmente ameaçados, ou quando a ameaça é interna (por exemplo, por causa de uma gripe ou pela ingestão de comida contaminada por bactérias), a reação de sobrevivência é vomitar ou expelir o conteúdo do intestino com uma diarreia e depois nos deitarmos imóveis, como se estivéssemos economizando energia. É possível que as presas também recorram a essa reação quando um predador as ataca de repente, saindo de um lugar muito próximo. Nesse caso, a violenta expulsão do conteúdo intestinal do animal pode de fato torná-lo mais leve, o que lhe dá mais chance de escapar. Essa vantagem, que dura apenas uma fração de segundo, pode significar a diferença entre viver ou morrer. Já presenciei isso diversas vezes, ao ver um leão da montanha dar um bote em um grupo de cervos que bebia água no rio North St. Vrain, que passa atrás de minha casa no Colorado.
Os poderosos efeitos tanto do nervo simpático quanto do vago nas vísceras têm funções fundamentais de sobrevivência. A ativação desses dois sistemas deve ser breve, em resposta a uma súbita emergência repentina. Quando ficam presos (seja em esgotamento simpático ou superatividade vagal), a função de sobrevivência é drasticamente subvertida: a pessoa pode acabar sofrendo com dores no intestino, como no caso de persistente hiperativação simpática, ou ser atormentada por espasmos de cólicas e diarreia em hiperatividade vagal crônica⁴⁴. Quando o equilíbrio não é restaurado, esses estados se tornam crônicos, e a doença se instala.
Juntos, esses complexos sistemas (o vago e o plexo entérico), como acontece em um bom casamento, colocam o intestino e o cérebro em perfeita harmonia ou em uma terrível e interminável batalha. Quando há equilíbrio coerente entre os dois, o fulcro hedonista (relacionado ao prazer ou às sensações prazerosas) se inclina na direção do paraíso. Quando a relação reguladora está desajustada, os portões do inferno se escancaram como a enorme boca da infelicidade.
O meio é a mensagem
Nosso sistema nervoso avalia as ameaças de duas formas básicas. Primeiro, usamos os órgãos externos dos sentidos para discernir e aquilatar a ameaça com base em características patentes presentes no entorno. Então, por exemplo, uma súbita sombra nos alerta sobre um risco potencial, ao passo que os contornos de um enorme urso assomando à nossa frente ou a lustrosa silhueta agachada de um leão da montanha nos avisam que estamos realmente em perigo. Também avaliamos ameaças diretamente a partir do estado de nossas vísceras e de nossos músculos – nossos órgãos internos dos sentidos. Se os músculos estão tensos, inconscientemente interpretamos essas tensões como um prenúncio da existência de perigo, mesmo na ausência de algum perigo real. Músculos contraídos no pescoço e nos ombros podem, por exemplo, sinalizar para o cérebro que você provavelmente vai apanhar. Pernas tensas, junto com olhos furtivos, podem indicar que você precisa correr e fugir, já braços retesados talvez sinalizem que você está pronto para lutar. Sofremos uma angústia ainda maior quando nossas vísceras são persistentemente superestimuladas pelo nervo vago. Se estamos
nauseados, sentindo os músculos entrando em colapso, as vísceras retorcidas e falta de energia, isso nos faz sentir desamparados e desesperados – mesmo que não haja de fato uma ameaça que possa nos dizimar. Em outras palavras, a intensa agitação em si sinaliza ameaça grave e pavor para o cérebro, mesmo quando não há nada errado – pelo menos externamente.
Nosso estado muscular e visceral influencia tanto nossa percepção quanto nossa avaliação das intenções alheias. Embora possamos por vezes acreditar que certas pessoas não nos farão mal, ainda assim nos sentimos em perigo⁴⁵. Mesmo algo tão inofensivo quanto um quarto, uma esquina ou um campo ensolarado podem parecer apavorantes. Inversamente, sentir os músculos e a barriga relaxados (e bem tonificados) pode sinalizar segurança, mesmo quando nosso dia a dia está uma confusão. Para ilustrar esse fato, certa vez ouvi alguém dizer o seguinte depois de uma massagem corporal completa: O mundo não é um lugar tão ruim, afinal. Sinto-me ótimo. Se, por um lado, uma boa massagem é uma forma fantástica de proporcionar à pessoa uma nova maneira de se sentir bem, por outro, será necessário haver uma mudança mais profunda no contínuo diálogo que se dá na estrada cérebro-intestino para liberar mais do que apenas o congestionamento causado por estresse crônico e trauma.
As intensas reações viscerais associadas à ameaça visam ser agudas e temporárias. Logo que o perigo passa, essas reações (seja inibição da motilidade gástrica pelo sistema nervoso simpático ou violenta superestimulação da motilidade pelo nervo vago primitivo) precisam cessar para que o organismo retorne ao equilíbrio, renovado e fluindo no aqui e agora. Quando o equilíbrio não é restaurado, a pessoa permanece em angústia aguda e, futuramente, crônica.
Para evitar o trauma, assim como para revertê-lo depois que ele já aconteceu, as pessoas precisam ter consciência de suas sensações viscerais⁴⁶. Além disso, nossas sensações viscerais são vitais para a orquestração de sentimentos positivos de vitalidade e para a condução da vida. Elas também são a fonte de grande parte de nossa intuição. Como podemos aprender com as práticas xamânicas e espirituais assimiladas por milhares de anos no mundo inteiro, sentimentos de bem-estar são incorporados diretamente como sensações viscerais. Quando ignoramos nossos instintos viscerais, pagamos um alto preço, ou pior, colocamo-nos em grave risco.
Em estados de imobilização e desligamento, as sensações em nossas vísceras são tão apavorantes que de costume as bloqueamos da consciência. Mas essa estratégia de ausênciana melhor das hipóteses só mantém o status quo, fazendo que cérebro e corpo permaneçam irremediavelmente presos em um engarrafamento de informações. Em seguida apresento outra estratégia simples para desfazer o nó cérebro/intestino.
Um som eficiente: vuu
A primeira sede de nossa consciência primitiva está no plexo solar,
o grande centro nervoso localizado atrás do estômago.
É a partir desse centro que, em primeiro lugar,
estamos dinamicamente conscientes.
D. H. Lawrence, A psicanálise e o inconsciente
Assim como inúmeras outras pessoas, já experimentei diversas práticas de canto e de vocalizaçãoantigas que facilitam o processo de cura e ajudam a abrir as portas da percepção. Em cerimônias religiosas e espirituais em todas as culturas, cantar e entoar cânticos são práticas usadas para aliviar a cargada existência terrena. Quando nos abrimos para cantar em tons profundos, ressoantes, vindos da parte inferior do abdome, também abrimos o peito (coração e pulmões), a boca e a garganta, estimulando de forma prazerosa os diversos ramos serpenteantes do nervo vago⁴⁷.
Alguns cantos tibetanos vêm sendo usados com sucesso há milhares de anos. Em minha prática, utilizo um som emprestado (com algumas modificações) de alguns desses cantos. Esse som abre, expande e faz vibrar as vísceras de uma forma que dá novos sinais a sistemas nervosos desligados ou hiperestimulados. A prática é bastante simples: emita um som vuuu...prolongado, concentrando-se nas vibrações estimuladas na barriga enquanto expira todo o ar.
Quando apresento a meus pacientes o som vuu, em geral peço que imaginem o som grave de uma sirene que atravessa um nevoeiro denso e escuro avisando às embarcações que elas estão se aproximando da terra firme e guiando-os para casa com segurança. Essa imagem atua em diferentes níveis. Primeiro, a imagem do nevoeiro representa a névoa do entorpecimento e da dissociação. A sirene representa o farol que guia a embarcação (alma) perdida de volta para um porto seguro, para casa na respiração e na barriga. Essa imagem também inspira o paciente a assumir o papel de herói que protege marinheiros e passageiros de um perigo iminente, além de lhe permitir não ser tão sério e, assim, poder brincar. O mais importante são os efeitos fisiológicos da imagem. As vibrações sonoras de vuuavivam sensações das vísceras, ao passo que a expiração completa produz o perfeito equilíbrio de oxigênio e dióxido de carbono⁴⁸.
Antes de começar o exercício, encontre um lugar confortável onde sentar. Agora, inspire lentamente, faça uma pequena pausa e, em seguida, ao expirar, suavemente emita o som vuu, sustentando-o durante toda a expiração. Faça o som vibrar como se estivesse vindo da sua barriga. Quando tiver expirado todo o ar, faça uma breve pausa e permita que a próxima inspiração encha sua barriga e seu peito devagar. Quando sentir que a inspiração já está completa, faça outra pausa e novamente emita o som vuuna expiração até que ela pareça completa. É importante deixar que o som e o ar saiam totalmente, em seguida fazer uma pausa e esperar que a próxima inspiração aconteça por conta própria, quando ela estiver pronta para acontecer. Repita esse exercício várias vezes e depois descanse. Em seguida, concentre-se em seu corpo, principalmente no abdome, a cavidade interna que abriga seus órgãos.
Essa vocalização, com ênfase tanto na espera quanto na permissão, tem múltiplas funções. Primeiro, direcionar o som para a barriga provoca um tipo especial de sensação enquanto mantém o ego observador "online". As pessoas costumam relatar diversos tipos de vibração e formigamento, assim como mudanças de temperatura – normalmente de frio (ou quente) para fresco e morno. Essas sensações são em geral agradáveis (com alguma prática, ao menos). O mais importante é que elas contradizem as sensações associadas ao estado de imobilidade que nos causam agonia, náusea, torpor, que nos fazem sentir revirados por dentro e sem vigor. É bem provável que a mudança nas mensagens aferentes (dos órgãos para o cérebro) possibilite que 90% do nervo vago sensório (ascendente) influencie de forma vigorosa os 10% que vão do cérebro para os órgãos a fim de restaurar o equilíbrio
⁴⁹. Porges concorda com esse sistema regulador fundamental: "O feedback aferente das vísceras fornece um mediador essencial da acessibilidade dos circuitos pró-sociais associados aos comportamentos de interação social".⁵⁰
As saudáveis sensações suscitadas pela combinação de respiração e das reverberações de som permitem que a pessoa entre em contato com uma segurança e uma confiança internas e com certo senso de orientação no aqui e agora. Elas também facilitam um grau de contato frente a frente, olho no olho, voz a ouvido, eu-tu, e assim possibilitam que o paciente negocie uma pequena abertura para o sistema de interação social. Este, então, ajuda-o a desenvolver forte resiliência por meio de ciclos cada vez mais amplos de ativação simpática (carga) e descarga e, com isso, a aprofundar a regulação e o relaxamento. Charles Darwin, posso imaginar satisfeito, teria aprovado a aplicação clínica do vuuem sua sagaz, anatômica e fisiológica observação de 1872.
Há ainda outro exercício que pode propiciar aos pacientes uma forma de lidar com os angustiantes sintomas de ativação e regulá-los. Essa técnica de autoajudafoi extraída de um sistema de fluxos de energiachamado Jin Shin Jyutsu⁵¹. As Figuras 6.5a a 6.5d demonstram uma sequência simples
de Jin Shin que serve para ajudar os pacientes a aprender a regular a ativação e aprofundar o relaxamento⁵². Mais uma vez, sugiro que os terapeutas primeiro experimentem esses exercícios em si mesmos antes de ensiná-los aos pacientes. Incentive-os a praticá-los em casa, primeiro quando estiverem calmos e depois quando estiverem angustiados. Cada posição pode ser mantida por dois a dez minutos. O paciente deve buscar uma sensação de fluxo de energia ou de relaxamento.
Fluxos de energia Jin Shin Jyutsu
Figuras 6.5a e 6.5b As figuras mostram as posições do braço/da mão para conter a ativação e promover a autocompaixão.
Figuras 6.5c e 6.5d Vemos aqui as posições do braço/da mão que ajudam a estabelecer fluxos de energia entre a parte superior e a parte inferior do corpo. Esses exercícios promovem o relaxamento.
Comentários sobre feedback e regulação vital
Em 1932, Sir Charles Sherrington recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina ao demonstrar que o sistema nervoso é constituído de uma combinação de células nervosas excitatórias e inibitórias. É o equilíbrio desses dois sistemas neurais que nos permite mover os membros de forma fluida, coordenada e precisa. Sem a inibição, nossos movimentos seriam de todo espásticos e descoordenados. Embora o trabalho de Sherrington tenha sido essencialmente sobre o sistema sensório-motor (no nível da medula espinal), o equilíbrio dos sistemas excitatórios exercido pelos inibitórios ocorre em todo o sistema nervoso e é considerado um de seus princípios fundamentais. Essa organização é a arquitetura básica de autorregulação. Vamos dar uma olhada em uma analogia da vida cotidiana.
Em sua forma mais simples (mecanoelétrica), regulação é o que permite que a temperatura de nossa casa seja mantida dentro de uma faixa confortável, seja qual for a temperatura do lado de fora. Então digamos que em um dia de inverno gostaríamos de manter a temperatura dentro de casa em agradáveis 21º C. Para isso, colocamos o termostato na temperatura desejada. Com isso, o sistema de calefação é acionado. Entretanto, ele não fica ligado o tempo todo. Se ficasse, a temperatura continuaria a subir, e teríamos de abrir as janelas para diminuir o calor. Mas aí, quando a temperatura baixasse, teríamos de fechar as janelas novamente. O motivo pelo qual não precisamos fazer isso tudo é que a temperatura é controlada por um ciclo de feedback negativo. Como o sistema inibitório de Sherrington, a temperatura sobe até, digamos, 22 graus. Então, o sistema de calefação se desliga e permanece desligado até a temperatura cair a 20 graus, quando o sistema é de novo acionado. Isso traz a temperatura de volta aos 22 graus, o que nos dá uma média de 21 graus. Com a ajuda de um agasalho leve de algodão, obtemos um ambiente relativamente confortável. Se, por outro lado, o
sistema de calefação aumentasse quando a temperatura subisse, teríamos uma situação bastante desconfortável. Não só precisaríamos tirar o agasalho, como logo estaríamos andando nus pela casa. No primeiro exemplo, temos uma temperatura harmoniosamente controlada, mediada por um sistema de feedback negativo (com consequências positivas). No segundo, temos um ciclo de feedback positivo com consequências negativas; nossa casa se transforma em uma sauna.
Na angústia e no trauma, acredito que um ciclo de feedback positivo com consequências extremamente negativas esteja estabelecido. De fato, a maioria de nós reconhece que as emoções negativas fundamentais logo se transformam em ciclos de feedback positivo de fuga que se autofortalecem. Medo e raiva podem rapidamente explodir em pavor e fúria. Aqui o trauma é a ouroboros, a serpente que engole a própria cauda, recriando-se eternamente.
Na enervação recíproca descoberta por Sherrington, o sistema nervoso opera sobretudo como um sistema de feedback negativo muito parecido – mas infinitamente mais complicado – com o termostato de uma casa. A autorregulação do complexo sistema nervoso exibe o que chamamos de propriedades emergentes, que normalmente são um tanto imprevisíveis e ricas em nuanças. Elas costumam levar a novas e criativas soluções e são muito apreciadas quando acontecem na vida e na psicoterapia. Então, enquanto o sistema nervoso opera de acordo com o princípio da autorregulação, a psique opera de acordo com as propriedades emergentes da autorregulação criativa. Podemos dizer que, enquanto o sistema nervoso se autorregula, a psique se ocupa dessas propriedades emergentes, ou seja, da autorregulação criativa. A relação entre as vísceras e o cérebro baseia-se num complexo sistema autorregulador. A riqueza das propriedades emergentes criativas permite que essas técnicas de vocalizaçãoe de respiração (como o som vuu) deem início a mudanças por todo o sistema nervoso. Em uma situação de ameaça mortal da qual não se pode escapar, o tronco cerebral, ou cérebro reptiliano, envia sinais intensos para as vísceras, fazendo que algumas entrem em hiperatividade (como acontece com o sistema gastrintestinal) e outras se contraiam e se fechem, como acontece com os bronquíolos dos pulmões ou o batimento do coração. No primeiro caso (hiperatividade), temos sintomas como frio no estômago, nós no intestino ou diarreia ruidosa e incontrolável. Nos pulmões, temos sensações de aperto e sufocação que, quando crônicas, podem levar aos sintomas da asma. Da mesma maneira, o efeito do vago primitivo no coração é diminuir o batimento a um nível tão baixo que pode de fato levar à morte (vodu).⁵³ Como essas sensações são apavorantes, elas mesmas podem se tornar a fonte de ameaça. Então, em vez de vir de fora, a ameaça agora emana das profundezas de nossas entranhas, pulmões, coração e outros órgãos, podendo causar exatamente o mesmo efeito sobre as vísceras do que aquele causado pela ameaça original. Essa situação é o infeliz arranjo que propicia um ciclo de feedback positivo com consequências negativas desastrosas. Além disso, como as pessoas traumatizadas estão vivenciando sinais (intensos) de ameaça, elas projetam esse turbilhão interno para fora e assim veem o mundo como o responsável por sua angústia interna – e então se retiram da verdadeira fonte do problema e de sua solução potencial. Essa dinâmica também destrói tanto o corpo quanto os relacionamentos.
O som vuu– ao focar, em primeiro lugar, a conscientização no local interno do verdadeiro problema – permite que a pessoa comece a transformar sua vivência, que passa de terrível para agradável. Assim, a situação que era de ciclo de feedback positivo (com consequências negativas) passa a ser de ciclo de feedback negativo, que ajuda a restaurar o equilíbrio homeostático, a estabilidade e, portanto, as sensações de bem-estar. Essa mudança, ainda que breve, abre uma oportunidade para que o paciente sinta o calor da relação terapêutica que lhe dá apoio e, por sua vez, também proporciona um amortecedor contra a torrente de hiperativação (simpática) que vem logo a seguir. Assim, o sistema autorregulador (ciclo de feedback negativo) diminui a ativação, possibilitando sensações muito mais profundas, estáveis e duradouras de bem-estar, assim como um sistema nervoso e uma psique mais resilientes.⁵⁴
7. Mapeando o corpo, consertando a mente: SIBAM
7MAPEANDO O CORPO, CONSERTANDO A MENTE: SIBAM O corpo é o mapa da mente. J. D. Landis, Solitude O corpo como instrumento do self As sensações físicas são o verdadeiro alicerce da consciência humana. Como criaturas biológicas que somos, nosso corpo é concebido para reagir em um mundo que está em contínua mutação, é desafiador e muitas vezes perigoso. Um recém-nascido precisa aos poucos aprender a discernir o significado das sensações que seu corpo experimenta. Os bebês aprendem a respeito de seu self corpo/mente pela ação e interação com seus pais e com o ambiente que os cerca. As crianças pequenas vivem em um oceano de sensações. Por sorte, a maioria dos pais aprende o código de seu bebê re- lativamente rápido. Eles sabem quando o filho está sinalizando as diversas e inconfundíveis sensações de fome, dor, raiva e cansaço porque os bebês instintivamente comunicam esses estados internos, induzindo seus cuidadores a lhes proporcionar alívio. É uma questão de sobrevivência. Mais tarde, entretanto, essa habilidade evolutiva servirá a mais que uma função de vida ou morte. As sensações de fato formam os alicerces para a maturação gra- dual da criança na direção de uma autonomia e de uma independência autênticas. À medida que crescemos, somos definidos pela forma como nosso corpo interage com o ambiente que nos cerca. O que fazemos fisicamente – se sentimos prazer ou dor, vivenciamos sucessos ou fracassos – é registrado pelo corpo e fica gravado na mente. Nosso conhecimento do mundo, con- forme interagimos com ele, vem da totalidade de nossas sensações, tanto externas quanto internas. Sir Charles Sherrington, ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1932, disse que “o ato motor é o berço da mente”. Cinquenta anos depois, outro ganhador do mesmo prêmio, Roger Sper- ry, elaborou a icônica premissa de Sherrington: À medida que um organismo percebe determinado objeto, ele está preparado para dar uma resposta a ele [...] A presença ou ausência de potenci- alidades de reação adaptativa, prontas para se descarregar em padrões motores, é o que faz diferença entre perceber e não perceber.¹ Em uma série de experiências estimuladas pelo “Princípio Sperry”, Richard Held e Alan Hein pediram que adultos usassem óculos especiais que faziam que tudo parecesse estar de cabeça para baixo². Depois de algum tempo (normalmente uma ou duas semanas), o cérebro dos participantes da pesquisa que estavam livres para se movimentar ativamente, tocando e manipulando o mundo a seu redor, se adaptou de tal forma que eles, de fato, viam o mundo de cabeça para cima novamente. Por outro lado, os pesquisados que não puderam se movimentar e explorar não obtiveram uma norma- lização visual. Held também fez experiências que ilustraram o significado das respostas motoras em termos de desenvolvimento³. Gatos recém- nascidos foram acomodados em um aparato móvel e colocados em um cercado circular. Um grupo de gatinhos andava e puxava o aparato junto com eles por todo o cercado, enquanto os outros gatos eram puxados passivamente. Os dois grupos viam exatamente as mesmas coisas ao se movimentar pelo cercado. Os gatinhos que foram puxados passivamente e não exploraram o entorno de forma ativa mais tarde não se demonstraram capazes de usar a visão para guiar seus movimentos. Eles não conseguiam posicionar as patas de forma adequada ou se afastar de um lugar de onde poderiam cair. Esse déficit foi logo revertido quando puderam se movimentar ativamente, explorando o mundo a seu redor. Finalmente, nesse desfile de ganhadores do Prêmio Nobel, Gerald Edelman, biólogo americano que ganhou o prêmio em 1972 por seu trabalho sobre imunologia, propôs uma teoria que denominou de Darwinismo Neural⁴. Essa complexa teoria reconhece a relação intrínseca da atividade motora, das nossas explorações passadas e presentes do mundo que nos cerca, como o suporte da experiência e da memória. Coletivamente, esses ganhadores do Nobel veem a “mentalidade” (inclusive nossa complexa estrutura de elaboração de significado) como resultante da sintonia fina e da categorização de nossas ações, sensações, sentimentos e percepções. Virando do avesso antigas teorias, agora temos consciência de que, em lugar de ser os manda- chuvas, os comandantes hierárquicos todo-poderosos, os pensamentos são uma complexa elaboração do que fazemos e de como nos sentimos. Pode-se dizer que o pensamento de fato funciona como uma “explicação” de nós mesmos: um lembrete do que estamos fazendo e sentindo. Pen- sar e simbolizar ajuda-nos a criar categorias de acontecimentos, pessoas ou lugares, por exemplo, aqueles que são “seguros” ou “perigosos”. A evo- lução de pensamentos, símbolos e comunicação verbal, que derivam das sensações, deu a nossos primeiros ancestrais uma vantagem crucial, permi- tindo que compartilhassem êxitos e fracassos e os passassem adiante. Como eram caçadores e precisavam ir em busca de alimento, para que pudes- sem sobreviver era necessário que estivessem completamente dentro do corpo, assim como os bebês. Uma ruminação mental excessiva certamente implicaria morte súbita ou morte lenta por inanição. Entretanto, ao longo de milênios, a inteligência inata do corpo foi abandonada e substituída pela exclusividade da racionalidade, da simbolização e da linguagem. O corpo passou a existir única e exclusivamente (como disse brincando um perso- nagem de um cartum de Jules Feiffer) “para transportar nossa cabeça de um lugar para outro... Se não fosse isso, ele não serviria para nada”. Ao con- trário, a consciência de fato se revela por intermédio do desenvolvimento da consciência corporal, do ato de aprender a entender as nuanças e os signi- ficados de nossas sensações físicas internas, e também de nossos sentimentos. O trauma e o corpo/mente Em circunstâncias normais, as sensações físicas são sinais para ação: para lutar ou fugir quando ameaçados, correr atrás de um peru selvagem ou fazer um sanduíche quando estamos com fome, ir ao banheiro quando precisamos, fazer amor quando excitados de paixão, dormir quando estamos cansados, sair cantando quando sentimos vontade ou firmar os pés e elevar a voz com raiva e assertividade quando nossas fronteiras são violadas. Em todas essas situações, o corpo dá início e a mente dá sequência. Ter uma relação de intimidade com nossas sensações físicas e compreendê-las é fundamental, pois, ao sinalizar ação, elas nos guiam pelas experi- ências, vivências e nuanças da vida. Quando alguém sofre um trauma, entretanto, suas sensações podem se tornar sinais não para ação efetiva, mas, em vez disso, para paralisia de medo, desamparo ou fúria mal direcionada. Quando alguns dos sinais corporais de uma pessoa se tornam prenúncio de medo, desamparo, fúria impotente e derrota, ela se esquiva desses sinais a um altíssimo custo mental, emocional e físico. Quando tenta se fechar, desligando-se das sensações que provocam sofrimento, a pessoa paga o preço de perder a capacidade de apreciar as sutis mudanças físicas que deno- tam conforto, satisfação ou sinal de perigo claro e imediato. Lamentavelmente, em consequência disso, ela também se desliga da capacidade de sentir prazer, de armazenar significados relevantes e acessar reflexos de autoproteção. Não dá para ter as duas coisas; quando os sentimentos de pavor são mantidos a distância, os sentimentos de alegria e prazer os acompanham. A boa notícia é que os seres humanos costumam ser flexíveis e resilientes: em geral somos capazes de aprender com as diversas experiências da vida e incorporá-las. Essas experiências, sejam elas edificantes ou desanimadoras, circulam com facilidade pelo nosso fluxo de consciência corpo/ mente contanto que não estejamos cronicamente super ou subativados. O corpo/mente continua fluindo através de novos encontros com a vitalidade, voltando alegremente para o curso das coisas a não ser que haja uma ruptura significativa. Nesse caso, a pessoa é arremessada para fora desse curso normal – seja a partir de um episódio único, como um desastre, um acidente, uma cirurgia ou um estupro, ou de algo que lhe causa estresse crônico, como algum tipo de abuso ou uma tensão contínua no casamento. Quando tais rupturas não conseguem ser totalmente integradas, os componentes
dessa experiência ficam fragmentados em sensações, imagens e emoções isoladas. Esse tipo de desmembramento acontece quando não conseguimos nos defender, digerir ou lidar com a enormidade, a intensidade, a súbita aparição ou a duração do que aconteceu. A vulnerabilidade pessoal, como a idade, a genética e o sexo, também é responsável por essa implosão psíquica. O resultado dessa incapacidade do corpo/mente de incorporar é o trau- ma ou, no mínimo, desorientação, perda de autonomia e/ou perda de direção. Encurraladas entre sentir demais (sobrepujadas ou inundadas) ou sentir de menos (desligadas e entorpecidas) e incapazes de confiar em suas sensações, as pessoas traumatizadas podem perder o rumo. Elas não mais “se sentem elas mesmas”; perda de sensação é igual a perda de sentimento do self. A fim de substituir os sentimentos genuínos, as vítimas de trauma podem ir em busca de experiências que as mantenham fora de alcance – como excitação sexual ou entrega a compulsões, vícios e variadas distrações que evitam encarar uma vida interna que agora é sombria e ameaçadora. Nessa situação, o indivíduo não consegue constatar a natureza transitória do desespero, do pavor, da fúria e do desamparo nem perceber que o corpo foi concebido para, em ciclos, entrar e sair desses extremos⁵. Ajudar os pacientes a cultivar e regular a capacidade de tolerar sensações extremas – mediante autoconsciência refletiva e apoio à autoaceitação – faz que eles consigam modular sensações e sentimentos desconfortáveis. Agora eles podem tocar nessas sensações e emoções intensas por períodos mais longos à medida que aprendem como controlar sua ativação. Uma vez que o paciente vivencia o “entrar e voltar para fora” sem desmoronar, sua janela de tolerância vai se consolidando. Isso acontece quando se alcança uma interação sutil entre sensações, sentimentos, percepções e pensa- mentos. Acredito que as pessoas que são mais resilientes, e encontram mais paz na vida, aprenderam a tolerar as sensações extremas adquirindo a capacidade de ter autoconsciência refletiva. Embora esse costume se desenvolva quando somos muito jovens, podemos aprendê-lo em qualquer momento da vida, felizmente. As crianças aos poucos aprendem a interpretar as mensagens que o corpo lhes envia. De fato, é ao aprender a coordenar movimentos (compor- tamentos) e sensações em um todo coerente que a criança aprende quem é. Ao se lembrar de ações que provaram ser eficientes, e descartando as inefi- cazes, as crianças aprendem a prever qual será a resposta mais adequada e como determinar o tempo para sua execução de forma que obtenha efici- ência máxima. Dessa maneira, elas vivenciam autonomia, satisfação e prazer. Quando uma criança é dominada pelo trauma ou se frustra devido à negligência, essa sequência de desenvolvimento não acontece ou, se já estiver desenvolvida, se rompe; e as emoções negativas passam a dominar sua existência. Depois de sofrer um trauma, a relação de uma criança com seu corpo em geral se torna informe, caótica e massacrante; a criança perde a sen- sação de sua estrutura interna e das nuanças decorrentes dela. Quando o corpo se paralisa, o cérebro e a mente “em choque” ficam sufocados, de- sorganizados e fragmentados; eles não conseguem absorver a totalidade da experiência e aprender com ela. Essas crianças, que ficaram “presas” em algum ponto do curso de uma ação que um dia teve um significado e um propósito, se entregam a padrões de comportamento normalmente inefi- cientes e em geral compulsivos – o que acarreta sintomas como transtorno de hiperatividade e déficit de atenção ou transtorno obsessivo-compulsivo. Os esforços fragmentados e descoordenados da criança não são registrados como lembranças normais, explícitas e narrativas; ao contrário, são codifi- cados no corpo como memórias de procedimento implícitas que incluem desconforto, constrição, angústia, constrangimento, rigidez, flacidez e falta de energia. Tais lembranças são codificadas não primeiramente no neocórtex, mas no sistema límbico e no tronco cerebral. Por isso, os compor- tamentos e as lembranças não podem ser modificados simplesmente mudando os pensamentos da pessoa. Ela também precisa trabalhar com sensa- ções e sentimentos – com a totalidade da experiência. O modelo SIBAM Os seres humanos em geral e os terapeutas em particular fazem contato através de um tipo de “ressonância corporal”. Como descrevi no Capítulo 4, nós, humanos, somos programados para experimentar sensações semelhantes àquelas das pessoas que estão próximas de nós⁶. Imagine-se em uma sala cheia de teóricos da conspiração ansiosos e compare essa cena com estar rodeado de monges felizes em meditação. A ressonância forma a base da sintonia empática necessária para a construção de relacionamentos íntimos⁷. Ao tratar pessoas traumatizadas, o terapeuta primeiro precisará cultivar um relacionamento profundo e duradouro com o próprio corpo. Somente quando a capacidade de incorporação do terapeuta está intacta e engajada ele poderá orientar o paciente e dar autonomia a ele. De forma semelhante, refinando sua capacidade de observar os comportamentos sutis alheios, o terapeuta poderá dar a seus pacientes o feedback que os ajudará a se conscientizar de suas sensações e de seus senti- mentos. Juntas, essas duas ferramentas – ressonância somática e observação sutil – têm imensa força e trazem benefícios incalculáveis. Nas palavras do analista Leston Havens, “talvez a evidência mais impressionante de empatia bem-sucedida seja o fato de sentirmos no nosso corpo sensações que o paciente descreveu em seu próprio corpo”⁸. Durante os anos 1970, elaborei um modelo que me permitiu “rastrear” os processos por meio dos quais meus pacientes processavam experi- ências. Esse modelo, que chamo de SIBAM⁹, baseia-se na relação íntima entre corpo e mente. O modelo examina os cinco canais a seguir. Sensação Imagem Comportamento Afeto Significado O modelo SIBAM está em clara oposição à estrutura hierárquica instituída, codificada como cogito ergo sum ou “penso, logo existo”, que é a pre- missa fundamental das terapias cognitivo-comportamentais padrão. Ao contrário, meu modelo de cinco elementos é a essência do processamento sen- sório-motor, “de baixo para cima”, que tem como objetivo conduzir o paciente ao longo dos diferentes sistemas cerebrais e de “linguagem”, do mais primitivo para o mais complexo; das sensações físicas para os sentimentos, as percepções e, finalmente, os pensamentos. A sensação, a imagem, o afeto e o significado são rastreados pelo paciente, enquanto o comportamento é observado diretamente pelo terapeuta. Essa abordagem possibilita um rastreamento íntimo e profundo das múltiplas camadas e texturas da totalidade da experiência. O canal da Sensação Aqui me refiro às sensações físicas que emergem de dentro do corpo, dos receptores que se encontram no interior do nosso organismo. Essas sensa- ções também são conhecidas na literatura como interoceptivas. Elas ascendem pelos impulsos nervosos provenientes do interior do corpo para o tá- lamo no tronco cerebral superior, de onde são transferidas para muitas, se não para a maioria, das regiões do cérebro. Quatro subsistemas, ou cate- gorias, constituem o canal da sensação em ordem crescente de profundidade: os receptores cinestésicos, os proprioceptivos, os vestibulares e os viscerais. Os receptores cinestésicos
O primeiro subsistema dentro do canal da sensação é a cinestesia. O sentido cinestésico sinaliza o estado de tensão em nossos músculos¹⁰ e re- transmite essa informação para o cérebro. Se você se sente “incomodado” e/ou “tenso”, é porque está recebendo um excesso de impulsos nervosos provenientes dos músculos dos ombros e de outras áreas – tais como pescoço, mandíbulas ou pelve – e também de uma mente demasiadamente ativa. Os receptores proprioceptivos O segundo subsistema, chamado de propriocepção, nos fornece informações de posicionamento das articulações. Juntas, a cinestesia e a propri- ocepção nos dizem onde estamos localizados no espaço, assim como qual é a velocidade de qualquer parte do corpo. Uma pessoa pode, por exemplo, reger uma orquestra de olhos fechados e depois, ao fim da sinfonia, colocar a ponta do dedo exatamente na ponta do nariz sem precisar olhar – um feito extraordinário, porém possível, que alia sensação e coordenação. Os receptores vestibulares O subsistema vestibular provém de cílios microscópicos localizados dentro dos canais semicirculares do ouvido interno. Dois desses canais for- mam um ângulo reto entre si. Quando nos movemos (aceleramos ou desaceleramos em qualquer direção), um fluido nesses canais “jorra” por cima dos cílios, fazendo-os vergar. Cada cílio está ligado a um receptor, e esses receptores então enviam impulsos aferentes para o tronco cerebral. Infor- mações desse sentido nos indicam nossa posição no que diz respeito tanto à gravidade quanto a qualquer mudança de velocidade (isto é, aceleração e desaceleração). Os receptores viscerais O quarto subsistema, que nos dá o nível mais profundo de interocepção, provém de nossas vísceras e vasos sanguíneos. No Capítulo 6, descrevi o nervo vago, que conecta o tronco cerebral à maioria dos órgãos internos. No que se refere à quantidade de neurônios, esse enorme nervo só perde para a medula espinal. Mais de 90% dessas fibras nervosas são aferentes: ou seja, a principal função do nervo vago é retransmitir informações das vísceras para o cérebro. Portanto, os coloquialismos “instinto visceral”, “sentimentos viscerais” e mesmo “sabedoria visceral”¹¹ têm uma sólida base anatômica e fisiológica. As sensações viscerais também se originam de receptores existentes nos vasos sanguíneos – como bem o sabem aqueles que sofrem de enxaqueca quando a súbita dilatação de vasos sanguíneos (depois de forte constrição) causa dores excruciantes. Entretanto, também estamos rece- bendo todo tipo de informação de nossos vasos sanguíneos relacionadas ao entorno. Sentimo-nos relaxados e abertos quando vasos sanguíneos e vís- ceras pulsam suavemente como os movimentos de uma água-viva, fazendo aflorar sensações de aconchego e bem-estar por todo o corpo. Quando os vasos e as vísceras estão contraídos, sentimo-nos frios e ansiosos. O canal da Imagem Enquanto a imagem normalmente se refere à representação visual, eu a utilizo de maneira mais ampla para me referir a todos os tipos de impres- são sensorial externa, que originalmente provêm de estímulos que emergem de fora do corpo e também incorporamos dentro do cérebro como memória sensorial. Esses sentidos externos (“especiais”) são a visão, o paladar, o olfato, a audição e o tato.¹². Ao contrário da linguagem corrente, utilizo a mesma palavra – imagem – para categorizar todos esses sentidos externos. Na verdade, o I do modelo SIBAM poderia referir-se, igualmente, a qualquer uma das impressões geradas externamente (visual, auditiva, tátil, olfativa etc.). Por exemplo, se uma pessoa é tocada por outra, ela vivenciará tanto a impressão externa de ser tocada quanto a sensação interna (interoceptiva) de sua resposta a esse toque. Então, se somos tocados de forma errada, será necessário separar a impressão tátil real da nossa resposta interna a esse estímulo em cada nova situação para nos libertarmos da reação reflexiva de experiências anteriores A impressão visual ou imagem é a forma primordial que os seres humanos modernos utilizam para acessar e armazenar informações sensoriais externas, a menos que sejam deficientes visuais. A maior parte de nosso cérebro sensorial dedica-se à visão. Existem, entretanto, outras razões terapêu- ticas que me levam a incluir todos os sentidos externos no canal da imagem. No momento em que um trauma acontece, todos os sentidos da pessoa automaticamente concentram a atenção no aspecto mais evidente da ameaça. Esse aspecto costuma ser uma imagem visual, embora também possa ser um som, um toque, gosto ou cheiro. Muitas vezes é uma combinação de vários ou, até mesmo, todas as impressões sensoriais ao mesmo tempo. Por exemplo, uma mulher molestada pelo tio alcoólatra pode entrar em pânico ao ver um homem que se pareça vagamente com ele ou cujo hálito chei- re a álcool, ou ainda que ande com passos pesados e ruidosos. Esses instantâneos fragmentários passam a representar o trauma. Eles se tornam, em outras palavras, a imagem intrusa ou imprint [marca indelével]. No meu caso, a imagem da janela estilhaçada e os olhos da motorista adolescente esta- vam sempre invadindo minha consciência e me inundando de medo e pavor. Ao retrabalhar tais imagens sensoriais inculcadas, é necessário haver um processo de difusão da carga de adrenalina do “instantâneo comprimido do trauma” para desacoplar associações que são sintomáticas. Uma importante técnica terapêutica “expande e neutraliza” essa fixação e ajuda a pessoa a recuperar a experiência multissensorial que ela pode ter tido antes da ameaça que causou a fragmentação. A descrição a seguir ilustra esse princípio de expansão da “abertura visual”. Imagine que em uma manhã de verão, bem cedo, você está caminhando por uma montanha. Há um riacho sinuoso ao longo da trilha. Uma brisa suave sopra, fazendo que as flores multicoloridas pareçam dançar. Você é tocado pela visão de gotas de orvalho pousadas em uma folha de grama. O sol esquenta sua pele e o aroma das flores é inebriante. Você está absorvendo tudo isso. Então, inesperadamente, uma cobra enorme aparece no cami- nho. Você para e prende a respiração. Tudo que você sentiu um minuto atrás desaparece... ou não? Na verdade, não. O que acontece é que sua per- cepção se contrai para se concentrar exclusivamente na fonte da ameaça. Quase todo o restante se retrai e fica em segundo plano, deslocando-se para as fendas ocultas da sua mente para que você não se distraia daquilo que precisa identificar e fazer: manter a atenção única e exclusivamente focada na cobra e se afastar devagar. Depois que se sentir novamente em segurança, você poderá retornar à experiência sensorial plena daquela manhã. Quando uma pessoa traumatizada consegue expandir suas impressões sensoriais, a hiperativação associada começa a diminuir, permitindo que esse campo de percepção ampliado retorne ao estado de pré-ameaça, e assim aumente a capacidade de autorregulação. Antes de meu acidente, como descrevi no Capítulo 1, eu estava absorvendo o cenário ao meu redor: as cores, os sons, os aromas e o calor praze- roso daquele dia perfeito. No instante em que fui atingido, essas imagens agradáveis se apagaram. Minha atenção voltou-se totalmente para a imagem do “predador”; a teia de aranha da janela estilhaçada, a grade bege da frente do carro e o rosto apavorado da adolescente de olhos arregalados. Por sorte, em meus primeiros socorros autoadministrados, consegui voltar para o começo daquele dia perfeito, com as visões, os sons e os aromas senso- riais dos preciosos momentos que antecederam o impacto. O canal do Comportamento
O comportamento é o único canal que o terapeuta pode observar de forma direta; todos os outros são relatados pelo paciente. Embora o terapeuta possa fazer muitas suposições a respeito da vida interior de um paciente a partir da ressonância com seus próprios sentimentos e sensações, tais infe- rências não podem substituir a ação do paciente de também acessar e expressar os próprios sentimentos, sensações e imagens para o terapeuta¹³. O terapeuta pode inferir os estados internos de um paciente com base na leitura de sua linguagem corporal, na linguagem sem palavras de suas ações/ inações ou nos padrões de tensão. Por exemplo, o terapeuta, ao notar determinado comportamento corporal, pode direcionar o paciente para que se concentre naquilo que ele pode estar sentindo no corpo (Sensação). Se, digamos, o terapeuta observar que o paciente elevou sutilmente o ombro es- querdo (Comportamento), poderá chamar a atenção do paciente para esse ajuste postural e permitir que ele entre em contato com as sensações do pa- drão de tensão assimétrica. Da mesma forma, o paciente pode ser estimulado a acessar outros canais de experiência (Imagem, Afeto ou Significado) durante esse comportamento postural. Isso será esclarecido nos casos relatados no próximo capítulo. O comportamento acontece em diferentes níveis de consciência, que vão dos movimentos voluntários mais conscientes aos padrões involuntários mais inconscientes. Esses níveis assemelham-se às gradações de consciência que descrevi na categoria da Sensação. Agora examinaremos brevemente os comportamentos que ocorrem nos seguintes subsistemas: gestos, emoção e postura, assim como comportamentos autônomos, viscerais e arque- típicos. Gestos Os comportamentos mais conscientes são os voluntários: ou seja, os gestos abertos que costumamos fazer com as mãos e os braços quando estamos tentando nos comunicar. Esses movimentos são o nível mais superficial de comportamento. Em geral usamos gestos voluntários para trans- mitir estados “pseudossensíveis” aos outros. Já vimos todos os políticos deliberadamente exagerar seus gestos por uma questão de ênfase e efeito. Se sabemos qual é a realidade, podemos de pronto discernir a desconexão ou incongruência fundamental entre a tentativa de transmitir aquilo que a pes- soa foi treinada para expressar (por exemplo, abrir os braços para o público ou colocar a mão no coração) e aquilo que ela está realmente sentindo. Ao mesmo tempo, até os gestos volitivos podem transmitir sentimentos, tanto para os outros quanto para nós mesmos. Por exemplo, podemos interpretar a comunicação não verbal de um punho fechado como uma agressão crescente que se torna uma ameaça ou como a demarcação clara de fronteiras e dominação do medo. Seguem alguns gestos comuns para você experimentar: esfregue a testa com a mão e perceba a sensação. Agora acaricie a nuca. O que esses dois gestos transmitem a você? Eles fazem você se sentir mais ou menos seguro? E quando você está torcendo as mãos em comparação com quando as une só tocando a ponta dos dedos? Que diferenças você percebe? Emoção As expressões faciais estão no nível seguinte de comportamento e são geralmente consideradas involuntárias. Foram essas microexpressões que o célebre Paul Ekman¹⁴ estudou em sua pesquisa pioneira, que se estendeu por mais de quatro décadas. Com prática e paciência, uma pessoa pode desenvolver as habilidades necessárias para observar essas mudanças muito breves (não raro em uma fração de segundo) de tensão muscular por todo o rosto¹⁵. Os padrões específicos dessas contrações musculares expressam todo o repertório de nuanças emocionais para a própria pessoa e para os outros¹⁶. Dar feedback aos pacientes a respeito de suas expressões faciais pode ajudá-los a entrar em contato com emoções que passem parcial ou totalmente despercebidas para eles mesmos. Postura O terceiro nível de percepção menos consciente na categoria de comportamento é a postura. Aqui não estou me referindo aos grosseiros ajustes posturais voluntários como os exigidos por pais ou professores, tais como “senta direito”, “levanta a cabeça” ou “bota os ombros para trás”, que se referem a movimentos voluntários. Esses pertencem à categoria de gestos voluntários. Sir Charles Sherrington, o avô da neurofisiologia moderna, afir- ma que “muito da reação reflexa expressa pela musculatura esquelética não é móvel, mas postural, e tem como resultado não um movimento, mas a manutenção constante de uma atitude”¹⁷. Eu acrescentaria que posturas são as plataformas a partir das quais o movimento intrínseco se inicia. Nas palavras de Arnold Gesell, aluno de Sherrington, “o equipamento motor necessário para o comportamento se estabelece muito antes do próprio compor- tamento”. Ao enfatizar a importância da postura na geração de novos comportamentos, sensações, sentimentos e significados, Gesell acrescentou: “Devemos buscar a embriogênese da mente nos primórdios dos comportamentos posturais”¹⁸. Embora relativamente poucos terapeutas tenham cultivado a leitura precisa de posturas, ainda estão sendo afetados por elas. Todos nós sub- conscientemente espelhamos as posturas alheias e as registramos como sensações em nosso corpo. Isso provavelmente acontece por meio do funcio- namento de neurônios-espelho e da ressonância postural. Como as mudanças posturais espontâneas em geral são sutis, é necessária muita prática para observá-las. A ressonância é particularmente forte com relação a posturas baseadas na sobrevivência tal como as variedades cheias de nuanças associadas aos pré-movimentos e movimentos de luta, fuga, congelamento/medo e colapso. Se uma postura é rígida ou desorganizada, podemos supor que era uma preparação para alguma ação específica, uma ação que foi impedida de acontecer e a qual os músculos ainda estão programados para completar. Se essa trajetória sensório-motora adormecida não tivesse sido impedida, provavelmente teria tido um resultado muito mais favorável – como ainda pode acontecer de forma retroativa. Ao relatar meu acidente, descrevi as coi- sas das quais tinha consciência no meu corpo enquanto estava deitado impotente na ambulância. Foi primeiro a partir de uma sutil sensação de con- torção na coluna que senti meu braço iniciar um movimento para cima a fim de proteger minha cabeça de forma que não se chocasse contra o para- brisa e, consequentemente, contra a rua. A observação de posturas espontâneas (intrínsecas) proporciona ao terapeuta uma importantíssima janela com vista para dentro do estado do sis- tema nervoso e da psique do paciente. O corpo é benevolente ao nos mostrar quando estamos nos preparando para agir e precisamente para qual inci- piente ação pré-movimento ele está sendo preparado. Na maioria das vezes, nós, como observadores atentos, vemos diante de nossos olhos o desen- rolar de uma orquestração corporal que nem o terapeuta nem o paciente poderiam jamais prever de forma racional. O terapeuta começa notando pos- turas que demonstram rigidez, retração, preparação para fugir, contorcer-se e desmoronar, assim como posturas de abertura e expansão. Penso na inesquecível naturalidade postural de uma pessoa como Nelson Mandela que, apesar da magnitude de seu trauma e de sua idade avançada, mantém uma postura natural e graciosa. Diversas pessoas também descreveram sentir-se profundamente relaxadas e abertas na presença do Dalai-Lama. O terapeuta hábil tanto vê quanto sente o oposto dessa graça em um paciente cuja coluna se enrijece, para proteger-se de um suposto ataque, ou desmo- rona, perde o vigor (às vezes de forma quase imperceptível), quando vivencia sensações e emoções difíceis. Da mesma forma, os terapeutas (e mães, pais e amigos) também conseguem observar e refletir estados momentâneos de graça e bem-estar nos outros. Sinais autônomos (cardiovasculares e respiratórios) Entre os comportamentos autônomos visíveis estão sinais respiratórios e cardiovasculares. Respiração rápida, superficial e/ou peitoral indica
ativação simpática. Respiração muito superficial (quase imperceptível) normalmente indica imobilidade, desligamento e dissociação. Respiração plena e livre com expiração completa e uma delicada pausa antes da próxima inspiração indica relaxamento e estabilização no equilíbrio. Pode-se facilmente distinguir esse tipo de respiração espontânea e restauradora daquela de uma pessoa que está “tentando” respirar fundo. Com frequência, esse tipo de respiração profunda forçada e voluntária pode, na verdade, aumentar o desequilíbrio do sistema nervoso e, na melhor das hipóteses, traz apenas um alívio temporário¹⁹. A seguir, há os sinais do sistema cardiovascular, entre eles a frequência cardíaca e o tônus dos músculos lisos que revestem certos vasos sanguí- neos. A frequência cardíaca pode, como eu disse antes, ser monitorada pela observação do pulsar da carótida, visível na forma de uma pulsação no pescoço. Com um pouco de prática, o terapeuta é capaz de discernir aumentos e diminuições de frequência, assim como estimar sua magnitude. Tam- bém é possível estimar mudanças na pressão sanguínea com base na força ou na fraqueza da pulsação. O terapeuta pode identificar o tônus dos vasos sanguíneos observando alterações na cor da pele, embora essa observação requeira um nível apu- rado de percepção. No caso de um tônus muito elevado (vasoconstrição), os dedos frios do paciente terão, por exemplo, uma tonalidade esbran- quiçada/azu-lada, o que reflete – junto com a frequência cardíaca elevada – hiperativação simpática. Por outro lado, quando os vasos sanguíneos estão relaxados e dilatados, ou abertos, os dedos têm uma coloração rosada intensa. Outra variação se dá quando os vasos capilares se dilatam abrup- tamente, causando um súbito rubor, que pode ser notado em especial no rosto e no pescoço. Além disso, o observador pode, às vezes, sentir de fato uma onda de calor emanar do corpo do paciente²⁰. O sinal seguinte a ser observado é o tamanho das pupilas. Pupilas muito dilatadas estão associadas à ativação simpática elevada, ao passo que pupilas muito pequenas podem indicar imobilidade e dissociação. Pupilas do tamanho da ponta de um alfinete também podem revelar uso de drogas – em geral de opiáceos. É interessante lembrar que esses opiáceos também são liberados pelo próprio sistema corporal interno de alívio da dor²¹ e são parte integral do sistema de imobilidade e dissociação²². Comportamento visceral O comportamento visceral se refere à motilidade do trato gastrintestinal, cujos movimentos podem efetivamente ser “observados” pelos sons que emite. A maravilhosa palavra onomatopaica para esses rumores e estrondos é borborigmo. Um sistema completo de terapia corporal baseia-se na es- cuta de um espectro desses sons viscerais com a utilização de um estetoscópio eletrônico (fetal) enquanto diferentes partes do corpo são tocadas e suavemente manipuladas²³. O terapeuta que seja capaz de rastrear todos os indicadores de comportamento discutidos aqui terá acesso a informações importantes que o aju- darão a escolher, de forma eficaz, o momento mais adequado para diversas intervenções. Ele saberá, por exemplo, que mãos frias geralmente indicam medo e estresse, enquanto mãos quentinhas significam relaxamento. Uma pele ruborizada pode refletir emoções tais como raiva intensa, vergonha e constrangimento. O que não é de conhecimento geral é que a pele ruborizada também pode sinalizar uma forte liberação de energia e um movimento na direção de maior vitalidade. Assim como acontece com todas essas observações, a sequência deve ser compreendida junto com o contexto: ne- nhum indicador se basta sozinho. E, é claro, o conteúdo que o paciente está processando no momento também deve ser levado em consideração. Dessa forma, o terapeuta poderá habilmente mapear uma topografia precisa relacionando aquilo que está observando (Comportamento) ao que o paci- ente está vivenciando (Sensação). Em geral, há uma correspondência entre o nível de sensação e o comportamento; ou seja, quando o terapeuta dá um feedback ao paciente a respeito de uma mudança no sistema nervoso autônomo deste – como frequência cardíaca ou cor da pele (Comportamento) –, o paciente poderá ser instigado a explorar sensações autônomas, tais como o nível de ativação simpática/cardiopulmonar. Comportamentos arquetípicos Por último, mas não menos importante, há o subsistema de comportamentos arquetípicos provenientes do “inconsciente coletivo” profundo. Ao rastrear as mudanças posturais das pessoas, comecei a perceber gestos sutis de mãos e braços que eram claramente diferentes dos gestos voluntários. Esses gestos em geral surgiam em momentos de movimento terapêutico significativo e muitas vezes indicavam recursos agradavelmente inesperados e mudanças rumo ao fluxo e à inteireza. Além disso, fiquei fascinado com a semelhança entre esses gestos involuntários e aqueles das danças sagradas que eu havia visto em várias apresentações culturais realizadas no Zellerbach Hall, na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Esses movimentos de mãos/dedos/braços, chamados mudras, abarcam e incluem tudo, passando por todo o espectro das experiências humanas e atravessando o mundo in- teiro. Especialmente na Ásia, a maneira como as mãos e os dedos são posicionados transmite significados muito profundos e universais, significados esses que estão relacionados a mais do que apenas o dançarino ou um membro da plateia²⁴. Quando o terapeuta observar esses mudras espontâneos, fará uma pausa, dispondo do tempo necessário para trazer a atenção do paciente para eles, e o paciente poderá então usar essa informação para explo- rar a sensação “interior” de sua postura “exterior”. Não será surpresa nenhuma se, nesse momento, o paciente entrar em contato com um tesouro de poderosos recursos de conexão, empoderamento, fluxo, bem-estar e inteireza. Acredito que esses movimentos arquetípicos surjam em momentos únicos, quando o instintivo está perfeitamente unido, sem costuras ou remendos, à nossa percepção consciente – quando o tronco cerebral primitivo e as funções neocorticais mais elevadas se integram. Em suma, o comportamento é a única categoria que o terapeuta pode perceber diretamente. Quando o paciente toma consciência – de início ape- nas de forma marginal – dos próprios comportamentos, ele pode incorporar essas percepções a seu papel de observador, e lembrar a si mesmo de notar as sensações associadas a esses comportamentos. Quando vinculada a pensamentos, essa é uma ótima ferramenta para eliminar compulsões e vícios. O canal do Afeto Os dois subtipos no quarto canal são as emoções categóricas e o felt sense²⁵, ou os contornos dos sentimentos baseados nas sensações. Emoções As emoções incluem as emoções categóricas descritas por Darwin e aperfeiçoadas em profundos estudos desenvolvidos em laboratório por Paul Ekman. Entre essas emoções estão medo, raiva, tristeza, alegria e repulsa. Mais uma vez, esses são sentimentos que o paciente vivencia internamente e o terapeuta pode deduzir com base em seu rosto e em sua postura, mesmo quando o próprio paciente não tem consciência deles. Contornos dos sentimentos Outro nível de afeto – o registro de contornos dos sentimentos – é, talvez, ainda mais importante para a qualidade e a condução da vida que as emoções categóricas. Eugene Gendlin estudou amplamente esses afetos mais suaves e os descreveu cunhando o termo felt sense²⁶ (ver nota nesta pá- gina). Quando vemos o orvalho em uma folha de grama à luz da manhã ou visitamos um museu e nos deleitamos com uma bela pintura, normalmente
não estamos vivenciando uma emoção categórica. E quando encontramos um grande amigo que não víamos há meses provavelmente não sentimos medo, pesar, repulsa ou mesmo júbilo. Os contornos são os sentimentos baseados nas sensações de atração e evitação, de “bem-estar” e “mal-estar”. Vivenciamos essas nuanças inúmeras vezes ao longo do dia. Ao passo que não é difícil imaginar um dia sem que se perceba nenhuma das emoções categóricas, tente visualizar um dia inteiro sem nenhum dos afetos de felt sense. Em um dia assim, você estaria tão perdido quanto um navio no oceano sem leme nem rumo. Esses contornos nos guiam ao longo do dia, dando-nos orientação e direção na vida. O canal do Significado Significados são os rótulos que colocamos na totalidade da experiência – ou seja, aos elementos combinados de Sensação, Imagem, Compor- tamento e Afeto. Significados são como marcadores descritivos que usamos para acessar rapidamente todo o espectro da experiência interna a fim de que possamos transmiti-las aos outros e a nós mesmos. Todos temos crenças fixas, ou significados, que consideramos verdades inequívocas. Quando uma pessoa sofre um trauma, suas crenças se tornam excessivamente estreitas e restritivas. Alguns exemplos desses mantras cristalizados são: “Não podemos confiar nas pessoas”; “O mundo é um lugar perigoso”; “Eu nunca vou ganhar dinheiro suficiente para me sustentar”; “Eu não sou digno de ser amado”. Essas crenças estão em geral vinculadas a medos primitivos e são, não raro, negativas e limitadoras. Por mais incrível que isso possa parecer, provavelmente somos programados para ter crenças negativas por uma questão de sobrevivência. Por exemplo, se você estiver andando em um lugar e deparar com um urso, provavelmente vai adquirir o significado de que “esse é um lugar perigoso” e “não seguir por ali na próxima vez”. Infelizmente, quando alguém sofre um trauma ou foi profundamente condicionado pelo medo quando era criança e impressionável, esses significados se tornam difusos e rigidamente fixados. Mais tarde, em vez de uma pessoa que acessa livremente todo o espectro de sensações e sentimentos que vão surgindo, tiram-se conclusões baseadas em significados que nasceram de traumas passados ou de antigos con- dicionamentos. Chamo esse tipo de pré-julgamento de cognição prematura. Utilizando o modelo SIBAM, o terapeuta poderá ajudar o paciente a trabalhar passando pelos quatro primeiros canais de consciência a fim de alcançar novos significados. Quando a cognição fica suspensa pelo tempo necessário, é possível mover-se por esses diferentes canais (e subsistemas) de sensação, imagem, comportamento e afeto e, por meio deles, vivenciar a fluidez. Então, é provável que significados completamente novos emerjam desse tecido da consciência corpo/mente que começa a se desenrolar. Para exemplificar, uma paciente pode ter, a princípio, crenças fixas específicas, como “meu marido não está se comportando adequadamente” ou “eu não sou digna de ser amada”. O terapeuta, em vez de tentar dissuadir o paciente dessa crença, pode encorajá-lo a examinar os locais físicos desses pensamentos, a perceber que áreas estão tensas, quais estão abertas e espaçosas, e a localizar qualquer sentimento de colapso. Talvez seja ainda mais importante pedir que o paciente perceba um vazio de sentimento. Um exemplo comum (principalmente com aqueles que sofreram trauma sexual) é a sensação de não sentir em absoluto a pelve, ou de a pelve estar desconectada do tronco ou das pernas. Um paciente a quem se pede que examine minuciosamente o corpo, da cabeça aos pés, pode relatar uma estranha falta de sensa- ções pélvicas. Obviamente, tal ausência dará ao terapeuta uma ideia daquilo que o paciente está evitando. Trabalhando com os cinco elementos do SIBAM O modelo SIBAM abarca os aspectos neurofisiológico, comportamental e somático da experiência de um indivíduo, seja ela traumática ou bené- fica. Quando o resultado é bem-sucedido, ou acontece uma experiência corretiva durante a terapia, os elementos do SIBAM geram uma resposta fluida, contínua e coerente adequada à situação imediata. Quando as pessoas sofrem de traumas não resolvidos, há uma continuidade desses vários aspectos da associação e da dissociação traumáticas, que se transformam em padrões fixos e agora desajustados e são distorções da realidade atual. Um exemplo dessa fixidez é o seguinte: uma mulher adora a natureza, os parques, campos e montes cobertos de grama; entretanto, cada vez que sente cheiro de grama recém-cortada, ela tem náuseas, fica ansiosa e tonta. Sua crença (M – [Significado]) é de que a grama é algo que deve ser evitado. A imagem olfativa e visual (I) está associada, ou acoplada, a sensações de náusea e tontura (S) provenientes de dois de seus sistemas, o vestibular e o visceral. Esse ciclo de feedback positivo com consequências negativas é um enigma. Parte do acontecimento está dissociada de sua consciência: ela não tem ideia de por que isso acontece; sabe apenas que tem grande aversão (M [Significado]) à grama. Quando essa mulher explora suas sensações e imagens, vendo e sentindo o cheiro de grama cortada em sua mente, dedica algum tempo a explorar suas sensações corporais em detalhe. Ao fazer isso, ela tem uma sensação nova de estar sendo rodada no ar, presa pelos pulsos e pernas. Em seguida, lhe vem uma imagem tátil de seu irmão bruta- montes fazendo aviãozinho com ela, girando-a no ar, quando ela tinha 4 ou 5 anos, no jardim de sua casa. Ela sente medo (antigo A), mas enquanto treme e respira se dá conta de que não está mais em perigo. Ela agora se orienta (B [Comportamento]) olhando em volta, observando o consultório calmo e tranquilo e virando a cabeça na direção do rosto franco de seu terapeuta. Sentindo-se intacta nessa recém-descoberta segurança, ela se acalma um pouco. Vivencia uma respiração espontânea (novo B [Comportamento]), sentindo-se agora se- gura em sua barriga (nova S). Então, ela percebe alguma tensão nos pulsos (antiga S) e o impulso de livrá-los (nova S). Agora, ela sente uma onda de raiva (novo A) crescendo dentro de si quando grita “Para!” usando os músculos motores de suas pregas vocais (novo B [Comportamento]). Ela se acal- ma novamente e sente (nova I) o prazer tátil de estar deitada na grama recém-cortada, macia, no agradável calor do sol de primavera. A grama fresca não está mais associada a sensações desagradáveis (antigo M [Significado]); a grama verde, recém-cuidada é boa, os parques são lugares maravilhosos e “tudo está bem” (novo M [Significado]). Ela não sente mais náusea ou ansiedade nessa situação. Esse exemplo simples nos mostra como os elementos desse modelo biológico se encaixam para criar uma teia de fixidez ou fluidez. Na natureza, quando experimentamos uma sensação interna, é comum que uma imagem apareça simultânea ou imediatamente. Se uma imagem perturba um paci- ente, talvez ela seja acompanhada de uma sensação da qual ele não tem consciência. Quando, com a orientação do terapeuta, o paciente se consci- entiza dos dois elementos, surge em seguida um comportamento, um afeto ou um novo significado. Uma vez entendido o processo, e desde que não se interfira nele, a biologia trabalha para fazê-lo prosseguir. O tronco cerebral baseado na sen- sação tem a função de produzir a homeostase e, consequentemente, trazer o bem-estar de volta ao corpo. Portanto, ele advém naturalmente quando o comportamento corporal do paciente se torna consciente na segurança do momento presente, e os movimentos frustrados, que foram impedidos de acontecer, chegam a uma solução intrínseca ou a uma vivência corretiva – como aconteceu comigo, Nancy e a mulher do exemplo acima. Essa solução leva a uma descarga de energia que resulta em um novo, renovado afeto (A) que traz consigo opções e significados novos em folha. Se o paciente não tiver consciência do comportamento ou da sensação, a imagem fixada geralmente levará a afetos fixados e/ou pensamentos que já o perturbavam. Quando um comportamento fixado não se completa de maneira nova, o resultado é um afeto habitual ou (sobre)acoplado. Ajudar os pacientes a acom- panhar seus impulsos sensório-motores até sua conclusão, à medida que saem do congelamento, é a chave que vai abrir as portas da prisão limitadora do transtorno de estresse pós-traumático, pois o comportamento reflete respostas de orientação preparatória, protetora e defensiva. A tarefa do terapeuta como o profissional que cura é notar quais elementos do SIBAM do paciente são padrões antigos, condicionados, ineficazes, e quais simplesmente não estão presentes porque escondidos de forma inconsciente. Quando conseguimos ler esse mapa, fornecemos as ferramentas somáticas para libertar o paciente do emaranhado dessas associações fisiológicas oriundas do passado que se formaram por hábito. Assim, as
pessoas, felizmente, se reintegram a uma forma saudável, flexível e dinâmica de se relacionar com todas as novas experiências que a vida traz.
7MAPEANDO O CORPO, CONSERTANDO A MENTE: SIBAM
O corpo é o mapa da mente.
J. D. Landis, Solitude
O corpo como instrumento do self
As sensações físicas são o verdadeiro alicerce da consciência humana. Como criaturas biológicas que somos, nosso corpo é concebido para reagir em um mundo que está em contínua mutação, é desafiador e muitas vezes perigoso. Um recém-nascido precisa aos poucos aprender a discernir o significado das sensações que seu corpo experimenta. Os bebês aprendem a respeito de seu self corpo/mente pela ação e interação com seus pais e com o ambiente que os cerca. As crianças pequenas vivem em um oceano de sensações. Por sorte, a maioria dos pais aprende o código de seu bebê relativamente rápido. Eles sabem quando o filho está sinalizando as diversas e inconfundíveis sensações de fome, dor, raiva e cansaço porque os bebês instintivamente comunicam esses estados internos, induzindo seus cuidadores a lhes proporcionar alívio. É uma questão de sobrevivência. Mais tarde, entretanto, essa habilidade evolutiva servirá a mais que uma função de vida ou morte. As sensações de fato formam os alicerces para a maturação gradual da criança na direção de uma autonomia e de uma independência autênticas.
À medida que crescemos, somos definidos pela forma como nosso corpo interage com o ambiente que nos cerca. O que fazemos fisicamente – se sentimos prazer ou dor, vivenciamos sucessos ou fracassos – é registrado pelo corpo e fica gravado na mente. Nosso conhecimento do mundo, conforme interagimos com ele, vem da totalidade de nossas sensações, tanto externas quanto internas. Sir Charles Sherrington, ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1932, disse que o ato motor é o berço da mente. Cinquenta anos depois, outro ganhador do mesmo prêmio, Roger Sperry, elaborou a icônica premissa de Sherrington:
À medida que um organismo percebe determinado objeto, ele está preparado para dar uma resposta a ele [...] A presença ou ausência de potencialidades de reação adaptativa, prontas para se descarregar em padrões motores, é o que faz diferença entre perceber e não perceber.¹
Em uma série de experiências estimuladas pelo Princípio Sperry, Richard Held e Alan Hein pediram que adultos usassem óculos especiais que faziam que tudo parecesse estar de cabeça para baixo². Depois de algum tempo (normalmente uma ou duas semanas), o cérebro dos participantes da pesquisa que estavam livres para se movimentar ativamente, tocando e manipulando o mundo a seu redor, se adaptou de tal forma que eles, de fato, viam o mundo de cabeça para cima novamente. Por outro lado, os pesquisados que não puderam se movimentar e explorar não obtiveram uma normalização visual. Held também fez experiências que ilustraram o significado das respostas motoras em termos de desenvolvimento³. Gatos recém-nascidos foram acomodados em um aparato móvel e colocados em um cercado circular. Um grupo de gatinhos andava e puxava o aparato junto com eles por todo o cercado, enquanto os outros gatos eram puxados passivamente. Os dois grupos viam exatamente as mesmas coisas ao se movimentar pelo cercado. Os gatinhos que foram puxados passivamente e não exploraram o entorno de forma ativa mais tarde não se demonstraram capazes de usar a visão para guiar seus movimentos. Eles não conseguiam posicionar as patas de forma adequada ou se afastar de um lugar de onde poderiam cair. Esse déficit foi logo revertido quando puderam se movimentar ativamente, explorando o mundo a seu redor.
Finalmente, nesse desfile de ganhadores do Prêmio Nobel, Gerald Edelman, biólogo americano que ganhou o prêmio em 1972 por seu trabalho sobre imunologia, propôs uma teoria que denominou de Darwinismo Neural⁴. Essa complexa teoria reconhece a relação intrínseca da atividade motora, das nossas explorações passadas e presentes do mundo que nos cerca, como o suporte da experiência e da memória. Coletivamente, esses ganhadores do Nobel veem a mentalidade(inclusive nossa complexa estrutura de elaboração de significado) como resultante da sintonia fina e da categorização de nossas ações, sensações, sentimentos e percepções. Virando do avesso antigas teorias, agora temos consciência de que, em lugar de ser os mandachuvas, os comandantes hierárquicos todo-poderosos, os pensamentos são uma complexa elaboração do que fazemos e de como nos sentimos.
Pode-se dizer que o pensamento de fato funciona como uma explicaçãode nós mesmos: um lembrete do que estamos fazendo e sentindo. Pensar e simbolizar ajuda-nos a criar categorias de acontecimentos, pessoas ou lugares, por exemplo, aqueles que são segurosou perigosos. A evolução de pensamentos, símbolos e comunicação verbal, que derivam das sensações, deu a nossos primeiros ancestrais uma vantagem crucial, permitindo que compartilhassem êxitos e fracassos e os passassem adiante. Como eram caçadores e precisavam ir em busca de alimento, para que pudessem sobreviver era necessário que estivessem completamente dentro do corpo, assim como os bebês. Uma ruminação mental excessiva certamente implicaria morte súbita ou morte lenta por inanição. Entretanto, ao longo de milênios, a inteligência inata do corpo foi abandonada e substituída pela exclusividade da racionalidade, da simbolização e da linguagem. O corpo passou a existir única e exclusivamente (como disse brincando um personagem de um cartum de Jules Feiffer) para transportar nossa cabeça de um lugar para outro... Se não fosse isso, ele não serviria para nada. Ao contrário, a consciência de fato se revela por intermédio do desenvolvimento da consciência corporal, do ato de aprender a entender as nuanças e os significados de nossas sensações físicas internas, e também de nossos sentimentos.
O trauma e o corpo/mente
Em circunstâncias normais, as sensações físicas são sinais para ação: para lutar ou fugir quando ameaçados, correr atrás de um peru selvagem ou fazer um sanduíche quando estamos com fome, ir ao banheiro quando precisamos, fazer amor quando excitados de paixão, dormir quando estamos cansados, sair cantando quando sentimos vontade ou firmar os pés e elevar a voz com raiva e assertividade quando nossas fronteiras são violadas. Em todas essas situações, o corpo dá início e a mente dá sequência.
Ter uma relação de intimidade com nossas sensações físicas e compreendê-las é fundamental, pois, ao sinalizar ação, elas nos guiam pelas experiências, vivências e nuanças da vida. Quando alguém sofre um trauma, entretanto, suas sensações podem se tornar sinais não para ação efetiva, mas, em vez disso, para paralisia de medo, desamparo ou fúria mal direcionada. Quando alguns dos sinais corporais de uma pessoa se tornam prenúncio de medo, desamparo, fúria impotente e derrota, ela se esquiva desses sinais a um altíssimo custo mental, emocional e físico. Quando tenta se fechar, desligando-se das sensações que provocam sofrimento, a pessoa paga o preço de perder a capacidade de apreciar as sutis mudanças físicas que denotam conforto, satisfação ou sinal de perigo claro e imediato. Lamentavelmente, em consequência disso, ela também se desliga da capacidade de sentir prazer, de armazenar significados relevantes e acessar reflexos de autoproteção. Não dá para ter as duas coisas; quando os sentimentos de pavor são mantidos a distância, os sentimentos de alegria e prazer os acompanham.
A boa notícia é que os seres humanos costumam ser flexíveis e resilientes: em geral somos capazes de aprender com as diversas experiências da vida e incorporá-las. Essas experiências, sejam elas edificantes ou desanimadoras, circulam com facilidade pelo nosso fluxo de consciência corpo/mente contanto que não estejamos cronicamente super ou subativados. O corpo/mente continua fluindo através de novos encontros com a vitalidade, voltando alegremente para o curso das coisas a não ser que haja uma ruptura significativa. Nesse caso, a pessoa é arremessada para fora desse curso normal – seja a partir de um episódio único, como um desastre, um acidente, uma cirurgia ou um estupro, ou de algo que lhe causa estresse crônico, como algum tipo de abuso ou uma tensão contínua no casamento. Quando tais rupturas não conseguem ser totalmente integradas, os componentes
dessa experiência ficam fragmentados em sensações, imagens e emoções isoladas. Esse tipo de desmembramento acontece quando não conseguimos nos defender, digerir ou lidar com a enormidade, a intensidade, a súbita aparição ou a duração do que aconteceu. A vulnerabilidade pessoal, como a idade, a genética e o sexo, também é responsável por essa implosão psíquica. O resultado dessa incapacidade do corpo/mente de incorporar é o trauma ou, no mínimo, desorientação, perda de autonomia e/ou perda de direção.
Encurraladas entre sentir demais (sobrepujadas ou inundadas) ou sentir de menos (desligadas e entorpecidas) e incapazes de confiar em suas sensações, as pessoas traumatizadas podem perder o rumo. Elas não mais se sentem elas mesmas; perda de sensação é igual a perda de sentimento do self. A fim de substituir os sentimentos genuínos, as vítimas de trauma podem ir em busca de experiências que as mantenham fora de alcance – como excitação sexual ou entrega a compulsões, vícios e variadas distrações que evitam encarar uma vida interna que agora é sombria e ameaçadora. Nessa situação, o indivíduo não consegue constatar a natureza transitória do desespero, do pavor, da fúria e do desamparo nem perceber que o corpo foi concebido para, em ciclos, entrar e sair desses extremos
⁵.
Ajudar os pacientes a cultivar e regular a capacidade de tolerar sensações extremas – mediante autoconsciência refletiva e apoio à autoaceitação – faz que eles consigam modular sensações e sentimentos desconfortáveis. Agora eles podem tocar nessas sensações e emoções intensas por períodos mais longos à medida que aprendem como controlar sua ativação. Uma vez que o paciente vivencia o entrar e voltar para forasem desmoronar, sua janela de tolerância vai se consolidando. Isso acontece quando se alcança uma interação sutil entre sensações, sentimentos, percepções e pensamentos. Acredito que as pessoas que são mais resilientes, e encontram mais paz na vida, aprenderam a tolerar as sensações extremas adquirindo a capacidade de ter autoconsciência refletiva. Embora esse costume se desenvolva quando somos muito jovens, podemos aprendê-lo em qualquer momento da vida, felizmente.
As crianças aos poucos aprendem a interpretar as mensagens que o corpo lhes envia. De fato, é ao aprender a coordenar movimentos (comportamentos) e sensações em um todo coerente que a criança aprende quem é. Ao se lembrar de ações que provaram ser eficientes, e descartando as ineficazes, as crianças aprendem a prever qual será a resposta mais adequada e como determinar o tempo para sua execução de forma que obtenha eficiência máxima. Dessa maneira, elas vivenciam autonomia, satisfação e prazer. Quando uma criança é dominada pelo trauma ou se frustra devido à negligência, essa sequência de desenvolvimento não acontece ou, se já estiver desenvolvida, se rompe; e as emoções negativas passam a dominar sua existência.
Depois de sofrer um trauma, a relação de uma criança com seu corpo em geral se torna informe, caótica e massacrante; a criança perde a sensação de sua estrutura interna e das nuanças decorrentes dela. Quando o corpo se paralisa, o cérebro e a mente em choqueficam sufocados, desorganizados e fragmentados; eles não conseguem absorver a totalidade da experiência e aprender com ela. Essas crianças, que ficaram presasem algum ponto do curso de uma ação que um dia teve um significado e um propósito, se entregam a padrões de comportamento normalmente ineficientes e em geral compulsivos – o que acarreta sintomas como transtorno de hiperatividade e déficit de atenção ou transtorno obsessivo-compulsivo. Os esforços fragmentados e descoordenados da criança não são registrados como lembranças normais, explícitas e narrativas; ao contrário, são codificados no corpo como memórias de procedimento implícitas que incluem desconforto, constrição, angústia, constrangimento, rigidez, flacidez e falta de energia. Tais lembranças são codificadas não primeiramente no neocórtex, mas no sistema límbico e no tronco cerebral. Por isso, os comportamentos e as lembranças não podem ser modificados simplesmente mudando os pensamentos da pessoa. Ela também precisa trabalhar com sensações e sentimentos – com a totalidade da experiência.
O modelo SIBAM
Os seres humanos em geral e os terapeutas em particular fazem contato através de um tipo de ressonância corporal. Como descrevi no Capítulo 4, nós, humanos, somos programados para experimentar sensações semelhantes àquelas das pessoas que estão próximas de nós⁶. Imagine-se em uma sala cheia de teóricos da conspiração ansiosos e compare essa cena com estar rodeado de monges felizes em meditação.
A ressonância forma a base da sintonia empática necessária para a construção de relacionamentos íntimos⁷. Ao tratar pessoas traumatizadas, o terapeuta primeiro precisará cultivar um relacionamento profundo e duradouro com o próprio corpo. Somente quando a capacidade de incorporação do terapeuta está intacta e engajada ele poderá orientar o paciente e dar autonomia a ele. De forma semelhante, refinando sua capacidade de observar os comportamentos sutis alheios, o terapeuta poderá dar a seus pacientes o feedback que os ajudará a se conscientizar de suas sensações e de seus sentimentos. Juntas, essas duas ferramentas – ressonância somática e observação sutil – têm imensa força e trazem benefícios incalculáveis. Nas palavras do analista Leston Havens, talvez a evidência mais impressionante de empatia bem-sucedida seja o fato de sentirmos no nosso corpo sensações que o paciente descreveu em seu próprio corpo⁸.
Durante os anos 1970, elaborei um modelo que me permitiu rastrearos processos por meio dos quais meus pacientes processavam experiências. Esse modelo, que chamo de SIBAM⁹, baseia-se na relação íntima entre corpo e mente. O modelo examina os cinco canais a seguir.
Sensação
Imagem
Comportamento
Afeto
Significado
O modelo SIBAM está em clara oposição à estrutura hierárquica instituída, codificada como cogito ergo sum ou penso, logo existo, que é a premissa fundamental das terapias cognitivo-comportamentais padrão. Ao contrário, meu modelo de cinco elementos é a essência do processamento sensório-motor, de baixo para cima, que tem como objetivo conduzir o paciente ao longo dos diferentes sistemas cerebrais e de linguagem, do mais primitivo para o mais complexo; das sensações físicas para os sentimentos, as percepções e, finalmente, os pensamentos. A sensação, a imagem, o afeto e o significado são rastreados pelo paciente, enquanto o comportamento é observado diretamente pelo terapeuta. Essa abordagem possibilita um rastreamento íntimo e profundo das múltiplas camadas e texturas da totalidade da experiência.
O canal da Sensação
Aqui me refiro às sensações físicas que emergem de dentro do corpo, dos receptores que se encontram no interior do nosso organismo. Essas sensações também são conhecidas na literatura como interoceptivas. Elas ascendem pelos impulsos nervosos provenientes do interior do corpo para o tálamo no tronco cerebral superior, de onde são transferidas para muitas, se não para a maioria, das regiões do cérebro. Quatro subsistemas, ou categorias, constituem o canal da sensação em ordem crescente de profundidade: os receptores cinestésicos, os proprioceptivos, os vestibulares e os viscerais.
Os receptores cinestésicos
O primeiro subsistema dentro do canal da sensação é a cinestesia. O sentido cinestésico sinaliza o estado de tensão em nossos músculos¹⁰ e retransmite essa informação para o cérebro. Se você se sente incomodadoe/ou tenso, é porque está recebendo um excesso de impulsos nervosos provenientes dos músculos dos ombros e de outras áreas – tais como pescoço, mandíbulas ou pelve – e também de uma mente demasiadamente ativa.
Os receptores proprioceptivos
O segundo subsistema, chamado de propriocepção, nos fornece informações de posicionamento das articulações. Juntas, a cinestesia e a propriocepção nos dizem onde estamos localizados no espaço, assim como qual é a velocidade de qualquer parte do corpo. Uma pessoa pode, por exemplo, reger uma orquestra de olhos fechados e depois, ao fim da sinfonia, colocar a ponta do dedo exatamente na ponta do nariz sem precisar olhar – um feito extraordinário, porém possível, que alia sensação e coordenação.
Os receptores vestibulares
O subsistema vestibular provém de cílios microscópicos localizados dentro dos canais semicirculares do ouvido interno. Dois desses canais formam um ângulo reto entre si. Quando nos movemos (aceleramos ou desaceleramos em qualquer direção), um fluido nesses canais jorrapor cima dos cílios, fazendo-os vergar. Cada cílio está ligado a um receptor, e esses receptores então enviam impulsos aferentes para o tronco cerebral. Informações desse sentido nos indicam nossa posição no que diz respeito tanto à gravidade quanto a qualquer mudança de velocidade (isto é, aceleração e desaceleração).
Os receptores viscerais
O quarto subsistema, que nos dá o nível mais profundo de interocepção, provém de nossas vísceras e vasos sanguíneos. No Capítulo 6, descrevi o nervo vago, que conecta o tronco cerebral à maioria dos órgãos internos. No que se refere à quantidade de neurônios, esse enorme nervo só perde para a medula espinal. Mais de 90% dessas fibras nervosas são aferentes: ou seja, a principal função do nervo vago é retransmitir informações das vísceras para o cérebro. Portanto, os coloquialismos instinto visceral, sentimentos visceraise mesmo sabedoria visceral¹¹ têm uma sólida base anatômica e fisiológica. As sensações viscerais também se originam de receptores existentes nos vasos sanguíneos – como bem o sabem aqueles que sofrem de enxaqueca quando a súbita dilatação de vasos sanguíneos (depois de forte constrição) causa dores excruciantes. Entretanto, também estamos recebendo todo tipo de informação de nossos vasos sanguíneos relacionadas ao entorno. Sentimo-nos relaxados e abertos quando vasos sanguíneos e vísceras pulsam suavemente como os movimentos de uma água-viva, fazendo aflorar sensações de aconchego e bem-estar por todo o corpo. Quando os vasos e as vísceras estão contraídos, sentimo-nos frios e ansiosos.
O canal da Imagem
Enquanto a imagem normalmente se refere à representação visual, eu a utilizo de maneira mais ampla para me referir a todos os tipos de impressão sensorial externa, que originalmente provêm de estímulos que emergem de fora do corpo e também incorporamos dentro do cérebro como memória sensorial. Esses sentidos externos (especiais) são a visão, o paladar, o olfato, a audição e o tato.¹². Ao contrário da linguagem corrente, utilizo a mesma palavra – imagem – para categorizar todos esses sentidos externos. Na verdade, o I do modelo SIBAM poderia referir-se, igualmente, a qualquer uma das impressões geradas externamente (visual, auditiva, tátil, olfativa etc.). Por exemplo, se uma pessoa é tocada por outra, ela vivenciará tanto a impressão externa de ser tocada quanto a sensação interna (interoceptiva) de sua resposta a esse toque. Então, se somos tocados de forma errada, será necessário separar a impressão tátil real da nossa resposta interna a esse estímulo em cada nova situação para nos libertarmos da reação reflexiva de experiências anteriores
A impressão visual ou imagem é a forma primordial que os seres humanos modernos utilizam para acessar e armazenar informações sensoriais externas, a menos que sejam deficientes visuais. A maior parte de nosso cérebro sensorial dedica-se à visão. Existem, entretanto, outras razões terapêuticas que me levam a incluir todos os sentidos externos no canal da imagem. No momento em que um trauma acontece, todos os sentidos da pessoa automaticamente concentram a atenção no aspecto mais evidente da ameaça. Esse aspecto costuma ser uma imagem visual, embora também possa ser um som, um toque, gosto ou cheiro. Muitas vezes é uma combinação de vários ou, até mesmo, todas as impressões sensoriais ao mesmo tempo. Por exemplo, uma mulher molestada pelo tio alcoólatra pode entrar em pânico ao ver um homem que se pareça vagamente com ele ou cujo hálito cheire a álcool, ou ainda que ande com passos pesados e ruidosos. Esses instantâneos fragmentários passam a representar o trauma. Eles se tornam, em outras palavras, a imagem intrusa ou imprint [marca indelével]. No meu caso, a imagem da janela estilhaçada e os olhos da motorista adolescente estavam sempre invadindo minha consciência e me inundando de medo e pavor.
Ao retrabalhar tais imagens sensoriais inculcadas, é necessário haver um processo de difusão da carga de adrenalina do instantâneo comprimido do traumapara desacoplar associações que são sintomáticas. Uma importante técnica terapêutica expande e neutralizaessa fixação e ajuda a pessoa a recuperar a experiência multissensorial que ela pode ter tido antes da ameaça que causou a fragmentação. A descrição a seguir ilustra esse princípio de expansão da abertura visual.
Imagine que em uma manhã de verão, bem cedo, você está caminhando por uma montanha. Há um riacho sinuoso ao longo da trilha. Uma brisa suave sopra, fazendo que as flores multicoloridas pareçam dançar. Você é tocado pela visão de gotas de orvalho pousadas em uma folha de grama. O sol esquenta sua pele e o aroma das flores é inebriante. Você está absorvendo tudo isso. Então, inesperadamente, uma cobra enorme aparece no caminho. Você para e prende a respiração. Tudo que você sentiu um minuto atrás desaparece... ou não? Na verdade, não. O que acontece é que sua percepção se contrai para se concentrar exclusivamente na fonte da ameaça. Quase todo o restante se retrai e fica em segundo plano, deslocando-se para as fendas ocultas da sua mente para que você não se distraia daquilo que precisa identificar e fazer: manter a atenção única e exclusivamente focada na cobra e se afastar devagar. Depois que se sentir novamente em segurança, você poderá retornar à experiência sensorial plena daquela manhã. Quando uma pessoa traumatizada consegue expandir suas impressões sensoriais, a hiperativação associada começa a diminuir, permitindo que esse campo de percepção ampliado retorne ao estado de pré-ameaça, e assim aumente a capacidade de autorregulação.
Antes de meu acidente, como descrevi no Capítulo 1, eu estava absorvendo o cenário ao meu redor: as cores, os sons, os aromas e o calor prazeroso daquele dia perfeito. No instante em que fui atingido, essas imagens agradáveis se apagaram. Minha atenção voltou-se totalmente para a imagem do predador; a teia de aranha da janela estilhaçada, a grade bege da frente do carro e o rosto apavorado da adolescente de olhos arregalados. Por sorte, em meus primeiros socorros autoadministrados, consegui voltar para o começo daquele dia perfeito, com as visões, os sons e os aromas sensoriais dos preciosos momentos que antecederam o impacto.
O canal do Comportamento
O comportamento é o único canal que o terapeuta pode observar de forma direta; todos os outros são relatados pelo paciente. Embora o terapeuta possa fazer muitas suposições a respeito da vida interior de um paciente a partir da ressonância com seus próprios sentimentos e sensações, tais inferências não podem substituir a ação do paciente de também acessar e expressar os próprios sentimentos, sensações e imagens para o terapeuta¹³. O terapeuta pode inferir os estados internos de um paciente com base na leitura de sua linguagem corporal, na linguagem sem palavras de suas ações/inações ou nos padrões de tensão. Por exemplo, o terapeuta, ao notar determinado comportamento corporal, pode direcionar o paciente para que se concentre naquilo que ele pode estar sentindo no corpo (Sensação). Se, digamos, o terapeuta observar que o paciente elevou sutilmente o ombro esquerdo (Comportamento), poderá chamar a atenção do paciente para esse ajuste postural e permitir que ele entre em contato com as sensações do padrão de tensão assimétrica. Da mesma forma, o paciente pode ser estimulado a acessar outros canais de experiência (Imagem, Afeto ou Significado) durante esse comportamento postural. Isso será esclarecido nos casos relatados no próximo capítulo.
O comportamento acontece em diferentes níveis de consciência, que vão dos movimentos voluntários mais conscientes aos padrões involuntários mais inconscientes. Esses níveis assemelham-se às gradações de consciência que descrevi na categoria da Sensação. Agora examinaremos brevemente os comportamentos que ocorrem nos seguintes subsistemas: gestos, emoção e postura, assim como comportamentos autônomos, viscerais e arquetípicos.
Gestos
Os comportamentos mais conscientes são os voluntários: ou seja, os gestos abertos que costumamos fazer com as mãos e os braços quando estamos tentando nos comunicar. Esses movimentos são o nível mais superficial de comportamento. Em geral usamos gestos voluntários para transmitir estados pseudossensíveisaos outros. Já vimos todos os políticos deliberadamente exagerar seus gestos por uma questão de ênfase e efeito. Se sabemos qual é a realidade, podemos de pronto discernir a desconexão ou incongruência fundamental entre a tentativa de transmitir aquilo que a pessoa foi treinada para expressar (por exemplo, abrir os braços para o público ou colocar a mão no coração) e aquilo que ela está realmente sentindo. Ao mesmo tempo, até os gestos volitivos podem transmitir sentimentos, tanto para os outros quanto para nós mesmos.
Por exemplo, podemos interpretar a comunicação não verbal de um punho fechado como uma agressão crescente que se torna uma ameaça ou como a demarcação clara de fronteiras e dominação do medo. Seguem alguns gestos comuns para você experimentar: esfregue a testa com a mão e perceba a sensação. Agora acaricie a nuca. O que esses dois gestos transmitem a você? Eles fazem você se sentir mais ou menos seguro? E quando você está torcendo as mãos em comparação com quando as une só tocando a ponta dos dedos? Que diferenças você percebe?
Emoção
As expressões faciais estão no nível seguinte de comportamento e são geralmente consideradas involuntárias. Foram essas microexpressões que o célebre Paul Ekman¹⁴ estudou em sua pesquisa pioneira, que se estendeu por mais de quatro décadas. Com prática e paciência, uma pessoa pode desenvolver as habilidades necessárias para observar essas mudanças muito breves (não raro em uma fração de segundo) de tensão muscular por todo o rosto¹⁵. Os padrões específicos dessas contrações musculares expressam todo o repertório de nuanças emocionais para a própria pessoa e para os outros¹⁶. Dar feedback aos pacientes a respeito de suas expressões faciais pode ajudá-los a entrar em contato com emoções que passem parcial ou totalmente despercebidas para eles mesmos.
Postura
O terceiro nível de percepção menos consciente na categoria de comportamento é a postura. Aqui não estou me referindo aos grosseiros ajustes posturais voluntários como os exigidos por pais ou professores, tais como senta direito, levanta a cabeçaou bota os ombros para trás, que se referem a movimentos voluntários. Esses pertencem à categoria de gestos voluntários. Sir Charles Sherrington, o avô da neurofisiologia moderna, afirma que muito da reação reflexa expressa pela musculatura esquelética não é móvel, mas postural, e tem como resultado não um movimento, mas a manutenção constante de uma atitude¹⁷. Eu acrescentaria que posturas são as plataformas a partir das quais o movimento intrínseco se inicia. Nas palavras de Arnold Gesell, aluno de Sherrington, o equipamento motor necessário para o comportamento se estabelece muito antes do próprio comportamento. Ao enfatizar a importância da postura na geração de novos comportamentos, sensações, sentimentos e significados, Gesell acrescentou: Devemos buscar a embriogênese da mente nos primórdios dos comportamentos posturais¹⁸.
Embora relativamente poucos terapeutas tenham cultivado a leitura precisa de posturas, ainda estão sendo afetados por elas. Todos nós subconscientemente espelhamos as posturas alheias e as registramos como sensações em nosso corpo. Isso provavelmente acontece por meio do funcionamento de neurônios-espelho e da ressonância postural. Como as mudanças posturais espontâneas em geral são sutis, é necessária muita prática para observá-las. A ressonância é particularmente forte com relação a posturas baseadas na sobrevivência tal como as variedades cheias de nuanças associadas aos pré-movimentos e movimentos de luta, fuga, congelamento/medo e colapso.
Se uma postura é rígida ou desorganizada, podemos supor que era uma preparação para alguma ação específica, uma ação que foi impedida de acontecer e a qual os músculos ainda estão programados para completar. Se essa trajetória sensório-motora adormecida não tivesse sido impedida, provavelmente teria tido um resultado muito mais favorável – como ainda pode acontecer de forma retroativa. Ao relatar meu acidente, descrevi as coisas das quais tinha consciência no meu corpo enquanto estava deitado impotente na ambulância. Foi primeiro a partir de uma sutil sensação de contorção na coluna que senti meu braço iniciar um movimento para cima a fim de proteger minha cabeça de forma que não se chocasse contra o para-brisa e, consequentemente, contra a rua.
A observação de posturas espontâneas (intrínsecas) proporciona ao terapeuta uma importantíssima janela com vista para dentro do estado do sistema nervoso e da psique do paciente. O corpo é benevolente ao nos mostrar quando estamos nos preparando para agir e precisamente para qual incipiente ação pré-movimento ele está sendo preparado. Na maioria das vezes, nós, como observadores atentos, vemos diante de nossos olhos o desenrolar de uma orquestração corporal que nem o terapeuta nem o paciente poderiam jamais prever de forma racional. O terapeuta começa notando posturas que demonstram rigidez, retração, preparação para fugir, contorcer-se e desmoronar, assim como posturas de abertura e expansão. Penso na inesquecível naturalidade postural de uma pessoa como Nelson Mandela que, apesar da magnitude de seu trauma e de sua idade avançada, mantém uma postura natural e graciosa. Diversas pessoas também descreveram sentir-se profundamente relaxadas e abertas na presença do Dalai-Lama. O terapeuta hábil tanto vê quanto sente o oposto dessa graça em um paciente cuja coluna se enrijece, para proteger-se de um suposto ataque, ou desmorona, perde o vigor (às vezes de forma quase imperceptível), quando vivencia sensações e emoções difíceis. Da mesma forma, os terapeutas (e mães, pais e amigos) também conseguem observar e refletir estados momentâneos de graça e bem-estar nos outros.
Sinais autônomos (cardiovasculares e respiratórios)
Entre os comportamentos autônomos visíveis estão sinais respiratórios e cardiovasculares. Respiração rápida, superficial e/ou peitoral indica
ativação simpática. Respiração muito superficial (quase imperceptível) normalmente indica imobilidade, desligamento e dissociação. Respiração plena e livre com expiração completa e uma delicada pausa antes da próxima inspiração indica relaxamento e estabilização no equilíbrio. Pode-se facilmente distinguir esse tipo de respiração espontânea e restauradora daquela de uma pessoa que está tentandorespirar fundo. Com frequência, esse tipo de respiração profunda forçada e voluntária pode, na verdade, aumentar o desequilíbrio do sistema nervoso e, na melhor das hipóteses, traz apenas um alívio temporário¹⁹.
A seguir, há os sinais do sistema cardiovascular, entre eles a frequência cardíaca e o tônus dos músculos lisos que revestem certos vasos sanguíneos. A frequência cardíaca pode, como eu disse antes, ser monitorada pela observação do pulsar da carótida, visível na forma de uma pulsação no pescoço. Com um pouco de prática, o terapeuta é capaz de discernir aumentos e diminuições de frequência, assim como estimar sua magnitude. Também é possível estimar mudanças na pressão sanguínea com base na força ou na fraqueza da pulsação.
O terapeuta pode identificar o tônus dos vasos sanguíneos observando alterações na cor da pele, embora essa observação requeira um nível apurado de percepção. No caso de um tônus muito elevado (vasoconstrição), os dedos frios do paciente terão, por exemplo, uma tonalidade esbranquiçada/azulada, o que reflete – junto com a frequência cardíaca elevada – hiperativação simpática. Por outro lado, quando os vasos sanguíneos estão relaxados e dilatados, ou abertos, os dedos têm uma coloração rosada intensa. Outra variação se dá quando os vasos capilares se dilatam abruptamente, causando um súbito rubor, que pode ser notado em especial no rosto e no pescoço. Além disso, o observador pode, às vezes, sentir de fato uma onda de calor emanar do corpo do paciente²⁰.
O sinal seguinte a ser observado é o tamanho das pupilas. Pupilas muito dilatadas estão associadas à ativação simpática elevada, ao passo que pupilas muito pequenas podem indicar imobilidade e dissociação. Pupilas do tamanho da ponta de um alfinete também podem revelar uso de drogas – em geral de opiáceos. É interessante lembrar que esses opiáceos também são liberados pelo próprio sistema corporal interno de alívio da dor²¹ e são parte integral do sistema de imobilidade e dissociação²².
Comportamento visceral
O comportamento visceral se refere à motilidade do trato gastrintestinal, cujos movimentos podem efetivamente ser observadospelos sons que emite. A maravilhosa palavra onomatopaica para esses rumores e estrondos é borborigmo. Um sistema completo de terapia corporal baseia-se na escuta de um espectro desses sons viscerais com a utilização de um estetoscópio eletrônico (fetal) enquanto diferentes partes do corpo são tocadas e suavemente manipuladas
²³.
O terapeuta que seja capaz de rastrear todos os indicadores de comportamento discutidos aqui terá acesso a informações importantes que o ajudarão a escolher, de forma eficaz, o momento mais adequado para diversas intervenções. Ele saberá, por exemplo, que mãos frias geralmente indicam medo e estresse, enquanto mãos quentinhas significam relaxamento. Uma pele ruborizada pode refletir emoções tais como raiva intensa, vergonha e constrangimento. O que não é de conhecimento geral é que a pele ruborizada também pode sinalizar uma forte liberação de energia e um movimento na direção de maior vitalidade. Assim como acontece com todas essas observações, a sequência deve ser compreendida junto com o contexto: nenhum indicador se basta sozinho. E, é claro, o conteúdo que o paciente está processando no momento também deve ser levado em consideração. Dessa forma, o terapeuta poderá habilmente mapear uma topografia precisa relacionando aquilo que está observando (Comportamento) ao que o paciente está vivenciando (Sensação). Em geral, há uma correspondência entre o nível de sensação e o comportamento; ou seja, quando o terapeuta dá um feedback ao paciente a respeito de uma mudança no sistema nervoso autônomo deste – como frequência cardíaca ou cor da pele (Comportamento) –, o paciente poderá ser instigado a explorar sensações autônomas, tais como o nível de ativação simpática/cardiopulmonar.
Comportamentos arquetípicos
Por último, mas não menos importante, há o subsistema de comportamentos arquetípicos provenientes do inconsciente coletivoprofundo. Ao rastrear as mudanças posturais das pessoas, comecei a perceber gestos sutis de mãos e braços que eram claramente diferentes dos gestos voluntários. Esses gestos em geral surgiam em momentos de movimento terapêutico significativo e muitas vezes indicavam recursos agradavelmente inesperados e mudanças rumo ao fluxo e à inteireza. Além disso, fiquei fascinado com a semelhança entre esses gestos involuntários e aqueles das danças sagradas que eu havia visto em várias apresentações culturais realizadas no Zellerbach Hall, na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Esses movimentos de mãos/dedos/braços, chamados mudras, abarcam e incluem tudo, passando por todo o espectro das experiências humanas e atravessando o mundo inteiro. Especialmente na Ásia, a maneira como as mãos e os dedos são posicionados transmite significados muito profundos e universais, significados esses que estão relacionados a mais do que apenas o dançarino ou um membro da plateia²⁴. Quando o terapeuta observar esses mudras espontâneos, fará uma pausa, dispondo do tempo necessário para trazer a atenção do paciente para eles, e o paciente poderá então usar essa informação para explorar a sensação interiorde sua postura exterior. Não será surpresa nenhuma se, nesse momento, o paciente entrar em contato com um tesouro de poderosos recursos de conexão, empoderamento, fluxo, bem-estar e inteireza. Acredito que esses movimentos arquetípicos surjam em momentos únicos, quando o instintivo está perfeitamente unido, sem costuras ou remendos, à nossa percepção consciente – quando o tronco cerebral primitivo e as funções neocorticais mais elevadas se integram.
Em suma, o comportamento é a única categoria que o terapeuta pode perceber diretamente. Quando o paciente toma consciência – de início apenas de forma marginal – dos próprios comportamentos, ele pode incorporar essas percepções a seu papel de observador, e lembrar a si mesmo de notar as sensações associadas a esses comportamentos. Quando vinculada a pensamentos, essa é uma ótima ferramenta para eliminar compulsões e vícios.
O canal do Afeto
Os dois subtipos no quarto canal são as emoções categóricas e o felt sense²⁵, ou os contornos dos sentimentos baseados nas sensações.
Emoções
As emoções incluem as emoções categóricas descritas por Darwin e aperfeiçoadas em profundos estudos desenvolvidos em laboratório por Paul Ekman. Entre essas emoções estão medo, raiva, tristeza, alegria e repulsa. Mais uma vez, esses são sentimentos que o paciente vivencia internamente e o terapeuta pode deduzir com base em seu rosto e em sua postura, mesmo quando o próprio paciente não tem consciência deles.
Contornos dos sentimentos
Outro nível de afeto – o registro de contornos dos sentimentos – é, talvez, ainda mais importante para a qualidade e a condução da vida que as emoções categóricas. Eugene Gendlin estudou amplamente esses afetos mais suaves e os descreveu cunhando o termo felt sense²⁶ (ver nota nesta página). Quando vemos o orvalho em uma folha de grama à luz da manhã ou visitamos um museu e nos deleitamos com uma bela pintura, normalmente
não estamos vivenciando uma emoção categórica. E quando encontramos um grande amigo que não víamos há meses provavelmente não sentimos medo, pesar, repulsa ou mesmo júbilo. Os contornos são os sentimentos baseados nas sensações de atração e evitação, de bem-estare mal-estar. Vivenciamos essas nuanças inúmeras vezes ao longo do dia. Ao passo que não é difícil imaginar um dia sem que se perceba nenhuma das emoções categóricas, tente visualizar um dia inteiro sem nenhum dos afetos de felt sense. Em um dia assim, você estaria tão perdido quanto um navio no oceano sem leme nem rumo. Esses contornos nos guiam ao longo do dia, dando-nos orientação e direção na vida.
O canal do Significado
Significados são os rótulos que colocamos na totalidade da experiência – ou seja, aos elementos combinados de Sensação, Imagem, Comportamento e Afeto. Significados são como marcadores descritivos que usamos para acessar rapidamente todo o espectro da experiência interna a fim de que possamos transmiti-las aos outros e a nós mesmos. Todos temos crenças fixas, ou significados, que consideramos verdades inequívocas. Quando uma pessoa sofre um trauma, suas crenças se tornam excessivamente estreitas e restritivas. Alguns exemplos desses mantras cristalizados são: Não podemos confiar nas pessoas; O mundo é um lugar perigoso; Eu nunca vou ganhar dinheiro suficiente para me sustentar; Eu não sou digno de ser amado. Essas crenças estão em geral vinculadas a medos primitivos e são, não raro, negativas e limitadoras.
Por mais incrível que isso possa parecer, provavelmente somos programados para ter crenças negativas por uma questão de sobrevivência. Por exemplo, se você estiver andando em um lugar e deparar com um urso, provavelmente vai adquirir o significado de que esse é um lugar perigosoe não seguir por ali na próxima vez. Infelizmente, quando alguém sofre um trauma ou foi profundamente condicionado pelo medo quando era criança e impressionável, esses significados se tornam difusos e rigidamente fixados. Mais tarde, em vez de uma pessoa que acessa livremente todo o espectro de sensações e sentimentos que vão surgindo, tiram-se conclusões baseadas em significados que nasceram de traumas passados ou de antigos condicionamentos. Chamo esse tipo de pré-julgamento de cognição prematura.
Utilizando o modelo SIBAM, o terapeuta poderá ajudar o paciente a trabalhar passando pelos quatro primeiros canais de consciência a fim de alcançar novos significados. Quando a cognição fica suspensa pelo tempo necessário, é possível mover-se por esses diferentes canais (e subsistemas) de sensação, imagem, comportamento e afeto e, por meio deles, vivenciar a fluidez. Então, é provável que significados completamente novos emerjam desse tecido da consciência corpo/mente que começa a se desenrolar. Para exemplificar, uma paciente pode ter, a princípio, crenças fixas específicas, como meu marido não está se comportando adequadamenteou eu não sou digna de ser amada. O terapeuta, em vez de tentar dissuadir o paciente dessa crença, pode encorajá-lo a examinar os locais físicos desses pensamentos, a perceber que áreas estão tensas, quais estão abertas e espaçosas, e a localizar qualquer sentimento de colapso. Talvez seja ainda mais importante pedir que o paciente perceba um vazio de sentimento. Um exemplo comum (principalmente com aqueles que sofreram trauma sexual) é a sensação de não sentir em absoluto a pelve, ou de a pelve estar desconectada do tronco ou das pernas. Um paciente a quem se pede que examine minuciosamente o corpo, da cabeça aos pés, pode relatar uma estranha falta de sensações pélvicas. Obviamente, tal ausência dará ao terapeuta uma ideia daquilo que o paciente está evitando.
Trabalhando com os cinco elementos do SIBAM
O modelo SIBAM abarca os aspectos neurofisiológico, comportamental e somático da experiência de um indivíduo, seja ela traumática ou benéfica. Quando o resultado é bem-sucedido, ou acontece uma experiência corretiva durante a terapia, os elementos do SIBAM geram uma resposta fluida, contínua e coerente adequada à situação imediata. Quando as pessoas sofrem de traumas não resolvidos, há uma continuidade desses vários aspectos da associação e da dissociação traumáticas, que se transformam em padrões fixos e agora desajustados e são distorções da realidade atual.
Um exemplo dessa fixidez é o seguinte: uma mulher adora a natureza, os parques, campos e montes cobertos de grama; entretanto, cada vez que sente cheiro de grama recém-cortada, ela tem náuseas, fica ansiosa e tonta. Sua crença (M – [Significado]) é de que a grama é algo que deve ser evitado. A imagem olfativa e visual (I) está associada, ou acoplada, a sensações de náusea e tontura (S) provenientes de dois de seus sistemas, o vestibular e o visceral. Esse ciclo de feedback positivo com consequências negativas é um enigma. Parte do acontecimento está dissociada de sua consciência: ela não tem ideia de por que isso acontece; sabe apenas que tem grande aversão (M [Significado]) à grama. Quando essa mulher explora suas sensações e imagens, vendo e sentindo o cheiro de grama cortada em sua mente, dedica algum tempo a explorar suas sensações corporais em detalhe. Ao fazer isso, ela tem uma sensação nova de estar sendo rodada no ar, presa pelos pulsos e pernas. Em seguida, lhe vem uma imagem tátil de seu irmão brutamontes fazendo aviãozinho com ela, girando-a no ar, quando ela tinha 4 ou 5 anos, no jardim de sua casa.
Ela sente medo (antigo A), mas enquanto treme e respira se dá conta de que não está mais em perigo. Ela agora se orienta (B [Comportamento]) olhando em volta, observando o consultório calmo e tranquilo e virando a cabeça na direção do rosto franco de seu terapeuta. Sentindo-se intacta nessa recém-descoberta segurança, ela se acalma um pouco. Vivencia uma respiração espontânea (novo B [Comportamento]), sentindo-se agora segura em sua barriga (nova S). Então, ela percebe alguma tensão nos pulsos (antiga S) e o impulso de livrá-los (nova S). Agora, ela sente uma onda de raiva (novo A) crescendo dentro de si quando grita Para!usando os músculos motores de suas pregas vocais (novo B [Comportamento]). Ela se acalma novamente e sente (nova I) o prazer tátil de estar deitada na grama recém-cortada, macia, no agradável calor do sol de primavera. A grama fresca não está mais associada a sensações desagradáveis (antigo M [Significado]); a grama verde, recém-cuidada é boa, os parques são lugares maravilhosos e tudo está bem(novo M [Significado]). Ela não sente mais náusea ou ansiedade nessa situação.
Esse exemplo simples nos mostra como os elementos desse modelo biológico se encaixam para criar uma teia de fixidez ou fluidez. Na natureza, quando experimentamos uma sensação interna, é comum que uma imagem apareça simultânea ou imediatamente. Se uma imagem perturba um paciente, talvez ela seja acompanhada de uma sensação da qual ele não tem consciência. Quando, com a orientação do terapeuta, o paciente se conscientiza dos dois elementos, surge em seguida um comportamento, um afeto ou um novo significado.
Uma vez entendido o processo, e desde que não se interfira nele, a biologia trabalha para fazê-lo prosseguir. O tronco cerebral baseado na sensação tem a função de produzir a homeostase e, consequentemente, trazer o bem-estar de volta ao corpo. Portanto, ele advém naturalmente quando o comportamento corporal do paciente se torna consciente na segurança do momento presente, e os movimentos frustrados, que foram impedidos de acontecer, chegam a uma solução intrínseca ou a uma vivência corretiva – como aconteceu comigo, Nancy e a mulher do exemplo acima. Essa solução leva a uma descarga de energia que resulta em um novo, renovado afeto (A) que traz consigo opções e significados novos em folha. Se o paciente não tiver consciência do comportamento ou da sensação, a imagem fixada geralmente levará a afetos fixados e/ou pensamentos que já o perturbavam. Quando um comportamento fixado não se completa de maneira nova, o resultado é um afeto habitual ou (sobre)acoplado. Ajudar os pacientes a acompanhar seus impulsos sensório-motores até sua conclusão, à medida que saem do congelamento, é a chave que vai abrir as portas da prisão limitadora do transtorno de estresse pós-traumático, pois o comportamento reflete respostas de orientação preparatória, protetora e defensiva.
A tarefa do terapeuta como o profissional que cura é notar quais elementos do SIBAM do paciente são padrões antigos, condicionados, ineficazes, e quais simplesmente não estão presentes porque escondidos de forma inconsciente. Quando conseguimos ler esse mapa, fornecemos as ferramentas somáticas para libertar o paciente do emaranhado dessas associações fisiológicas oriundas do passado que se formaram por hábito. Assim, as
pessoas, felizmente, se reintegram a uma forma saudável, flexível e dinâmica de se relacionar com todas as novas experiências que a vida traz.
PARTE II O CORPO COMO CONTADOR DE HISTÓRIAS: EMBAIXO DA MENTE
Usamos a mente não para descobrir fatos, mas para escondê-los. Uma das coisas que a cortina esconde melhor é o corpo, o nosso corpo, isto é, todos os pormenores, o seu interior. Como um véu posto sobre a pele para lhe preservar o pudor, a cortina retira da mente em parte os estados internos do corpo, aqueles que constituem o sopro da vida en- quanto ele perambula na jornada de todo dia. António Damásio, O mistério da consciência
8. No consultório
8NO CONSULTÓRIO Para adquirir conhecimento, deve-se estudar, mas, para adquirir sabedoria, deve-se observar. Marilyn vos Savant Pode-se observar muito só olhando. Yogi Berra, receptor de beisebol, New York Yankees (por volta dos anos 1950) O terapeuta que conhece os sentimentos do corpo conta com uma visão privilegiada da vida primária da psique e da alma. Por mais que se con- verse não se consegue superar essa posição vantajosa. Muito antes do advento da psiquiatria, o filósofo francês Pascal observou que “o corpo tem ra- zões que a própria razão desconhece”¹. O austríaco Wittgenstein, da mesma tradição, escreveu que “o corpo é a melhor imagem da mente”. E, perto da virada do século XIX, o australiano F. M. Alexander fez um longo estudo da postura das pessoas e concluiu: “Quando os psicólogos falam do incons- ciente, eles falam é do corpo”. A atual falta de reconhecimento do corpo na psicoterapia levou o analista Masud Kahn² a lamentar: “Não topei com nenhum estudo que discuta a contribuição ao nosso saber e conhecimento do paciente dada pelo que vimos em seu corpo, em contraposição com o que vimos apenas no material verbal e nas respostas afetivas na situação analítica”. Os terapeutas adeptos do somatismo dão aos pacientes um feedback meticuloso na forma de sugestões para que explorem as sensações corporais que surgirem. Esse feedback baseia-se sobretudo na capacidade do terapeuta de observar e acompanhar as alterações posturais, gestuais, faciais (emocionais) e fisiológicas do paciente ao longo de uma sessão para que façam parte da percepção consciente dele próprio. Isso permite ao paciente e ao terapeuta descobrir conflitos e traumas que estejam fora do alcance da razão. Freud mostrou ter captado esse conceito em sua obra inicial ao afir- mar que “a mente esqueceu, mas o corpo não, felizmente”. Sim, felizmente! Embora Freud pareça ter esquecido essa premissa, seu aluno Wilhelm Reich passou toda a carreira estudando como os conflitos se instalam no corpo. “Quando se trata de consultório”, ressaltou ele, “existem apenas dois animais e dois corpos.”³ Neste capítulo, usarei exemplos dos meus atendimentos para ilustrar os princípios esboçados do Capítulo 5 ao 7. No começo do trabalho nas ses- sões, o paciente pode não entender o feedback do terapeuta a respeito de suas atitudes inconscientes. Porém, à medida que ganha consciência de suas sensações, o paciente consegue usá-las para acessar seus recursos inatos e aprofundar sua capacidade de “se conhecer” por meio das instigações de seu corpo. No primeiro caso (Miriam), apresento a linguagem corporal expressiva mas oculta. Relativamente simples, esse caso demonstra certas apti- dões essenciais de observação corporal que os terapeutas podem utilizar com os pacientes para promover o despertar destes e aumentar a integração de seus sentimentos, sensações, percepções e conotações. Miriam: na linguagem sem palavras do corpo Miriam entra na sala, senta-se vacilante e cruza os braços com firmeza sobre o peito. Essa postura dá a impressão de uma rígida autoproteção. Claro que há muitos motivos para cruzar os braços: ela poderia estar se reconfortando ou até se aquecendo. É o contexto como um todo que conta a história. Miriam está agitada, balançando sem parar as pernas cruzadas. Seu rosto está visivelmente contraído; os lábios, finos e apertados. Miriam re- vela que está descontente e ressentida com seu casamento e seu trabalho. Ela se sente “de mau humor muitas vezes” e quase sempre tem o sono inter- rompido. Quando acorda, em geral é por causa de cãibras na barriga e inquietação nas pernas. Ela descreve essa situação incômoda resmungando: “É como se me chutassem à noite e me acordassem”. Seu médico acha que ela pode ter “síndrome das pernas inquietas” ou depressão e lhe receitou um antidepressivo. No entanto, ela primeiro quer tentar “botar as coisas pra fora”. A linguagem corporal de Miriam reflete tanto sua aflição quanto sua “resistência”. Essa resistência tem um motivo: é a expressão física de como ela se protege. Em parte, Miriam defende-se como se houvesse um “ataque” externo. Todavia, ela se protege essencialmente dos seus sentimentos e sensações rejeitados. A resistência precisa ser trabalhada com suavidade e de modo indireto. A confrontação frontal costuma ser insensata: é provável que o “ataque” direto à resistência a intensifique ou a desfaça precipitadamente. O rompimento súbito de uma defesa pode provocar opressão, trans- torno e uma eventual retraumatização. A observação da resistência no plano corporal permite ao terapeuta monitorar a capacidade progressiva do paciente de se aproximar de suas sensa- ções e sentimentos à medida que corre a sessão e, assim, avaliar a eficácia e a intensidade das diversas intervenções terapêuticas, verbais e não ver- bais. Quando começa a se sentir mais seguro (por meio de reflexão, ritmo e espelhamento), o paciente percebe que é notado e respeitado; e então, naturalmente, as posições defensivas diminuem paulatinamente. Se, por outro lado, o paciente se esforça bastante para se abrir (por exemplo, reve- lando muito mais sobre si do que está preparado para fazer física e emocionalmente), seu corpo reflete isso pelo aumento da resistência ou por alte- rações incongruentes em seu comportamento verbal e não verbal. Porém, quando o terapeuta consegue rastrear a crescente consciência do paciente e auxiliar na descoberta de seus mecanismos somáticos de defesa (sem forçá-los ou se afastar deles), os níveis mais profundos do sistema de comuni- cação inconsciente do corpo começam a se manifestar, tanto para o terapeuta quanto para o paciente. Mesmo que de início Miriam não esteja consciente de sua postura protetora habitual de cruzar os braços, trata-se de um gesto relativamente voluntário. À medida que ela se sente mais segura e confiante, essa narrativa sem palavras transforma-se em expressões mais espontâneas, não habi- tuais. Conforme ela conquista acesso a sentimentos incipientes mais profundos, começam a emergir questões mais fundamentais, prontas para ser investigadas. Miriam continua a falar de suas dificuldades no trabalho e com o marido, Henry. Embora esses sejam os mesmos problemas com que ela se debatia minutos antes, agora há mais ânimo em sua voz. Ela gesticula com os braços, estendendo-os um pouco para a frente. Suas mãos ficam quase em ângulo reto com os pulsos, quase como se estivesse empurrando algo para longe. Faço um movimento parecido com os meus braços, a fim de “espelhar” os movimentos dela e ajudá-la a sentir seus movimentos (renegados) e confiar neles⁴. Chamo a atenção de Miriam para o fato de ela ter estendido os braços e dobrado os pulsos e sugiro que ela repita esses movimentos lentamente. Peço-lhe que tente se concentrar na sensação em seus braços quando ela faz o movimento, para que perceba por dentro a sensação física dele. A prin- cípio ela parece intrigada. Depois de alguns movimentos, ela para, sorri e diz: “Parece que estou empurrando algo para longe... não, é mais como segu- rar algo longe… Preciso de mais espaço – é isso que eu sinto”. Ela movimenta os braços em arco da sua frente para cada um dos lados, criando um leque de movimento livre de 180 graus. Ela expira profunda e espontaneamente: “Não me sinto tão sufocada, e a minha barriga não dói tanto quanto no começo”. Ela estende os braços e dobra os pulsos de novo. Dessa vez ela os mantém estendidos por vários segundos, praticamente esticados. “É o mesmo problema… no trabalho e com o meu marido também.” Ela então pousa as mãos suavemente sobre as coxas. “É difícil pra mim, não sei por quê, mas... acho que não tenho direito de fazer isso... como se eu não tivesse direito a um espaço só meu.”
Pergunto a ela se se trata mais de uma sensação ou de um pensamento. Ela para, dá um risinho e responde: “Ora, acho que é mesmo um pensa- mento”. Aí ela solta uma gargalhada. Ao entrar em contato com sua expressão corporal não verbal, Miriam consegue penetrar o verniz das suas ruminações a respeito de Henry e do seu trabalho, a fim de investigar livremente a história que seu corpo começa a contar. Com essa consciência cinestésica e proprioceptiva emergente, ela passa a perceber a atitude neuromuscular escondida por trás de seus conflitos internos. Depois de se acalmar com sua experiência corporal, Miriam volta a se agitar. Observo a pulsação em sua carótida e noto um aumento em seu ritmo cardíaco, além da respiração contida, rápida e curta. Peço-lhe que deixe os questionamentos de lado por um instante e concentre-se de novo em seu corpo. Aliviada com a sugestão, ela fecha os olhos. “Agora me sinto mais firme… como se eu fosse mais eu.” Quando lhe peço que tente identificar onde em seu corpo ela sente a firmeza, Miriam diz: “Não sei. Só me sinto assim”. “Não se apresse”, proponho. “Não force. Apenas se tranquilize dentro do seu corpo e veja o que você começa a perceber.” Miriam fecha os olhos. Parece um pouco confusa e não fala por um ou dois minutos. “É mais nos braços e nas pernas... Parece que têm mais substância... Parecem mais firmes... Eu me sinto assim.” Nesse momento, Miriam começa a investigar mais além, dessa vez por conta própria, fechando os olhos sem que eu sugira. Após um ou dois minutos, seu queixo começa a tremer quase imperceptivelmente. Espero para ver se ela vai notar sozinha. “Sinto-me estranha”, diz Miriam, “meio que tremendo por dentro... Não gosto disso... Me faz sentir meio esquisita por dentro... como se eu esti- vesse perdendo o controle, como se não fosse eu, como se eu não fosse assim.” Eu a reconforto explicando que, de início, as novas sensações quase sempre são incômodas e estranhas, e a encorajo a “deixar acontecer... tentar não rotular nem julgar as sensações por um tempinho”. Miriam me diz estar se sentindo pior, mais desconfortável. Identifico isso, mas, com suavi- dade e firmeza, encorajo-a a “aguentar um pouquinho mais”, a voltar a atenção para os braços e as pernas – os lugares do corpo em que ela disse se sentir enraizada pouco tempo antes. “Ahn, eles não estão tremendo... na verdade parecem mais fortes... meu queixo está tremendo... Minhas pernas estão firmes.” A sobreposição das sensações de força nos braços e nas pernas sustenta a capacidade de Miriam de vivenciar sensações “de tremor” associadas a fraqueza sem ser dominada por elas. Agora a respiração dela está mais profunda, contínua e espontânea. Sua pele tem um brilho rosado quente, indi- cando que o sistema de interação social começa a funcionar, a despertar. Peço-lhe que abra os olhos lentamente e olhe ao redor. “É curioso”, diz ela. “As coisas parecem um pouco mais nítidas; as cores estão mais vivas e... acho que mais quentes também. Na verdade, eu me sinto um pouco mais quente, e o tremor está menos... ou não está tão assustador... Parece que agora eu consigo voltar para dentro... Quer que eu faça isso?” “Isso é com você”, respondo, sabendo da importância do fator da escolha. “Mas o que eu sei dizer é que você começa a se tornar capaz de ir ao seu interior e parece menos assustada e menos desamparada.” Ela me olha por um momento, mas desvia o olhar para o chão. Devagar, ergue-o e me encara. Uma lágrima rola por sua face. “Tem razão; não me sinto tão assustada... De certo modo eu me sinto um pouco empolgada... Sim, quero continuar... Dá medo, mas acho que consigo... Só preciso de um pouco de ajuda... a sua ajuda.” Mais lágrimas brotam de seus olhos. As palavras se atropelam enquanto ela balbucia: “Pra mim é difícil pedir... É emocionante... Acho que não tenho muita experiência em pedir ajuda”. Essa admissão me deixa saber que o sistema de interação social está ativo e que uma investigação mais profunda é possível. “Fico feliz em poder lhe dar apoio”, respondo. Quando lhe pergunto se sabe que tipo de ajuda poderia ser útil, ela responde que quer que eu continue a fazer o que tenho feito. Peço que seja mais precisa. “Não sei bem”, diz ela. “Na verdade, acho que é sentir que você está aqui, que está aqui para mim. Quando você me dá feedback, isso me ajuda a ter contato com o que eu sinto... de certo modo, com o que eu sou.” “Quando você diz isso” – percebo o rosto dela relaxar –, “parece se soltar mais.” Miriam sorri, e eu prossigo: “É diferente de alguns minutos atrás, quando você disse que não tinha experiência em pedir ajuda”. “Sim”, concorda ela, “é realmente diferente pedir que você me ajude a aprender a estar disponível para mim mesma... Desse jeito não me sinto menor que você; sinto-me mais igual... Gosto disso... Eu sinto que, se eu não quiser fazer algo que você sugeriu, poderei lhe contar”. Sem que eu lhe pedisse, Miriam volta a estender os braços e as mãos e faz um semicírculo com eles na horizontal. “É, estas são as minhas fronteiras. Eu posso traçar os meus limites – isso me faz bem... e eu posso dizer a você o que eu necessito.” Nós dois sorrimos. Miriam fecha os olhos e fica serena por vários minutos. Embora possa parecer simplista, o fato de ela ter tido uma experiência real, cinestésica e proprioceptiva de ser capaz de formar e reter fronteiras dá a Miriam uma experiência física significativa que contradiz a sensação dominante de impotência que tem orientado a sua visão do mundo. Os braços dela, em vez de estarem cruzados defensivamente sobre o peito, agora repousam nas pernas, mostrando uma postura mais aberta e uma disposição de olhar para si. Miriam continua: “Primeiro voltei a sentir o tremor... Ele ficou mais forte, mas depois diminuiu sozinho”. Agora ela começa a se autorregular, pas- sando por ciclos de ativação e desativação. “Senti um calor que surgia na barriga e se espalhava em ondas... Foi muito gostoso... Senti até o calor indo para as mãos e as pernas... mas aí minha barriga deu um nó. Comecei a me sentir enjoada, nauseada, mareada. Percebi que eu estava pensando em Evan, meu primeiro marido. Aliás, vi a imagem dele andando na minha direção. Ele foi morto um mês depois de nos casarmos... Acho que nunca supe- rei isso... Não conseguia acreditar que tinha acontecido... de um jeito que eu ainda não... Sonho muito com ele. É sempre o mesmo sonho. Ele vem até mim; estou abatida. Eu lhe pergunto por que ele me deixou. Ele não responde, mas me dá as costas e vai embora. Acordo com vontade de chorar, com a garganta apertada, mas não quero que Henry saiba. Sinto-me horrível, como se houvesse algo errado comigo... Não quero magoá-lo de jeito ne- nhum.” “Miriam, vou pedir que repita umas palavras e perceba o que acontece dentro de você quando as disser. Mas lembre-se de que são minhas as pala- vras. Podem não significar nada para você. Só estou pedindo que tente repeti-las e então perceba como o seu corpo reage. Tente não pensar muito nisso; apenas faça. Tudo bem para você?” Digo isso não porque ela seja correta (ou errada), mas para que a pessoa possa observar o efeito da frase nas sensações corporais e nos sentimentos. Ela consente. “Sim, tudo bem. Quero fazer alguma coisa com esses sentimentos, esses sonhos, se puder.” “Esta é a frase: ‘Não acredito que isso aconteceu. Não acredito que você tenha morrido de verdade’.” O objetivo é tornar consciente a experiência corporal direta de negação para poder lidar com ela. Miriam contém a respiração e fica pálida; o batimento de seu coração cai bastante, de cerca de 80 para 60, indicando que a imobilidade vagal/o sistema de desligamento entrou em ação. “Você está bem, Miriam?”, pergunto.
“Sim... mas minha barriga está mareada e retesada... como um punho frio e duro... estou enjoada de novo... está pior desta vez... mas acho que consigo controlar. Vou dizer se for demais.” Procurando reforçar a habilidade progressiva de avaliar sua capacidade de lidar com sensações difíceis, pergunto a ela: “O que lhe dá essa sen- sação, Miriam, de conseguir controlar isso?” “Bem, sinto isso principalmente nos braços e nas pernas de novo. Eles ainda parecem fortes, mesmo estando trêmulos.” Com os olhos ainda fechados, Miriam começa a tremer visivelmente. “Tudo bem”, digo para encorajá-la. “Só tente ficar com isso. Saiba que, se precisar, é só abrir os olhos. Tudo bem se eu puser o meu pé perto do seu?”⁵ “Sim, eu gostaria... É, assim está melhor.” A intensidade do tremor aumenta, se estabiliza, aumenta e se estabiliza várias vezes. Miriam inspira profundamente e fica quieta. Parece tranquila; a cor das suas mãos e do rosto indica um aumento significativo da temperatura. Gotas de suor brotam em sua testa. “Como você está agora, Miriam?” “Estou quente... como se ondas de calor me queimassem... É tão intenso, mais que tudo que senti antes. Talvez uma vez quando eu... estava com... ai, meu Deus!” “Tudo bem”, intercedo, “só fique quieta; deixe isso amainar.” Lágrimas começam a rolar; Miriam chora silenciosamente. “É tão profundo. Eu não conseguia sentir isso antes. Foi demais quando ele morreu. É diferente... consigo sentir a dor no corpo sem ser destruída… Na verdade, a dor na barriga foi embora totalmente... e há um calor nela... uma espécie de calor gostoso.” Aí está um exemplo de ligação entre ilhas de segurança (veja o Passo 2 no Capítulo 5). A ligação dos recursos começa com as sensa- ções de força e firmeza nos braços e nas pernas de Miriam quando ela se torna capaz de criar fronteiras.
Depois, a experiência de sensações viscerais de calor e expansão lhe dá uma sensação crescente de poder e bondade íntegra. Esse “encadeamento” de recursos permite vivenciar paulatinamente as sensações e os sentimentos de paralisia e desamparo, que formam o núcleo de sua experiência traumática. Quando ela o faz sem se sentir trans- tornada, o tempo, em certo sentido, desloca-se do passado estático de negação para o presente. Na fase seguinte da sessão, Miriam acessa o “caso inacabado” da raiva, da perda e da culpa. Ao passar da estagnação para a fluidez, ela desperta sua vitalidade sensorial. Nesse ponto, sugiro a Miriam que se deixe ficar tranquila com seu corpo, como que meditando e aguardando quaisquer sensações, sentimentos, imagens e palavras. Ela fica bem parada, mas não paralisada como pareceu estar anteriormente na sessão. No entanto, algum tempo depois ela volta a se retesar: “Não vejo uma imagem… Bem, até que vejo, mas é mais como se eu pensasse nele, no meu primeiro marido. E eu me sinto toda tensa.” “Veja”, sugiro eu, “tente permanecer com essa tensão um pouco mais e ver o que surge da sensação em seu corpo.” Ela parece ter outra recaída.
“Minha barriga está tão tensa que parece que vai explodir.” “E se explodir?”, pergunto. Ela fica em silêncio; depois, vem uma enxurrada de lágrimas. “Não vejo uma imagem dele, mas sinto um aperto na barriga de novo… O que eu devo fazer?” Proponho a ela que se concentre no retesamento e emita o som de “vu” (veja no Capítulo 6) para ajudá-la a “abrir” a barriga. “Você está sempre dentro de mim. Não consigo nunca me afastar de você… Por que você está aí? Entendo… Hum”, entoa ela, ficando mais curi- osa a cada avanço. Após alguns minutos, suas pernas voltam a tremer. O tremor se intensifica e se espalha – dessa vez, com espasmos nos ombros. Surge uma respiração profunda espontânea, e lágrimas lhe escorrem dos olhos. Miriam estende os braços com hesitação e os recolhe rapidamente. Depois de mais uma inspiração, ela fala como se fosse com seu primeiro ma- rido: “Evan, estou agarrada em você. Você está nas minhas vísceras. Não vou me abrir com Henry… Eu simplesmente continuo agarrada em você”.
Ela começa a chorar, mas em seguida retoma: “Acho que estou brava com você. Não acredito que estou dizendo isto, mas estou brava com você porque você se foi. Me deixou sozinha. Detesto que você tenha morrido”. Ela aperta as mãos e grita: “Odeio você! Odeio você!... Não me deixe, poxa!... Odeio você!” Ela chora de novo, dessa vez soluçando bastante. Quando volta a falar, sugiro que ela “deixe as coisas assentarem”. “Sim, acho que você está certo… Estou tentando fugir de alguma coisa.” Passa um tempo e Miriam chora baixinho, com as pernas tremendo leve- mente. “Eu não me abri com Henry. Eu o tenho evitado. Não é de admirar que a gente esteja sempre brigando. E, quando ele tenta transar, eu só quero afastá-lo… Eu me sinto culpada por isso.” Suas mãos voltam a fazer um movimento de empurrar. Aos poucos, o movimento se torna mais leve: as mãos se abrem em posição supina, e ela as traz suavemente para o peito, em um gesto de aceitar e levar para o coração um abraço contingente. Não digo nada, e Miriam continua: “Eu preciso me proteger… Me senti muito magoada e culpada”. “E como você se sente por dentro agora?”, pergunto, para que ela permaneça nesse momento. “Na verdade, eu me sinto muito bem.” “E como você sabe disso?” “Principalmente porque sinto muito espaço dentro de mim.” “Onde você sente isso?” “Na barriga e no peito… Minha cabeça também parece ter mais espaço, mas é principalmente na barriga e no peito, que parecem muito abertos… É como se houvesse uma brisa fresca no meu corpo.
Minhas pernas estão muito fortes, e tenho muita… tenho vergonha de dizer… eu sinto um calor e uma comichão na minha… na minha… vagina… É como se eu quisesse muito o Henry.” Ela para de falar. “Fiz o que devia fazer na época”, continua ela, “mas é hora de deixar para lá. Eu tinha tanto medo da minha mágoa… mas mais medo ainda da minha raiva. É como se, sentindo o que eu sentia, eu magoasse Henry de algum modo… Não tem um sentido lógico, mas era isso que estava distor- cido dentro de mim.” E acrescenta: “Mas não preciso mais disso”. Miriam inspira profundamente com facilidade e diz com um sorriso aberto e jovial: “Essa respiração me pegou, me fez cócegas e me fez rir”. Ela ri solto, olha pela sala e então, lentamente, para o meu rosto. Põe as mãos no rosto – primeiro, para escondê-lo de vergonha, mas depois o segura de leve e lhe dá tapinhas de timidez. As lágrimas rolam por sua face. “Acho que acabei… quero dizer, desta vez”, afirma ela. “Sei que há mais coisas, mas eu só quero me sentar no seu quintal, ao lado do rio, por uns minutos, e depois caminhar… Obrigada… Até a semana que vem.” Bonnie: um momento esquecido A mente esqueceu, mas o corpo não, felizmente.
Sigmund Freud Bonnie não é agressiva, mas também não é nada fácil, de maneira alguma. A maioria dos seus conhecidos e amigos a considera equilibrada, imparcial e firme. Por isso foi uma surpresa para os colegas – e para ela mesma – quando, sem motivo aparente, Bonnie se tornou cada vez mais sub- missa e inesperadamente explosiva. Quando seu comportamento começou a prejudicar as relações com os colegas, ela ficou preocupada. Nas minhas aulas de capacitação em Berkeley, em 1974, Bonnie ergueu a mão quando pedi um voluntário para fazer uma demonstração. Deveria ser uma demonstração que começaria apenas com sintomas ou questões de comportamento, e não com um acontecimento imperioso. Costumo traba- lhar sem um elo histórico para evitar que o paciente se esquive da análise “de baixo para cima” e pule prematuramente para um plano abstrato de inter- pretação. Nem eu nem os colegas de Bonnie conhecíamos sua “história” quando ela preferiu abordar seus sintomas comigo diante do grupo. Ela pró- pria não correlacionou suas mudanças comportamentais com um fato que ocorrera um ano e meio antes, o qual era irrelevante de seu ponto de vista. Pedi a Bonnie que recordasse um encontro inesperado recente com um colega que justificasse sua repentina mudança de comportamento, e então nós dois percebemos suas reações corporais. Bonnie disse estar com uma sensação de afundamento na barriga. Percebi que seus ombros estavam curvados para a frente e chamei-lhe a atenção para isso. Quando pedi que contasse como se sentia naquela posição, ela respondeu: “Me faz sentir ódio de mim mesma”. Bonnie ficou desconcertada com esse acesso repentino de autoaversão. Em vez de analisar por que ela se sentia assim, fiz que Bonnie voltasse às sensações em seu corpo⁶. Após uma pausa, ela revelou: “Meu coração e minha mente estavam correndo a um milhão de quilômetros por hora”. Então ela se sentiu incomodada com o que disse ser uma “sensação quente, de suor, malcheirosa” nas costas, que a deixou nauseada. Bonnie agora parecia mais agitada – seu rosto empalideceu e ela sentiu uma premência de se levantar e sair da sala. Depois de acolhida, Bonnie preferiu ficar e continuar buscando o desconforto, que se intensificou e diminuiu gradativamente. Após esse vaivém, ela se conscientizou de outra sensação: uma ten- são na parte de trás do braço e do ombro direito. Quando voltou a atenção para isso, passou a sentir necessidade de jogar o cotovelo para trás. Ofereci uma mão como apoio e resistência para que Bonnie pudesse sentir em segurança a força do seu braço ao empurrá-lo lentamente para trás. Depois de empurrá-lo por vários segundos, seu corpo começou a ter espasmos e tremer assim que ela passou a suar em profusão. Suas pernas também come- çaram a se movimentar para baixo e para cima, como se estivessem sobre pedais de uma máquina de costura. À medida que o braço de Bonnie persistia na lenta pressão para trás, o tremor no corpo diminuía, e ela sentiu que suas pernas ganhavam força. Disse que as pernas pareciam “querer e conseguir se mexer”. Contou ter notado um forte impulso impelindo-a para a frente. De repente, surgiu um quadro diante de si: um poste de luz e a imagem do casal que a havia “ajudado”. “Eu fui embora… Eu fui embora…”, lamentou ela com suavidade. Foi então que se lembrou de se amoldar ao tronco do homem, que segurava uma faca contra o pescoço dela. Bonnie prosseguiu: “Fiz isso para que ele pensasse que eu era dele… Depois meu corpo sabia o que fazer, e o fez… Foi o que me permitiu escapar”. Então a história que o corpo dela vinha contando surgiu em palavras: 18 meses antes, Bonnie havia sido vítima de uma tentativa de estupro. Ao voltar para casa depois de visitar uma amiga em outro bairro, um estranho a empurrou para um beco e ameaçou matá-la se ela não cooperasse. De algum modo ela conseguiu se soltar e correu para uma esquina iluminada, onde dois transeuntes gritaram para chamar a polícia, que interrogou Bon- nie com educação. Em seguida, ela foi levada para casa por um amigo. Surpreendentemente, não conseguiu recordar como fugiu, mas chorou de tão agradecida que estava por não ter sido ferida. Depois disso sua vida pareceu voltar ao normal, mas, quando se sentia sob pressão ou em conflito, o corpo dela ainda reagia como quando havia uma faca em seu pescoço. Bonnie sentia-se indefesa e passiva ou com pavio curto diante da pressão do dia a dia, sem perceber que isso era uma repetição do breve fingi- mento de submissão que provavelmente lhe salvou a vida. Sua “submissão” conseguiu enganar o agressor, dando uma oportunidade momentânea para que a energia instintiva de um animal selvagem se impusesse, impulsionando seus braços e pernas numa fuga bem-sucedida. Todavia, tudo acon- tecera tão rápido que ela não tivera chance de assimilar a experiência. Em um nível primitivo, ela ainda não “sabia” que havia escapado e continuava identificada com a “submissão”, não com a estratégia em duas etapas que na verdade lhe salvara a vida. Tanto do ponto de vista motor quanto do emocional, era como se parte dela permanecesse nas garras do agressor. Depois de processar e completar as ações relativas ao estupro, Bonnie agora dizia sentir uma sensação generalizada de capacidade e poder. Ela voltara a ser “mais o seu [antigo] eu” em lugar do ódio anterior por si mesma. Esse novo eu passou a ser capaz de sentir fisicamente a reação motora de dar uma cotovelada no agressor e depois perceber a imensa força nas pernas que, na realidade, a levou a um lugar seguro. Trata-se de um caso em que os sintomas não se mostram por inteiro por 12 ou 18 meses após a experiência traumática. Portanto, não estava claro de imediato que eles fossem sequelas de um acontecimento. Por motivos desconhecidos, não raro os sintomas atrasam seis meses ou até um ano e meio a dois anos. Além disso, eles podem manifestar-se apenas após outra situação inesperada traumática – às vezes, anos depois. Quantos dos nossos comportamentos e sentimentos habituais escapam à nossa percepção consciente ou são aceitos há muito como uma parte nossa, de quem somos, quando na verdade não são? Melhor dizendo, esses comportamentos são reações a acontecimentos há muito esquecidos (ou racionalizados) pela mente, mas lembrados com exatidão pelo corpo. Podemos agradecer a Freud por ter conjeturado corretamente que tanto as mar- cas indeléveis de experiências horríveis, e o antídoto, quanto o catalisador latente da transformação existem em nosso corpo. Sharon: 11 de setembro de 2001 O corpo tem razões que a própria razão desconhece. Pascal Por meio do “eu” do corpo Como fazia toda manhã no trabalho, Sharon estava lendo seus emails. Era um dia fresco e claro de outono, típico de Nova York – o tipo de dia que deixa o sujeito feliz por estar vivo. Sobressaltada com um barulho estrondoso e ensurdecedor, ela se virou e viu as paredes do escritório se moverem seis metros em sua direção. Embora tenha tomado uma atitude em segundo, saltando da cadeira e preparando-se para salvar a própria vida, Sharon foi levada lenta e metodicamente 80 andares abaixo pela escadaria tomada por um cheiro acre, sufocante, de combustível de aviação e destroços quei- mando. Quando enfim chegou ao mezanino da torre norte do World Trade Center uma hora e 20 minutos depois, a torre sul desmoronou de repente. As ondas de choque levantaram Sharon no ar, lançando-a violentamente em cima de um corpo esmagado e ensanguentado. Um detetive da polícia que não estava trabalhando a descobriu, aturdida e desorientada, sobre o cadáver do homem. O policial a ajudou a sair dos escombros e afastar-se do local, em meio a uma escuridão espessa, de breu. Ela encontrou-se com outros sobreviventes à frente de uma igreja, e juntos todos agradeceram por estar vivos. Nas semanas seguintes ao milagre de ter sobrevivido, uma densa nuvem a envolveu num entorpecimento insensibilizador. Sharon sentiu-se in- diferente de dia, apenas tocando as coisas com pouco envolvimento, objetivo e prazer. Uma semana antes ela adorava música clássica, que agora não mais a interessava: “Não suportava ouvi-la”. Desalentada na maior parte do tempo, era acometida periodicamente de ataques de pânico. O sono
tornou-se um inimigo; à noite ela acordava com os próprios gritos e o próprio choro. Pela primeira vez na vida, essa executiva sempre muito motivada não conseguia imaginar seu futuro; o pavor tornara-se o princípio orientador da sua vida⁷. O pavor de Sharon não se concentrava em nada em particular; estava em todo canto, “por aí” – num mundo que parecia ameaçador, mesmo quan- do tudo era claramente seguro e previsível. Não a deixava viajar de avião, de metrô, ou frequentar lugares públicos. Ela ficava sempre em guarda, acor- dada ou dormindo. Sharon me viu numa entrevista na televisão, me encontrou por meio do meu instituto e depois viajou quatro dias e noites, de trem, para me encontrar em Los Angeles, onde eu lecionava. Em 1º de dezembro de 2001, fizemos a sessão resumida a seguir. Ao entrar no consultório, bem-vestida com um terninho laranja, Sharon encaminha-se direto para uma cadeira e senta, aparentemente sem dar conta de mim. Sinto um incômodo estranho quando, pouco antes de eu me apresentar, ela começa a discorrer com suavidade sobre o horror do acon- tecimento, como se tivesse ocorrido com outra pessoa⁸. Se eu não compreendesse o que ela dizia, teria pensado que ela falava de uma festa chata no escritório e não de um confronto pessoal com a morte e a mutilação. Ao escutar sua narrativa emocionalmente desconexa, fico embaraçado, com von- tade de me levantar e sair da sala. Estou inquieto com o que se oculta atrás da suavidade dela. Minha introspecção é interrompida, atraída pela sugestão de um gesto ligeiro, amplo, feito pelos braços e pelas mãos de Sharon enquanto ela fala. É como se ela tentasse alcançar algo para se agarrar. Será que o corpo de Sharon está contando outra história, uma história escondida de sua mente? Peço-lhe que deixe de lado a narrativa verbal por um instante e volte a atenção à mensagem nascente que suas mãos nos transmitem. Encorajo-a a insistir nesse caminho repetindo lentamente o movimento e mantendo sua concentração na sensação física que ele dá⁹. Os movimentos lentos e a atenção focada neles levam o paciente a senti-los de um modo especial. Quando os pacientes fazem isso, na maioria das vezes sentem os braços (ou outra parte do corpo) mexer como que por si sós (“é como se o meu braço estivesse me movimentando!”). As pessoas costumam sorrir ou rir porque a sensação do braço mexendo-se sozinho é bastante incomum¹⁰. Perplexa de início, Sharon descreve o gesto como se “segurasse algo”. Uma mudança perceptível ocorre em seu corpo: pode-se ver o rosto menos tenso e os ombros menos rígidos. Inesperadamente, uma imagem fugaz do rio Hudson aparece em sua imaginação, a vista cotidiana de sua sala de estar no apartamento em Manhattan, através do rio. Pulando de volta para a história narrativa, Sharon fica agitada quando me diz que é perseguida, visitada, pelas colunas de fumaça ardente, que ela hoje vê todos os dias dessa mesma janela. Elas evocam os cheiros ácidos horríveis daquele dia; Sharon sente uma queimação nas narinas. Em vez de deixá-la “reviver” à vontade a intrusão do trauma, eu a contenho com firmeza e a convenço a continuar concentrando-se nas sensações dos movi- mentos de seus braços. Uma imagem espontânea emerge, a de barcos percorrendo o rio. Eles lhe transmitem uma sensação reconfortante de pere- nidade, movimento e fluidez. “Podem-se destruir os edifícios, mas não se pode drenar o Hudson”, declara ela com suavidade. Então, em vez de pros- seguir nos detalhes horrendos do acontecimento, ela se surpreende ao descrever (e sentir) como estava lindo quando saiu para o trabalho naquela “manhã de outono perfeita”. Esse processo é um exemplo do aumento da “abertura” de uma imagem para o seu estado pré-traumático (conforme descrito no Capítulo 7). Até o momento anterior ao impacto do avião, o dia estava perfeito, cheio de cores vibrantes e aromas suaves. Essas impressões sensoriais ainda existem em algum lugar nas catacumbas da consciência, mas foram sobrepujadas pela fixação traumática. A restauração gradativa de todo o espectro de partes disparatadas de uma imagem é um componente fundamental da resolução do trauma¹¹. O corpo e as imagens de Sharon começam a contar uma história que contrasta profundamente com aquela que sua fala transmite, quase como que narradas por duas pessoas bem diferentes. Enquanto retém as imagens do Hudson, juntamente com as sensações corporais correlatas, ela se conscientiza de certa sensação de alívio. Agora relembra com inocência que estava animada para ir ao trabalho naquele dia. Sua gesticulação é mais forte e mais definida. A atenção contínua ao sentimento físico dos gestos aprofunda a sensação dela de relaxamento, estimulando uma curiosidade quase alegre. Quando ela olha intrigada para as mãos – primeiro uma, depois a outra –, suspiro de alívio. Essa mudança aparentemente insignificante tem implicações profundas, e a curiosidade alegre é um dos primeiros “antídotos” evidentes do trauma. A investigação curiosa, o prazer e o trauma não podem coexistir no sistema nervoso; do ponto de vista neurológico, eles se contradizem¹². Essa capacidade de vivenciar os sentimentos corporais positivos (de interesse e curiosidade), ao mesmo tempo que mantém contato com os sentimentos de terror e desamparo, permite a Sharon fazer algo de que era incapaz poucos minutos antes. Agora, ela pode começar a se distanciar e “simplesmente” observar essas sensações físicas e imagens difíceis, desconfortáveis, sem se deixar vencer por elas¹³. Em outras palavras, elas ficam encurraladas. Essa consciência dupla induz uma mudança que permite que as sensações sejam sentidas como são: intrinsecamente cheias de energia, vitais e atuais, em vez de fragmentos, gatilhos e precursores de medo e desamparo vindos do passado. Essa diferença sentida possibilita a Sharon rever e assimilar muitos detalhes do terrível acontecimento sem revivê-los. Essa nova “destreza” de rever sem reviver uma experiência traumática é essencial no processo de recuperação e reinteração a que chamo renegociação. As pessoas precisam desvincular-se das associações emocionais e mentais provenientes de sensações físicas puras que elas passam a vivenciar como precursoras de um desastre, as quais, no entanto, não são mais que sensações de vitalidade. O restabelecimento dessas impressões reani- madoras é um dos cernes do tratamento eficaz do trauma. É curioso notar que isso faz parte de práticas curativas ancestrais, como a meditação, o xamanismo e a ioga. O mergulho Quando o primeiro avião atingiu o edifício apenas dez andares acima do escritório de Sharon, a explosão desencadeou uma onda de choque de terror pelo corpo dela. A reação imediata das pessoas a acontecimentos aterrorizantes desse tipo é parar, orientar-se e escapar. Isso em geral implica um impulso intenso de correr. Contudo, encurralada a 80 andares do chão com milhares de pessoas, Sharon precisava inibir essa reação básica. Con- trariando o intenso impulso de fugir, ela se forçou a ficar “calma” numa fila ordenada escadaria abaixo, junto com dezenas de outros indivíduos aterro- rizados – ainda que o seu corpo estivesse “carregado de adrenalina” para correr desabalado. Sem dúvida Sharon sentiu a possibilidade de qualquer um dos outros colegas encurralados entrar em pânico de repente e dar início a uma correria que traria mais risco para todos. Eles, como ela, também tive- ram de reprimir o forte impulso primal de correr. Enquanto Sharon conta lentamente os detalhes da fuga, ao mesmo tempo que sente sua reação corporal, passo a passo, ela recorda ter deparado com outro momento de puro terror quando encontrou a porta do septuagésimo andar trancada e in- transponível. Em razão do conforto físico que ela sentiu ao ter contato com os gestos espontâneos e amplos e as imagens do rio Hudson, agora confio em que Sharon consegue enfrentar sem percalços parte desse material bastante carregado sem se sentir subjugada e, consequentemente, traumatizada de novo¹⁴. Acompanhando sua “história corporal”, começam a se formar ilhas de segurança (Passos de 1 a 3, no Capítulo 5) no mar tormentoso do trau- ma de Sharon. A segurança vivenciada com essas ilhas internas lhe permite lidar com graus crescentes de empolgação e atravessá-los sem sofrimento excessivo. Com essa avaliação, eu a levo para o momento da explosão e depois a faço localizar onde e como aquela marca violenta se manifesta em seu corpo. Quando atenta para esse felt sense, Sharon se conscientiza de uma sensação generalizada de agitação nas pernas e nos braços e “nós” duros na barriga
e na garganta. Ela diz sentir-se paralisada. Aí eu lhe mostro o uso do “vu” para ajudá-la a desfazer e transformar tais sensações de paralisia (veja o Capí- tulo 6). Quando ela se concentra nessas sensações físicas desconfortáveis (com a ajuda dos sons vibratórios), diminui a tendência para tentar en- tendê-las ou explicá-las. Com a atenção intensamente focada, eu a distancio da interpretação do que ela está sentindo, porque não quero que o sentido venha de determinada parte da mente. O corpo precisa dizer primeiro o que se passa em sua “mente”, a fim de emergirem novas percepções no mo- mento presente. (Essa advertência sobre a “cognição prematura” estava em um adesivo de para-choque que vi recentemente: “Realidade: não é o que você pensa!”) Sharon reserva em silêncio um momento para refletir. Ao suspender a compulsão para entender, ela vivencia uma repentina “explosão de energia que vem de dentro da barriga”. “Tem cor?”, pergunto. “Sim, é vermelha, vermelho vivo, como uma fogueira.” Embora visivelmente assustada com tal intensidade, ela não a evita. A sensação dela muda para o que ela considera um forte impulso de correr, concentrado nas pernas e nos braços. No en- tanto, só de pensar em correr ela volta a “travar”. Intuo que ela está entre o desejo real e necessário de escapar e sua mente “inconsciente”, que associa fugir a ser encurralado. Como na escada, ele teve de conter seu forte impulso de fugir e andou devagar – muito embora estivesse diante de um perigo mortal. Esse dilema estava acompanhado do choque de encontrar a porta trancada no septuagésimo andar. Depois, quando acabou chegando ao meza- nino, a torre sul desabou e ela foi lançada violentamente no ar. Por fim, houve o puro terror de se ver semiconsciente sobre um cadáver. Dois cérebros Sharon sofreu o conflito entre dois centros cerebrais bem diferentes: as mensagens de autopreservação pura, primitiva, do tronco cerebral e do sistema límbico obrigando-a a salvar a própria vida, e as mensagens de inibição e compostura provenientes do córtex frontal. Este lhe dizia que fosse “racional” e andasse com calma na fila ordenada. Em nossa sessão, era crucial diferenciar as expectativas aterrorizantes de ser encurralada dos impulsos biológicos de agir e “metabolizar” aquela energia de sobrevivência. A fim de desacoplar os dois, pergunto-lhe se ela consegue concentrar-se na forte “eletri- cidade” que ela diz sentir no corpo e imaginar-se levando essa eletricidade a algum lugar onde antes ela gostava de correr. Ela se retesa diante desse convite. E diz: “Isso me deixaria ansiosa demais”. Então eu a surpreendo perguntando onde ela sente essa ansiedade e qual sensação lhe dá (veja o epí- logo deste texto). Desarmada, Sharon se abre: “Não sei. Ah, meu pescoço e os ombros, e meu peito parece que não consegue respirar… Minhas pernas estão tão duras que… não sei, parece que elas…” “Elas o quê?”, perguntei. “Parece que elas querem correr”, responde Sharon. Depois, um pouco tranquilizada, ela começa a sentir a sensação de correr por um caminho do seu parque preferido. Após alguns minutos, observo um leve tremor nas pernas dela. Pergunto-lhe o que está sentindo, e ela responde: “Eu realmente consegui sentir que corria; eu estava a toda… e não sinto mais aquela ansiedade”. “Tudo bem, Sharon”, interfiro, “mas o que você sente?” “Na verdade me sinto bem, aliviada… Eu me sinto com um formigamento e aliviada, a minha respiração está profunda e fácil, e minhas pernas estão quentes e relaxadas.” Uma lágrima lhe desce suavemente pela face. Seu rosto e suas mãos têm até um tom rosado. Esse foi o início da distinção que Sharon fez entre o forte impulso biológico de escapar e a expectativa mental e emocional de que ela poderia voltar a ser encurralada e subjugada. Ao imaginar – com envolvimento total em sua vivência corporal – a sensação de estar correndo, sem restrição, num lugar seguro, ela conseguiu completar a ação bloqueada que estava encerrada em seu corpo¹⁵. Não teria tido muito efeito Sharon apenas imaginar que corria. Contudo, a solução terapêutica resultou de primeiramente aproximar-se do local em que ela foi encurralada, revisitar (remexer) aquele momento de terror e depois vivenciar a (nova) possibilidade de completar aquela ação motora¹⁶. Sentir as sensações com intensa carga física exatamente como eram – não como ela temia ou imaginava – foi o fator fundamental para desacoplar de sua experiência física real os pensamentos catastróficos e as emoções de terror e pânico. Durante esse processo, que durou quase duas horas e foi pontuado por ciclos de tremor e suor leves, ela desenvolveu aos poucos a capacidade de tolerar as sensações até que estas se completassem natural- mente. Acredito existir evidência que confirma a ideia de que essa ação concluída e bem-sucedida “ligou” com sucesso certos circuitos cerebrais cru- ciais, permitindo a Sharon vivenciar a possibilidade de uma ação significativa, eficaz, e não uma ansiedade impotente¹⁷. Dessa maneira, a ansiedade que a imobilizava transformou-se em uma “onda contínua de energia quente”. A enorme energia de “vida ou morte” se metamorfoseara, através de ci- clos de descarga com tremores, em sensações de vitalidade e bem-estar. Depois de sentir esse alívio como uma sensação em seu corpo (a qual contradizia exatamente seu terror paralisante), Sharon reconquistou uma sensação de vitalidade e a realidade sentida de que ela sem dúvida havia sobrevivido e sua vida tinha um futuro cheio de possibilidades. Ela não mais se sentia presa ao pavor daquele acontecimento, que começou a se recolher para o passado, que era o seu lugar. E agora ela conseguia ir de metrô até o Lincoln Center para ouvir sua música preferida. Um sentido novo e diferente em sua vida surgiu de uma experiência nova e diferente no plano instintivo do corpo. Essa foi a história contada pelo corpo de Sharon. Faz lembrar o texto de António Damásio: Usamos a mente não para descobrir fatos, mas para escondê-los. Uma das coisas que a cortina esconde melhor é o corpo, o nosso corpo, ou seja, todos os pormenores, o seu interior. Como um véu posto sobre a pele para lhe preservar o pudor, a cortina retira da mente em parte os estados internos do corpo, aqueles que constituem o sopro da vida enquanto ele perambula na jornada de todo dia.¹⁸ Epílogo Os sentimentos e o corpo são como água correndo para a água. Aprendemos a nadar conforme as energias dos sentidos [corporais]. Tarthang Tulku Durante milênios, por meio de seleção natural e evolução social, os seres humanos foram moldados para conviver com acontecimentos e perdas extremas, passar por eles e processar os sentimentos de desamparo e terror sem ficar paralisados e traumatizados. Quando experimentamos sensações e sentimentos difíceis e especialmente horríveis, nossa tendência, no entanto, é retroceder e evitá-los. Mentalmente, nós nos desconectamos ou nos “dissociamos” desses sentimentos. Fisicamente, o corpo se enrijece e prepara-se para enfrentá-los. A mente se acelera tentando explicar e dar sentido a essas sensações estranhas e “ruins”. Assim, somos levados a tentar, em estado de alerta, localizar sua origem ameaçadora no mundo exterior. Acredi- tamos que, se vivenciarmos as sensações, elas nos dominarão para sempre. O medo de sermos consumidos por esses sentimentos “terríveis” faz nos convencermos de que, evitando-os, nós nos sentiremos melhor e, no fim das contas, mais seguros. Existem muitos exemplos disso na vida: evitamos um restaurante ou certas músicas por nos lembrarem de uma antiga pessoa amada ou passamos longe da esquina em que o nosso carro levou uma batida na traseira um ano antes. Infelizmente, o contrário é verdadeiro. Quando lutamos contra sensações e sentimentos desagradáveis ou dolorosos ou nos escondemos deles,
em geral pioramos tudo. Quanto mais os evitamos, maior é o poder que eles exercem sobre o nosso comportamento e nossa sensação de bem-estar. O que não se sente permanece igual ou se intensifica, causando uma torrente de emoções virulentas e corrosivas. Isso nos obriga a fortalecer os méto- dos de defesa, evitação e controle. O ciclo vicioso criado pelo trauma é assim. Sentimentos relegados, na forma de sensações físicas bloqueadas, criam e impelem a crescente sombra da nossa existência. Como vimos no caso de Sharon, quando nos concentramos de modo particular nas sensações físicas, em pouco tempo elas se alteram e mudam – e nós também. Cognição prematura As crenças equivocadas de Sharon (embora em grande parte subconscientes) são esforços para entender, dar sentido à sua experiência e ajudá-la a justificar por que se sente tão mal. Essas “explicações” não farão nada para ajudá-la a superar sua reação ao medo e concluir as ações inibidas que constituem a base da sua resposta ao trauma ininterrupto (o como). Nessa etapa, a atividade psíquica só atrapalha a resolução. Por esse motivo eu a levo a resistir à sedução de entender e, ao contrário, envolver-se inteiramente com o que ela está sentindo fisicamente no corpo nesse momento. A con- sequência da “cognição prematura” é tirar a pessoa de sua experiência sensorial antes que esta se conclua e possibilitar o surgimento de novas percep- ções e novos sentidos. A sensação de ansiedade não é universal Se você perguntar a pessoas ansiosas o que estão sentindo, todas talvez digam que sentem “ansiedade”. Contudo, é provável que as respostas sejam diferentes se elas ouvirem uma pergunta epistemológica: “Como você sabe que está sentindo ansiedade?” Uma delas pode dizer: “Sei disso por- que uma coisa ruim vai me acontecer”. Outra diria que está sentindo um nó na garganta; outra, que o coração está pulando para fora do peito; e outra, que está com dor ou um aperto no estômago. Algumas pessoas ainda se queixam de rigidez no pescoço, nos ombros, nos braços ou nas pernas; ou- tras podem achar que estão prontas para agir, enquanto outras talvez sintam fraqueza nas pernas ou um afundamento no peito. Todas essas respostas, menos a primeira, são sensações físicas específicas e diversas. E, se a pessoa que disse que “alguma coisa ruim vai me acontecer” fosse encaminhada para um exame, ela descobriria alguma sensação somática/física motivando e definindo aquela ideia. Com um pouco de prática conseguimos mesmo começar a separar as emoções, os pensamentos e as crenças das sensações subjacentes. Ficamos então estupefatos com a nossa capacidade de tole- rar e atravessar estados emocionais difíceis, como terror, raiva e desamparo, sem nos deixar levar nem afogar. Se descemos abaixo das sensações insu- portáveis e remexemos as sensações físicas, algo muito profundo ocorre no organismo: surge uma sensação de fluidez, de “estar em casa”. Trata-se de uma verdade importantíssima para diversas tradições espirituais antigas, em particular certas vertentes do budismo tibetano¹⁹. O poder transformador da sensação Para entender o poder transformador da experiência sensorial direta, é necessário “dissecar” certas emoções, como terror, raiva e desamparo (veja o Capítulo 13). Quando percebemos (consciente e inconscientemente) que estamos em perigo, as posturas defensivas específicas necessárias para a nossa proteção são mobilizadas no corpo. Instintivamente nos abaixamos, nos desviamos, nos encolhemos e nos enrijecemos – preparamo-nos para lutar ou escapar; e, quando a fuga parece impossível, congelamos ou nos dobramos em prostração impotente. Todas são reações corporais inatas, dota- das de energia máxima para enfrentar situações extremas. Elas permitem que uma mulher de 60 quilos levante um carro para tirar o filho de baixo dele. É a mesma força primitiva que leva uma gazela a disparar a mais de 100 quilômetros por hora para se safar de um guepardo. Essas energias de sobrevivência estão organizadas no cérebro e se expressam especificamente como estados padronizados de tensão muscular na prontidão para agir. Todavia, quando chegamos a esse ponto e, como Sharon, somos impedidos de completar a ação – como na luta ou na fuga –, o organismo congela ou sofre um colapso, e a tensão energizada permanece estagnada nos músculos. Por sua vez, essas tensões musculares não utili- zadas ou usadas em parte armam uma corrente de impulsos neurais pela medula espinhal acima até o tálamo (uma estação central de transmissão de sensações) e depois a outras partes do cérebro (em particular as amídalas cerebelares), sinalizando a presença persistente de perigo e ameaça. Dito de forma simples, se os músculos e as vísceras estão prontos para reagir ao perigo, a mente nos dirá que existe motivo para o medo. E, se não conseguimos loca- lizar a causa da aflição, continuamos a procurar uma – um bom exemplo disso é a luta de Sharon para entender o que aconteceu. Vemos isso nos vete- ranos do Vietnã que ficam aterrorizados com o som dos fogos de artifício no 4 de Julho, muito embora eles “saibam” racionalmente que não correm perigo algum. Outros exemplos são os de pessoas que têm medo de dirigir um carro depois de terem sofrido um acidente ou daquelas que temem sair de casa por não saberem de onde vêm esses sinais de perigo. Na verdade, se não conseguimos encontrar uma explicação para o que estamos sentindo, sem dúvida forjaremos uma, ou muitas. Sempre culparemos o cônjuge, os filhos, o patrão, o vizinho (seja o da casa ao lado, seja o país ao lado) ou a velha má sorte. A mente continuará acelerada, buscando obsessivamente as causas no passado e se apavorando com o futuro. Continuaremos tensos e alertas, sentindo medo, terror e desamparo porque o corpo continua a avisar o cérebro de que existe perigo. A mente pode “concordar” ou não, mas essas bandeiras vermelhas (vindas de partes não conscientes do cérebro) não desaparecerão até que o corpo complete a ação. É assim que somos fei- tos – trata-se da natureza biológica, predeterminada no cérebro e no corpo. Essas reações corporais não são metáforas; são posturas literais que revelam a experiência emocional. Por exemplo, rigidez na nuca, nos ombros e no peito, um bolo na barriga e um nó na garganta são fundamentais aos estados de medo. O desamparo é assinalado por um colapso literal do peito e dos ombros, juntamente com uma dobra na altura do diafragma e fraqueza nos joelhos e nas pernas. Todas essas “atitudes posturais” representam possibilidades de ação. Se elas conseguem completar sua ação cheia de sentido, tudo fica bem; se não, elas persistem no teatro do corpo. Se não se dá às sensações de medo, como aquelas que Sharon sentia, o tempo e a atenção necessários para que atravessem o corpo e se resol- vam/dis-sol- (como nos tremores e nos espamos), o indivíduo continua sendo dominado pela dor e por outras emoções negativas. O palco está pron- to para uma sucessão de sintomas instáveis. A tensão no pescoço, nos ombros e nas costas deve se transformar, com o tempo, na síndrome da fibro- mialgia. As enxaquecas também são expressões somáticas comuns de estresse não solucionado. O bolo na barriga pode se transmutar em afecções comuns como síndrome do cólon irritável, tensão pré-menstrual grave ou outros problemas gastrintestinais, como cólicas. Essas afecções sugam as fontes de energia do paciente e podem assumir a forma da síndrome da fadiga crônica. Os que sofrem disso são, na maioria das vezes, pacientes com sintomas em cascata que consultam médico após médico em busca de alívio e em geral encontram poucas soluções para o mal que os acomete. O trauma é o grande dissimulado e participante de muitas das afecções e doenças que afligem as vítimas. Talvez se possa argumentar que o trauma não solucionado responde pela maioria das doenças da humanidade hoje em dia. Renegociação O conceito de renegociação é inteiramente diferente da “reencenação do trauma” por catarse, ou inundação, tipo comum de terapia de trauma ainda utilizado após “acontecimentos graves” como estupros, catástrofes naturais e terror, como o ataque ao World Trade Center vivido por Sharon em 11 de setembro de 2001. Estudos recentes indicam que essas terapias quase sempre pouco ajudam e até podem reforçar o trauma²⁰.
Uma das armadilhas de várias terapias de trauma é o seu foco na revivência de recordações traumáticas juntamente com a intensa ab-reação de emoções. Nesses tratamentos que se baseiam na explanação, os pacientes são levados a desenterrar lembranças traumáticas dolorosas e descarregar as emoções associadas a essas recordações, especificamente as de medo, terror, raiva e luto. Tais abordagens catárticas não cumprem as expectativas porque costumam reforçar as sensações de colapso e o sentimento de desamparo. Adam: sobrevivente do Holocausto Adam era um empresário bem-sucedido financeiramente de 60 e tantos anos. Tinha mulher e família e era dono de uma empresa multinacional de eletrônicos. Por ser tranquilo e gentil, seus empregados e conhecidos gostavam dele, mas Adam não tinha amigos íntimos. Recentemente nasceu seu primeiro neto. Pelas aparências, a vida havia sido boa. O suicídio de seu filho de 27 anos acabou com esse homem de enorme determinação, embora contido. A morte o fez culpar-se e ter ódio de si mesmo. “Paulo sempre foi diferente”, afirmou Adam com naturalidade, “um menino sensível que se amedrontava com facilidade.
Quando tinha perto de 4 anos, ele acordava gritando e chorando no meio da noite não se sabe por quê.” No final da adolescência, Paulo sempre falava em suicídio. “A vida é muito difícil”, repetiu ele inúmeras vezes. Adam se assegurou de que seu filho nunca ficasse sozinho nos momentos ruins. Cansou-se desse seu suplício de uma década, mas insistiu no compromisso da vigília. Apesar do exaus- tivo empenho de Adam para salvar o filho, Paulo, que não conseguia suportar a dor, enforcou-se no banheiro, onde Adam achou o corpo largado, sem vida, do filho. Depois do choque do suicídio de Paulo, Adam sentiu pela primeira vez na vida que não teria condições de prosseguir. Em vez de se sen- tir arrasado por causa do luto, não sentiu nada – um estado que ele conhecera mesmo antes de perder o filho. Dessa vez, porém, o torpor o deixou tão sem ação que ele não conseguia agir. Para ele, a vida tinha parado. Após vários meses de inércia paralisante, Adam comprometeu-se a consultar um psiquiatra. Foi convencido por um amigo da família que o acon- selhou a tomar algum remédio para esse abatimento.
Depois de conhecer seu histórico pessoal, o psiquiatra insinuou que o passado de Adam não o deixava chorar a morte do filho e lhe deu o diagnóstico de “luto complexo”. Embora estivesse atônito com a ideia de que sua vida anterior fora “trau- mática” ou até agravasse seu mal-estar atual, ele concordou em conversar comigo. Adam nasceu órfão de mãe. Um enfarte fulminante obrigou a uma cesariana de emergência para salvar a vida do único filho. Ela morreu assim que ele nasceu, dois meses antes do previsto. Como seu pai estava servindo o exército russo, Adam foi dado ao irmão do pai e à mulher deste para ser cri- ado. A tia, que deveria cuidar dele, era na verdade cruel, psicótica, e lhe batia vezes sem fim. Além do tormento desse início difícil, vítima de abandono e maus-tratos, Adam teve uma vida entrecortada de mais privações e desgostos. Aos 4 anos, seu tio e duas meias-irmãs foram deportados e exterminados pelos nazistas. Ele então passou por uma série de famílias cristãs, que tentaram ocultar sua origem judaica.
Durante esse período, de acordo com aquelas famílias, ele gritava no meio da noite – do mesmo modo que Paulo faria com a mesma idade. Aos 9 anos, Adam foi entregue a um grupo de fugitivos que morava na floresta. Ele “adorava ficar lá”, porque gostavam dele e pela primeiríssima vez se sentia benquisto. “Aquele ano foi o melhor da minha vida”, ele me contou. Embora adorasse sua “família da floresta”e se sentisse protegido por ela, seus acessos noturnos continuaram e aumentaram de intensidade. O choro e os gritos nunca amainaram, a despeito de todas as tentativas de acalmá-lo. Como nunca conseguiam acordá-lo, o barulho de seus acessos expôs a família a sério perigo. Então, tragicamente, antes de seu décimo ani- versário, mandaram-no de volta para a aldeia, por onde o órfão perambulou sem destino. Certa noite, Adam foi levado para a delegacia de polícia e interrogado. Como lhe haviam instruído, ele deu aos nazistas seu nome cristão. A polícia disse que o puniria se mentisse. Em seguida, forçaram-no a tirar a calça na frente de todos.
Para esconder a vergonha, o garoto de 9 anos olhou para a parede e deu de cara com um crucifixo. Isso o aterrorizou, pois o fez acreditar que acabaria na cruz se o pegassem mentindo. Levaram Adam para um campo de concentração. “Ser deixado com vida no campo de concentração”, disse, “foi um alívio. Ao menos eu estava com outros judeus.” Logo que Adam entrou no campo, um dos prisioneiros da aldeia perguntou-lhe seu nome. Já que estava entre os seus, Adam revelou o nome com que crescera e o nome daqueles que ele acreditava serem seus pais. O homem então exclamou: “Não, não, esse não é o seu sobrenome verdadeiro!” E lhe revelou o nome de seus pais legítimos e como ambos morreram. Adam lembrou-se de ter ficado indescritivelmente aliviado de saber que a mãe cruel que ele conhecera não era sua mãe de verdade. No campo de concentração, ele viu pessoas serem espancadas, torturadas e assassinadas a tiros. Muitas outras sucumbiram ao suicídio, quase sempre por enforcamento. Durante seu internamento, Adam não teve consolo nem apoio que o ajudasse a enfrentar tal terror e pavor.
Para a maioria de nós, a experiência de Adam é inimaginável. Se refletíssemos com toda a sinceridade sobre o efeito que isso teria provocado em nós, ficaríamos profun- damente perturbados com esses fatos terríveis. Ainda assim, ao observar Adam na vida que tinha, ele parecia, ao menos na superfície, muito pouco diferente de você e de mim – apenas mais bem-sucedido, pelos padrões atuais. Órfão desde o nascimento e sobrevivente de atrocidades e de um sofrimento humano o mais impensáveis, Adam suplantou seu tormento. Imi- grou para a América do Sul aos 19 anos, na esperança de “fugir do passado”. Lá ele se instalou e construiu uma empresa, tornando-se um empre- endedor internacional poderoso e bem-sucedido financeiramente. No entanto, quando chegou a mim, esse ser humano extraordinário havia sido redu- zido a um farrapo. Estava encurvado e arrastava-se ao entrar na sala. Sua postura e seus movimentos lembraram pacientes que eu vira nas alas de doentes graves em hospitais psiquiátricos. Seus olhos vazios miravam o chão, e ele não parecia notar a minha presença.
Eu não tinha a mínima ideia de por onde começar. De um lado, ele estava tão apagado que o que eu dissesse ou fizesse aparentemente não o atingiria. De outro, porém, temi que, se eu conseguisse fazer aflorar seus sentimentos, estes o dominariam de tal forma que ele mergulharia em uma desesperança catatônica insondável. Como entrar em contato com esse homem sem destruí-lo? Senti-me perdido e intimidado pela dimensão e pelo delicado desafio da minha tarefa. Adam prosseguiu de cor a ladainha que contara ao psiquiatra. Não havia indício de sentimento em sua narrativa: “Tudo isso aconteceu há tanto tempo”, acrescentou ele, com um curto suspiro cansado. Ouvi, sentindo-me bastante incomodado com tanto horror exposto sem emoção. Porém, estranhamente, fiquei aliviado de ele não sentir; assim eu também não precisaria fazê-lo. Racionalmente, distanciei-me do sentimento e de Adam. Con- segui fazer isso recorrendo a uma análise clínica, perguntando-me que mecanismo ele usara para se apartar dessas experiências horrorosas e como conseguiu não acabar perambulando pelas ruas, como fizera quando órfão, ou num hospício. A fim de iniciar algum contato, perguntei a Adam sobre trabalho, família e amigos – qualquer assunto que servisse para vislumbrar ao menos um indício mínimo de sentimento positivo.
Não deu resultado algum. Eu me vi pedindo, de um modo esquisito, que ele contasse o que lhe acontecera nas horas anteriores daquele dia. Aturdido, ele contou que perdeu o voo e alugou correndo um carro para dirigir os 400 quilômetros de Curitiba a São Paulo a fim de me encontrar. Lembrou-se de ter visto no estacionamento da locadora, perto do aeroporto, crianças empinando pipas que elas haviam feito com coisas achadas no lixão²¹. Captei o primeiro lampejo em seu rosto sempre inexpressivo. Mas aí, com a mesma rapidez, o rosto retomou a monotonia, e o corpo dele curvou-se para a frente, resignado. Querendo que ele não desabasse, pedi-lhe que ficasse em pé, com os joelhos levemente dobrados. Para ficar em pé, os sistemas proprioceptivo e cinestésico precisam ser ativados e coordenados. O efeito disso foi manter acesa a consciência de Adam ativando no sistema nervoso o ramo do estado de alerta. Essa intervenção é o oposto de deixar o paciente entrar em colapso pela
ativação da reação de desligamento, perpetuando, assim, os sentimentos mórbidos de vergonha e derrota. Enquanto Adam estava em pé com os joe- lhos relaxados, orientei-o a “olhar para dentro” e achar algum lugar em seu corpo onde ele pudesse “encontrar a imagem das crianças brincando com a pipa improvisada”²². De início, ele disse sentir-se mais ansioso (devido à superexcitação do sistema simpático), mas, depois de estimulado, Adam conseguiu localizar um pequeno círculo de calor na barriga. Disse-lhe: “Apenas passe a conhecer essa sensação por um instante”. Ele abriu os olhos abruptamente, surpreendendo-se com as próprias palavras: “Isso pode ser perigoso”. “Sim”, concordei, “pode. Por isso é importante aprender a sentir – um pouquinho de cada vez. Seu corpo está congelado há muito tempo; vai demorar um pouco para descongelar”, acrescentei. Era importante confirmar seu medo legítimo e oferecer-lhe uma imagem (o degelo do congelado) que o ajudasse a atenuar o medo, convidando-o a investigar sua experiência interna. Adam sentou-se e olhou pela sala. Pedi que descrevesse o que vira²³. Isso deu oportunidade para relacionar o calor na barriga ao modo como ele percebeu o mundo externo no momento presente. Ele pareceu perplexo. “Ah, eu não tinha notado as flores – nem a mesa em que elas estão.” Quase como a expressão de curiosidade de alguém que sai do coma, o rosto dele mostrou outro breve lampejo de despertar. Ele olhou em volta e percebeu um tapete oriental e uma pintura. “Eles têm cores, cores vivas”, disse, inocentemente. “Enquanto você olha aquelas cores, quero que encontre o lugar dentro do seu corpo que consegue senti-las – mesmo que só um pouquinho.”²⁴ Adam olhou para mim com uma expressão de perplexidade, talvez à espera de outras instruções. Mas então ele fechou os olhos e mergulhou para dentro. “Está mais quente na barriga, e o círculo está aumentando de tamanho.” Alguns momentos depois, pedi-lhe que ficasse em pé outra vez: “Adam, vou pedir que faça algo que pode parecer estranho... Quero que visualize o quadro das crianças com as pipas... Sinta os pés no chão e como as pernas o sustentam. Agora sinta os seus braços enquanto você segura o fio da pipa… e imagine-se no campo com as crianças”. Adam respondeu quase com alegria: “Estou sentindo isso nos braços e na barriga… Está mais quente e maior... Consigo ver as cores; são vivas e quentes… Vejo as pipas dançando nas nuvens”. Depois de alguns momentos em silêncio, Adam sentou-se e olhou em volta. “Use quanto tempo quiser, Adam… Apenas sinta o ritmo disso… do lado de dentro e do lado de fora.”²⁵ Os olhos dele olharam alternadamente para a mesa com as flores e o quadro na parede. Ele focalizou a mesa e começou a dizer que a cor e os veios da madeira eram quentes… parou… “O calor por dentro é bom.” Ele fechou os olhos de novo, sem a minha instrução dessa vez, descansou um pouco, depois abriu os olhos lentamente e se virou para mim, fitando-me sem embaraço algum. Essa foi a primeira vez que o sistema de interação so- cial de Adam (veja o Capítulo 6) foi despertado e ativado. O corpo de Adam mostrou alguma vitalidade; o rosto caído ganhou um tom colorido, quase vibrante, e a postura encurvada se ergueu e aprumou. Adam era como uma folha nova de bananeira, bem enrolada, que se volta para o sol e tenta alcançá-lo, confiando no seu calor enquanto se desdobra devagar. Ele estava maravilhado com a sala, como se a visse pela primeira vez. Olhou para as mãos e segurou de leve os dedos de uma delas com a outra. Então levou as mãos à parte superior dos braços e segurou os ombros, com os braços cruzados sobre o peito. Era como se estivesse segurando e alimentando a si mesmo. Ele surpreendeu a nós dois ao dizer: “Estou vivo”. Ao perceber que podia começar a sentir, Adam tornou-se, naquele momento, como a criança com orgulho da pipa maravilhosa que ela criou. Esse foi para Adam o início de um aprendizado gradual, rítmico. Agora ele podia começar a sentir seu eu corporal sem abrir demais em sua alma a porta sombria da violência e do horror. Era capaz de abrir apenas o suficiente para sentir – sentir sem ser aniquilado, sem ser engolido pelo buraco negro do seu passado terrível nem perdido na intensa treva do luto e da imensa culpa por Paulo. De certo modo, em sua consciência corporal, ele descobrira a existência de um chão intermediário. Descobrira um lugar entre estar inteiramente dominado e afogado, de uma parte, e imerso em uma depressão mortificante, de outra. Em outro dia, Adam escreveu para mim que essa experiência de um chão intermediário tênue mas perene permitiu-lhe experimentar um novo sen- tido de otimismo. Desse lugar ele era capaz de sentir compaixão por si mesmo por ter sido um órfão no Holocausto. “Foi também aí”, disse ele, “que comecei a ser capaz de chorar por meu filho amado e encontrar o prazer e a alegria de estar com a família.” Questões para discussão Refleti sobre a nossa sessão e o que teria levado Adam de uma depressão esmagadora para o fluxo da vida. Ele conseguiu identificar-se com a ani- mação do menino favelado – uma animação que transcendia o futuro carente da criança. Conseguiu sentir no próprio corpo a inocência, a empolgação e a alegria de uma criança empinando uma pipa improvisada com restos aproveitados do lixo. De certa maneira, Adam pegou coisas do monte de lixo do seu passado devastador e desumano. Agora, porém, em vez de desmoronar sob seu peso, ele engendrou uma solução criativa. Ao se levantar (con- tradizendo cinestesicamente sua prostração habitual) e estabilizar fisicamente a própria dor, ele mobilizou sua força vital e entrou para o transcendente jogo da pipa. Ele conseguiu sentir-se puxado para cima pela imagem elevada e na direção da possibilidade de liberdade autêntica e diversão espon- tânea. Metaforicamente, ele voltou a se familiarizar com a alegoria do seu nome. Adam associou-se à inocência do Adão bíblico – antes que o fruto amargo da terrível experiência lhe queimasse a língua com o gosto amargo da desumanidade cruel e maligna do homem. Esse homem antes destruído agora remexia na personificação arraigada e na resistente autocomiseração a ponto de começar a poder lamentar e, assim, iniciar o retorno à vida. Eu não quis expô-lo ao choque de ver seu filho pendurado no banheiro (quanto mais afogá-lo com essa cena). Minha preocupação principal, naquele mo- mento, foi evitar o desligamento do sistema nervoso de Adam, provocado pelo choque, e começar a criar uma base para a resiliência e a autorre- gulação. Quero convidá-lo, leitor, a ponderar as considerações a seguir. Teriam sido meras coincidências os episódios dos gritos inconsoláveis de Paulo, que começaram aos 4 anos, e sua decisão de se enforcar? (Lembre-se de que a mulher de Adam disse que o marido também gritava e chorava à noite, do mesmo modo que o filho viria a fazer.) Ou esses incidentes foram um reaparecimento intergeracional de experiências despercebidas e das emoções relegadas de seu pai? Essas possibilidades estão entre os mistérios do trauma e do espírito humano. Certos autores que estudam o Holocausto, como Yael Danieli²⁶ e Robert Lifton²⁷, fizeram análises inovadoras sobre as vítimas desse massacre horrendo. Ao trabalhar com Adam e poucos outros sobreviventes desse tipo de experiência, confrontei-me pessoalmente não só com o terrível conhe- cimento da crueldade de que os seres humanos são capazes, mas também com o extraordinário processo pelo qual o corpo é de algum modo capaz de compartimentar os efeitos dessa crueldade e tocar a vida adiante. Ele mantém um controle tênue – isto é, até que algo seja acrescentado à insustentável contenção do fardo. Mesmo assim, a chama lenta do eu profundo pode se reacender como que por milagre, desde que haja a oportunidade certa e um apoio cuidadosamente dosado. Epílogo Após a nossa sessão, Adam voltou à sua cidade natal na Polônia em busca de informações a respeito de sua mãe verdadeira, falecida quando ele
nasceu. Os nazistas não haviam destruído a lápide, e Adam a substituiu por uma nova porque seu coração “estava muito enternecido por saber da exis- tência” da mãe. Vince: ombro travado O choque entre dois processos contrários, um de excitação e outro de inibição, que dificilmente são simultâneos ou têm duração ou intensidade muito incomum, ou ambos, provoca a ruptura do equilíbrio. Ivan Pavlov Não é incomum, sobretudo para um bombeiro, ter relutância em consultar um psicoterapeuta – um “médico de cabeça”. Quanto mais com rela- ção a um problema “obviamente” físico. Vince estava indo a um fisioterapeuta por causa do ombro direito, travado. Essa incapacidade o impedia de executar seu trabalho de bombeiro. O tratamento não ia bem: depois de várias sessões, ele continuava sem conseguir afastar o braço do tronco mais que alguns centímetros. O ortopedista consultado recomendou cirurgia, em que o braço é “manipulado” (puxado violentamente), sob anestesia geral, na tentativa de curá-lo. Uma operação dessas implica uma reabilitação longa e dolorosa e em geral não melhora muito a situação. Como não parecia haver lesão física, o fisioterapeuta, na esperança de evitar o difícil procedimento, indicou-me a ele. Os sintomas haviam come- çado alguns meses antes do nosso encontro. Ele trabalhava na garagem e pegou um motor de arranque para o seu carro. Quando o ergueu, sentiu uma “pontada de alguma coisa” no braço. No dia seguinte, o ombro estava duro e dolorido. Com o tempo, a dor ficou mais aguda e o alcance dos movi- mentos piorou progressivamente, tornando-se crônico. Como era de esperar, Vince atribuiu o “estiramento” do ombro ao trabalho no carro. É parecido com o caso de uma pessoa que se curva para pegar um papel no chão e tem um espasmo nas costas. O senso comum e a observação clínica da mai- oria dos quiropráticos e massagistas dizem que se tratava de costas predestinadas – “era para acontecer”. Vince está claramente atrapalhado por consultar um “médico de cabeça” e reluta em se entender comigo. Percebendo isso, eu o tranquilizo di- zendo que não farei perguntas pessoais e me aterei a ajudá-lo a se livrar dos sintomas. “É”, diz ele, “meu corpo está arrebentado mesmo.” Peço-lhe que me mostre quanto ele consegue mexer o braço antes de começar a doer. Ele o movimenta poucos centímetros e olha para mim: “É mais ou menos isso”. “Certo, agora quero que o movimente do mesmo modo, mas bem devagar, assim” – e lhe mostro com o meu braço. “Hum”, diz ele, olhando para o braço. Sem dúvida está surpreso de conseguir levá-lo mais adiante sem dor. “Desta vez, mais devagar ainda, Vince… Vamos ver o que acontece agora… Quero que você use realmente toda a atenção; focalize a mente no seu braço agora.” O movimento lento permite que a consciência seja levada para o braço. O movimento rápido, sem concentração, pode recriar um padrão de contenção para se proteger. Sua mão começa a tremer, e ele olha para mim em busca de aprovação. “Isso, Vince, é assim mesmo. Isso é bom. São os seus músculos come- çando a se soltar. Tente concentrar-se aí, no braço e no tremor. Deixe o braço se mexer do jeito que ele quiser.” O tremor continua por um instante e depois para. Vince começa a suar muito na testa. Quando ele vai ao extremo do padrão de tensão dos músculos, parte da “energia” retida em seu padrão de defesa muscular começa a ser liberada. Aí se incluem as reações involuntárias do sistema nervoso autônomo, como espasmos, tremor, suor e mudanças de temperatura²⁸. Como essas ações são subcorticais, a pessoa não tem a sensação de controle sobre as reações. Isso pode incomodar bastante. Minha função aí é a de tutor e parteira, aju- dando Vince a se familiarizar com essas sensações “estranhas ao ego”, ainda mais porque ele desconhece inteiramente reações involuntárias incontro- láveis. “O que é isso? Por que isso está acontecendo?”, pergunta Vince num tom de criança assustada. “Vince, vou lhe pedir agora que apenas feche os olhos por um minuto e entre em seu corpo. Vou estar bem aqui se precisar de mim.” Depois de alguns momentos de silêncio, suas mãos e seu braço começam a se esticar – o braço inteiro, os ombros e as mãos passam a tremer com mais inten- sidade. “Tudo bem isso estar acontecendo”, encorajo. “Deixe-o fazer o que ele necessita e continue sentindo o seu corpo.” “Está frio e em seguida esquenta”, afirma ele, enquanto continua estendendo o braço, movimentando-o agora até cerca de 45 graus. Então ele para de repente. Surpreso por conseguir abrir tanto o braço, Vince arregala os olhos. Ao mesmo tempo, parece agitado; seu rosto fica pálido subitamente. Ele reclama de enjoo. Em vez de recuar, eu o encorajo a ficar consciente das sensações físicas. Ele passa a respirar rapidamente. “Meu Deus, eu sei o que é isso.” “Que bom”, interrompo, “mas continuemos com as sensações um pouco mais e depois falamos disso, está bem?”²⁹ Vince faz sinal afirmativo e movimenta o braço para a frente e para trás como se estivesse serrando um pedaço de madeira em câmera lenta. Com esse movimento vagaroso, Vince começa a explorar o movimento interno contido e travado por tensão muscular crônica. Ele agora diferencia dois impulsos conflitantes – um diz res- peito à extensão e o outro, ao recolhimento, em repulsão. (Observo a repulsão como um padrão particular que envolve a retração do lábio para um lado e a inclinação da cabeça, que se afasta um pouco.) O tremor aumenta e diminui de novo, depois se estabiliza. Lágrimas escorrem dos olhos de Vince. Ele inspira profunda e espontaneamente e então estende todo o braço para a frente. “Não dói nada!” Isso condiz com o que descobri sobre a dor crônica. Em geral existe um padrão de tensão muscular latente que, ao ser desfeito, faz a dor desaparecer. Vince abre os olhos e me olha. Tendo sem dúvida terminado a análise “de baixo para cima”, ele agora consegue formar novos significados e me revela o acontecimento a seguir. Cerca de oito meses antes³⁰ ele foi fazer compras com sua mulher. Ao sair do supermercado, ouviu um estrondo. Um carro havia batido no poste do outro lado da rua. Ele largou a sacola e correu para o local do acidente. A motorista estava sentada imóvel, em aparente estado de choque. Como o motor do carro estava ligado, ele se esgueirou por sobre o corpo inerte dela a fim de desligar a ignição, procedimento reco- mendado para evitar um incêndio ou uma explosão. Assim que começou a girar a chave, Vince viu uma criança pequena no banco do passageiro, deca- pitada pelo air bag. E então ele me contou por que seu ombro ficara paralisado: “Eu estava bem até ver a criança… Estou acostumado a fazer coisas assim, perigosas… mas, quando vi a garota, uma parte de mim quis puxar meu braço de volta e sair dali… senti vontade de vomitar… e a outra parte continuou ali e fez o que tinha de fazer… Às vezes é muito difícil fazer o que a situação exige”. “Sim”, concordei, “é difícil, e você e seus colegas conti- nuam a fazer mesmo assim… Obrigado.” “Hum”, acrescentou ele ao sair, “acho que tenho de aprender a pensar no meu corpo.” Vince aprendera que a mente e o corpo não são entidades separadas – que ele era um ser só. Disse que queria se conhecer mais e voltou para outras três sessões. Aprendeu a lidar melhor com situações estres- santes e conflituosas e, desnecessário dizer, não precisou de cirurgia. Quando precisamos salvar vidas, é enorme a quantidade de agitação e adrenalina que inunda o corpo. Quando Vince tentou salvar a passageira no acidente de carro, ocorreram dois atos de sobrevivência simultâneos mas opostos: um, fazer o possível para salvar a vida dela; outro, afastar-se do hor- ror. Nesse conflito intenso, o sistema nervoso e os músculos de Vince travaram; o ombro ficou paralisado. Ao ser capaz de “sentir através” dos impulsos
conflitantes e distingui-los – primeiro, estender-se para a frente e depois retrair-se de horror –, a vasta energia de sobrevivência³¹ foi descarregada nas ondas de suor com tremores e náusea, em vez de cada um deles agir contra si próprio. A vez do dr. Pavlov Ivan Pavlov, premiado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1904 por sua prodigiosa obra sobre reflexo condicionado, foi levado a estudar experimentalmente a crise (traumática) por um acaso. A grande enchente de 1924 em Leningrado provocou a inundação do seu laboratório, localizado em um porão, e a água chegou muito perto da altura em que estavam as gaiolas de seus cães de experimentação. Os cachorros ficaram aterrorizados, mas não se machucaram fisicamente. Quando Pavlov retomou as experiências, ficou surpreso ao descobrir que os cães tinham perdido os reflexos condicionados que haviam adquirido. Ao mesmo tempo que isso obviamente interessava a Pavlov, outra série de observações mudou o futuro de seu trabalho investigativo. Uma proporção significativa de cães, embora fisicamente ilesos, teve uma crise emocional, comportamental e fisiológica, que implicava encolher-se e tremer no canto das gaiolas, enquanto outros animais antes dóceis passaram a avançar com ferocidade nos tratadores.
Além disso, foram observadas mudanças fisiológicas, como batimentos cardíacos acelerados ou reduzidos sob tensão moderada e reações de grande susto a estímulos suaves (como sinais sonoros ou a aproximação de um pesquisador). A enchente provocou duas tendências conflitantes, como mostra a definição de Pavlov: “O choque de dois processos [intensos] contrários, um de excitação e outro de inibição”. Em outro exemplo, o impulso simultâneo de comer e sofrer um forte choque elétrico (quando este ocorre junto com a alimentação) resulta em crise dos animais com fome. Diante da ocorrência de dois impulsos opostos – um de ficar e comer e o outro de fugir de um acontecimento extremamente nocivo –, sem dúvida haverá uma crise. Em suma, a expressão motora de duas reações instintivas cria um conflito e resulta em paralisação, como na estase do ombro de Vince. Em condi- ções normais, os músculos de extensão atuam reciprocamente com os de flexão. Nos estados traumáticos, porém, os agonistas e os antagonistas atuam um contra o outro, provocando um estado de travamento (imobilização).
Isso pode ocasionar sintomas de debilitação em praticamente qual- quer parte do corpo. A energia retida em respostas inibidas (frustradas) é tão forte que pode provocar uma tensão muscular extrema, que costuma ter efeitos profundos. Por exemplo, quando alguém salta de um prédio em chamas para uma rede de salvamento bem abaixo, as pernas podem ser fratu- radas durante a queda, antes do impacto. Isso ocorre porque tanto os músculos extensores quanto os flexores contraem-se ao mesmo tempo, com uma intensidade brutal. Em guerras ou catástrofes naturais, o impulso instintivo de autopreservação quase sempre conflita com o de proteger um camarada. Na Primeira Guerra Mundial, o predomínio da fadiga de combate foi bastante alto nas trincheiras. Os soldados de infantaria eram literal- mente encurralados e bombardeados com explosivos estrondosos semanas a fio. Instintivamente, eles eram “impelidos” a correr como loucos para escapar ou ficar sob fogo e lutar pela preservação do grupo. Aliás, muitos soldados acabaram mortos por correr para escapar sem refletir (ou foram fuzilados por suposta covardia).
Nos poucos filmes documentais da Primeira Guerra Mundial com soldados acometidos de fadiga de combate, veem- se as consequências dessa imobilização crônica na tortura, na contorção e na convulsão dos homens. Vemo-nos imaginando quantos soldados adqui- riram traumas e sofreram de culpa por terem preferido proteger a si mesmos, largando os feridos à própria sorte. Seja como for, a coragem é um fenô- meno muito mais complexo do que em geral se julga. O trauma pelos olhos de uma criança Trabalhando por toda a minha vida com adultos, pediram-me às vezes que eu visse os filhos dos meus clientes. Frequentemente fiquei assom- brado com o fato de que, com intervenções muito breves, as crianças recuperaram-se daquilo que de outro modo teria sido uma incapacitação para a vida inteira. Essas crianças, desaferradas do jugo do trauma, tornaram-se livres para se desenvolver com confiança, resiliência e alegria. Fui coautor de dois livros sobre o tratamento preventivo e somático do trauma na infância. Um deles volta-se para terapeutas, pessoal médico e professores³², en- quanto o outro ensina aos pais recursos eficazes de auxílio emocional³³. Nesta seção, apresento a história delicada de três crianças deprimidas: Anna, Alex e Sammy. O relato sobre elas ilustra o princípio de que quanto menos melhor, e fala da capacidade de recuperação inata do espírito humano. Anna e Alex: piquenique frustrado Anna, de 8 anos, tem olhos castanhos enormes. Ela poderia ter servido de modelo em uma das pinturas de Margaret Keane com crianças de olhos amendoados. A enfermeira escolar acaba de trazê-la para conversar comigo. Pálida, com a cabeça pendente e mal respirando, parece um filhote de cervo paralisado pelos faróis de um carro. Seu rosto frágil não tem expressão, e seu braço direito pende inerte, como se estivesse prestes a se soltar do ombro. Há dois dias, Anna foi à praia em um passeio da escola. Ela e uma dezena de coleguinhas brincavam no mar quando uma ressaca repentina os arrastou rápido para o fundo. Anna foi resgatada, mas Mary (uma das mães que se dispôs a acompanhar o passeio) afogou-se depois de salvar corajo- samente várias crianças. Mary fazia as vezes de mãe de muitas crianças da vizinhança, Anna inclusive, e a comunidade ficou chocada com a trágica morte dela. Eu pedi à enfermeira escolar que tentasse localizar crianças com sintomas súbitos (por exemplo, dores em geral, dor de cabeça e na barriga e resfriados). Anna havia estado com a enfermeira três vezes naquela manhã, queixando-se de muita dor no braço e no ombro direito. Um dos equívocos cometidos por quem atende a traumas é tentar fazer as crianças falar sobre o que estão sentindo logo após o acontecimento. Ainda que raramente seja saudável ocultar os sentimentos, aquela prática pode provocar trauma. Nesses momentos de vulnerabilidade, as crianças (e os adultos também) tendem a ficar transtornadas com facilidade. Traumas anteriores podem ressurgir em consequência de um acontecimento insupor- tável, criando uma situação complexa que envolve, por exemplo, segredos profundos, vergonhas ocultadas, culpa e ódio. Por essa razão, antes de ver- mos a criança, minha equipe procurou e conseguiu de vários professores (e da enfermeira) da escola de ensino fundamental um pouco do histórico de Anna. Desse modo, obtivemos informações que tanto eram desconhecidas conscientemente da criança quanto poderiam ser perigosas se descobertas, dada a fragilidade do estado dela. Soubemos que aos 2 anos Anna viu seu pai balear a mãe no ombro e em seguida se suicidar. Um detalhe extra que compunha os sintomas surgiu de uma situação por que ela passou antes do piquenique: ficou furiosa quando Robert, filho de Mary de 16 anos, brigou com o irmão dela de 12 anos. Havia uma grande possibilidade de Anna ter represado o rancor contra Robert antes do afogamento e querer uma revanche naquele momento. Isso suscitou a eventualidade de Anna estar sentindo uma culpa profunda pela morte de Mary – talvez até acreditando (por meio de uma fantasia) que fosse responsável por ela. Peço à enfermeira que sustente com suavidade o braço machucado, o que poderia ajudar Anna a controlar a “energia do choque” estagnada nele, além de aumentar a consciência interna da criança. Com esse apoio, Anna seria capaz de destravar lentamente (isto é, aos poucos) e acessar os senti- mentos e as respostas que ajudassem a trazê-la de volta à vida. “Como é estar dentro do seu braço, Anna?”, perguntei com suavidade.
“Dói demais”, responde ela baixinho. Seus olhos estão abatidos, e eu digo: “Dói muito, é?” “É.” “Onde dói? Pode me mostrar com o dedo?” Ela aponta um lugar na parte superior do braço e diz: “E dos lados também”. Há um leve estreme- cimento em seu ombro direito, seguido de um suspiro curto. Por um momento, seu rosto abatido ganha um tom rosado. “Está bem, querida. Com isso melhora um pouco?” – ela faz que sim, e pega mais fôlego. Após esse relaxamento leve, ela se enrijece imedia- tamente, puxando o braço na direção do corpo para protegê-lo. Eu aproveito o momento. “Onde sua mãe se machucou?” Ela aponta o mesmo lugar no braço e começa a tremer. Não digo nada. O tremor se intensifica, depois desce pelo braço e sobe para o pescoço. “Anna, deixe a tremedeira acontecer, como numa tigela de gelatina – ela é vermelha, verde ou amarela? Você consegue deixá-lo tremer? Sente o tremor?” “É amarela”, diz a menina, “como o sol no céu.” Ela respira fundo e em seguida olha para mim pela primeira vez. Sorrio e concordo com a cabeça. Os olhos dela se fixam nos meus por um instante e depois se afastam. “Como está o seu braço agora?” “A dor está indo para os dedos.” Os dedos tremem de leve. Falo com ela baixinho, com suavidade, ritmadamente. “Sabe, Anna, querida… Acho que não existe uma pessoa em toda a cidade que não sinta, de algum modo, que a morte de Mary foi culpa dela.” Ela me olha por um instante. Eu prossigo: “Agora, é claro que isso não é verdade... mas é como todos se sentem... e isso acontece porque todos a amam muito”. Ela se volta e olha para mim. Há um quê de autorreconhecimento em sua atitude. Com os olhos dela grudados em mim, eu continuo: “Às vezes, quanto mais amamos alguém, mais achamos que foi culpa nossa”. Duas lágrimas escorrem do canto externo de cada olho antes que ela vire o rosto para longe de mim. “E às vezes, quando estamos muito bravos com uma pessoa e acontece alguma coisa ruim com ela, achamos que isso aconteceu porque nós que- ríamos que acontecesse.” Anna me olha bem nos olhos. Continuo: “E, sabe, quando uma coisa ruim acontece com alguém que amamos ou adiamos, ela não acontece por causa do que queremos. Às vezes o que é ruim apenas acontece… e os sentimentos, por maiores que sejam, são só sentimentos”. O olhar de Anna é penetrante e de agradecimento. Eu me sinto contendo as lágrimas. Pergunto a ela se quer voltar para a aula agora. Ela faz que sim, olha uma vez mais para nós três e caminha porta afora, com os braços movimentando-se soltos, no ritmo dos passos. Alex, como várias das crianças que estavam na praia e presenciaram a tragédia, estava com dificuldade de dormir e comer. O pai dele o trouxe a mim porque o garoto estava se alimentando muito mal nos últimos dois dias. Assim que nos sentamos, pergunto a ele se consegue sentir por dentro da sua barriga. Ele põe a mão de leve na barriga e, com uma fungada, res- ponde: “Sim”. “Qual é a sensação lá dentro?” “Está duro como se fosse um nó.” “Tem alguma coisa dentro desse nó?” “Tem. É preto... e vermelho… Não gosto dele.” “Dói, hein?” “É.” “Sabe, Alex, dói mesmo, porque você a ama… mas não vai doer para sempre.” As lágrimas rolam pela face do menino, e a cor volta ao seu rosto e a seus dedos. Naquela noite, Alex come tudo. No velório de Mary, ele chora abertamente, sorri com afeto e abraça os amigos. Sammy: brincadeira de criança Descobre-se mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira do que em um ano de conversa. Platão Do mesmo modo que nem Vince nem os médicos conseguiram relacionar o travamento persistente do ombro dele com um acontecimento grave, é comum os sintomas das crianças ou mudanças em seu comportamento motivarem questões enigmáticas que desconcertam os pais e também pedi- atras. Isso ocorre principalmente quando a criança tem pais “bons demais”, que criam um ambiente estável e amoroso em casa. Às vezes, as novas ati- tudes da criança, ainda que não sejam nada sutis, são um mistério. Perplexa, a família talvez não consiga relacionar a conduta do filho ou outros sin- tomas à origem do medo extremo. Em vez de se exprimirem de um modo facilmente compreensível, as crianças tendem a mostrar que estão sofrendo por dentro da maneira o mais frustrante possível. Mostram por meio do corpo. Podem se tornar irritantes, agarrando-se aos pais e tendo chiliques. Ou podem sofrer de agitação, hi- peratividade, pesadelos e insônia. Ainda mais preocupante, elas podem externar os incômodos e as mágoas maltratando um animal de estimação ou uma criança mais nova e mais fraca. Outras crianças talvez revelem seu sofrimento com dores de cabeça ou de barriga e urinando na cama, ou então evitando pessoas e coisas de que elas gostavam para conseguir conviver com a ansiedade insuportável. E os pais se perguntam: de onde podem ter vindo esses sintomas? Os próprios símbolos de juventude – acontecimentos “comuns”, como quedas, acidentes e atendimentos médicos –, quando não solucionados, são suspeitos de esconder os culpados pela ansiedade da criança. Isso sem dúvida aconteceu com o pequeno Sammy. Como as crianças pela própria natureza gostam de brincar, os terapeutas e os pais podem ajudá-las a se recuperar, superando seus medos para dominar os momentos mais amedrontadores por meio de brincadeiras orientadas. Quando as crianças expressam seu mundo interno ao brincar, é o corpo que se comunica diretamente conosco. Esta é a história de Sammy, menino de 2 anos e meio, na qual a montagem de uma sessão lúdica originou uma experiência reparadora bem- sucedida. Depois da história deste caso, há sugestões para terapeutas, profissionais médicos e pais. A seguir, um exemplo do que pode acontecer quando uma queda comum que leva a um pronto-socorro para dar alguns pontos se complica. Ele mostra também que vários meses mais tarde a ex- periência apavorante de Sammy resultou, por meio da brincadeira, em um sentido renovado de confiança e alegria. Sammy está passando o fim de semana com os avós, de quem sou hóspede. Ele tem sido um tirano insuportável, tentando controlar agressi- vamente e sem trégua seu novo ambiente. Nada o satisfaz; sempre que está acordado mostra-se temperamental; quando está dormindo, ele se agita e se vira como se estivesse lutando com as roupas de cama. Esse comportamento não é inteiramente inesperado em uma criança com 2 anos e meio cujos pais foram viajar no fim de semana – as crianças com angústia da separação em geral fazem isso. Sammy, no entanto, sempre gostou de visitar
os avós, e seu comportamento estava passando dos limites para eles. Os avós me revelaram que seis meses antes Sammy caíra do cadeirão e fizera um corte feio no queixo. Sangrando muito, foi levado ao pronto- socorro. Quando a enfermeira chegou para medir a temperatura e a pressão dele, Sammy ficou com tanto medo que ela não conseguiu concluir. Esse garotinho vulnerável foi então atado a uma maca pediátrica (uma prancha com tiras de velcro). Com o tronco e as pernas imobilizadas, as únicas par- tes de seu corpo que se mexiam eram a cabeça e o pescoço – que ele, obviamente, mexeu com o máximo de força que conseguiu. Os médicos deci- diram apertar as tiras e imobilizar a cabeça dele com as mãos para poder suturar-lhe o queixo. Após essa experiência perturbadora, a mãe e o pai saíram com Sammy para comer um hambúrguer e ir ao parquinho. A mãe foi muito atenciosa e, com cuidado, deu-lhe apoio com relação àquela experiência em que ele se assustou e se feriu. Logo tudo pareceu esquecido. No entanto, a atitude au- toritária do garoto começou pouco depois desse acontecimento. Estariam os chiliques e o comportamento dominador de Sammy relacionados com o desamparo sentido naquele trauma? Quando os pais voltaram, concordamos em investigar a existência de uma carga traumática associada à experiência recente. Todos nos reunimos no chalé em que estávamos hospedados. Com os pais, os avós e Sammy observando, pus seu ursinho Pooh de pelúcia na beirada de uma cadeira de tal maneira que ele caiu no chão. Sammy deu um grito agudo, voou para a porta, atravessou correndo uma ponte e desceu um caminho estreito até o riacho. Nossas suspeitas se confirmaram. Sua mais recente visita ao hospital não havia sido nem inofensiva nem esquecida. A atitude de Sammy nos mostrou que esse jogo podia ser insuportável para ele. Os pais o trouxeram de volta do riacho. Ele se agarrou amorosamente à mãe enquanto nos preparávamos para outro jogo. Garantimos a ele que todos ficaríamos ali para proteger o ursinho. Ele correu mais uma vez, mas agora só até o quarto ao lado. Nós o seguimos até lá e esperamos para ver o que aconteceria. Sammy correu para a cama e bateu nela com os dois braços, olhando para mim, expectante. “Raiva, é?”, perguntei. Ele me lançou um olhar que confirmou a pergunta. Interpretando sua expressão como um sinal de vá em frente, eu pus o urso embaixo do cobertor e coloquei Sammy na cama junto ao bichinho. “Sammy, todos nós vamos ajudar o ursinho Pooh.” Segurei o urso embaixo do cobertor e pedi a todos que ajudassem. Sammy olhou com interesse, mas logo se levantou e correu para a mãe. Com os braços apertados ao redor das pernas dela, ele disse: “Mamãe, estou com medo”³⁴. Sem pressioná-lo, esperamos até que ele estivesse com vontade de voltar a brincar. Na vez seguinte, a avó e o ursinho foram deitados e presos juntos, e Sammy participou ativamente do resgate deles. Quando liber- tamos o urso, Sammy correu para a mãe, agarrando-se a ela mais forte que antes. Ele começou a tremer e ter espasmos de medo, e depois, surpreen- dentemente, o peito dele expandiu-se com uma sensação crescente de empolgação e orgulho. Vemos aí a transição entre a reencenação do trauma e a brincadeira curativa. Da vez seguinte que se aproximou da mãe, Sammy a agarrou menos e pulou mais de empolgação. Esperamos até que ele estivesse pronto para brincar de novo. Todos, exceto o menino, tiveram a vez de ser resgatados com o ursinho. A cada vez Sammy mostrou mais vigor ao pular do cobertor e fugir para a segurança dos braços da mãe. Quando chegou sua hora de ser segurado sob o cobertor com Pooh, ele ficou muito agitado e temeroso. Correu para os braços da mãe várias vezes antes de ser capaz de passar pelo desafio máximo. Armando-se de coragem, subiu na cama embaixo do cobertor com o ursinho enquanto eu segurava o cobertor de leve. Observei os olhos dele, que se arregalaram de medo, mas só por um instante. Então ele agarrou o ursinho, empurrou o cobertor para longe e se lançou nos braços da mãe. Soluçando e tremendo, ele gritou: “Mamãe, me tira daqui! Mamãe, tira isso de mim!” O pai, assus- tado, me contou que essas foram exatamente as mesmas palavras que Sammy gritou quando esteve atado à maca no hospital. Ele se lembrava bem disso porque tinha ficado surpreso com a capacidade do filho de fazer um pedido tão direto e com tal clareza com apenas 2 anos e meio de idade. Repetimos a escapada diversas vezes mais. Sammy demonstrou estar cada vez mais forte e triunfante. Em vez de correr com medo para a mãe, ele correu de empolgação, subindo e descendo. A cada escapada bem-sucedida, todos aplaudimos e dançamos juntos, comemorando: “Viva o Sammy! O Sammy salvou o ursinho Pooh!” O garoto de 2 anos e meio dominou a experiência que o arrasara poucos meses antes. Desapareceu o comportamento agressivo e temperamental resultante do trauma, usado na tentativa de controlar o ambiente, enquanto a “hiperatividade” e a evitação dele (que ocor- reram durante o trabalho com seu trauma médico) transformaram-se em brincadeira vitoriosa. Cinco princípios para levar da brincadeira infantil à resolução Esta análise da experiência de Sammy vai ajudar a esclarecer e aplicar os princípios a seguir no uso da brincadeira terapêutica em pediatria. 1. Deixe a criança controlar o ritmo do jogo. A cura ocorre na desaceleração do tempo decorrido de momento a momento. Para ajudar a criança que você está atendendo a se sentir segura, siga o passo e o ritmo dela. Se você se puser na pele da criança (pela observação atenta do comportamento dela), aprenderá rápido a se entrosar com ela. Voltemos à história para ver exatamente como fizemos isso com Sammy. Ao sair correndo da sala quando o ursinho caiu no chão, Sammy mostrou em alto e bom som que não estava pronto para participar desse novo jogo de ativação. Ele precisava ser resgatado pelos pais, confortado e trazido de volta à cena antes de continuar. Para lhe dar segurança, todos nós lhe garantimos que estaríamos ali para proteger o ursinho. Ao oferecer esse apoio e reconfortá-lo, ajudamos Sammy a se aproximar do jogo – em seu tempo, em seu ritmo. Depois dessa garantia, Sammy correu para o quarto, não mais porta afora. Era um sinal claro de que ele se sentira menos ameaçado e mais confi- ante no nosso apoio. Como é provável que as crianças não declarem verbalmente se querem ou não continuar, aproveite as dicas do comportamento e das reações delas. Respeite os desejos delas, seja qual for o jeito que elas escolham para comunicá-los. Nunca se deve apressar as crianças a passar rá- pido demais por um episódio nem forçá-las a fazer mais do que conseguem. Exatamente como com Sammy, é importante executar o processo mais devagar se você perceber indícios de medo, respiração contida, enrijecimento ou uma conduta confusa (dissociada). Essas reações desaparecerão se você apenas esperar, tranquila e pacientemente, e ao mesmo tempo garantir à criança que continua ao lado dela. Em geral, o olhar e a respiração do jovem indicam quando é hora de continuar. 2. Faça distinção entre terror e agitação. Sentir medo ou terror por mais que um momento breve durante a brincadeira com o trauma não ajuda as crianças a se livrar dele. A maioria faz algo para evitá-los. Deixe-as soltas! Ao mesmo tempo, tente discernir se se trata de evitação ou fuga. A seguir, um exemplo claríssimo para ajudar a adquirir a aptidão de “captar” quando é necessário fazer um intervalo e quando está na hora de levar a oportunidade adiante. Quando correu para o riacho, Sammy demonstrou um comportamento de evitação. A fim de solucionar essa sua reação a um trauma, Sammy teve de sentir que controlava as próprias ações e não que suas emoções o levavam a agir. O comportamento de evitação ocorre quando o medo e o terror ameaçam dominar crianças e adultos. Com as crianças esse comportamento é em geral acompanhado de algum sinal de sofrimento emocional (choro,
olhar amedrontado, gritos). A fuga ativa, por outro lado, é estimulante. As crianças ficam excitadas com suas pequenas vitórias e costumam mostrar prazer com sorrisos, palmas e risadas efusivas. No todo, essa resposta é bem diferente do comportamento de evitação. A excitação é evidência da bem- sucedida descarga das emoções que acompanharam a experiência original. Isso é positivo, desejável e necessário. Muda-se o trauma transformando os sentimentos e as sensações intoleráveis em desejáveis. Isso só pode acontecer com um nível de ativação semelhante ao da ativação que provocou a reação traumática em primeiro lugar. Se a criança parece empolgada, você pode encorajá-la e prosseguir como fizemos ao bater palmas e dançar com Sammy. Contudo, se a criança parece estar com medo ou retraída, reconforte-a, mas não estimule mais nenhuma ação. Em vez disso, permaneça com toda a sua atenção e apoio, aguardando com paciência até que uma parte substancial do medo tenha desaparecido. Se a criança apresentar sinais de can- saço, faça um intervalo de descanso. 3. Dê um passo pequeno por vez. Nunca se deve avançar muito lentamente na renegociação de um acontecimento traumático com ninguém – quanto mais com uma criança pe- quena. A brincadeira com o trauma é repetitiva, quase por definição. Aproveite essa característica cíclica. A diferença fundamental entre renegociação e brincadeira com o trauma (reencenação) é que na renegociação existem diferenças incrementais nas respostas e nas atitudes da criança que avança para o domínio e a resolução. A explanação a seguir mostra como percebi essas pequenas mudanças com Sammy. Quando Sammy correu para o quarto e não para a porta, ele estava respondendo com um comportamento diferente, indicando que houvera pro- gresso. Independentemente de quantas sejam as repetições, se a criança passar a responder de modo diferente – com excitação um pouco maior, fa- lando mais ou com movimentos mais espontâneos –, ela está atravessando o trauma. Se as respostas da criança parecem pender para o retraimento ou a repetição compulsiva, em vez de expansividade e variação, talvez você esteja tentando renegociar a ocorrência com situações que contêm excitação demais para que a criança progrida. Se você notar que as suas tentativas lúdicas de renegociação estão falhando, recomponha-se e atente para as suas sensações até que a sua respiração lhe traga calma, confiança e espontaneidade. Então, diminua o ritmo da mudança subdividindo a brincadeira em incrementos menores. Talvez isso pareça contradizer o que se disse antes sobre seguir o passo da criança. No entanto, sintonizar-se com a neces- sidade dela às vezes significa impor limites para evitar que ela se excite e não aguente. Se a criança parece tensa ou amedrontada, recorra a alguns pas- sos terapêuticos. Por exemplo, ao renegociar um trauma médico, uma alternativa é dizer: “Vamos ver o que a gente pode fazer para o ursinho [boneca, soldadinho etc.] não ficar com tanto medo antes que você [o médico/enfermeiro da brincadeira] lhe dê uma injeção”. Quase sempre as crianças se saem com soluções criativas mostrando a você exatamente o que elas necessitam – o ingrediente misterioso que as teria ajudado a ficar mais tranquilas durante o acontecimento. Não se preocupe com o número de vezes que você tem de fazer o que parece ser “a mesmíssima coisa”. (Tentamos ao menos dez vezes levar Sammy a participar da brincadeira com o ursinho.) Sammy conseguiu renegociar suas respostas ao trauma bem rápido. Talvez os seus pacientes pre- cisem de mais tempo. Não é necessário fazer tudo num dia só! Descanso e tempo ajudam a reorganizar internamente a experiência da criança em ní- veis sutis. Saiba que, se a resolução não estiver completa, a criança voltará a uma fase similar quando tiver oportunidade de brincar na sessão seguinte. 4. Torne-se um abrigo seguro. Lembre-se de que a biologia está do seu lado. Talvez o aspecto mais difícil e mais importante da renegociação de um acontecimento traumático com a criança seja você acreditar que vai dar tudo certo. Esse sentimento vem de dentro de você e é transmitido à criança. Ele se torna um abrigo que rodeia a criança com um sentimento de confiança, o que pode ser particularmente difícil se ela resistir às suas tentativas de renegociar o trauma. Se a criança resiste, seja paciente e tranquilizador. O lado instintivo dela quer reprocessar a experiência. Você só tem de esperar que esse lado se sinta suficientemente confiante e seguro para se afirmar. Se você está preocupado demais com a mudança ou não da reação traumática da criança, pode transmitir uma mensagem conflitante. Adultos que tenham um trauma de infância mal resolvido talvez tenham mais propensão a cair nessa arma- dilha. 5. Pare se sentir que a criança realmente não está se beneficiando da brincadeira. Em Too scared to cry, Lenore Terr³⁵, psicóloga infantil brilhante e estimada, chama a atenção dos clínicos para a permissão dada a crianças para que se envolvam em uma “terapia” lúdica que reviva o horror original. A autora descreve as respostas de Lauren, de 3 anos e meio, enquanto ela brinca com carrinhos. “Os carros estão indo nas pessoas”, diz Lauren ao empurrar velozmente dois carros de corrida na direção de dedoches. “Eles estão apon- tando suas partes pontudas para as pessoas. As pessoas estão com medo. Uma parte pontuda vai entrar na barriga delas, e na boca e na… [ela aponta para a própria saia] Minha barriga está doendo. Não quero brincar mais.” Lauren se detém quando de repente a sensação surge em seu corpo. Essa é uma reação típica. Ela pode retomar seguidamente a mesma brincadeira, parando sempre que a sensação de medo passa a lhe incomodar na barriga. Alguns terapeutas diriam que Lauren usa a brincadeira na tentativa de dominar a situação que a traumatizou. Sua brincadeira assemelha-se a trata- mentos de “exposição” usados rotineiramente para ajudar adultos a superar fobias. Todavia, Terr adverte que tal brincadeira em geral não é tão bem- sucedida. Esse processo, ainda que sirva para reduzir o sofrimento da criança, demora muito para produzir resultados. Mais frequentemente, a brinca- deira é repetida compulsivamente sem resolução, e aquela que não se resolve e é recorrente pode intensificar o impacto do trauma do mesmo modo que a reencenação e a revivência catártica de experiências traumatizantes podem intensificar o trauma de adultos. O reprocessamento, ou renegociação, de uma experiência traumática, como vimos com Sammy, constitui um procedimento que é em essência diferente da brincadeira com o trauma, ou reencenação. A maioria das crianças, se utilizar apenas seus recursos, tenta evitar, muito como Lauren no exemplo acima, os sentimentos traumáticos que a brincadeira evoca. Todavia, na brincadeira orientada, Sammy foi capaz de “experimentar seus senti- mentos” dominando seu medo gradual e consecutivamente. Usando essa renegociação em etapas do acontecimento traumatizante e a companhia do urso Pooh, Sammy conseguiu se sair como vencedor e herói. A sensação de vitória e heroísmo quase sempre assinala a conclusão bem-sucedida de um acontecimento traumático renegociado. Seguindo a deixa de Sammy depois de montar uma cena potencialmente ativadora, participando da brincadeira dele e compondo o jogo enquanto o jogávamos, Sammy teve de abandonar o medo. Uma orientação mínima (30-45 minutos) e apoio foram precisos para atingir o objetivo tácito de ajudá-lo a experimentar um resultado corretivo.
8NO CONSULTÓRIO
Para adquirir conhecimento, deve-se estudar, mas,
para adquirir sabedoria, deve-se observar.
Marilyn vos Savant
Pode-se observar muito só olhando.
Yogi Berra, receptor de beisebol,
New York Yankees (por volta dos anos 1950)
O terapeuta que conhece os sentimentos do corpo conta com uma visão privilegiada da vida primária da psique e da alma. Por mais que se converse não se consegue superar essa posição vantajosa. Muito antes do advento da psiquiatria, o filósofo francês Pascal observou que o corpo tem razões que a própria razão desconhece¹. O austríaco Wittgenstein, da mesma tradição, escreveu que o corpo é a melhor imagem da mente. E, perto da virada do século XIX, o australiano F. M. Alexander fez um longo estudo da postura das pessoas e concluiu: Quando os psicólogos falam do inconsciente, eles falam é do corpo.
A atual falta de reconhecimento do corpo na psicoterapia levou o analista Masud Kahn² a lamentar: Não topei com nenhum estudo que discuta a contribuição ao nosso saber e conhecimento do paciente dada pelo que vimos em seu corpo, em contraposição com o que vimos apenas no material verbal e nas respostas afetivas na situação analítica.
Os terapeutas adeptos do somatismo dão aos pacientes um feedback meticuloso na forma de sugestões para que explorem as sensações corporais que surgirem. Esse feedback baseia-se sobretudo na capacidade do terapeuta de observar e acompanhar as alterações posturais, gestuais, faciais (emocionais) e fisiológicas do paciente ao longo de uma sessão para que façam parte da percepção consciente dele próprio. Isso permite ao paciente e ao terapeuta descobrir conflitos e traumas que estejam fora do alcance da razão. Freud mostrou ter captado esse conceito em sua obra inicial ao afirmar que a mente esqueceu, mas o corpo não, felizmente. Sim, felizmente! Embora Freud pareça ter esquecido essa premissa, seu aluno Wilhelm Reich passou toda a carreira estudando como os conflitos se instalam no corpo. Quando se trata de consultório, ressaltou ele, existem apenas dois animais e dois corpos.³
Neste capítulo, usarei exemplos dos meus atendimentos para ilustrar os princípios esboçados do Capítulo 5 ao 7. No começo do trabalho nas sessões, o paciente pode não entender o feedback do terapeuta a respeito de suas atitudes inconscientes. Porém, à medida que ganha consciência de suas sensações, o paciente consegue usá-las para acessar seus recursos inatos e aprofundar sua capacidade de se conhecerpor meio das instigações de seu corpo. No primeiro caso (Miriam), apresento a linguagem corporal expressiva mas oculta. Relativamente simples, esse caso demonstra certas aptidões essenciais de observação corporal que os terapeutas podem utilizar com os pacientes para promover o despertar destes e aumentar a integração de seus sentimentos, sensações, percepções e conotações.
Miriam: na linguagem sem palavras do corpo
Miriam entra na sala, senta-se vacilante e cruza os braços com firmeza sobre o peito. Essa postura dá a impressão de uma rígida autoproteção. Claro que há muitos motivos para cruzar os braços: ela poderia estar se reconfortando ou até se aquecendo. É o contexto como um todo que conta a história. Miriam está agitada, balançando sem parar as pernas cruzadas. Seu rosto está visivelmente contraído; os lábios, finos e apertados. Miriam revela que está descontente e ressentida com seu casamento e seu trabalho. Ela se sente de mau humor muitas vezese quase sempre tem o sono interrompido. Quando acorda, em geral é por causa de cãibras na barriga e inquietação nas pernas. Ela descreve essa situação incômoda resmungando: É como se me chutassem à noite e me acordassem. Seu médico acha que ela pode ter síndrome das pernas inquietasou depressão e lhe receitou um antidepressivo. No entanto, ela primeiro quer tentar botar as coisas pra fora.
A linguagem corporal de Miriam reflete tanto sua aflição quanto sua resistência. Essa resistência tem um motivo: é a expressão física de como ela se protege. Em parte, Miriam defende-se como se houvesse um ataqueexterno. Todavia, ela se protege essencialmente dos seus sentimentos e sensações rejeitados. A resistência precisa ser trabalhada com suavidade e de modo indireto. A confrontação frontal costuma ser insensata: é provável que o ataquedireto à resistência a intensifique ou a desfaça precipitadamente. O rompimento súbito de uma defesa pode provocar opressão, transtorno e uma eventual retraumatização.
A observação da resistência no plano corporal permite ao terapeuta monitorar a capacidade progressiva do paciente de se aproximar de suas sensações e sentimentos à medida que corre a sessão e, assim, avaliar a eficácia e a intensidade das diversas intervenções terapêuticas, verbais e não verbais. Quando começa a se sentir mais seguro (por meio de reflexão, ritmo e espelhamento), o paciente percebe que é notado e respeitado; e então, naturalmente, as posições defensivas diminuem paulatinamente. Se, por outro lado, o paciente se esforça bastante para se abrir (por exemplo, revelando muito mais sobre si do que está preparado para fazer física e emocionalmente), seu corpo reflete isso pelo aumento da resistência ou por alterações incongruentes em seu comportamento verbal e não verbal. Porém, quando o terapeuta consegue rastrear a crescente consciência do paciente e auxiliar na descoberta de seus mecanismos somáticos de defesa (sem forçá-los ou se afastar deles), os níveis mais profundos do sistema de comunicação inconsciente do corpo começam a se manifestar, tanto para o terapeuta quanto para o paciente.
Mesmo que de início Miriam não esteja consciente de sua postura protetora habitual de cruzar os braços, trata-se de um gesto relativamente voluntário. À medida que ela se sente mais segura e confiante, essa narrativa sem palavras transforma-se em expressões mais espontâneas, não habituais. Conforme ela conquista acesso a sentimentos incipientes mais profundos, começam a emergir questões mais fundamentais, prontas para ser investigadas.
Miriam continua a falar de suas dificuldades no trabalho e com o marido, Henry. Embora esses sejam os mesmos problemas com que ela se debatia minutos antes, agora há mais ânimo em sua voz. Ela gesticula com os braços, estendendo-os um pouco para a frente. Suas mãos ficam quase em ângulo reto com os pulsos, quase como se estivesse empurrando algo para longe. Faço um movimento parecido com os meus braços, a fim de espelharos movimentos dela e ajudá-la a sentir seus movimentos (renegados) e confiar neles⁴.
Chamo a atenção de Miriam para o fato de ela ter estendido os braços e dobrado os pulsos e sugiro que ela repita esses movimentos lentamente. Peço-lhe que tente se concentrar na sensação em seus braços quando ela faz o movimento, para que perceba por dentro a sensação física dele. A princípio ela parece intrigada. Depois de alguns movimentos, ela para, sorri e diz: Parece que estou empurrando algo para longe... não, é mais como segurar algo longe… Preciso de mais espaço – é isso que eu sinto. Ela movimenta os braços em arco da sua frente para cada um dos lados, criando um leque de movimento livre de 180 graus. Ela expira profunda e espontaneamente: Não me sinto tão sufocada, e a minha barriga não dói tanto quanto no começo. Ela estende os braços e dobra os pulsos de novo. Dessa vez ela os mantém estendidos por vários segundos, praticamente esticados. É o mesmo problema… no trabalho e com o meu marido também.Ela então pousa as mãos suavemente sobre as coxas. É difícil pra mim, não sei por quê, mas... acho que não tenho direito de fazer isso... como se eu não tivesse direito a um espaço só meu.
Pergunto a ela se se trata mais de uma sensação ou de um pensamento. Ela para, dá um risinho e responde: Ora, acho que é mesmo um pensamento. Aí ela solta uma gargalhada.
Ao entrar em contato com sua expressão corporal não verbal, Miriam consegue penetrar o verniz das suas ruminações a respeito de Henry e do seu trabalho, a fim de investigar livremente a história que seu corpo começa a contar. Com essa consciência cinestésica e proprioceptiva emergente, ela passa a perceber a atitude neuromuscular escondida por trás de seus conflitos internos.
Depois de se acalmar com sua experiência corporal, Miriam volta a se agitar. Observo a pulsação em sua carótida e noto um aumento em seu ritmo cardíaco, além da respiração contida, rápida e curta. Peço-lhe que deixe os questionamentos de lado por um instante e concentre-se de novo em seu corpo. Aliviada com a sugestão, ela fecha os olhos.
Agora me sinto mais firme… como se eu fosse mais eu.
Quando lhe peço que tente identificar onde em seu corpo ela sente a firmeza, Miriam diz: Não sei. Só me sinto assim.
Não se apresse, proponho. Não force. Apenas se tranquilize dentro do seu corpo e veja o que você começa a perceber.
Miriam fecha os olhos. Parece um pouco confusa e não fala por um ou dois minutos. "É mais nos braços e nas pernas... Parece que têm mais substância... Parecem mais firmes... Eu me sinto assim."
Nesse momento, Miriam começa a investigar mais além, dessa vez por conta própria, fechando os olhos sem que eu sugira. Após um ou dois minutos, seu queixo começa a tremer quase imperceptivelmente. Espero para ver se ela vai notar sozinha.
Sinto-me estranha, diz Miriam, meio que tremendo por dentro... Não gosto disso... Me faz sentir meio esquisita por dentro... como se eu estivesse perdendo o controle, como se não fosse eu, como se eu não fosse assim.
Eu a reconforto explicando que, de início, as novas sensações quase sempre são incômodas e estranhas, e a encorajo a deixar acontecer... tentar não rotular nem julgar as sensações por um tempinho. Miriam me diz estar se sentindo pior, mais desconfortável. Identifico isso, mas, com suavidade e firmeza, encorajo-a a aguentar um pouquinho mais, a voltar a atenção para os braços e as pernas – os lugares do corpo em que ela disse se sentir enraizada pouco tempo antes.
Ahn, eles não estão tremendo... na verdade parecem mais fortes... meu queixo está tremendo... Minhas pernas estão firmes.
A sobreposição das sensações de força nos braços e nas pernas sustenta a capacidade de Miriam de vivenciar sensações de tremorassociadas a fraqueza sem ser dominada por elas. Agora a respiração dela está mais profunda, contínua e espontânea. Sua pele tem um brilho rosado quente, indicando que o sistema de interação social começa a funcionar, a despertar.
Peço-lhe que abra os olhos lentamente e olhe ao redor.
É curioso, diz ela. As coisas parecem um pouco mais nítidas; as cores estão mais vivas e... acho que mais quentes também. Na verdade, eu me sinto um pouco mais quente, e o tremor está menos... ou não está tão assustador... Parece que agora eu consigo voltar para dentro... Quer que eu faça isso?
Isso é com você, respondo, sabendo da importância do fator da escolha. Mas o que eu sei dizer é que você começa a se tornar capaz de ir ao seu interior e parece menos assustada e menos desamparada.
Ela me olha por um momento, mas desvia o olhar para o chão. Devagar, ergue-o e me encara. Uma lágrima rola por sua face. Tem razão; não me sinto tão assustada... De certo modo eu me sinto um pouco empolgada... Sim, quero continuar... Dá medo, mas acho que consigo... Só preciso de um pouco de ajuda... a sua ajuda.Mais lágrimas brotam de seus olhos. As palavras se atropelam enquanto ela balbucia: Pra mim é difícil pedir... É emocionante... Acho que não tenho muita experiência em pedir ajuda.
Essa admissão me deixa saber que o sistema de interação social está ativo e que uma investigação mais profunda é possível. Fico feliz em poder lhe dar apoio, respondo. Quando lhe pergunto se sabe que tipo de ajuda poderia ser útil, ela responde que quer que eu continue a fazer o que tenho feito. Peço que seja mais precisa.
Não sei bem, diz ela. "Na verdade, acho que é sentir que você está aqui, que está aqui para mim. Quando você me dá feedback, isso me ajuda a ter contato com o que eu sinto... de certo modo, com o que eu sou."
Quando você diz isso– percebo o rosto dela relaxar –, parece se soltar mais.Miriam sorri, e eu prossigo: É diferente de alguns minutos atrás, quando você disse que não tinha experiência em pedir ajuda.
Sim, concorda ela, é realmente diferente pedir que você me ajude a aprender a estar disponível para mim mesma... Desse jeito não me sinto menor que você; sinto-me mais igual... Gosto disso... Eu sinto que, se eu não quiser fazer algo que você sugeriu, poderei lhe contar. Sem que eu lhe pedisse, Miriam volta a estender os braços e as mãos e faz um semicírculo com eles na horizontal. "É, estas são as minhas fronteiras. Eu posso traçar os meus limites – isso me faz bem... e eu posso dizer a você o que eu necessito."
Nós dois sorrimos. Miriam fecha os olhos e fica serena por vários minutos. Embora possa parecer simplista, o fato de ela ter tido uma experiência real, cinestésica e proprioceptiva de ser capaz de formar e reter fronteiras dá a Miriam uma experiência física significativa que contradiz a sensação dominante de impotência que tem orientado a sua visão do mundo.
Os braços dela, em vez de estarem cruzados defensivamente sobre o peito, agora repousam nas pernas, mostrando uma postura mais aberta e uma disposição de olhar para si.
Miriam continua: Primeiro voltei a sentir o tremor... Ele ficou mais forte, mas depois diminuiu sozinho. Agora ela começa a se autorregular, passando por ciclos de ativação e desativação. Senti um calor que surgia na barriga e se espalhava em ondas... Foi muito gostoso... Senti até o calor indo para as mãos e as pernas... mas aí minha barriga deu um nó. Comecei a me sentir enjoada, nauseada, mareada. Percebi que eu estava pensando em Evan, meu primeiro marido. Aliás, vi a imagem dele andando na minha direção. Ele foi morto um mês depois de nos casarmos... Acho que nunca superei isso... Não conseguia acreditar que tinha acontecido... de um jeito que eu ainda não... Sonho muito com ele. É sempre o mesmo sonho. Ele vem até mim; estou abatida. Eu lhe pergunto por que ele me deixou. Ele não responde, mas me dá as costas e vai embora. Acordo com vontade de chorar, com a garganta apertada, mas não quero que Henry saiba. Sinto-me horrível, como se houvesse algo errado comigo... Não quero magoá-lo de jeito nenhum.
Miriam, vou pedir que repita umas palavras e perceba o que acontece dentro de você quando as disser. Mas lembre-se de que são minhas as palavras. Podem não significar nada para você. Só estou pedindo que tente repeti-las e então perceba como o seu corpo reage. Tente não pensar muito nisso; apenas faça. Tudo bem para você?Digo isso não porque ela seja correta (ou errada), mas para que a pessoa possa observar o efeito da frase nas sensações corporais e nos sentimentos.
Ela consente. Sim, tudo bem. Quero fazer alguma coisa com esses sentimentos, esses sonhos, se puder.
Esta é a frase: ‘Não acredito que isso aconteceu. Não acredito que você tenha morrido de verdade’.O objetivo é tornar consciente a experiência corporal direta de negação para poder lidar com ela.
Miriam contém a respiração e fica pálida; o batimento de seu coração cai bastante, de cerca de 80 para 60, indicando que a imobilidade vagal/o sistema de desligamento entrou em ação. Você está bem, Miriam?, pergunto.
Sim... mas minha barriga está mareada e retesada... como um punho frio e duro... estou enjoada de novo... está pior desta vez... mas acho que consigo controlar. Vou dizer se for demais.
Procurando reforçar a habilidade progressiva de avaliar sua capacidade de lidar com sensações difíceis, pergunto a ela: O que lhe dá essa sensação, Miriam, de conseguir controlar isso?
Bem, sinto isso principalmente nos braços e nas pernas de novo. Eles ainda parecem fortes, mesmo estando trêmulos.Com os olhos ainda fechados, Miriam começa a tremer visivelmente.
Tudo bem, digo para encorajá-la. Só tente ficar com isso. Saiba que, se precisar, é só abrir os olhos. Tudo bem se eu puser o meu pé perto do seu?⁵
Sim, eu gostaria... É, assim está melhor.A intensidade do tremor aumenta, se estabiliza, aumenta e se estabiliza várias vezes. Miriam inspira profundamente e fica quieta. Parece tranquila; a cor das suas mãos e do rosto indica um aumento significativo da temperatura. Gotas de suor brotam em sua testa.
Como você está agora, Miriam?
Estou quente... como se ondas de calor me queimassem... É tão intenso, mais que tudo que senti antes. Talvez uma vez quando eu... estava com... ai, meu Deus!
Tudo bem, intercedo, só fique quieta; deixe isso amainar.
Lágrimas começam a rolar; Miriam chora silenciosamente. É tão profundo. Eu não conseguia sentir isso antes. Foi demais quando ele morreu. É diferente... consigo sentir a dor no corpo sem ser destruída… Na verdade, a dor na barriga foi embora totalmente... e há um calor nela... uma espécie de calor gostoso.Aí está um exemplo de ligação entre ilhas de segurança (veja o Passo 2 no Capítulo 5). A ligação dos recursos começa com as sensações de força e firmeza nos braços e nas pernas de Miriam quando ela se torna capaz de criar fronteiras. Depois, a experiência de sensações viscerais de calor e expansão lhe dá uma sensação crescente de poder e bondade íntegra. Esse encadeamentode recursos permite vivenciar paulatinamente as sensações e os sentimentos de paralisia e desamparo, que formam o núcleo de sua experiência traumática. Quando ela o faz sem se sentir transtornada, o tempo, em certo sentido, desloca-se do passado estático de negação para o presente. Na fase seguinte da sessão, Miriam acessa o caso inacabadoda raiva, da perda e da culpa. Ao passar da estagnação para a fluidez, ela desperta sua vitalidade sensorial.
Nesse ponto, sugiro a Miriam que se deixe ficar tranquila com seu corpo, como que meditando e aguardando quaisquer sensações, sentimentos, imagens e palavras. Ela fica bem parada, mas não paralisada como pareceu estar anteriormente na sessão. No entanto, algum tempo depois ela volta a se retesar:
Não vejo uma imagem… Bem, até que vejo, mas é mais como se eu pensasse nele, no meu primeiro marido. E eu me sinto toda tensa.
Veja, sugiro eu, tente permanecer com essa tensão um pouco mais e ver o que surge da sensação em seu corpo.
Ela parece ter outra recaída. Minha barriga está tão tensa que parece que vai explodir.
E se explodir?, pergunto.
Ela fica em silêncio; depois, vem uma enxurrada de lágrimas. Não vejo uma imagem dele, mas sinto um aperto na barriga de novo… O que eu devo fazer?
Proponho a ela que se concentre no retesamento e emita o som de vu(veja no Capítulo 6) para ajudá-la a abrira barriga.
Você está sempre dentro de mim. Não consigo nunca me afastar de você… Por que você está aí? Entendo… Hum, entoa ela, ficando mais curiosa a cada avanço. Após alguns minutos, suas pernas voltam a tremer. O tremor se intensifica e se espalha – dessa vez, com espasmos nos ombros. Surge uma respiração profunda espontânea, e lágrimas lhe escorrem dos olhos.
Miriam estende os braços com hesitação e os recolhe rapidamente. Depois de mais uma inspiração, ela fala como se fosse com seu primeiro marido: Evan, estou agarrada em você. Você está nas minhas vísceras. Não vou me abrir com Henry… Eu simplesmente continuo agarrada em você. Ela começa a chorar, mas em seguida retoma: Acho que estou brava com você. Não acredito que estou dizendo isto, mas estou brava com você porque você se foi. Me deixou sozinha. Detesto que você tenha morrido. Ela aperta as mãos e grita: Odeio você! Odeio você!... Não me deixe, poxa!... Odeio você!Ela chora de novo, dessa vez soluçando bastante.
Quando volta a falar, sugiro que ela deixe as coisas assentarem.
Sim, acho que você está certo… Estou tentando fugir de alguma coisa.Passa um tempo e Miriam chora baixinho, com as pernas tremendo levemente. Eu não me abri com Henry. Eu o tenho evitado. Não é de admirar que a gente esteja sempre brigando. E, quando ele tenta transar, eu só quero afastá-lo… Eu me sinto culpada por isso.
Suas mãos voltam a fazer um movimento de empurrar. Aos poucos, o movimento se torna mais leve: as mãos se abrem em posição supina, e ela as traz suavemente para o peito, em um gesto de aceitar e levar para o coração um abraço contingente.
Não digo nada, e Miriam continua: Eu preciso me proteger… Me senti muito magoada e culpada.
E como você se sente por dentro agora?, pergunto, para que ela permaneça nesse momento.
Na verdade, eu me sinto muito bem.
E como você sabe disso?
Principalmente porque sinto muito espaço dentro de mim.
Onde você sente isso?
Na barriga e no peito… Minha cabeça também parece ter mais espaço, mas é principalmente na barriga e no peito, que parecem muito abertos… É como se houvesse uma brisa fresca no meu corpo. Minhas pernas estão muito fortes, e tenho muita… tenho vergonha de dizer… eu sinto um calor e uma comichão na minha… na minha… vagina… É como se eu quisesse muito o Henry.Ela para de falar.
Fiz o que devia fazer na época, continua ela, mas é hora de deixar para lá. Eu tinha tanto medo da minha mágoa… mas mais medo ainda da minha raiva. É como se, sentindo o que eu sentia, eu magoasse Henry de algum modo… Não tem um sentido lógico, mas era isso que estava distorcido dentro de mim.E acrescenta: Mas não preciso mais disso.
Miriam inspira profundamente com facilidade e diz com um sorriso aberto e jovial: Essa respiração me pegou, me fez cócegas e me fez rir. Ela ri solto, olha pela sala e então, lentamente, para o meu rosto.
Põe as mãos no rosto – primeiro, para escondê-lo de vergonha, mas depois o segura de leve e lhe dá tapinhas de timidez. As lágrimas rolam por sua face.
Acho que acabei… quero dizer, desta vez, afirma ela. Sei que há mais coisas, mas eu só quero me sentar no seu quintal, ao lado do rio, por uns minutos, e depois caminhar… Obrigada… Até a semana que vem.
Bonnie: um momento esquecido
A mente esqueceu, mas o corpo não, felizmente.
Sigmund Freud
Bonnie não é agressiva, mas também não é nada fácil, de maneira alguma. A maioria dos seus conhecidos e amigos a considera equilibrada, imparcial e firme. Por isso foi uma surpresa para os colegas – e para ela mesma – quando, sem motivo aparente, Bonnie se tornou cada vez mais submissa e inesperadamente explosiva. Quando seu comportamento começou a prejudicar as relações com os colegas, ela ficou preocupada.
Nas minhas aulas de capacitação em Berkeley, em 1974, Bonnie ergueu a mão quando pedi um voluntário para fazer uma demonstração. Deveria ser uma demonstração que começaria apenas com sintomas ou questões de comportamento, e não com um acontecimento imperioso. Costumo trabalhar sem um elo histórico para evitar que o paciente se esquive da análise de baixo para cimae pule prematuramente para um plano abstrato de interpretação. Nem eu nem os colegas de Bonnie conhecíamos sua históriaquando ela preferiu abordar seus sintomas comigo diante do grupo. Ela própria não correlacionou suas mudanças comportamentais com um fato que ocorrera um ano e meio antes, o qual era irrelevante de seu ponto de vista.
Pedi a Bonnie que recordasse um encontro inesperado recente com um colega que justificasse sua repentina mudança de comportamento, e então nós dois percebemos suas reações corporais. Bonnie disse estar com uma sensação de afundamento na barriga. Percebi que seus ombros estavam curvados para a frente e chamei-lhe a atenção para isso. Quando pedi que contasse como se sentia naquela posição, ela respondeu: Me faz sentir ódio de mim mesma. Bonnie ficou desconcertada com esse acesso repentino de autoaversão. Em vez de analisar por que ela se sentia assim, fiz que Bonnie voltasse às sensações em seu corpo⁶. Após uma pausa, ela revelou: Meu coração e minha mente estavam correndo a um milhão de quilômetros por hora.
Então ela se sentiu incomodada com o que disse ser uma sensação quente, de suor, malcheirosanas costas, que a deixou nauseada. Bonnie agora parecia mais agitada – seu rosto empalideceu e ela sentiu uma premência de se levantar e sair da sala. Depois de acolhida, Bonnie preferiu ficar e continuar buscando o desconforto, que se intensificou e diminuiu gradativamente. Após esse vaivém, ela se conscientizou de outra sensação: uma tensão na parte de trás do braço e do ombro direito. Quando voltou a atenção para isso, passou a sentir necessidade de jogar o cotovelo para trás. Ofereci uma mão como apoio e resistência para que Bonnie pudesse sentir em segurança a força do seu braço ao empurrá-lo lentamente para trás. Depois de empurrá-lo por vários segundos, seu corpo começou a ter espasmos e tremer assim que ela passou a suar em profusão. Suas pernas também começaram a se movimentar para baixo e para cima, como se estivessem sobre pedais de uma máquina de costura.
À medida que o braço de Bonnie persistia na lenta pressão para trás, o tremor no corpo diminuía, e ela sentiu que suas pernas ganhavam força. Disse que as pernas pareciam querer e conseguir se mexer. Contou ter notado um forte impulso impelindo-a para a frente. De repente, surgiu um quadro diante de si: um poste de luz e a imagem do casal que a havia ajudado. Eu fui embora… Eu fui embora…, lamentou ela com suavidade. Foi então que se lembrou de se amoldar ao tronco do homem, que segurava uma faca contra o pescoço dela. Bonnie prosseguiu: Fiz isso para que ele pensasse que eu era dele… Depois meu corpo sabia o que fazer, e o fez… Foi o que me permitiu escapar.
Então a história que o corpo dela vinha contando surgiu em palavras: 18 meses antes, Bonnie havia sido vítima de uma tentativa de estupro. Ao voltar para casa depois de visitar uma amiga em outro bairro, um estranho a empurrou para um beco e ameaçou matá-la se ela não cooperasse. De algum modo ela conseguiu se soltar e correu para uma esquina iluminada, onde dois transeuntes gritaram para chamar a polícia, que interrogou Bonnie com educação. Em seguida, ela foi levada para casa por um amigo. Surpreendentemente, não conseguiu recordar como fugiu, mas chorou de tão agradecida que estava por não ter sido ferida. Depois disso sua vida pareceu voltar ao normal, mas, quando se sentia sob pressão ou em conflito, o corpo dela ainda reagia como quando havia uma faca em seu pescoço.
Bonnie sentia-se indefesa e passiva ou com pavio curto diante da pressão do dia a dia, sem perceber que isso era uma repetição do breve fingimento de submissão que provavelmente lhe salvou a vida. Sua submissãoconseguiu enganar o agressor, dando uma oportunidade momentânea para que a energia instintiva de um animal selvagem se impusesse, impulsionando seus braços e pernas numa fuga bem-sucedida. Todavia, tudo acontecera tão rápido que ela não tivera chance de assimilar a experiência. Em um nível primitivo, ela ainda não sabiaque havia escapado e continuava identificada com a submissão, não com a estratégia em duas etapas que na verdade lhe salvara a vida. Tanto do ponto de vista motor quanto do emocional, era como se parte dela permanecesse nas garras do agressor.
Depois de processar e completar as ações relativas ao estupro, Bonnie agora dizia sentir uma sensação generalizada de capacidade e poder. Ela voltara a ser mais o seu [antigo] euem lugar do ódio anterior por si mesma. Esse novo eu passou a ser capaz de sentir fisicamente a reação motora de dar uma cotovelada no agressor e depois perceber a imensa força nas pernas que, na realidade, a levou a um lugar seguro.
Trata-se de um caso em que os sintomas não se mostram por inteiro por 12 ou 18 meses após a experiência traumática. Portanto, não estava claro de imediato que eles fossem sequelas de um acontecimento. Por motivos desconhecidos, não raro os sintomas atrasam seis meses ou até um ano e meio a dois anos. Além disso, eles podem manifestar-se apenas após outra situação inesperada traumática – às vezes, anos depois.
Quantos dos nossos comportamentos e sentimentos habituais escapam à nossa percepção consciente ou são aceitos há muito como uma parte nossa, de quem somos, quando na verdade não são? Melhor dizendo, esses comportamentos são reações a acontecimentos há muito esquecidos (ou racionalizados) pela mente, mas lembrados com exatidão pelo corpo. Podemos agradecer a Freud por ter conjeturado corretamente que tanto as marcas indeléveis de experiências horríveis, e o antídoto, quanto o catalisador latente da transformação existem em nosso corpo.
Sharon: 11 de setembro de 2001
O corpo tem razões que a própria razão desconhece.
Pascal
Por meio do eudo corpo
Como fazia toda manhã no trabalho, Sharon estava lendo seus emails. Era um dia fresco e claro de outono, típico de Nova York – o tipo de dia que deixa o sujeito feliz por estar vivo. Sobressaltada com um barulho estrondoso e ensurdecedor, ela se virou e viu as paredes do escritório se moverem seis metros em sua direção. Embora tenha tomado uma atitude em segundo, saltando da cadeira e preparando-se para salvar a própria vida, Sharon foi levada lenta e metodicamente 80 andares abaixo pela escadaria tomada por um cheiro acre, sufocante, de combustível de aviação e destroços queimando. Quando enfim chegou ao mezanino da torre norte do World Trade Center uma hora e 20 minutos depois, a torre sul desmoronou de repente. As ondas de choque levantaram Sharon no ar, lançando-a violentamente em cima de um corpo esmagado e ensanguentado. Um detetive da polícia que não estava trabalhando a descobriu, aturdida e desorientada, sobre o cadáver do homem. O policial a ajudou a sair dos escombros e afastar-se do local, em meio a uma escuridão espessa, de breu. Ela encontrou-se com outros sobreviventes à frente de uma igreja, e juntos todos agradeceram por estar vivos.
Nas semanas seguintes ao milagre de ter sobrevivido, uma densa nuvem a envolveu num entorpecimento insensibilizador. Sharon sentiu-se indiferente de dia, apenas tocando as coisas com pouco envolvimento, objetivo e prazer. Uma semana antes ela adorava música clássica, que agora não mais a interessava: Não suportava ouvi-la. Desalentada na maior parte do tempo, era acometida periodicamente de ataques de pânico. O sono
tornou-se um inimigo; à noite ela acordava com os próprios gritos e o próprio choro. Pela primeira vez na vida, essa executiva sempre muito motivada não conseguia imaginar seu futuro; o pavor tornara-se o princípio orientador da sua vida⁷.
O pavor de Sharon não se concentrava em nada em particular; estava em todo canto, por aí– num mundo que parecia ameaçador, mesmo quando tudo era claramente seguro e previsível. Não a deixava viajar de avião, de metrô, ou frequentar lugares públicos. Ela ficava sempre em guarda, acordada ou dormindo. Sharon me viu numa entrevista na televisão, me encontrou por meio do meu instituto e depois viajou quatro dias e noites, de trem, para me encontrar em Los Angeles, onde eu lecionava. Em 1º de dezembro de 2001, fizemos a sessão resumida a seguir.
Ao entrar no consultório, bem-vestida com um terninho laranja, Sharon encaminha-se direto para uma cadeira e senta, aparentemente sem dar conta de mim. Sinto um incômodo estranho quando, pouco antes de eu me apresentar, ela começa a discorrer com suavidade sobre o horror do acontecimento, como se tivesse ocorrido com outra pessoa⁸. Se eu não compreendesse o que ela dizia, teria pensado que ela falava de uma festa chata no escritório e não de um confronto pessoal com a morte e a mutilação. Ao escutar sua narrativa emocionalmente desconexa, fico embaraçado, com vontade de me levantar e sair da sala. Estou inquieto com o que se oculta atrás da suavidade dela.
Minha introspecção é interrompida, atraída pela sugestão de um gesto ligeiro, amplo, feito pelos braços e pelas mãos de Sharon enquanto ela fala. É como se ela tentasse alcançar algo para se agarrar. Será que o corpo de Sharon está contando outra história, uma história escondida de sua mente? Peço-lhe que deixe de lado a narrativa verbal por um instante e volte a atenção à mensagem nascente que suas mãos nos transmitem. Encorajo-a a insistir nesse caminho repetindo lentamente o movimento e mantendo sua concentração na sensação física que ele dá
⁹. Os movimentos lentos e a atenção focada neles levam o paciente a senti-los de um modo especial. Quando os pacientes fazem isso, na maioria das vezes sentem os braços (ou outra parte do corpo) mexer como que por si sós (é como se o meu braço estivesse me movimentando!). As pessoas costumam sorrir ou rir porque a sensação do braço mexendo-se sozinho é bastante incomum¹⁰.
Perplexa de início, Sharon descreve o gesto como se segurasse algo. Uma mudança perceptível ocorre em seu corpo: pode-se ver o rosto menos tenso e os ombros menos rígidos. Inesperadamente, uma imagem fugaz do rio Hudson aparece em sua imaginação, a vista cotidiana de sua sala de estar no apartamento em Manhattan, através do rio.
Pulando de volta para a história narrativa, Sharon fica agitada quando me diz que é perseguida, visitada, pelas colunas de fumaça ardente, que ela hoje vê todos os dias dessa mesma janela. Elas evocam os cheiros ácidos horríveis daquele dia; Sharon sente uma queimação nas narinas. Em vez de deixá-la reviverà vontade a intrusão do trauma, eu a contenho com firmeza e a convenço a continuar concentrando-se nas sensações dos movimentos de seus braços. Uma imagem espontânea emerge, a de barcos percorrendo o rio. Eles lhe transmitem uma sensação reconfortante de perenidade, movimento e fluidez. Podem-se destruir os edifícios, mas não se pode drenar o Hudson, declara ela com suavidade. Então, em vez de prosseguir nos detalhes horrendos do acontecimento, ela se surpreende ao descrever (e sentir) como estava lindo quando saiu para o trabalho naquela manhã de outono perfeita.
Esse processo é um exemplo do aumento da aberturade uma imagem para o seu estado pré-traumático (conforme descrito no Capítulo 7). Até o momento anterior ao impacto do avião, o dia estava perfeito, cheio de cores vibrantes e aromas suaves. Essas impressões sensoriais ainda existem em algum lugar nas catacumbas da consciência, mas foram sobrepujadas pela fixação traumática. A restauração gradativa de todo o espectro de partes disparatadas de uma imagem é um componente fundamental da resolução do trauma¹¹.
O corpo e as imagens de Sharon começam a contar uma história que contrasta profundamente com aquela que sua fala transmite, quase como que narradas por duas pessoas bem diferentes. Enquanto retém as imagens do Hudson, juntamente com as sensações corporais correlatas, ela se conscientiza de certa sensação de alívio. Agora relembra com inocência que estava animada para ir ao trabalho naquele dia. Sua gesticulação é mais forte e mais definida. A atenção contínua ao sentimento físico dos gestos aprofunda a sensação dela de relaxamento, estimulando uma curiosidade quase alegre. Quando ela olha intrigada para as mãos – primeiro uma, depois a outra –, suspiro de alívio. Essa mudança aparentemente insignificante tem implicações profundas, e a curiosidade alegre é um dos primeiros antídotosevidentes do trauma. A investigação curiosa, o prazer e o trauma não podem coexistir no sistema nervoso; do ponto de vista neurológico, eles se contradizem¹².
Essa capacidade de vivenciar os sentimentos corporais positivos (de interesse e curiosidade), ao mesmo tempo que mantém contato com os sentimentos de terror e desamparo, permite a Sharon fazer algo de que era incapaz poucos minutos antes. Agora, ela pode começar a se distanciar e simplesmenteobservar essas sensações físicas e imagens difíceis, desconfortáveis, sem se deixar vencer por elas¹³. Em outras palavras, elas ficam encurraladas. Essa consciência dupla induz uma mudança que permite que as sensações sejam sentidas como são: intrinsecamente cheias de energia, vitais e atuais, em vez de fragmentos, gatilhos e precursores de medo e desamparo vindos do passado. Essa diferença sentida possibilita a Sharon rever e assimilar muitos detalhes do terrível acontecimento sem revivê-los. Essa nova destrezade rever sem reviver uma experiência traumática é essencial no processo de recuperação e reinteração a que chamo renegociação.
As pessoas precisam desvincular-se das associações emocionais e mentais provenientes de sensações físicas puras que elas passam a vivenciar como precursoras de um desastre, as quais, no entanto, não são mais que sensações de vitalidade. O restabelecimento dessas impressões reanimadoras é um dos cernes do tratamento eficaz do trauma. É curioso notar que isso faz parte de práticas curativas ancestrais, como a meditação, o xamanismo e a ioga.
O mergulho
Quando o primeiro avião atingiu o edifício apenas dez andares acima do escritório de Sharon, a explosão desencadeou uma onda de choque de terror pelo corpo dela. A reação imediata das pessoas a acontecimentos aterrorizantes desse tipo é parar, orientar-se e escapar. Isso em geral implica um impulso intenso de correr. Contudo, encurralada a 80 andares do chão com milhares de pessoas, Sharon precisava inibir essa reação básica. Contrariando o intenso impulso de fugir, ela se forçou a ficar calmanuma fila ordenada escadaria abaixo, junto com dezenas de outros indivíduos aterrorizados – ainda que o seu corpo estivesse carregado de adrenalinapara correr desabalado. Sem dúvida Sharon sentiu a possibilidade de qualquer um dos outros colegas encurralados entrar em pânico de repente e dar início a uma correria que traria mais risco para todos. Eles, como ela, também tiveram de reprimir o forte impulso primal de correr. Enquanto Sharon conta lentamente os detalhes da fuga, ao mesmo tempo que sente sua reação corporal, passo a passo, ela recorda ter deparado com outro momento de puro terror quando encontrou a porta do septuagésimo andar trancada e intransponível.
Em razão do conforto físico que ela sentiu ao ter contato com os gestos espontâneos e amplos e as imagens do rio Hudson, agora confio em que Sharon consegue enfrentar sem percalços parte desse material bastante carregado sem se sentir subjugada e, consequentemente, traumatizada de novo¹⁴. Acompanhando sua história corporal, começam a se formar ilhas de segurança (Passos de 1 a 3, no Capítulo 5) no mar tormentoso do trauma de Sharon. A segurança vivenciada com essas ilhas internas lhe permite lidar com graus crescentes de empolgação e atravessá-los sem sofrimento excessivo.
Com essa avaliação, eu a levo para o momento da explosão e depois a faço localizar onde e como aquela marca violenta se manifesta em seu corpo. Quando atenta para esse felt sense, Sharon se conscientiza de uma sensação generalizada de agitação nas pernas e nos braços e nósduros na barriga
e na garganta. Ela diz sentir-se paralisada. Aí eu lhe mostro o uso do vupara ajudá-la a desfazer e transformar tais sensações de paralisia (veja o Capítulo 6). Quando ela se concentra nessas sensações físicas desconfortáveis (com a ajuda dos sons vibratórios), diminui a tendência para tentar entendê-las ou explicá-las. Com a atenção intensamente focada, eu a distancio da interpretação do que ela está sentindo, porque não quero que o sentido venha de determinada parte da mente. O corpo precisa dizer primeiro o que se passa em sua mente, a fim de emergirem novas percepções no momento presente. (Essa advertência sobre a cognição prematuraestava em um adesivo de para-choque que vi recentemente: Realidade: não é o que você pensa!)
Sharon reserva em silêncio um momento para refletir. Ao suspender a compulsão para entender, ela vivencia uma repentina explosão de energia que vem de dentro da barriga. Tem cor?, pergunto. Sim, é vermelha, vermelho vivo, como uma fogueira.Embora visivelmente assustada com tal intensidade, ela não a evita. A sensação dela muda para o que ela considera um forte impulso de correr, concentrado nas pernas e nos braços. No entanto, só de pensar em correr ela volta a travar. Intuo que ela está entre o desejo real e necessário de escapar e sua mente inconsciente, que associa fugir a ser encurralado. Como na escada, ele teve de conter seu forte impulso de fugir e andou devagar – muito embora estivesse diante de um perigo mortal. Esse dilema estava acompanhado do choque de encontrar a porta trancada no septuagésimo andar. Depois, quando acabou chegando ao mezanino, a torre sul desabou e ela foi lançada violentamente no ar. Por fim, houve o puro terror de se ver semiconsciente sobre um cadáver.
Dois cérebros
Sharon sofreu o conflito entre dois centros cerebrais bem diferentes: as mensagens de autopreservação pura, primitiva, do tronco cerebral e do sistema límbico obrigando-a a salvar a própria vida, e as mensagens de inibição e compostura provenientes do córtex frontal. Este lhe dizia que fosse racionale andasse com calma na fila ordenada. Em nossa sessão, era crucial diferenciar as expectativas aterrorizantes de ser encurralada dos impulsos biológicos de agir e metabolizaraquela energia de sobrevivência. A fim de desacoplar os dois, pergunto-lhe se ela consegue concentrar-se na forte eletricidadeque ela diz sentir no corpo e imaginar-se levando essa eletricidade a algum lugar onde antes ela gostava de correr. Ela se retesa diante desse convite. E diz: Isso me deixaria ansiosa demais. Então eu a surpreendo perguntando onde ela sente essa ansiedade e qual sensação lhe dá (veja o epílogo deste texto). Desarmada, Sharon se abre: Não sei. Ah, meu pescoço e os ombros, e meu peito parece que não consegue respirar… Minhas pernas estão tão duras que… não sei, parece que elas…
Elas o quê?, perguntei.
Parece que elas querem correr, responde Sharon. Depois, um pouco tranquilizada, ela começa a sentir a sensação de correr por um caminho do seu parque preferido. Após alguns minutos, observo um leve tremor nas pernas dela. Pergunto-lhe o que está sentindo, e ela responde: Eu realmente consegui sentir que corria; eu estava a toda… e não sinto mais aquela ansiedade.
Tudo bem, Sharon, interfiro, "mas o que você sente?"
Na verdade me sinto bem, aliviada… Eu me sinto com um formigamento e aliviada, a minha respiração está profunda e fácil, e minhas pernas estão quentes e relaxadas.Uma lágrima lhe desce suavemente pela face. Seu rosto e suas mãos têm até um tom rosado.
Esse foi o início da distinção que Sharon fez entre o forte impulso biológico de escapar e a expectativa mental e emocional de que ela poderia voltar a ser encurralada e subjugada. Ao imaginar – com envolvimento total em sua vivência corporal – a sensação de estar correndo, sem restrição, num lugar seguro, ela conseguiu completar a ação bloqueada que estava encerrada em seu corpo¹⁵. Não teria tido muito efeito Sharon apenas imaginar que corria. Contudo, a solução terapêutica resultou de primeiramente aproximar-se do local em que ela foi encurralada, revisitar (remexer) aquele momento de terror e depois vivenciar a (nova) possibilidade de completar aquela ação motora¹⁶.
Sentir as sensações com intensa carga física exatamente como eram – não como ela temia ou imaginava – foi o fator fundamental para desacoplar de sua experiência física real os pensamentos catastróficos e as emoções de terror e pânico. Durante esse processo, que durou quase duas horas e foi pontuado por ciclos de tremor e suor leves, ela desenvolveu aos poucos a capacidade de tolerar as sensações até que estas se completassem naturalmente. Acredito existir evidência que confirma a ideia de que essa ação concluída e bem-sucedida ligoucom sucesso certos circuitos cerebrais cruciais, permitindo a Sharon vivenciar a possibilidade de uma ação significativa, eficaz, e não uma ansiedade impotente¹⁷. Dessa maneira, a ansiedade que a imobilizava transformou-se em uma onda contínua de energia quente. A enorme energia de vida ou mortese metamorfoseara, através de ciclos de descarga com tremores, em sensações de vitalidade e bem-estar.
Depois de sentir esse alívio como uma sensação em seu corpo (a qual contradizia exatamente seu terror paralisante), Sharon reconquistou uma sensação de vitalidade e a realidade sentida de que ela sem dúvida havia sobrevivido e sua vida tinha um futuro cheio de possibilidades. Ela não mais se sentia presa ao pavor daquele acontecimento, que começou a se recolher para o passado, que era o seu lugar. E agora ela conseguia ir de metrô até o Lincoln Center para ouvir sua música preferida. Um sentido novo e diferente em sua vida surgiu de uma experiência nova e diferente no plano instintivo do corpo.
Essa foi a história contada pelo corpo de Sharon. Faz lembrar o texto de António Damásio:
Usamos a mente não para descobrir fatos, mas para escondê-los. Uma das coisas que a cortina esconde melhor é o corpo, o nosso corpo, ou seja, todos os pormenores, o seu interior. Como um véu posto sobre a pele para lhe preservar o pudor, a cortina retira da mente em parte os estados internos do corpo, aqueles que constituem o sopro da vida enquanto ele perambula na jornada de todo dia.¹⁸
Epílogo
Os sentimentos e o corpo são como água correndo para a água. Aprendemos a nadar conforme as energias dos sentidos [corporais].
Tarthang Tulku
Durante milênios, por meio de seleção natural e evolução social, os seres humanos foram moldados para conviver com acontecimentos e perdas extremas, passar por eles e processar os sentimentos de desamparo e terror sem ficar paralisados e traumatizados. Quando experimentamos sensações e sentimentos difíceis e especialmente horríveis, nossa tendência, no entanto, é retroceder e evitá-los. Mentalmente, nós nos desconectamos ou nos dissociamosdesses sentimentos. Fisicamente, o corpo se enrijece e prepara-se para enfrentá-los. A mente se acelera tentando explicar e dar sentido a essas sensações estranhas e ruins. Assim, somos levados a tentar, em estado de alerta, localizar sua origem ameaçadora no mundo exterior. Acreditamos que, se vivenciarmos as sensações, elas nos dominarão para sempre. O medo de sermos consumidos por esses sentimentos terríveisfaz nos convencermos de que, evitando-os, nós nos sentiremos melhor e, no fim das contas, mais seguros. Existem muitos exemplos disso na vida: evitamos um restaurante ou certas músicas por nos lembrarem de uma antiga pessoa amada ou passamos longe da esquina em que o nosso carro levou uma batida na traseira um ano antes.
Infelizmente, o contrário é verdadeiro. Quando lutamos contra sensações e sentimentos desagradáveis ou dolorosos ou nos escondemos deles,
em geral pioramos tudo. Quanto mais os evitamos, maior é o poder que eles exercem sobre o nosso comportamento e nossa sensação de bem-estar. O que não se sente permanece igual ou se intensifica, causando uma torrente de emoções virulentas e corrosivas. Isso nos obriga a fortalecer os métodos de defesa, evitação e controle. O ciclo vicioso criado pelo trauma é assim. Sentimentos relegados, na forma de sensações físicas bloqueadas, criam e impelem a crescente sombra da nossa existência. Como vimos no caso de Sharon, quando nos concentramos de modo particular nas sensações físicas, em pouco tempo elas se alteram e mudam – e nós também.
Cognição prematura
As crenças equivocadas de Sharon (embora em grande parte subconscientes) são esforços para entender, dar sentido à sua experiência e ajudá-la a justificar por que se sente tão mal. Essas explicaçõesnão farão nada para ajudá-la a superar sua reação ao medo e concluir as ações inibidas que constituem a base da sua resposta ao trauma ininterrupto (o como). Nessa etapa, a atividade psíquica só atrapalha a resolução. Por esse motivo eu a levo a resistir à sedução de entender e, ao contrário, envolver-se inteiramente com o que ela está sentindo fisicamente no corpo nesse momento. A consequência da cognição prematuraé tirar a pessoa de sua experiência sensorial antes que esta se conclua e possibilitar o surgimento de novas percepções e novos sentidos.
A sensação de ansiedade não é universal
Se você perguntar a pessoas ansiosas o que estão sentindo, todas talvez digam que sentem ansiedade. Contudo, é provável que as respostas sejam diferentes se elas ouvirem uma pergunta epistemológica: "Como você sabe que está sentindo ansiedade?Uma delas pode dizer: Sei disso porque uma coisa ruim vai me acontecer". Outra diria que está sentindo um nó na garganta; outra, que o coração está pulando para fora do peito; e outra, que está com dor ou um aperto no estômago. Algumas pessoas ainda se queixam de rigidez no pescoço, nos ombros, nos braços ou nas pernas; outras podem achar que estão prontas para agir, enquanto outras talvez sintam fraqueza nas pernas ou um afundamento no peito. Todas essas respostas, menos a primeira, são sensações físicas específicas e diversas. E, se a pessoa que disse que alguma coisa ruim vai me acontecerfosse encaminhada para um exame, ela descobriria alguma sensação somática/física motivando e definindo aquela ideia. Com um pouco de prática conseguimos mesmo começar a separar as emoções, os pensamentos e as crenças das sensações subjacentes. Ficamos então estupefatos com a nossa capacidade de tolerar e atravessar estados emocionais difíceis, como terror, raiva e desamparo, sem nos deixar levar nem afogar. Se descemos abaixo das sensações insuportáveis e remexemos as sensações físicas, algo muito profundo ocorre no organismo: surge uma sensação de fluidez, de estar em casa. Trata-se de uma verdade importantíssima para diversas tradições espirituais antigas, em particular certas vertentes do budismo tibetano¹⁹.
O poder transformador da sensação
Para entender o poder transformador da experiência sensorial direta, é necessário dissecarcertas emoções, como terror, raiva e desamparo (veja o Capítulo 13). Quando percebemos (consciente e inconscientemente) que estamos em perigo, as posturas defensivas específicas necessárias para a nossa proteção são mobilizadas no corpo. Instintivamente nos abaixamos, nos desviamos, nos encolhemos e nos enrijecemos – preparamo-nos para lutar ou escapar; e, quando a fuga parece impossível, congelamos ou nos dobramos em prostração impotente. Todas são reações corporais inatas, dotadas de energia máxima para enfrentar situações extremas. Elas permitem que uma mulher de 60 quilos levante um carro para tirar o filho de baixo dele. É a mesma força primitiva que leva uma gazela a disparar a mais de 100 quilômetros por hora para se safar de um guepardo.
Essas energias de sobrevivência estão organizadas no cérebro e se expressam especificamente como estados padronizados de tensão muscular na prontidão para agir. Todavia, quando chegamos a esse ponto e, como Sharon, somos impedidos de completar a ação – como na luta ou na fuga –, o organismo congela ou sofre um colapso, e a tensão energizada permanece estagnada nos músculos. Por sua vez, essas tensões musculares não utilizadas ou usadas em parte armam uma corrente de impulsos neurais pela medula espinhal acima até o tálamo (uma estação central de transmissão de sensações) e depois a outras partes do cérebro (em particular as amídalas cerebelares), sinalizando a presença persistente de perigo e ameaça. Dito de forma simples, se os músculos e as vísceras estão prontos para reagir ao perigo, a mente nos dirá que existe motivo para o medo. E, se não conseguimos localizar a causa da aflição, continuamos a procurar uma – um bom exemplo disso é a luta de Sharon para entender o que aconteceu. Vemos isso nos veteranos do Vietnã que ficam aterrorizados com o som dos fogos de artifício no 4 de Julho, muito embora eles saibamracionalmente que não correm perigo algum. Outros exemplos são os de pessoas que têm medo de dirigir um carro depois de terem sofrido um acidente ou daquelas que temem sair de casa por não saberem de onde vêm esses sinais de perigo. Na verdade, se não conseguimos encontrar uma explicação para o que estamos sentindo, sem dúvida forjaremos uma, ou muitas. Sempre culparemos o cônjuge, os filhos, o patrão, o vizinho (seja o da casa ao lado, seja o país ao lado) ou a velha má sorte. A mente continuará acelerada, buscando obsessivamente as causas no passado e se apavorando com o futuro. Continuaremos tensos e alertas, sentindo medo, terror e desamparo porque o corpo continua a avisar o cérebro de que existe perigo. A mente pode concordarou não, mas essas bandeiras vermelhas (vindas de partes não conscientes do cérebro) não desaparecerão até que o corpo complete a ação. É assim que somos feitos – trata-se da natureza biológica, predeterminada no cérebro e no corpo.
Essas reações corporais não são metáforas; são posturas literais que revelam a experiência emocional. Por exemplo, rigidez na nuca, nos ombros e no peito, um bolo na barriga e um nó na garganta são fundamentais aos estados de medo. O desamparo é assinalado por um colapso literal do peito e dos ombros, juntamente com uma dobra na altura do diafragma e fraqueza nos joelhos e nas pernas. Todas essas atitudes posturaisrepresentam possibilidades de ação. Se elas conseguem completar sua ação cheia de sentido, tudo fica bem; se não, elas persistem no teatro do corpo.
Se não se dá às sensações de medo, como aquelas que Sharon sentia, o tempo e a atenção necessários para que atravessem o corpo e se resolvam/dissolvam (como nos tremores e nos espamos), o indivíduo continua sendo dominado pela dor e por outras emoções negativas. O palco está pronto para uma sucessão de sintomas instáveis. A tensão no pescoço, nos ombros e nas costas deve se transformar, com o tempo, na síndrome da fibromialgia. As enxaquecas também são expressões somáticas comuns de estresse não solucionado. O bolo na barriga pode se transmutar em afecções comuns como síndrome do cólon irritável, tensão pré-menstrual grave ou outros problemas gastrintestinais, como cólicas. Essas afecções sugam as fontes de energia do paciente e podem assumir a forma da síndrome da fadiga crônica. Os que sofrem disso são, na maioria das vezes, pacientes com sintomas em cascata que consultam médico após médico em busca de alívio e em geral encontram poucas soluções para o mal que os acomete. O trauma é o grande dissimulado e participante de muitas das afecções e doenças que afligem as vítimas. Talvez se possa argumentar que o trauma não solucionado responde pela maioria das doenças da humanidade hoje em dia.
Renegociação
O conceito de renegociação é inteiramente diferente da reencenação do traumapor catarse, ou inundação, tipo comum de terapia de trauma ainda utilizado após acontecimentos gravescomo estupros, catástrofes naturais e terror, como o ataque ao World Trade Center vivido por Sharon em 11 de setembro de 2001. Estudos recentes indicam que essas terapias quase sempre pouco ajudam e até podem reforçar o trauma²⁰.
Uma das armadilhas de várias terapias de trauma é o seu foco na revivência de recordações traumáticas juntamente com a intensa ab-reação de emoções. Nesses tratamentos que se baseiam na explanação, os pacientes são levados a desenterrar lembranças traumáticas dolorosas e descarregar as emoções associadas a essas recordações, especificamente as de medo, terror, raiva e luto. Tais abordagens catárticas não cumprem as expectativas porque costumam reforçar as sensações de colapso e o sentimento de desamparo.
Adam: sobrevivente do Holocausto
Adam era um empresário bem-sucedido financeiramente de 60 e tantos anos. Tinha mulher e família e era dono de uma empresa multinacional de eletrônicos. Por ser tranquilo e gentil, seus empregados e conhecidos gostavam dele, mas Adam não tinha amigos íntimos. Recentemente nasceu seu primeiro neto. Pelas aparências, a vida havia sido boa. O suicídio de seu filho de 27 anos acabou com esse homem de enorme determinação, embora contido. A morte o fez culpar-se e ter ódio de si mesmo.
Paulo sempre foi diferente, afirmou Adam com naturalidade, um menino sensível que se amedrontava com facilidade. Quando tinha perto de 4 anos, ele acordava gritando e chorando no meio da noite não se sabe por quê.
No final da adolescência, Paulo sempre falava em suicídio. A vida é muito difícil, repetiu ele inúmeras vezes. Adam se assegurou de que seu filho nunca ficasse sozinho nos momentos ruins. Cansou-se desse seu suplício de uma década, mas insistiu no compromisso da vigília. Apesar do exaustivo empenho de Adam para salvar o filho, Paulo, que não conseguia suportar a dor, enforcou-se no banheiro, onde Adam achou o corpo largado, sem vida, do filho. Depois do choque do suicídio de Paulo, Adam sentiu pela primeira vez na vida que não teria condições de prosseguir. Em vez de se sentir arrasado por causa do luto, não sentiu nada – um estado que ele conhecera mesmo antes de perder o filho. Dessa vez, porém, o torpor o deixou tão sem ação que ele não conseguia agir. Para ele, a vida tinha parado.
Após vários meses de inércia paralisante, Adam comprometeu-se a consultar um psiquiatra. Foi convencido por um amigo da família que o aconselhou a tomar algum remédio para esse abatimento. Depois de conhecer seu histórico pessoal, o psiquiatra insinuou que o passado de Adam não o deixava chorar a morte do filho e lhe deu o diagnóstico de luto complexo. Embora estivesse atônito com a ideia de que sua vida anterior fora traumáticaou até agravasse seu mal-estar atual, ele concordou em conversar comigo.
Adam nasceu órfão de mãe. Um enfarte fulminante obrigou a uma cesariana de emergência para salvar a vida do único filho. Ela morreu assim que ele nasceu, dois meses antes do previsto. Como seu pai estava servindo o exército russo, Adam foi dado ao irmão do pai e à mulher deste para ser criado. A tia, que deveria cuidar dele, era na verdade cruel, psicótica, e lhe batia vezes sem fim.
Além do tormento desse início difícil, vítima de abandono e maus-tratos, Adam teve uma vida entrecortada de mais privações e desgostos. Aos 4 anos, seu tio e duas meias-irmãs foram deportados e exterminados pelos nazistas. Ele então passou por uma série de famílias cristãs, que tentaram ocultar sua origem judaica. Durante esse período, de acordo com aquelas famílias, ele gritava no meio da noite – do mesmo modo que Paulo faria com a mesma idade.
Aos 9 anos, Adam foi entregue a um grupo de fugitivos que morava na floresta. Ele adorava ficar lá, porque gostavam dele e pela primeiríssima vez se sentia benquisto. Aquele ano foi o melhor da minha vida, ele me contou. Embora adorasse sua família da florestae se sentisse protegido por ela, seus acessos noturnos continuaram e aumentaram de intensidade. O choro e os gritos nunca amainaram, a despeito de todas as tentativas de acalmá-lo. Como nunca conseguiam acordá-lo, o barulho de seus acessos expôs a família a sério perigo. Então, tragicamente, antes de seu décimo aniversário, mandaram-no de volta para a aldeia, por onde o órfão perambulou sem destino.
Certa noite, Adam foi levado para a delegacia de polícia e interrogado. Como lhe haviam instruído, ele deu aos nazistas seu nome cristão. A polícia disse que o puniria se mentisse. Em seguida, forçaram-no a tirar a calça na frente de todos. Para esconder a vergonha, o garoto de 9 anos olhou para a parede e deu de cara com um crucifixo. Isso o aterrorizou, pois o fez acreditar que acabaria na cruz se o pegassem mentindo. Levaram Adam para um campo de concentração. Ser deixado com vida no campo de concentração, disse, foi um alívio. Ao menos eu estava com outros judeus.
Logo que Adam entrou no campo, um dos prisioneiros da aldeia perguntou-lhe seu nome. Já que estava entre os seus, Adam revelou o nome com que crescera e o nome daqueles que ele acreditava serem seus pais. O homem então exclamou: Não, não, esse não é o seu sobrenome verdadeiro!E lhe revelou o nome de seus pais legítimos e como ambos morreram. Adam lembrou-se de ter ficado indescritivelmente aliviado de saber que a mãe cruel que ele conhecera não era sua mãe de verdade.
No campo de concentração, ele viu pessoas serem espancadas, torturadas e assassinadas a tiros. Muitas outras sucumbiram ao suicídio, quase sempre por enforcamento. Durante seu internamento, Adam não teve consolo nem apoio que o ajudasse a enfrentar tal terror e pavor. Para a maioria de nós, a experiência de Adam é inimaginável. Se refletíssemos com toda a sinceridade sobre o efeito que isso teria provocado em nós, ficaríamos profundamente perturbados com esses fatos terríveis. Ainda assim, ao observar Adam na vida que tinha, ele parecia, ao menos na superfície, muito pouco diferente de você e de mim – apenas mais bem-sucedido, pelos padrões atuais.
Órfão desde o nascimento e sobrevivente de atrocidades e de um sofrimento humano o mais impensáveis, Adam suplantou seu tormento. Imigrou para a América do Sul aos 19 anos, na esperança de fugir do passado. Lá ele se instalou e construiu uma empresa, tornando-se um empreendedor internacional poderoso e bem-sucedido financeiramente. No entanto, quando chegou a mim, esse ser humano extraordinário havia sido reduzido a um farrapo. Estava encurvado e arrastava-se ao entrar na sala. Sua postura e seus movimentos lembraram pacientes que eu vira nas alas de doentes graves em hospitais psiquiátricos. Seus olhos vazios miravam o chão, e ele não parecia notar a minha presença. Eu não tinha a mínima ideia de por onde começar. De um lado, ele estava tão apagado que o que eu dissesse ou fizesse aparentemente não o atingiria. De outro, porém, temi que, se eu conseguisse fazer aflorar seus sentimentos, estes o dominariam de tal forma que ele mergulharia em uma desesperança catatônica insondável. Como entrar em contato com esse homem sem destruí-lo? Senti-me perdido e intimidado pela dimensão e pelo delicado desafio da minha tarefa.
Adam prosseguiu de cor a ladainha que contara ao psiquiatra. Não havia indício de sentimento em sua narrativa: Tudo isso aconteceu há tanto tempo, acrescentou ele, com um curto suspiro cansado. Ouvi, sentindo-me bastante incomodado com tanto horror exposto sem emoção. Porém, estranhamente, fiquei aliviado de ele não sentir; assim eu também não precisaria fazê-lo. Racionalmente, distanciei-me do sentimento e de Adam. Consegui fazer isso recorrendo a uma análise clínica, perguntando-me que mecanismo ele usara para se apartar dessas experiências horrorosas e como conseguiu não acabar perambulando pelas ruas, como fizera quando órfão, ou num hospício.
A fim de iniciar algum contato, perguntei a Adam sobre trabalho, família e amigos – qualquer assunto que servisse para vislumbrar ao menos um indício mínimo de sentimento positivo. Não deu resultado algum. Eu me vi pedindo, de um modo esquisito, que ele contasse o que lhe acontecera nas horas anteriores daquele dia. Aturdido, ele contou que perdeu o voo e alugou correndo um carro para dirigir os 400 quilômetros de Curitiba a São Paulo a fim de me encontrar. Lembrou-se de ter visto no estacionamento da locadora, perto do aeroporto, crianças empinando pipas que elas haviam feito com coisas achadas no lixão²¹. Captei o primeiro lampejo em seu rosto sempre inexpressivo. Mas aí, com a mesma rapidez, o rosto retomou a monotonia, e o corpo dele curvou-se para a frente, resignado. Querendo que ele não desabasse, pedi-lhe que ficasse em pé, com os joelhos levemente dobrados. Para ficar em pé, os sistemas proprioceptivo e cinestésico precisam ser ativados e coordenados. O efeito disso foi manter acesa a consciência de Adam ativando no sistema nervoso o ramo do estado de alerta. Essa intervenção é o oposto de deixar o paciente entrar em colapso pela
ativação da reação de desligamento, perpetuando, assim, os sentimentos mórbidos de vergonha e derrota. Enquanto Adam estava em pé com os joelhos relaxados, orientei-o a olhar para dentroe achar algum lugar em seu corpo onde ele pudesse encontrar a imagem das crianças brincando com a pipa improvisada²². De início, ele disse sentir-se mais ansioso (devido à superexcitação do sistema simpático), mas, depois de estimulado, Adam conseguiu localizar um pequeno círculo de calor na barriga. Disse-lhe: Apenas passe a conhecer essa sensação por um instante.
Ele abriu os olhos abruptamente, surpreendendo-se com as próprias palavras: Isso pode ser perigoso.
Sim, concordei, pode. Por isso é importante aprender a sentir – um pouquinho de cada vez. Seu corpo está congelado há muito tempo; vai demorar um pouco para descongelar, acrescentei. Era importante confirmar seu medo legítimo e oferecer-lhe uma imagem (o degelo do congelado) que o ajudasse a atenuar o medo, convidando-o a investigar sua experiência interna.
Adam sentou-se e olhou pela sala. Pedi que descrevesse o que vira²³. Isso deu oportunidade para relacionar o calor na barriga ao modo como ele percebeu o mundo externo no momento presente. Ele pareceu perplexo. Ah, eu não tinha notado as flores – nem a mesa em que elas estão.Quase como a expressão de curiosidade de alguém que sai do coma, o rosto dele mostrou outro breve lampejo de despertar. Ele olhou em volta e percebeu um tapete oriental e uma pintura. Eles têm cores, cores vivas, disse, inocentemente.
Enquanto você olha aquelas cores, quero que encontre o lugar dentro do seu corpo que consegue senti-las – mesmo que só um pouquinho.²⁴
Adam olhou para mim com uma expressão de perplexidade, talvez à espera de outras instruções. Mas então ele fechou os olhos e mergulhou para dentro. Está mais quente na barriga, e o círculo está aumentando de tamanho.
Alguns momentos depois, pedi-lhe que ficasse em pé outra vez: "Adam, vou pedir que faça algo que pode parecer estranho... Quero que visualize o quadro das crianças com as pipas... Sinta os pés no chão e como as pernas o sustentam. Agora sinta os seus braços enquanto você segura o fio da pipa… e imagine-se no campo com as crianças".
Adam respondeu quase com alegria: Estou sentindo isso nos braços e na barriga… Está mais quente e maior... Consigo ver as cores; são vivas e quentes… Vejo as pipas dançando nas nuvens.
Depois de alguns momentos em silêncio, Adam sentou-se e olhou em volta. Use quanto tempo quiser, Adam… Apenas sinta o ritmo disso… do lado de dentro e do lado de fora.²⁵
Os olhos dele olharam alternadamente para a mesa com as flores e o quadro na parede. Ele focalizou a mesa e começou a dizer que a cor e os veios da madeira eram quentes… parou… O calor por dentro é bom.Ele fechou os olhos de novo, sem a minha instrução dessa vez, descansou um pouco, depois abriu os olhos lentamente e se virou para mim, fitando-me sem embaraço algum. Essa foi a primeira vez que o sistema de interação social de Adam (veja o Capítulo 6) foi despertado e ativado.
O corpo de Adam mostrou alguma vitalidade; o rosto caído ganhou um tom colorido, quase vibrante, e a postura encurvada se ergueu e aprumou. Adam era como uma folha nova de bananeira, bem enrolada, que se volta para o sol e tenta alcançá-lo, confiando no seu calor enquanto se desdobra devagar. Ele estava maravilhado com a sala, como se a visse pela primeira vez. Olhou para as mãos e segurou de leve os dedos de uma delas com a outra. Então levou as mãos à parte superior dos braços e segurou os ombros, com os braços cruzados sobre o peito. Era como se estivesse segurando e alimentando a si mesmo. Ele surpreendeu a nós dois ao dizer: Estou vivo.
Ao perceber que podia começar a sentir, Adam tornou-se, naquele momento, como a criança com orgulho da pipa maravilhosa que ela criou. Esse foi para Adam o início de um aprendizado gradual, rítmico. Agora ele podia começar a sentir seu eu corporal sem abrir demais em sua alma a porta sombria da violência e do horror. Era capaz de abrir apenas o suficiente para sentir – sentir sem ser aniquilado, sem ser engolido pelo buraco negro do seu passado terrível nem perdido na intensa treva do luto e da imensa culpa por Paulo. De certo modo, em sua consciência corporal, ele descobrira a existência de um chão intermediário. Descobrira um lugar entre estar inteiramente dominado e afogado, de uma parte, e imerso em uma depressão mortificante, de outra.
Em outro dia, Adam escreveu para mim que essa experiência de um chão intermediário tênue mas perene permitiu-lhe experimentar um novo sentido de otimismo. Desse lugar ele era capaz de sentir compaixão por si mesmo por ter sido um órfão no Holocausto. Foi também aí, disse ele, que comecei a ser capaz de chorar por meu filho amado e encontrar o prazer e a alegria de estar com a família.
Questões para discussão
Refleti sobre a nossa sessão e o que teria levado Adam de uma depressão esmagadora para o fluxo da vida. Ele conseguiu identificar-se com a animação do menino favelado – uma animação que transcendia o futuro carente da criança. Conseguiu sentir no próprio corpo a inocência, a empolgação e a alegria de uma criança empinando uma pipa improvisada com restos aproveitados do lixo. De certa maneira, Adam pegou coisas do monte de lixo do seu passado devastador e desumano. Agora, porém, em vez de desmoronar sob seu peso, ele engendrou uma solução criativa. Ao se levantar (contradizendo cinestesicamente sua prostração habitual) e estabilizar fisicamente a própria dor, ele mobilizou sua força vital e entrou para o transcendente jogo da pipa. Ele conseguiu sentir-se puxado para cima pela imagem elevada e na direção da possibilidade de liberdade autêntica e diversão espontânea. Metaforicamente, ele voltou a se familiarizar com a alegoria do seu nome. Adam associou-se à inocência do Adão bíblico – antes que o fruto amargo da terrível experiência lhe queimasse a língua com o gosto amargo da desumanidade cruel e maligna do homem. Esse homem antes destruído agora remexia na personificação arraigada e na resistente autocomiseração a ponto de começar a poder lamentar e, assim, iniciar o retorno à vida. Eu não quis expô-lo ao choque de ver seu filho pendurado no banheiro (quanto mais afogá-lo com essa cena). Minha preocupação principal, naquele momento, foi evitar o desligamento do sistema nervoso de Adam, provocado pelo choque, e começar a criar uma base para a resiliência e a autorregulação.
Quero convidá-lo, leitor, a ponderar as considerações a seguir. Teriam sido meras coincidências os episódios dos gritos inconsoláveis de Paulo, que começaram aos 4 anos, e sua decisão de se enforcar? (Lembre-se de que a mulher de Adam disse que o marido também gritava e chorava à noite, do mesmo modo que o filho viria a fazer.) Ou esses incidentes foram um reaparecimento intergeracional de experiências despercebidas e das emoções relegadas de seu pai? Essas possibilidades estão entre os mistérios do trauma e do espírito humano.
Certos autores que estudam o Holocausto, como Yael Danieli²⁶ e Robert Lifton²⁷, fizeram análises inovadoras sobre as vítimas desse massacre horrendo. Ao trabalhar com Adam e poucos outros sobreviventes desse tipo de experiência, confrontei-me pessoalmente não só com o terrível conhecimento da crueldade de que os seres humanos são capazes, mas também com o extraordinário processo pelo qual o corpo é de algum modo capaz de compartimentar os efeitos dessa crueldade e tocar a vida adiante. Ele mantém um controle tênue – isto é, até que algo seja acrescentado à insustentável contenção do fardo. Mesmo assim, a chama lenta do eu profundo pode se reacender como que por milagre, desde que haja a oportunidade certa e um apoio cuidadosamente dosado.
Epílogo
Após a nossa sessão, Adam voltou à sua cidade natal na Polônia em busca de informações a respeito de sua mãe verdadeira, falecida quando ele
nasceu. Os nazistas não haviam destruído a lápide, e Adam a substituiu por uma nova porque seu coração estava muito enternecido por saber da existênciada mãe.
Vince: ombro travado
O choque entre dois processos contrários, um de excitação e outro de inibição, que dificilmente são simultâneos ou têm duração ou intensidade muito
incomum, ou ambos, provoca a ruptura do equilíbrio.
Ivan Pavlov
Não é incomum, sobretudo para um bombeiro, ter relutância em consultar um psicoterapeuta – um médico de cabeça. Quanto mais com relação a um problema obviamentefísico. Vince estava indo a um fisioterapeuta por causa do ombro direito, travado. Essa incapacidade o impedia de executar seu trabalho de bombeiro. O tratamento não ia bem: depois de várias sessões, ele continuava sem conseguir afastar o braço do tronco mais que alguns centímetros. O ortopedista consultado recomendou cirurgia, em que o braço é manipulado(puxado violentamente), sob anestesia geral, na tentativa de curá-lo. Uma operação dessas implica uma reabilitação longa e dolorosa e em geral não melhora muito a situação.
Como não parecia haver lesão física, o fisioterapeuta, na esperança de evitar o difícil procedimento, indicou-me a ele. Os sintomas haviam começado alguns meses antes do nosso encontro. Ele trabalhava na garagem e pegou um motor de arranque para o seu carro. Quando o ergueu, sentiu uma pontada de alguma coisano braço. No dia seguinte, o ombro estava duro e dolorido. Com o tempo, a dor ficou mais aguda e o alcance dos movimentos piorou progressivamente, tornando-se crônico. Como era de esperar, Vince atribuiu o estiramentodo ombro ao trabalho no carro. É parecido com o caso de uma pessoa que se curva para pegar um papel no chão e tem um espasmo nas costas. O senso comum e a observação clínica da maioria dos quiropráticos e massagistas dizem que se tratava de costas predestinadas – era para acontecer.
Vince está claramente atrapalhado por consultar um médico de cabeçae reluta em se entender comigo. Percebendo isso, eu o tranquilizo dizendo que não farei perguntas pessoais e me aterei a ajudá-lo a se livrar dos sintomas. É, diz ele, meu corpo está arrebentado mesmo.Peço-lhe que me mostre quanto ele consegue mexer o braço antes de começar a doer. Ele o movimenta poucos centímetros e olha para mim: É mais ou menos isso.
"Certo, agora quero que o movimente do mesmo modo, mas bem devagar, assim" – e lhe mostro com o meu braço.
Hum, diz ele, olhando para o braço. Sem dúvida está surpreso de conseguir levá-lo mais adiante sem dor.
"Desta vez, mais devagar ainda, Vince… Vamos ver o que acontece agora… Quero que você use realmente toda a atenção; focalize a mente no seu braço agora." O movimento lento permite que a consciência seja levada para o braço. O movimento rápido, sem concentração, pode recriar um padrão de contenção para se proteger.
Sua mão começa a tremer, e ele olha para mim em busca de aprovação. Isso, Vince, é assim mesmo. Isso é bom. São os seus músculos começando a se soltar. Tente concentrar-se aí, no braço e no tremor. Deixe o braço se mexer do jeito que ele quiser.O tremor continua por um instante e depois para. Vince começa a suar muito na testa.
Quando ele vai ao extremo do padrão de tensão dos músculos, parte da energiaretida em seu padrão de defesa muscular começa a ser liberada. Aí se incluem as reações involuntárias do sistema nervoso autônomo, como espasmos, tremor, suor e mudanças de temperatura²⁸. Como essas ações são subcorticais, a pessoa não tem a sensação de controle sobre as reações. Isso pode incomodar bastante. Minha função aí é a de tutor e parteira, ajudando Vince a se familiarizar com essas sensações estranhas ao ego, ainda mais porque ele desconhece inteiramente reações involuntárias incontroláveis.
O que é isso? Por que isso está acontecendo?, pergunta Vince num tom de criança assustada.
Vince, vou lhe pedir agora que apenas feche os olhos por um minuto e entre em seu corpo. Vou estar bem aqui se precisar de mim.Depois de alguns momentos de silêncio, suas mãos e seu braço começam a se esticar – o braço inteiro, os ombros e as mãos passam a tremer com mais intensidade. Tudo bem isso estar acontecendo, encorajo. Deixe-o fazer o que ele necessita e continue sentindo o seu corpo.
Está frio e em seguida esquenta, afirma ele, enquanto continua estendendo o braço, movimentando-o agora até cerca de 45 graus. Então ele para de repente. Surpreso por conseguir abrir tanto o braço, Vince arregala os olhos. Ao mesmo tempo, parece agitado; seu rosto fica pálido subitamente. Ele reclama de enjoo.
Em vez de recuar, eu o encorajo a ficar consciente das sensações físicas. Ele passa a respirar rapidamente. Meu Deus, eu sei o que é isso.
Que bom, interrompo, mas continuemos com as sensações um pouco mais e depois falamos disso, está bem?²⁹ Vince faz sinal afirmativo e movimenta o braço para a frente e para trás como se estivesse serrando um pedaço de madeira em câmera lenta. Com esse movimento vagaroso, Vince começa a explorar o movimento interno contido e travado por tensão muscular crônica. Ele agora diferencia dois impulsos conflitantes – um diz respeito à extensão e o outro, ao recolhimento, em repulsão. (Observo a repulsão como um padrão particular que envolve a retração do lábio para um lado e a inclinação da cabeça, que se afasta um pouco.) O tremor aumenta e diminui de novo, depois se estabiliza. Lágrimas escorrem dos olhos de Vince. Ele inspira profunda e espontaneamente e então estende todo o braço para a frente. Não dói nada!Isso condiz com o que descobri sobre a dor crônica. Em geral existe um padrão de tensão muscular latente que, ao ser desfeito, faz a dor desaparecer.
Vince abre os olhos e me olha. Tendo sem dúvida terminado a análise de baixo para cima, ele agora consegue formar novos significados e me revela o acontecimento a seguir. Cerca de oito meses antes
³⁰ ele foi fazer compras com sua mulher. Ao sair do supermercado, ouviu um estrondo. Um carro havia batido no poste do outro lado da rua. Ele largou a sacola e correu para o local do acidente. A motorista estava sentada imóvel, em aparente estado de choque. Como o motor do carro estava ligado, ele se esgueirou por sobre o corpo inerte dela a fim de desligar a ignição, procedimento recomendado para evitar um incêndio ou uma explosão. Assim que começou a girar a chave, Vince viu uma criança pequena no banco do passageiro, decapitada pelo air bag. E então ele me contou por que seu ombro ficara paralisado: Eu estava bem até ver a criança… Estou acostumado a fazer coisas assim, perigosas… mas, quando vi a garota, uma parte de mim quis puxar meu braço de volta e sair dali… senti vontade de vomitar… e a outra parte continuou ali e fez o que tinha de fazer… Às vezes é muito difícil fazer o que a situação exige. Sim, concordei, é difícil, e você e seus colegas continuam a fazer mesmo assim… Obrigado.
Hum, acrescentou ele ao sair, acho que tenho de aprender a pensar no meu corpo.Vince aprendera que a mente e o corpo não são entidades separadas – que ele era um ser só. Disse que queria se conhecer mais e voltou para outras três sessões. Aprendeu a lidar melhor com situações estressantes e conflituosas e, desnecessário dizer, não precisou de cirurgia.
Quando precisamos salvar vidas, é enorme a quantidade de agitação e adrenalina que inunda o corpo. Quando Vince tentou salvar a passageira no acidente de carro, ocorreram dois atos de sobrevivência simultâneos mas opostos: um, fazer o possível para salvar a vida dela; outro, afastar-se do horror. Nesse conflito intenso, o sistema nervoso e os músculos de Vince travaram; o ombro ficou paralisado. Ao ser capaz de sentir atravésdos impulsos
conflitantes e distingui-los – primeiro, estender-se para a frente e depois retrair-se de horror –, a vasta energia de sobrevivência³¹ foi descarregada nas ondas de suor com tremores e náusea, em vez de cada um deles agir contra si próprio.
A vez do dr. Pavlov
Ivan Pavlov, premiado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1904 por sua prodigiosa obra sobre reflexo condicionado, foi levado a estudar experimentalmente a crise (traumática) por um acaso. A grande enchente de 1924 em Leningrado provocou a inundação do seu laboratório, localizado em um porão, e a água chegou muito perto da altura em que estavam as gaiolas de seus cães de experimentação. Os cachorros ficaram aterrorizados, mas não se machucaram fisicamente. Quando Pavlov retomou as experiências, ficou surpreso ao descobrir que os cães tinham perdido os reflexos condicionados que haviam adquirido. Ao mesmo tempo que isso obviamente interessava a Pavlov, outra série de observações mudou o futuro de seu trabalho investigativo. Uma proporção significativa de cães, embora fisicamente ilesos, teve uma crise emocional, comportamental e fisiológica, que implicava encolher-se e tremer no canto das gaiolas, enquanto outros animais antes dóceis passaram a avançar com ferocidade nos tratadores. Além disso, foram observadas mudanças fisiológicas, como batimentos cardíacos acelerados ou reduzidos sob tensão moderada e reações de grande susto a estímulos suaves (como sinais sonoros ou a aproximação de um pesquisador).
A enchente provocou duas tendências conflitantes, como mostra a definição de Pavlov: O choque de dois processos [intensos] contrários, um de excitação e outro de inibição. Em outro exemplo, o impulso simultâneo de comer e sofrer um forte choque elétrico (quando este ocorre junto com a alimentação) resulta em crise dos animais com fome. Diante da ocorrência de dois impulsos opostos – um de ficar e comer e o outro de fugir de um acontecimento extremamente nocivo –, sem dúvida haverá uma crise.
Em suma, a expressão motora de duas reações instintivas cria um conflito e resulta em paralisação, como na estase do ombro de Vince. Em condições normais, os músculos de extensão atuam reciprocamente com os de flexão. Nos estados traumáticos, porém, os agonistas e os antagonistas atuam um contra o outro, provocando um estado de travamento (imobilização). Isso pode ocasionar sintomas de debilitação em praticamente qualquer parte do corpo. A energia retida em respostas inibidas (frustradas) é tão forte que pode provocar uma tensão muscular extrema, que costuma ter efeitos profundos. Por exemplo, quando alguém salta de um prédio em chamas para uma rede de salvamento bem abaixo, as pernas podem ser fraturadas durante a queda, antes do impacto. Isso ocorre porque tanto os músculos extensores quanto os flexores contraem-se ao mesmo tempo, com uma intensidade brutal. Em guerras ou catástrofes naturais, o impulso instintivo de autopreservação quase sempre conflita com o de proteger um camarada. Na Primeira Guerra Mundial, o predomínio da fadiga de combate foi bastante alto nas trincheiras. Os soldados de infantaria eram literalmente encurralados e bombardeados com explosivos estrondosos semanas a fio. Instintivamente, eles eram impelidosa correr como loucos para escapar ou ficar sob fogo e lutar pela preservação do grupo. Aliás, muitos soldados acabaram mortos por correr para escapar sem refletir (ou foram fuzilados por suposta covardia). Nos poucos filmes documentais da Primeira Guerra Mundial com soldados acometidos de fadiga de combate, veem-se as consequências dessa imobilização crônica na tortura, na contorção e na convulsão dos homens. Vemo-nos imaginando quantos soldados adquiriram traumas e sofreram de culpa por terem preferido proteger a si mesmos, largando os feridos à própria sorte. Seja como for, a coragem é um fenômeno muito mais complexo do que em geral se julga.
O trauma pelos olhos de uma criança
Trabalhando por toda a minha vida com adultos, pediram-me às vezes que eu visse os filhos dos meus clientes. Frequentemente fiquei assombrado com o fato de que, com intervenções muito breves, as crianças recuperaram-se daquilo que de outro modo teria sido uma incapacitação para a vida inteira. Essas crianças, desaferradas do jugo do trauma, tornaram-se livres para se desenvolver com confiança, resiliência e alegria. Fui coautor de dois livros sobre o tratamento preventivo e somático do trauma na infância. Um deles volta-se para terapeutas, pessoal médico e professores³², enquanto o outro ensina aos pais recursos eficazes de auxílio emocional³³.
Nesta seção, apresento a história delicada de três crianças deprimidas: Anna, Alex e Sammy. O relato sobre elas ilustra o princípio de que quanto menos melhor, e fala da capacidade de recuperação inata do espírito humano.
Anna e Alex: piquenique frustrado
Anna, de 8 anos, tem olhos castanhos enormes. Ela poderia ter servido de modelo em uma das pinturas de Margaret Keane com crianças de olhos amendoados. A enfermeira escolar acaba de trazê-la para conversar comigo. Pálida, com a cabeça pendente e mal respirando, parece um filhote de cervo paralisado pelos faróis de um carro. Seu rosto frágil não tem expressão, e seu braço direito pende inerte, como se estivesse prestes a se soltar do ombro.
Há dois dias, Anna foi à praia em um passeio da escola. Ela e uma dezena de coleguinhas brincavam no mar quando uma ressaca repentina os arrastou rápido para o fundo. Anna foi resgatada, mas Mary (uma das mães que se dispôs a acompanhar o passeio) afogou-se depois de salvar corajosamente várias crianças. Mary fazia as vezes de mãe de muitas crianças da vizinhança, Anna inclusive, e a comunidade ficou chocada com a trágica morte dela. Eu pedi à enfermeira escolar que tentasse localizar crianças com sintomas súbitos (por exemplo, dores em geral, dor de cabeça e na barriga e resfriados). Anna havia estado com a enfermeira três vezes naquela manhã, queixando-se de muita dor no braço e no ombro direito.
Um dos equívocos cometidos por quem atende a traumas é tentar fazer as crianças falar sobre o que estão sentindo logo após o acontecimento. Ainda que raramente seja saudável ocultar os sentimentos, aquela prática pode provocar trauma. Nesses momentos de vulnerabilidade, as crianças (e os adultos também) tendem a ficar transtornadas com facilidade. Traumas anteriores podem ressurgir em consequência de um acontecimento insuportável, criando uma situação complexa que envolve, por exemplo, segredos profundos, vergonhas ocultadas, culpa e ódio. Por essa razão, antes de vermos a criança, minha equipe procurou e conseguiu de vários professores (e da enfermeira) da escola de ensino fundamental um pouco do histórico de Anna. Desse modo, obtivemos informações que tanto eram desconhecidas conscientemente da criança quanto poderiam ser perigosas se descobertas, dada a fragilidade do estado dela.
Soubemos que aos 2 anos Anna viu seu pai balear a mãe no ombro e em seguida se suicidar. Um detalhe extra que compunha os sintomas surgiu de uma situação por que ela passou antes do piquenique: ficou furiosa quando Robert, filho de Mary de 16 anos, brigou com o irmão dela de 12 anos. Havia uma grande possibilidade de Anna ter represado o rancor contra Robert antes do afogamento e querer uma revanche naquele momento. Isso suscitou a eventualidade de Anna estar sentindo uma culpa profunda pela morte de Mary – talvez até acreditando (por meio de uma fantasia) que fosse responsável por ela.
Peço à enfermeira que sustente com suavidade o braço machucado, o que poderia ajudar Anna a controlar a energia do choqueestagnada nele, além de aumentar a consciência interna da criança. Com esse apoio, Anna seria capaz de destravar lentamente (isto é, aos poucos) e acessar os sentimentos e as respostas que ajudassem a trazê-la de volta à vida.
Como é estar dentro do seu braço, Anna?, perguntei com suavidade.
Dói demais, responde ela baixinho.
Seus olhos estão abatidos, e eu digo: Dói muito, é?
É.
Onde dói? Pode me mostrar com o dedo?Ela aponta um lugar na parte superior do braço e diz: E dos lados também. Há um leve estremecimento em seu ombro direito, seguido de um suspiro curto. Por um momento, seu rosto abatido ganha um tom rosado.
Está bem, querida. Com isso melhora um pouco?– ela faz que sim, e pega mais fôlego. Após esse relaxamento leve, ela se enrijece imediatamente, puxando o braço na direção do corpo para protegê-lo. Eu aproveito o momento.
Onde sua mãe se machucou?Ela aponta o mesmo lugar no braço e começa a tremer. Não digo nada. O tremor se intensifica, depois desce pelo braço e sobe para o pescoço. Anna, deixe a tremedeira acontecer, como numa tigela de gelatina – ela é vermelha, verde ou amarela? Você consegue deixá-lo tremer? Sente o tremor?
É amarela, diz a menina, como o sol no céu.Ela respira fundo e em seguida olha para mim pela primeira vez. Sorrio e concordo com a cabeça. Os olhos dela se fixam nos meus por um instante e depois se afastam.
Como está o seu braço agora?
A dor está indo para os dedos.Os dedos tremem de leve. Falo com ela baixinho, com suavidade, ritmadamente.
Sabe, Anna, querida… Acho que não existe uma pessoa em toda a cidade que não sinta, de algum modo, que a morte de Mary foi culpa dela.Ela me olha por um instante. Eu prossigo: Agora, é claro que isso não é verdade... mas é como todos se sentem... e isso acontece porque todos a amam muito. Ela se volta e olha para mim. Há um quê de autorreconhecimento em sua atitude. Com os olhos dela grudados em mim, eu continuo: Às vezes, quanto mais amamos alguém, mais achamos que foi culpa nossa. Duas lágrimas escorrem do canto externo de cada olho antes que ela vire o rosto para longe de mim.
E às vezes, quando estamos muito bravos com uma pessoa e acontece alguma coisa ruim com ela, achamos que isso aconteceu porque nós queríamos que acontecesse.Anna me olha bem nos olhos. Continuo: E, sabe, quando uma coisa ruim acontece com alguém que amamos ou adiamos, ela não acontece por causa do que queremos. Às vezes o que é ruim apenas acontece… e os sentimentos, por maiores que sejam, são só sentimentos. O olhar de Anna é penetrante e de agradecimento. Eu me sinto contendo as lágrimas. Pergunto a ela se quer voltar para a aula agora. Ela faz que sim, olha uma vez mais para nós três e caminha porta afora, com os braços movimentando-se soltos, no ritmo dos passos.
Alex, como várias das crianças que estavam na praia e presenciaram a tragédia, estava com dificuldade de dormir e comer. O pai dele o trouxe a mim porque o garoto estava se alimentando muito mal nos últimos dois dias.
Assim que nos sentamos, pergunto a ele se consegue sentir por dentro da sua barriga. Ele põe a mão de leve na barriga e, com uma fungada, responde: Sim.
Qual é a sensação lá dentro?
Está duro como se fosse um nó.
Tem alguma coisa dentro desse nó?
Tem. É preto... e vermelho… Não gosto dele.
Dói, hein?
É.
Sabe, Alex, dói mesmo, porque você a ama… mas não vai doer para sempre.
As lágrimas rolam pela face do menino, e a cor volta ao seu rosto e a seus dedos. Naquela noite, Alex come tudo. No velório de Mary, ele chora abertamente, sorri com afeto e abraça os amigos.
Sammy: brincadeira de criança
Descobre-se mais sobre uma pessoa em uma hora de brincadeira
do que em um ano de conversa.
Platão
Do mesmo modo que nem Vince nem os médicos conseguiram relacionar o travamento persistente do ombro dele com um acontecimento grave, é comum os sintomas das crianças ou mudanças em seu comportamento motivarem questões enigmáticas que desconcertam os pais e também pediatras. Isso ocorre principalmente quando a criança tem pais bons demais, que criam um ambiente estável e amoroso em casa. Às vezes, as novas atitudes da criança, ainda que não sejam nada sutis, são um mistério. Perplexa, a família talvez não consiga relacionar a conduta do filho ou outros sintomas à origem do medo extremo.
Em vez de se exprimirem de um modo facilmente compreensível, as crianças tendem a mostrar que estão sofrendo por dentro da maneira o mais frustrante possível. Mostram por meio do corpo. Podem se tornar irritantes, agarrando-se aos pais e tendo chiliques. Ou podem sofrer de agitação, hiperatividade, pesadelos e insônia. Ainda mais preocupante, elas podem externar os incômodos e as mágoas maltratando um animal de estimação ou uma criança mais nova e mais fraca. Outras crianças talvez revelem seu sofrimento com dores de cabeça ou de barriga e urinando na cama, ou então evitando pessoas e coisas de que elas gostavam para conseguir conviver com a ansiedade insuportável. E os pais se perguntam: de onde podem ter vindo esses sintomas?
Os próprios símbolos de juventude – acontecimentos comuns, como quedas, acidentes e atendimentos médicos –, quando não solucionados, são suspeitos de esconder os culpados pela ansiedade da criança. Isso sem dúvida aconteceu com o pequeno Sammy.
Como as crianças pela própria natureza gostam de brincar, os terapeutas e os pais podem ajudá-las a se recuperar, superando seus medos para dominar os momentos mais amedrontadores por meio de brincadeiras orientadas. Quando as crianças expressam seu mundo interno ao brincar, é o corpo que se comunica diretamente conosco.
Esta é a história de Sammy, menino de 2 anos e meio, na qual a montagem de uma sessão lúdica originou uma experiência reparadora bem-sucedida. Depois da história deste caso, há sugestões para terapeutas, profissionais médicos e pais. A seguir, um exemplo do que pode acontecer quando uma queda comum que leva a um pronto-socorro para dar alguns pontos se complica. Ele mostra também que vários meses mais tarde a experiência apavorante de Sammy resultou, por meio da brincadeira, em um sentido renovado de confiança e alegria.
Sammy está passando o fim de semana com os avós, de quem sou hóspede. Ele tem sido um tirano insuportável, tentando controlar agressivamente e sem trégua seu novo ambiente. Nada o satisfaz; sempre que está acordado mostra-se temperamental; quando está dormindo, ele se agita e se vira como se estivesse lutando com as roupas de cama. Esse comportamento não é inteiramente inesperado em uma criança com 2 anos e meio cujos pais foram viajar no fim de semana – as crianças com angústia da separação em geral fazem isso. Sammy, no entanto, sempre gostou de visitar
os avós, e seu comportamento estava passando dos limites para eles.
Os avós me revelaram que seis meses antes Sammy caíra do cadeirão e fizera um corte feio no queixo. Sangrando muito, foi levado ao pronto-socorro. Quando a enfermeira chegou para medir a temperatura e a pressão dele, Sammy ficou com tanto medo que ela não conseguiu concluir. Esse garotinho vulnerável foi então atado a uma maca pediátrica (uma prancha com tiras de velcro). Com o tronco e as pernas imobilizadas, as únicas partes de seu corpo que se mexiam eram a cabeça e o pescoço – que ele, obviamente, mexeu com o máximo de força que conseguiu. Os médicos decidiram apertar as tiras e imobilizar a cabeça dele com as mãos para poder suturar-lhe o queixo.
Após essa experiência perturbadora, a mãe e o pai saíram com Sammy para comer um hambúrguer e ir ao parquinho. A mãe foi muito atenciosa e, com cuidado, deu-lhe apoio com relação àquela experiência em que ele se assustou e se feriu. Logo tudo pareceu esquecido. No entanto, a atitude autoritária do garoto começou pouco depois desse acontecimento. Estariam os chiliques e o comportamento dominador de Sammy relacionados com o desamparo sentido naquele trauma?
Quando os pais voltaram, concordamos em investigar a existência de uma carga traumática associada à experiência recente. Todos nos reunimos no chalé em que estávamos hospedados. Com os pais, os avós e Sammy observando, pus seu ursinho Pooh de pelúcia na beirada de uma cadeira de tal maneira que ele caiu no chão. Sammy deu um grito agudo, voou para a porta, atravessou correndo uma ponte e desceu um caminho estreito até o riacho. Nossas suspeitas se confirmaram. Sua mais recente visita ao hospital não havia sido nem inofensiva nem esquecida. A atitude de Sammy nos mostrou que esse jogo podia ser insuportável para ele.
Os pais o trouxeram de volta do riacho. Ele se agarrou amorosamente à mãe enquanto nos preparávamos para outro jogo. Garantimos a ele que todos ficaríamos ali para proteger o ursinho. Ele correu mais uma vez, mas agora só até o quarto ao lado. Nós o seguimos até lá e esperamos para ver o que aconteceria. Sammy correu para a cama e bateu nela com os dois braços, olhando para mim, expectante.
Raiva, é?, perguntei. Ele me lançou um olhar que confirmou a pergunta. Interpretando sua expressão como um sinal de vá em frente, eu pus o urso embaixo do cobertor e coloquei Sammy na cama junto ao bichinho.
Sammy, todos nós vamos ajudar o ursinho Pooh.
Segurei o urso embaixo do cobertor e pedi a todos que ajudassem. Sammy olhou com interesse, mas logo se levantou e correu para a mãe. Com os braços apertados ao redor das pernas dela, ele disse: Mamãe, estou com medo³⁴. Sem pressioná-lo, esperamos até que ele estivesse com vontade de voltar a brincar. Na vez seguinte, a avó e o ursinho foram deitados e presos juntos, e Sammy participou ativamente do resgate deles. Quando libertamos o urso, Sammy correu para a mãe, agarrando-se a ela mais forte que antes. Ele começou a tremer e ter espasmos de medo, e depois, surpreendentemente, o peito dele expandiu-se com uma sensação crescente de empolgação e orgulho.
Vemos aí a transição entre a reencenação do trauma e a brincadeira curativa. Da vez seguinte que se aproximou da mãe, Sammy a agarrou menos e pulou mais de empolgação. Esperamos até que ele estivesse pronto para brincar de novo. Todos, exceto o menino, tiveram a vez de ser resgatados com o ursinho. A cada vez Sammy mostrou mais vigor ao pular do cobertor e fugir para a segurança dos braços da mãe.
Quando chegou sua hora de ser segurado sob o cobertor com Pooh, ele ficou muito agitado e temeroso. Correu para os braços da mãe várias vezes antes de ser capaz de passar pelo desafio máximo. Armando-se de coragem, subiu na cama embaixo do cobertor com o ursinho enquanto eu segurava o cobertor de leve. Observei os olhos dele, que se arregalaram de medo, mas só por um instante. Então ele agarrou o ursinho, empurrou o cobertor para longe e se lançou nos braços da mãe. Soluçando e tremendo, ele gritou: Mamãe, me tira daqui! Mamãe, tira isso de mim!O pai, assustado, me contou que essas foram exatamente as mesmas palavras que Sammy gritou quando esteve atado à maca no hospital. Ele se lembrava bem disso porque tinha ficado surpreso com a capacidade do filho de fazer um pedido tão direto e com tal clareza com apenas 2 anos e meio de idade.
Repetimos a escapada diversas vezes mais. Sammy demonstrou estar cada vez mais forte e triunfante. Em vez de correr com medo para a mãe, ele correu de empolgação, subindo e descendo. A cada escapada bem-sucedida, todos aplaudimos e dançamos juntos, comemorando: Viva o Sammy! O Sammy salvou o ursinho Pooh!O garoto de 2 anos e meio dominou a experiência que o arrasara poucos meses antes. Desapareceu o comportamento agressivo e temperamental resultante do trauma, usado na tentativa de controlar o ambiente, enquanto a hiperatividadee a evitação dele (que ocorreram durante o trabalho com seu trauma médico) transformaram-se em brincadeira vitoriosa.
Cinco princípios para levar da brincadeira infantil à resolução
Esta análise da experiência de Sammy vai ajudar a esclarecer e aplicar os princípios a seguir no uso da brincadeira terapêutica em pediatria.
1. Deixe a criança controlar o ritmo do jogo.
A cura ocorre na desaceleração do tempo decorrido de momento a momento. Para ajudar a criança que você está atendendo a se sentir segura, siga o passo e o ritmo dela. Se você se puser na pele da criança (pela observação atenta do comportamento dela), aprenderá rápido a se entrosar com ela. Voltemos à história para ver exatamente como fizemos isso com Sammy.
Ao sair correndo da sala quando o ursinho caiu no chão, Sammy mostrou em alto e bom som que não estava pronto para participar desse novo jogo de ativação. Ele precisava ser resgatado pelos pais, confortado e trazido de volta à cena antes de continuar. Para lhe dar segurança, todos nós lhe garantimos que estaríamos ali para proteger o ursinho. Ao oferecer esse apoio e reconfortá-lo, ajudamos Sammy a se aproximar do jogo – em seu tempo, em seu ritmo.
Depois dessa garantia, Sammy correu para o quarto, não mais porta afora. Era um sinal claro de que ele se sentira menos ameaçado e mais confiante no nosso apoio. Como é provável que as crianças não declarem verbalmente se querem ou não continuar, aproveite as dicas do comportamento e das reações delas. Respeite os desejos delas, seja qual for o jeito que elas escolham para comunicá-los. Nunca se deve apressar as crianças a passar rápido demais por um episódio nem forçá-las a fazer mais do que conseguem. Exatamente como com Sammy, é importante executar o processo mais devagar se você perceber indícios de medo, respiração contida, enrijecimento ou uma conduta confusa (dissociada). Essas reações desaparecerão se você apenas esperar, tranquila e pacientemente, e ao mesmo tempo garantir à criança que continua ao lado dela. Em geral, o olhar e a respiração do jovem indicam quando é hora de continuar.
2. Faça distinção entre terror e agitação.
Sentir medo ou terror por mais que um momento breve durante a brincadeira com o trauma não ajuda as crianças a se livrar dele. A maioria faz algo para evitá-los. Deixe-as soltas! Ao mesmo tempo, tente discernir se se trata de evitação ou fuga. A seguir, um exemplo claríssimo para ajudar a adquirir a aptidão de captarquando é necessário fazer um intervalo e quando está na hora de levar a oportunidade adiante.
Quando correu para o riacho, Sammy demonstrou um comportamento de evitação. A fim de solucionar essa sua reação a um trauma, Sammy teve de sentir que controlava as próprias ações e não que suas emoções o levavam a agir. O comportamento de evitação ocorre quando o medo e o terror ameaçam dominar crianças e adultos. Com as crianças esse comportamento é em geral acompanhado de algum sinal de sofrimento emocional (choro,
olhar amedrontado, gritos). A fuga ativa, por outro lado, é estimulante. As crianças ficam excitadas com suas pequenas vitórias e costumam mostrar prazer com sorrisos, palmas e risadas efusivas. No todo, essa resposta é bem diferente do comportamento de evitação. A excitação é evidência da bem-sucedida descarga das emoções que acompanharam a experiência original. Isso é positivo, desejável e necessário.
Muda-se o trauma transformando os sentimentos e as sensações intoleráveis em desejáveis. Isso só pode acontecer com um nível de ativação semelhante ao da ativação que provocou a reação traumática em primeiro lugar.
Se a criança parece empolgada, você pode encorajá-la e prosseguir como fizemos ao bater palmas e dançar com Sammy.
Contudo, se a criança parece estar com medo ou retraída, reconforte-a, mas não estimule mais nenhuma ação. Em vez disso, permaneça com toda a sua atenção e apoio, aguardando com paciência até que uma parte substancial do medo tenha desaparecido. Se a criança apresentar sinais de cansaço, faça um intervalo de descanso.
3. Dê um passo pequeno por vez.
Nunca se deve avançar muito lentamente na renegociação de um acontecimento traumático com ninguém – quanto mais com uma criança pequena. A brincadeira com o trauma é repetitiva, quase por definição. Aproveite essa característica cíclica. A diferença fundamental entre renegociação e brincadeira com o trauma (reencenação) é que na renegociação existem diferenças incrementais nas respostas e nas atitudes da criança que avança para o domínio e a resolução. A explanação a seguir mostra como percebi essas pequenas mudanças com Sammy.
Quando Sammy correu para o quarto e não para a porta, ele estava respondendo com um comportamento diferente, indicando que houvera progresso. Independentemente de quantas sejam as repetições, se a criança passar a responder de modo diferente – com excitação um pouco maior, falando mais ou com movimentos mais espontâneos –, ela está atravessando o trauma. Se as respostas da criança parecem pender para o retraimento ou a repetição compulsiva, em vez de expansividade e variação, talvez você esteja tentando renegociar a ocorrência com situações que contêm excitação demais para que a criança progrida. Se você notar que as suas tentativas lúdicas de renegociação estão falhando, recomponha-se e atente para as suas sensações até que a sua respiração lhe traga calma, confiança e espontaneidade. Então, diminua o ritmo da mudança subdividindo a brincadeira em incrementos menores. Talvez isso pareça contradizer o que se disse antes sobre seguir o passo da criança. No entanto, sintonizar-se com a necessidade dela às vezes significa impor limites para evitar que ela se excite e não aguente. Se a criança parece tensa ou amedrontada, recorra a alguns passos terapêuticos. Por exemplo, ao renegociar um trauma médico, uma alternativa é dizer: Vamos ver o que a gente pode fazer para o ursinho [boneca, soldadinho etc.] não ficar com tanto medo antes que você [o médico/enfermeiro da brincadeira] lhe dê uma injeção. Quase sempre as crianças se saem com soluções criativas mostrando a você exatamente o que elas necessitam – o ingrediente misterioso que as teria ajudado a ficar mais tranquilas durante o acontecimento.
Não se preocupe com o número de vezes que você tem de fazer o que parece ser a mesmíssima coisa. (Tentamos ao menos dez vezes levar Sammy a participar da brincadeira com o ursinho.) Sammy conseguiu renegociar suas respostas ao trauma bem rápido. Talvez os seus pacientes precisem de mais tempo. Não é necessário fazer tudo num dia só! Descanso e tempo ajudam a reorganizar internamente a experiência da criança em níveis sutis. Saiba que, se a resolução não estiver completa, a criança voltará a uma fase similar quando tiver oportunidade de brincar na sessão seguinte.
4. Torne-se um abrigo seguro.
Lembre-se de que a biologia está do seu lado. Talvez o aspecto mais difícil e mais importante da renegociação de um acontecimento traumático com a criança seja você acreditar que vai dar tudo certo. Esse sentimento vem de dentro de você e é transmitido à criança. Ele se torna um abrigo que rodeia a criança com um sentimento de confiança, o que pode ser particularmente difícil se ela resistir às suas tentativas de renegociar o trauma.
Se a criança resiste, seja paciente e tranquilizador. O lado instintivo dela quer reprocessar a experiência. Você só tem de esperar que esse lado se sinta suficientemente confiante e seguro para se afirmar. Se você está preocupado demais com a mudança ou não da reação traumática da criança, pode transmitir uma mensagem conflitante. Adultos que tenham um trauma de infância mal resolvido talvez tenham mais propensão a cair nessa armadilha.
5. Pare se sentir que a criança realmente não está se beneficiando da brincadeira.
Em Too scared to cry, Lenore Terr³⁵, psicóloga infantil brilhante e estimada, chama a atenção dos clínicos para a permissão dada a crianças para que se envolvam em uma terapialúdica que reviva o horror original. A autora descreve as respostas de Lauren, de 3 anos e meio, enquanto ela brinca com carrinhos. Os carros estão indo nas pessoas, diz Lauren ao empurrar velozmente dois carros de corrida na direção de dedoches. Eles estão apontando suas partes pontudas para as pessoas. As pessoas estão com medo. Uma parte pontuda vai entrar na barriga delas, e na boca e na… [ela aponta para a própria saia] Minha barriga está doendo. Não quero brincar mais.Lauren se detém quando de repente a sensação surge em seu corpo. Essa é uma reação típica. Ela pode retomar seguidamente a mesma brincadeira, parando sempre que a sensação de medo passa a lhe incomodar na barriga. Alguns terapeutas diriam que Lauren usa a brincadeira na tentativa de dominar a situação que a traumatizou. Sua brincadeira assemelha-se a tratamentos de exposiçãousados rotineiramente para ajudar adultos a superar fobias. Todavia, Terr adverte que tal brincadeira em geral não é tão bem-sucedida. Esse processo, ainda que sirva para reduzir o sofrimento da criança, demora muito para produzir resultados. Mais frequentemente, a brincadeira é repetida compulsivamente sem resolução, e aquela que não se resolve e é recorrente pode intensificar o impacto do trauma do mesmo modo que a reencenação e a revivência catártica de experiências traumatizantes podem intensificar o trauma de adultos.
O reprocessamento, ou renegociação, de uma experiência traumática, como vimos com Sammy, constitui um procedimento que é em essência diferente da brincadeira com o trauma, ou reencenação. A maioria das crianças, se utilizar apenas seus recursos, tenta evitar, muito como Lauren no exemplo acima, os sentimentos traumáticos que a brincadeira evoca. Todavia, na brincadeira orientada, Sammy foi capaz de experimentar seus sentimentosdominando seu medo gradual e consecutivamente. Usando essa renegociação em etapas do acontecimento traumatizante e a companhia do urso Pooh, Sammy conseguiu se sair como vencedor e herói. A sensação de vitória e heroísmo quase sempre assinala a conclusão bem-sucedida de um acontecimento traumático renegociado. Seguindo a deixa de Sammy depois de montar uma cena potencialmente ativadora, participando da brincadeira dele e compondo o jogo enquanto o jogávamos, Sammy teve de abandonar o medo. Uma orientação mínima (30-45 minutos) e apoio foram precisos para atingir o objetivo tácito de ajudá-lo a experimentar um resultado corretivo.
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9. Notas sobre o acidente de Peter
9NOTAS SOBRE O ACIDENTE DE PETER Para o meu último exemplo de caso, volto ao ponto onde iniciamos esta empreitada, minha experiência naquele lindo dia ensolarado. Preferi recontar o meu terrível acidente detalhado no Capítulo 1 inserindo uma breve análise [em negrito]. Essas notas servem não só de revisão, mas também como uma maneira de investigar os fatores que me impediram de terminar com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). A ocorrência em si – especificamente, ser atropelado por um carro, bater contra o para-brisa, ser lançado pelo ar e me ferir – certamente conta como um acontecimento trau- mático. Mas por que não fiquei traumatizado? Naquele dia fatídico de fevereiro, quando eu caminhava absorto, feliz com a expectativa de encontrar meu grande amigo Butch para comemorar seu sexagésimo aniversário, pisei na faixa de pedestres… No momento seguinte, paralisado e entorpecido, estou deitado na rua, sem poder me mover nem respirar. Não consigo entender o que acabou de acontecer. Como eu cheguei aqui? Saindo de um redemoinho enevoado de confusão, uma mul- tidão corre em minha direção. [1. Choque, no meu caso, foi ter ficado sem ar. Todos os traumas nos deixam sem fôlego de alguma maneira. No mo- mento do choque, as pessoas não sabem exatamente o que aconteceu com elas; ficam sem fôlego com a falta de orientação interna e externa.] Todos param, horrorizados. Abruptamente, eles pairam sobre mim formando um círculo cada vez menor, com os olhos fixos em meu corpo débil e retorcido. De minha perspectiva indefesa, parecem uma revoada de corvos carnívoros, precipitando-se sobre uma presa abatida – eu. Lentamente, eu me oriento e identifico o verdadeiro agressor. Como em um instantâneo, vejo um carro bege surgir sobre mim com sua grade dianteira que parecia uma dentadura e o para-brisa estilhaçado. [2. Em estado de choque, as imagens ficam disparatadas e fragmentadas e se concentram exclusivamente nos elementos ameaçadores mais proeminentes.] A porta repentinamente se abre. Uma adolescente de olhos arregalados salta do carro. Ela olha fixamente para mim, perplexa e apavorada. Estranhamente, eu sei e não sei o que acabou de acontecer. [3. Em um dos paradoxos do trauma, a pessoa traumatizada tem uma percepção/recepção dividida. Estão no piloto automático, em que agem com calma. Entram também em um sonho/pesadelo do qual não conseguem acordar.] Quando os fragmentos começam a convergir, anunciam uma terrível realidade: Eu devo ter sido atropelado por este carro quando pisei na faixa de pedestres. Confuso e incrédulo, mergulho novamente em uma nebulosa penumbra. Percebo que não consigo pensar de forma clara ou me acordar desse pesadelo. Um homem se aproxima rapidamente e se ajoelha ao meu lado. Ele diz que é paramédico e está de folga. Quando tento ver de onde a voz está vindo [4. Trata-se de uma resposta inicial biológica de orientação.], ele ordena de forma dura: “Não mexa a cabeça”. [5. Agora fico num apuro duplo com duas ordens contraditórias: uma é o esforço inato de me orientar; outra é a exigência de que eu não cumpra esse instinto irreprimível. O resultado é a colisão de impulsos contrários, o que ocasiona a frustração do impulso biológico de orientação. Isso também ocorreu com Vince, o bombeiro com o ombro travado, no Capítulo 8.] A contradição entre sua ordem severa e o que meu corpo naturalmente deseja fazer – virar-se na direção de sua voz – me assusta e me deixa atordoado em um tipo de paralisia. Minha consciência se divide de forma estranha e eu tenho a sensação de um “deslocamento” esquisito. É como se eu estivesse flutuando acima de meu corpo, olhando de cima e vendo a cena se desenrolar. [6. Essa descrição é uma repre- sentação clássica de dissociação. No entanto, a dissociação assume muitas formas, inclusive a panóplia de sintomas de fragmentação psicológica e físi- cos que ocorrem na saída do trauma.] Sou trazido de volta quando ele bruscamente agarra meu braço e verifica meu pulso. Então, muda de posição e fica diretamente sobre mim. Sem jeito, segura minha cabeça com as duas mãos, prendendo-a e impedindo-a de se mover. Suas ações abruptas e o pungente tinido de suas ordens me deixam em pânico; imobilizam-me ainda mais. [7. Esse conflito aprofunda a frustração e intensifica a resposta de imobilidade ao provocar mais medo. Isso resulta em imobilidade potencializada pelo medo.] O pavor se infiltra em minha consciência entorpecida e enevoada: Talvez meu pescoço esteja quebrado, penso. [8. O pavor e o desamparo aumentam a profundidade e a duração de imobilidade.] Sinto um forte impulso de encontrar outra pessoa em quem concentrar a atenção. [9. Sob ameaça, a necessidade de contato humano é um instinto de sobrevivência dos mamíferos – veja o Capítulo 6.] Eu preciso do olhar reconfortante de alguém, uma corda na qual me agarrar. Simples assim. Mas estou apavorado demais para me mexer e me sinto irremediavelmente paralisado. [10. Devido ao poder do choque à resposta de imobilização, diminui a capacidade de pedir ajuda – ou seja, usar aquele instinto dos mamíferos de sobrevivência social desenvolvido mais recentemente.] O bom samaritano dispara perguntas em rápida sucessão: “Qual é o seu nome? Onde você está? Para onde estava indo? Que dia é hoje?” Mas não consigo me conectar com a boca e formar palavras. Não tenho a energia necessária para responder a ele. Sua maneira de perguntar faz que eu me sinta ainda mais desorientado e totalmente confuso. Finalmente, consigo dar forma às minhas palavras e falar. Minha voz está estrangulada e fraca. [11. O terror afônico faz parte da resposta de imobilidade e é observado em todas as espécies que normalmente têm voz.] Eu peço a ele, com as mãos e as pala- vras: “Por favor, afaste-se”. [12. Essa é a primeira vez em que sou capaz de mobilizar uma defesa efetiva contra a intrusão ao começar a estabelecer um limite de proteção.] Ele obedece. Como um observador neutro, falando a respeito da pessoa estendida no chão, eu lhe asseguro que não moverei a ca- beça e responderei a suas perguntas depois. [13. Quando o choque se reduz ao traçar um limite efetivo, os centros de comunicação em meu cérebro – a área de Broca – entram em ação para delinear e transmitir minha fronteira.] O poder da bondade Depois de alguns minutos, uma mulher discretamente se interpõe e calmamente se senta ao meu lado. “Eu sou médica, pediatra”, ela diz. “Posso ajudar em alguma coisa?” “Por favor, fique comigo”, respondo. Seu rosto franco e bondoso me transmite amparo e uma preocupação tranquila. Ela pega minha mão e eu a aperto. [14. Seu gesto e seu toque proporcionam uma fonte de orientação e ajudam a convocar minha reduzida capacidade de interação social. A ativação do sistema vagal ventral – veja o Capítulo 6 – ajuda a evitar que eu seja tragado pelo buraco negro do trauma.] Ela suavemente retribui o gesto. Enquanto meus olhos buscam os dela, sinto uma lágrima se formar. [15. O contato olho no olho faz parte do sistema de interação social, como o toque. Essa troca fisiológica, na qual cada um participa do sistema nervoso do outro, leva à estabilização e ao alívio.] O aroma delicado e estranhamente familiar do seu perfume me diz que não estou sozinho. Eu me sinto emocionalmente amparado por sua presença encorajadora. [16. Pelo cheiro temos acesso direto ao sistema límbico – antes chamado encéfalo olfatório, por essa mesma razão.] Um tremor de liberação me atravessa como uma onda e eu respiro fundo pela primeira vez. [17. Esse momento forte é o primeiro exemplo de descarga fisiológica e autorregulação.] Então, um estremecimento de pavor atravessa meu corpo. As lágrimas agora jorram dos meus olhos. Na minha cabeça, escuto as palavras: Não acredito que isso aconteceu comigo; não é possível; não foi isso que eu planejei para o aniversário do Butch. [18. Esse é um reconhecimento da minha negação.] Sou tragado por um turbilhão de incomensurável arrependimento. [19. Nesse momento estou contradizendo a profunda verdade emocional ao reconhecer a perda. Isso costuma acontecer na terapia, gradualmente, com o tempo.] Meu corpo continua a tremer. A realidade se instala. Em pouco tempo, um estremecimento mais suave começa a substituir os tremores abruptos. Sinto ondas alternadas de medo e de profunda tris- teza. [20. Essa descarga em ondas propicia a vivência natural da pendulação – expansões/contração, conforme apresentado no Passo 3 no Capítulo 5 – e atenua os sentimentos de pesar e medo.] Ocorre-me a implacável possibilidade de estar seriamente ferido. [21. Faz parte de uma reação dos mamíferos ao ferimento verificar o corpo e avaliar o tipo e o grau do ferimento.] Talvez eu acabe em uma cadeira de rodas, aleijado e dependente. De novo, ondas
de profunda tristeza me inundam. Sinto medo de ser engolido pelo pesar e me agarro aos olhos da mulher. [22. Agora mantenho contato ativo com a mulher como ponto de apoio.] Uma respiração mais lenta me traz o aroma do seu perfume. Sua presença constante me ampara. Quando começo a me sentir menos oprimido, meu medo se torna mais brando e passa a diminuir. Sinto uma ponta de esperança, e depois uma onda de fúria ardente. [23. A fúria é uma reação defensiva forte – é o impulso para matar! Daí as pessoas ficarem aterrorizadas com esse impulso e tentar contê-lo. A pediatra me ajuda a conter essa fúria e não ser dominado por ela.] Meu corpo continua tremendo e sacolejando, alternando um frio gelado e um calor febril. [24. Isso indica a continuação de uma descarga forte.] Uma fúria abrasadora irrompe de dentro de minha barriga: Como essa garota idiota pôde me atropelar na faixa de pedestres? Ela não estava prestando atenção? Maldita! [25. Mais fúria – acompanhada da tendência neocortical humana de culpar.] Uma explosão de sirenes estridentes e luzes vermelhas piscantes bloqueiam tudo. Minha barriga se contrai e meus olhos novamente buscam o olhar bondoso da mulher. Apertamos as mãos e o nó nas minhas entranhas se desata. Ouço minha camisa rasgar. Sou surpreendido e novamente salto até a condição favorável de um observador pairando sobre meu corpo estirado. [26. A forma abrupta como a camisa é retirada reestimula a dissociação.] Observo estranhos uniformizados colocarem, metodicamente, eletrodos em meu peito. O bom samaritano paramédico relata a alguém que meu pulso estava em 170. Ouço minha camisa rasgar ainda mais. [27. Ao perceber que estou me dissociando, consigo me trazer de volta para o meu corpo.] Vejo a equipe de emergência colocar um colar cervical em meu pescoço e depois me deslizar cautelosamente para uma maca. Enquanto me amarram, escuto uma confusa conversa por rádio. Os paramédicos estão requisitando uma equipe completa de trauma. Um sobressalto me sacode. Peço para ser levado para o hospital mais próximo, a apenas 1,5 quilômetro de distância, mas sou informado de que meus ferimentos talvez precisem ser tratados no centro de trauma de La Jolla, mais especializado e mais bem equipado, que fica a cerca de 50 quilômetros dali. Fico arrasado. Surpreendentemente, porém, o medo diminui rápido. [28. O aparecimento e a diminuição da excitação emocional é evidência de uma autorregulação mais aprofundada.] Quando sou erguido até a ambulância, fecho os olhos pela primeira vez. Um vago aroma do perfume da mulher e a expressão de seus olhos serenos e bondosos perduram. Mais uma vez, tenho aquela sensação reconfortante de ser amparado por sua presença. Ao abrir os olhos dentro da ambulância, sinto uma intensificação de meu estado de alerta, como se eu tivesse recebido uma sobrecarga de adre- nalina. [29. Agora tenho recursos suficientes para fechar os olhos e ficar com as sensações de hiperexcitação em meu corpo; o aroma perene do perfume da mulher ajuda a acalmar meu sistema límbico e meu corpo, dando um apoio extra para eu investigar o que se passa dentro de mim.] Embora essa sensação seja intensa, ela não me oprime. Ainda que meus olhos queiram vagar por todo o espaço, para vasculhar o ambiente não familiar e agourento, conscientemente me obrigo a me voltar para dentro de mim mesmo. Começo a fazer um inventário das minhas sensações corporais. [30. A percepção de perigo de ameaça à minha vida está diminuindo, e está aumentando a capacidade de acessar meu corpo.] Esse foco ativo desloca minha atenção para um zumbido intenso e desconfortável em todo o meu corpo. Contrastando com essa sensação desagradável, noto uma curiosa tensão no braço esquerdo. Deixo que essa sensação venha para o primeiro plano da consciência e acompanho-a enquanto ela cresce cada vez mais. Aos poucos, percebo que o braço quer flexionar e se mover para cima. [31. Agora consigo localizar minhas sensações físicas. Consigo distinguir, em meio ao “barulho” e ao zumbido da excitação, uma tensão significativa. Essa curiosidade ajuda a restabelecer a orientação no momento presente; o trauma e a curiosidade são funções psicofisiológicas inversas e não conseguem coexistir.] Enquanto esse impulso interior de movimento aumenta, a parte de trás da minha mão também quer fazer uma rotação. Muito levemente, sinto-a mover-se na direção do lado esquerdo do meu rosto – como que para protegê-lo de um golpe. [32. Trata-se da reafirmação de uma reação defen- siva involuntária, uma resposta forte de proteção que foi ou errada ou incompleta – sua execução foi interrompida pelo impacto violento do vidro e da rua.] De repente, uma imagem fugaz do vidro do carro bege passa diante dos meus olhos, e mais uma vez – como em um instantâneo – vejo os olhos inexpressivos e fixos por trás da teia de aranha do vidro estilhaçado. [33. Essa imagem, associada à ameaça inicial, reaparece.] Ouço o momentâneo som do meu ombro esquerdo estilhaçando o para-brisa. [34. As impressões ou imagens sensoriais mencionadas no modelo SIBAM, apresentado no Capítulo 7, agora se expandem e abrangem o componente auditivo do impacto, e não apenas o visual.] Então, inesperadamente, uma sensação de alívio me inunda. Sinto-me voltando para dentro do corpo. O zumbido elétrico retrocedeu. A imagem dos olhos inexpressivos e da janela estilhaçada recua e parece se desfazer. Em vez dela, vejo eu mesmo saindo de casa, sentindo o sol suave e morno no rosto me enchendo de alegria com a expectativa de ver Butch aquela noite. Meus olhos conseguem relaxar enquanto focalizo o exterior. Quando olho a ambulância, ela, de algum modo, parece menos estranha e agourenta. Agora vejo de forma mais clara e “suave”. Tenho a sensação profundamente reconfortante de que não estou mais congelado, de que o tempo começou a se mover para a frente, de que estou acordando do pesadelo. [35. A imagem continua a se expandir, permitindo um grau maior de finalização com correlação detalhada dos elementos visual e auditivo. Agora já percorri o momento do impacto, t = 0. Fui de t - 1 (o momento antes do impacto) a t = 0 (o momento do impacto) e a t + 1 (o momento logo após t = 0), saindo do centro do choque – veja a Figura 9.1. Saí pelo “buraco da agulha”, retornando e me orientando em relação ao momento presente e às lembranças de uma manhã de inverno perfeita.] Olho fixamente para a para- médica ao meu lado. Sua calma me tranquiliza. [36. Essa segurança reforça minha experiência sentida de que acordei desse pesadelo e posso ampliar meu senso de recurso e apoio incluindo a mulher da ambulância.] Restabelecendo a continuidade da experiência
Figura 9.1 Representação do movimento na direção do momento central do choque e através dele. Isso acaba com a imobilidade. Depois de sacudir por alguns quilômetros, sinto outro forte padrão de tensão surgindo na parte superior da coluna. Percebo meu braço direito querendo se estender – vejo um flash momentâneo; a rua de asfalto negro corre em minha direção. Escuto minha mão batendo no chão e sinto uma queimação na palma da mão direita. Associo isso à percepção da minha mão se estendendo para proteger a cabeça para que não se esmagasse no chão. Experimento um tremendo alívio, junto com um profundo senso de gratidão por meu corpo não ter me traído, sabendo exatamente o que fazer para resguardar meu cérebro frágil de um possível ferimento fatal. [37. Começo agora a processar o acontecimento na sequência temporal - de t - 1 a t + 1 - e ter uma autoconfiança crescente na capacidade do meu corpo de me proteger.] Ainda tremendo de leve, noto uma onda de formigamento junto com uma força interior crescendo de dentro das profundezas do meu corpo. Enquanto a sirene aguda toca sem parar, a paramédica da ambulância verifica minha pressão e registra meu eletrocardiograma. Quando peço que
fale de meus sinais vitais, ela me diz de maneira doce e profissional que não pode me dar essas informações. Sinto um desejo sutil de ampliar nosso contato, de me relacionar com ela como pessoa. Calmamente, lhe digo que sou médico (uma meia verdade). Percebo a leveza de uma brincadeira com- partilhada. [38. Esse tipo de interacão social brincalhona só é possível quando o sistema vagal ventral, abordado no Capítulo 6, está ativo.] Ela mexe no equipamento e então revela que pode ser uma leitura falsa. Depois de um ou dois minutos, ela me diz que minha frequência cardíaca é 74 e minha pressão 125/70. “Quais eram os valores quando você me colocou aqui?”, perguntei. “Sua frequência cardíaca estava em 150. O cara que mediu antes de chegarmos disse que estava em torno de 170.” Respiro fundo, aliviado. “Obrigado”, eu digo, e acrescento: “Graças a Deus, não vou ter TEPT.” “Como assim?”, ela pergunta com curiosidade sincera. “Bom, o que eu estou dizendo é que provavelmente não sofrerei de transtorno de estresse pós-traumático.” Como ela ainda parece confusa, ex- plico como os tremores e as reações de autoproteção ajudaram a “reinicializar” meu sistema nervoso e me trouxeram de volta para o meu corpo. “Dessa forma”, continuo, “não estou mais no modo luta ou fuga.” “Hum”, ela comenta, “é por isso que vítimas de acidentes às vezes lutam conosco – elas ainda estão em luta ou fuga?” “É, é isso mesmo.” “Sabe”, ela acrescenta, “eu notei que é muito comum fazerem a pessoa parar de tremer de propósito quando chegamos com elas ao hospital. Às vezes, eles as amarram bem firme ou lhes dão uma injeção de Valium. Talvez isso não seja muito bom?” “Não, não é”, o professor em mim confirma. “Talvez isso lhes dê um alívio temporário, mas só faz que fiquem congelados e presos.” Ela me conta que acabou de fazer um curso sobre “primeiros-socorros de trauma” chamado Interrogatório de Incidente Crítico. “Eles testaram co- nosco no hospital. Tínhamos de falar sobre como nos sentimos depois de um acidente. Mas falar fez que eu e outros paramédicos nos sentíssemos piores. Eu não consegui dormir depois disso – mas você não falou sobre o que aconteceu. Me pareceu que você só estava tremendo. Foi isso que fez sua frequência cardíaca e sua pressão baixar?” “Sim”, eu disse, e acrescentei que foram também os pequenos movimentos espontâneos de proteção que meus braços estavam fazendo. “Eu aposto”, ela refletiu, “que se os tremores que frequentemente ocorrem depois de uma cirurgia fossem permitidos em vez de reprimidos a re- cuperação seria mais rápida e talvez até a dor do pós-operatório fosse menor.” “É isso mesmo”, eu digo, sorrindo e concordando com ela. [39. Estou aliviado com a recuperação das minhas faculdades intelectuais e a minha “capacidade de reserva” quando as coisas ficam feias.] E eu o deixo, caro leitor, mais uma vez com o sábio conselho do antiquíssimo Livro das mutações chinês: Quando um homem aprende com o coração o que significam dor e tremedeira, ele está protegido contra qualquer terror produzido por influências externas. I Ching, hexagrama 51 (cerca de 2000 a.C.)
9NOTAS SOBRE O ACIDENTE DE PETER
Para o meu último exemplo de caso, volto ao ponto onde iniciamos esta empreitada, minha experiência naquele lindo dia ensolarado. Preferi recontar o meu terrível acidente detalhado no Capítulo 1 inserindo uma breve análise [em negrito]. Essas notas servem não só de revisão, mas também como uma maneira de investigar os fatores que me impediram de terminar com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). A ocorrência em si – especificamente, ser atropelado por um carro, bater contra o para-brisa, ser lançado pelo ar e me ferir – certamente conta como um acontecimento traumático. Mas por que não fiquei traumatizado?
Naquele dia fatídico de fevereiro, quando eu caminhava absorto, feliz com a expectativa de encontrar meu grande amigo Butch para comemorar seu sexagésimo aniversário, pisei na faixa de pedestres… No momento seguinte, paralisado e entorpecido, estou deitado na rua, sem poder me mover nem respirar. Não consigo entender o que acabou de acontecer. Como eu cheguei aqui? Saindo de um redemoinho enevoado de confusão, uma multidão corre em minha direção. [1. Choque, no meu caso, foi ter ficado sem ar. Todos os traumas nos deixam sem fôlego de alguma maneira. No momento do choque, as pessoas não sabem exatamente o que aconteceu com elas; ficam sem fôlego com a falta de orientação interna e externa.] Todos param, horrorizados. Abruptamente, eles pairam sobre mim formando um círculo cada vez menor, com os olhos fixos em meu corpo débil e retorcido. De minha perspectiva indefesa, parecem uma revoada de corvos carnívoros, precipitando-se sobre uma presa abatida – eu. Lentamente, eu me oriento e identifico o verdadeiro agressor. Como em um instantâneo, vejo um carro bege surgir sobre mim com sua grade dianteira que parecia uma dentadura e o para-brisa estilhaçado. [2. Em estado de choque, as imagens ficam disparatadas e fragmentadas e se concentram exclusivamente nos elementos ameaçadores mais proeminentes.] A porta repentinamente se abre. Uma adolescente de olhos arregalados salta do carro. Ela olha fixamente para mim, perplexa e apavorada. Estranhamente, eu sei e não sei o que acabou de acontecer. [3. Em um dos paradoxos do trauma, a pessoa traumatizada tem uma percepção/recepção dividida. Estão no piloto automático, em que agem com calma. Entram também em um sonho/pesadelo do qual não conseguem acordar.] Quando os fragmentos começam a convergir, anunciam uma terrível realidade: Eu devo ter sido atropelado por este carro quando pisei na faixa de pedestres. Confuso e incrédulo, mergulho novamente em uma nebulosa penumbra. Percebo que não consigo pensar de forma clara ou me acordar desse pesadelo.
Um homem se aproxima rapidamente e se ajoelha ao meu lado. Ele diz que é paramédico e está de folga. Quando tento ver de onde a voz está vindo [4. Trata-se de uma resposta inicial biológica de orientação.], ele ordena de forma dura: Não mexa a cabeça. [5. Agora fico num apuro duplo com duas ordens contraditórias: uma é o esforço inato de me orientar; outra é a exigência de que eu não cumpra esse instinto irreprimível. O resultado é a colisão de impulsos contrários, o que ocasiona a frustração do impulso biológico de orientação. Isso também ocorreu com Vince, o bombeiro com o ombro travado, no Capítulo 8.] A contradição entre sua ordem severa e o que meu corpo naturalmente deseja fazer – virar-se na direção de sua voz – me assusta e me deixa atordoado em um tipo de paralisia. Minha consciência se divide de forma estranha e eu tenho a sensação de um deslocamentoesquisito. É como se eu estivesse flutuando acima de meu corpo, olhando de cima e vendo a cena se desenrolar. [6. Essa descrição é uma representação clássica de dissociação. No entanto, a dissociação assume muitas formas, inclusive a panóplia de sintomas de fragmentação psicológica e físicos que ocorrem na saída do trauma.]
Sou trazido de volta quando ele bruscamente agarra meu braço e verifica meu pulso. Então, muda de posição e fica diretamente sobre mim. Sem jeito, segura minha cabeça com as duas mãos, prendendo-a e impedindo-a de se mover. Suas ações abruptas e o pungente tinido de suas ordens me deixam em pânico; imobilizam-me ainda mais. [7. Esse conflito aprofunda a frustração e intensifica a resposta de imobilidade ao provocar mais medo. Isso resulta em imobilidade potencializada pelo medo.] O pavor se infiltra em minha consciência entorpecida e enevoada: Talvez meu pescoço esteja quebrado, penso. [8. O pavor e o desamparo aumentam a profundidade e a duração de imobilidade.] Sinto um forte impulso de encontrar outra pessoa em quem concentrar a atenção. [9. Sob ameaça, a necessidade de contato humano é um instinto de sobrevivência dos mamíferos – veja o Capítulo 6.] Eu preciso do olhar reconfortante de alguém, uma corda na qual me agarrar. Simples assim. Mas estou apavorado demais para me mexer e me sinto irremediavelmente paralisado. [10. Devido ao poder do choque à resposta de imobilização, diminui a capacidade de pedir ajuda – ou seja, usar aquele instinto dos mamíferos de sobrevivência social desenvolvido mais recentemente.]
O bom samaritano dispara perguntas em rápida sucessão: Qual é o seu nome? Onde você está? Para onde estava indo? Que dia é hoje?Mas não consigo me conectar com a boca e formar palavras. Não tenho a energia necessária para responder a ele. Sua maneira de perguntar faz que eu me sinta ainda mais desorientado e totalmente confuso. Finalmente, consigo dar forma às minhas palavras e falar. Minha voz está estrangulada e fraca. [11. O terror afônico faz parte da resposta de imobilidade e é observado em todas as espécies que normalmente têm voz.] Eu peço a ele, com as mãos e as palavras: Por favor, afaste-se. [12. Essa é a primeira vez em que sou capaz de mobilizar uma defesa efetiva contra a intrusão ao começar a estabelecer um limite de proteção.] Ele obedece. Como um observador neutro, falando a respeito da pessoa estendida no chão, eu lhe asseguro que não moverei a cabeça e responderei a suas perguntas depois. [13. Quando o choque se reduz ao traçar um limite efetivo, os centros de comunicação em meu cérebro – a área de Broca – entram em ação para delinear e transmitir minha fronteira.]
O poder da bondade
Depois de alguns minutos, uma mulher discretamente se interpõe e calmamente se senta ao meu lado. Eu sou médica, pediatra, ela diz. Posso ajudar em alguma coisa?
Por favor, fique comigo, respondo. Seu rosto franco e bondoso me transmite amparo e uma preocupação tranquila. Ela pega minha mão e eu a aperto. [14. Seu gesto e seu toque proporcionam uma fonte de orientação e ajudam a convocar minha reduzida capacidade de interação social. A ativação do sistema vagal ventral – veja o Capítulo 6 – ajuda a evitar que eu seja tragado pelo buraco negro do trauma.] Ela suavemente retribui o gesto. Enquanto meus olhos buscam os dela, sinto uma lágrima se formar. [15. O contato olho no olho faz parte do sistema de interação social, como o toque. Essa troca fisiológica, na qual cada um participa do sistema nervoso do outro, leva à estabilização e ao alívio.] O aroma delicado e estranhamente familiar do seu perfume me diz que não estou sozinho. Eu me sinto emocionalmente amparado por sua presença encorajadora. [16. Pelo cheiro temos acesso direto ao sistema límbico – antes chamado encéfalo olfatório, por essa mesma razão.] Um tremor de liberação me atravessa como uma onda e eu respiro fundo pela primeira vez. [17. Esse momento forte é o primeiro exemplo de descarga fisiológica e autorregulação.] Então, um estremecimento de pavor atravessa meu corpo. As lágrimas agora jorram dos meus olhos. Na minha cabeça, escuto as palavras: Não acredito que isso aconteceu comigo; não é possível; não foi isso que eu planejei para o aniversário do Butch. [18. Esse é um reconhecimento da minha negação.] Sou tragado por um turbilhão de incomensurável arrependimento. [19. Nesse momento estou contradizendo a profunda verdade emocional ao reconhecer a perda. Isso costuma acontecer na terapia, gradualmente, com o tempo.] Meu corpo continua a tremer. A realidade se instala.
Em pouco tempo, um estremecimento mais suave começa a substituir os tremores abruptos. Sinto ondas alternadas de medo e de profunda tristeza. [20. Essa descarga em ondas propicia a vivência natural da pendulação – expansões/contração, conforme apresentado no Passo 3 no Capítulo 5 – e atenua os sentimentos de pesar e medo.] Ocorre-me a implacável possibilidade de estar seriamente ferido. [21. Faz parte de uma reação dos mamíferos ao ferimento verificar o corpo e avaliar o tipo e o grau do ferimento.] Talvez eu acabe em uma cadeira de rodas, aleijado e dependente. De novo, ondas
de profunda tristeza me inundam. Sinto medo de ser engolido pelo pesar e me agarro aos olhos da mulher. [22. Agora mantenho contato ativo com a mulher como ponto de apoio.] Uma respiração mais lenta me traz o aroma do seu perfume. Sua presença constante me ampara. Quando começo a me sentir menos oprimido, meu medo se torna mais brando e passa a diminuir. Sinto uma ponta de esperança, e depois uma onda de fúria ardente. [23. A fúria é uma reação defensiva forte – é o impulso para matar! Daí as pessoas ficarem aterrorizadas com esse impulso e tentar contê-lo. A pediatra me ajuda a conter essa fúria e não ser dominado por ela.] Meu corpo continua tremendo e sacolejando, alternando um frio gelado e um calor febril. [24. Isso indica a continuação de uma descarga forte.] Uma fúria abrasadora irrompe de dentro de minha barriga: Como essa garota idiota pôde me atropelar na faixa de pedestres? Ela não estava prestando atenção? Maldita! [25. Mais fúria – acompanhada da tendência neocortical humana de culpar.]
Uma explosão de sirenes estridentes e luzes vermelhas piscantes bloqueiam tudo. Minha barriga se contrai e meus olhos novamente buscam o olhar bondoso da mulher. Apertamos as mãos e o nó nas minhas entranhas se desata.
Ouço minha camisa rasgar. Sou surpreendido e novamente salto até a condição favorável de um observador pairando sobre meu corpo estirado. [26. A forma abrupta como a camisa é retirada reestimula a dissociação.] Observo estranhos uniformizados colocarem, metodicamente, eletrodos em meu peito. O bom samaritano paramédico relata a alguém que meu pulso estava em 170. Ouço minha camisa rasgar ainda mais. [27. Ao perceber que estou me dissociando, consigo me trazer de volta para o meu corpo.] Vejo a equipe de emergência colocar um colar cervical em meu pescoço e depois me deslizar cautelosamente para uma maca. Enquanto me amarram, escuto uma confusa conversa por rádio. Os paramédicos estão requisitando uma equipe completa de trauma. Um sobressalto me sacode. Peço para ser levado para o hospital mais próximo, a apenas 1,5 quilômetro de distância, mas sou informado de que meus ferimentos talvez precisem ser tratados no centro de trauma de La Jolla, mais especializado e mais bem equipado, que fica a cerca de 50 quilômetros dali. Fico arrasado. Surpreendentemente, porém, o medo diminui rápido. [28. O aparecimento e a diminuição da excitação emocional é evidência de uma autorregulação mais aprofundada.] Quando sou erguido até a ambulância, fecho os olhos pela primeira vez. Um vago aroma do perfume da mulher e a expressão de seus olhos serenos e bondosos perduram. Mais uma vez, tenho aquela sensação reconfortante de ser amparado por sua presença.
Ao abrir os olhos dentro da ambulância, sinto uma intensificação de meu estado de alerta, como se eu tivesse recebido uma sobrecarga de adrenalina. [29. Agora tenho recursos suficientes para fechar os olhos e ficar com as sensações de hiperexcitação em meu corpo; o aroma perene do perfume da mulher ajuda a acalmar meu sistema límbico e meu corpo, dando um apoio extra para eu investigar o que se passa dentro de mim.] Embora essa sensação seja intensa, ela não me oprime. Ainda que meus olhos queiram vagar por todo o espaço, para vasculhar o ambiente não familiar e agourento, conscientemente me obrigo a me voltar para dentro de mim mesmo. Começo a fazer um inventário das minhas sensações corporais. [30. A percepção de perigo de ameaça à minha vida está diminuindo, e está aumentando a capacidade de acessar meu corpo.] Esse foco ativo desloca minha atenção para um zumbido intenso e desconfortável em todo o meu corpo.
Contrastando com essa sensação desagradável, noto uma curiosa tensão no braço esquerdo. Deixo que essa sensação venha para o primeiro plano da consciência e acompanho-a enquanto ela cresce cada vez mais. Aos poucos, percebo que o braço quer flexionar e se mover para cima. [31. Agora consigo localizar minhas sensações físicas. Consigo distinguir, em meio ao barulhoe ao zumbido da excitação, uma tensão significativa. Essa curiosidade ajuda a restabelecer a orientação no momento presente; o trauma e a curiosidade são funções psicofisiológicas inversas e não conseguem coexistir.] Enquanto esse impulso interior de movimento aumenta, a parte de trás da minha mão também quer fazer uma rotação. Muito levemente, sinto-a mover-se na direção do lado esquerdo do meu rosto – como que para protegê-lo de um golpe. [32. Trata-se da reafirmação de uma reação defensiva involuntária, uma resposta forte de proteção que foi ou errada ou incompleta – sua execução foi interrompida pelo impacto violento do vidro e da rua.] De repente, uma imagem fugaz do vidro do carro bege passa diante dos meus olhos, e mais uma vez – como em um instantâneo – vejo os olhos inexpressivos e fixos por trás da teia de aranha do vidro estilhaçado. [33. Essa imagem, associada à ameaça inicial, reaparece.] Ouço o momentâneo som do meu ombro esquerdo estilhaçando o para-brisa. [34. As impressões ou imagens sensoriais mencionadas no modelo SIBAM, apresentado no Capítulo 7, agora se expandem e abrangem o componente auditivo do impacto, e não apenas o visual.] Então, inesperadamente, uma sensação de alívio me inunda. Sinto-me voltando para dentro do corpo. O zumbido elétrico retrocedeu. A imagem dos olhos inexpressivos e da janela estilhaçada recua e parece se desfazer. Em vez dela, vejo eu mesmo saindo de casa, sentindo o sol suave e morno no rosto me enchendo de alegria com a expectativa de ver Butch aquela noite. Meus olhos conseguem relaxar enquanto focalizo o exterior. Quando olho a ambulância, ela, de algum modo, parece menos estranha e agourenta. Agora vejo de forma mais clara e suave. Tenho a sensação profundamente reconfortante de que não estou mais congelado, de que o tempo começou a se mover para a frente, de que estou acordando do pesadelo. [35. A imagem continua a se expandir, permitindo um grau maior de finalização com correlação detalhada dos elementos visual e auditivo. Agora já percorri o momento do impacto, t = 0. Fui de t - 1 (o momento antes do impacto) a t = 0 (o momento do impacto) e a t + 1 (o momento logo após t = 0), saindo do centro do choque – veja a Figura 9.1. Saí pelo buraco da agulha, retornando e me orientando em relação ao momento presente e às lembranças de uma manhã de inverno perfeita.] Olho fixamente para a paramédica ao meu lado. Sua calma me tranquiliza. [36. Essa segurança reforça minha experiência sentida de que acordei desse pesadelo e posso ampliar meu senso de recurso e apoio incluindo a mulher da ambulância.]
Restabelecendo a continuidade da experiência
Figura 9.1 Representação do movimento na direção do momento central do choque e através dele. Isso acaba com a imobilidade.
Depois de sacudir por alguns quilômetros, sinto outro forte padrão de tensão surgindo na parte superior da coluna. Percebo meu braço direito querendo se estender – vejo um flash momentâneo; a rua de asfalto negro corre em minha direção. Escuto minha mão batendo no chão e sinto uma queimação na palma da mão direita. Associo isso à percepção da minha mão se estendendo para proteger a cabeça para que não se esmagasse no chão. Experimento um tremendo alívio, junto com um profundo senso de gratidão por meu corpo não ter me traído, sabendo exatamente o que fazer para resguardar meu cérebro frágil de um possível ferimento fatal. [37. Começo agora a processar o acontecimento na sequência temporal - de t - 1 a t + 1 - e ter uma autoconfiança crescente na capacidade do meu corpo de me proteger.] Ainda tremendo de leve, noto uma onda de formigamento junto com uma força interior crescendo de dentro das profundezas do meu corpo.
Enquanto a sirene aguda toca sem parar, a paramédica da ambulância verifica minha pressão e registra meu eletrocardiograma. Quando peço que
fale de meus sinais vitais, ela me diz de maneira doce e profissional que não pode me dar essas informações. Sinto um desejo sutil de ampliar nosso contato, de me relacionar com ela como pessoa. Calmamente, lhe digo que sou médico (uma meia verdade). Percebo a leveza de uma brincadeira compartilhada. [38. Esse tipo de interacão social brincalhona só é possível quando o sistema vagal ventral, abordado no Capítulo 6, está ativo.] Ela mexe no equipamento e então revela que pode ser uma leitura falsa. Depois de um ou dois minutos, ela me diz que minha frequência cardíaca é 74 e minha pressão 125/70.
Quais eram os valores quando você me colocou aqui?, perguntei.
Sua frequência cardíaca estava em 150. O cara que mediu antes de chegarmos disse que estava em torno de 170.
Respiro fundo, aliviado. Obrigado, eu digo, e acrescento: Graças a Deus, não vou ter TEPT.
Como assim?, ela pergunta com curiosidade sincera.
Bom, o que eu estou dizendo é que provavelmente não sofrerei de transtorno de estresse pós-traumático.Como ela ainda parece confusa, explico como os tremores e as reações de autoproteção ajudaram a reinicializarmeu sistema nervoso e me trouxeram de volta para o meu corpo.
Dessa forma, continuo, não estou mais no modo luta ou fuga.
Hum, ela comenta, é por isso que vítimas de acidentes às vezes lutam conosco – elas ainda estão em luta ou fuga?
É, é isso mesmo.
Sabe, ela acrescenta, eu notei que é muito comum fazerem a pessoa parar de tremer de propósito quando chegamos com elas ao hospital. Às vezes, eles as amarram bem firme ou lhes dão uma injeção de Valium. Talvez isso não seja muito bom?
Não, não é, o professor em mim confirma. Talvez isso lhes dê um alívio temporário, mas só faz que fiquem congelados e presos.
Ela me conta que acabou de fazer um curso sobre primeiros-socorros de traumachamado Interrogatório de Incidente Crítico. Eles testaram conosco no hospital. Tínhamos de falar sobre como nos sentimos depois de um acidente. Mas falar fez que eu e outros paramédicos nos sentíssemos piores. Eu não consegui dormir depois disso – mas você não falou sobre o que aconteceu. Me pareceu que você só estava tremendo. Foi isso que fez sua frequência cardíaca e sua pressão baixar?
Sim, eu disse, e acrescentei que foram também os pequenos movimentos espontâneos de proteção que meus braços estavam fazendo.
Eu aposto, ela refletiu, que se os tremores que frequentemente ocorrem depois de uma cirurgia fossem permitidos em vez de reprimidos a recuperação seria mais rápida e talvez até a dor do pós-operatório fosse menor.
É isso mesmo, eu digo, sorrindo e concordando com ela. [39. Estou aliviado com a recuperação das minhas faculdades intelectuais e a minha capacidade de reservaquando as coisas ficam feias.]
E eu o deixo, caro leitor, mais uma vez com o sábio conselho do antiquíssimo Livro das mutações chinês:
Quando um homem aprende com o coração
o que significam dor e tremedeira,
ele está protegido contra qualquer terror
produzido por influências externas.
I Ching, hexagrama 51 (cerca de 2000 a.C.)
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