Maharaj palestras
Por que a vida é cheia de conflitos?
NADA EXISTE, MAS PARECE EXISTIR
VOCÊ NÃO ESTÁ CONFINADO A SEU CORPO
DESDE QUANDO VOCÊ É E DEVIDO A QUÊ?
CONSCIÊNCIA, A ILUSÃO PRIMÁRIA
VOCÊ ESTAVA AUSENTE NO SEU PRIMEIRO ANIVERSÁRIO
SUA CONSCIÊNCIA É UMA ENGANAÇÃO
O NASCIMENTO E A MORTE SÃO MITOS
SUA EXISTÊNCIA É UM SER EMPRESTADO
O INTELECTO É PRODUTO DA MENTE
EM ÚLTIMA ANÁLISE, CONHECIMENTO É IGNORÂNCIA
A TRANSCENDÊNCIA DE SE TORNAR E DE SER
“EU NÃO SEI” É O MELHOR ESTADO DO SER
SUA NECESSIDADE DE EXISTIR O TORNOU LIMITADO
TODOS OS INDIVÍDUOS SÃO IMAGINÁRIOS
POUQUÍSSIMOS DUVIDAM DO CONTEÚDO DAS ESCRITURAS
A MENTE-INDICADORA, NÃO DITADORA
SEUS CONCEITOS TOLDARAM O EU REAL
COMO FICAR LIVRE DA DOENÇA “EU SOU”?
VOCÊ É A PROVA DE QUE DEUS EXISTE
SEUS PAIS SÃO O OURO E VOCÊ O ORNAMENTO
ESTOU EM ESTADO DE NÃO CONHECIMENTO
A MANIFESTAÇÃO NÃO TEM PROPÓSITO
MAIOR A GRANDEZA, MAIOR A SERVIDÃO
VOCÊ PROCURA A VERDADE SIMPLES – QUE FOI DIFICULTADA
QUEM VEM A SABER QUE TODA EXISTÊNCIA É FALSA?
O QUE VOCÊ ACEITA COM PLENA FÉ, ACONTECE

RECONHECIMENTO
Eu não estaria cumprindo meu dever se não mencionasse a única pessoa responsável por eu conhecer Sri Nisargadatta Maharaj. Minha irmã mais velha, a falecida Sra. Sunanda Ramachandra Prabhu, foi responsável por me levar a Maharaj, apesar de eu tentar evitar o encontro por uns dois anos. Ela me fez ler os escritos de Maharaj para mudar minha relutância em conhecê-lo. E por fim teve que me levar até ele pela mão, como uma criança. Em meu primeiro encontro com Maharaj a tarefa de minha irmã terminou, pois já na primeira vez dissolveu-se uma separação de séculos.
Dedico este livro à Sra. Sunanda, sem cujos esforços minha vida teria perdido completamente seu significado e propósito.
MOHAN GAITONDE
NOTA DO TRADUTOR
PARA O INGLÊS
Fui muito afortunado por ter satsanga com Sri Nisargadatta Maharaj durante cinco anos. No período de 1978 a 1981 fui o tradutor das palestras vespertinas, das 17h às 18h30 todos os dias.
Maharaj não esperava que interpretássemos suas respostas às perguntas específicas dos visitantes. Ele insistia conosco para que traduzíssemos literalmente, sem omitir nenhuma palavra. Ele dizia: “Quando uma pergunta é feita, a resposta provém de Nirvikalpa (estado livre de conceitos). A resposta só terá o impacto certo em quem pergunta se houver tradução literal disto” (as palavras de Maharaj). Ele era muito rígido neste ponto.
Para Maharaj, todo visitante era igual a ele. Ele se surpreendia com o caos que a imaginação e os conceitos criavam. Assim como queremos despertar uma pessoa acometida por pesadelos, Maharaj fazia um esforço sincero e profundo para explodir conceitos e estabelecer um despertar verdadeiro. Todos os buscadores espirituais apreciavam a paixão incansável que ele tinha por compartilhar sua real compreensão.
Diferentemente das sessões matutinas, à noite os visitantes faziam menos perguntas. Talvez eles descansassem à noite e apreciassem ouvir Maharaj falar mais. Após começar a palestra, Maharaj costumava convidar as pessoas a perguntar em caso de dúvidas. Os recém-chegados, quando havia, começavam então a fazer perguntas.
Quando Maharaj falava muito tempo, tipo cinco minutos ou mais sem parar, era difícil traduzir palavra por palavra em sua presença. Estas palestras estão agora disponíveis em fitas cassete para traduções palavra por palavra, sem perder nada. Nos livros publicados pelos escritores americanos confia-se totalmente nas traduções em inglês, que são incompletas. Os leitores talvez achem esta tradução interessante e útil.
Não podemos esperar que um leitor novo e cético aceite este material incondicionalmente, mas se ajudar a provocar pensamentos mais sérios, já será uma grande conquista.
Há muitas repetições no livro, que foram mantidas por serem necessárias para despertar do sono profundo da ignorância.
Maharaj alertava seus discípulos a não se contentarem com o mero conhecimento das palavras, que os tornaria hábeis nos debates espirituais. Quase todos os dias ele enfatizava a importância da meditação sem palavras no “Eu Sou”, um processo autorrevelador que leva ao conhecimento do Eu Real.
O conteúdo do livro provém das gravações só das conversas das palestras matutinas. As palestras não foram gravadas pensando em escrever um livro. A principal ideia ao gravar foi ter um satsang contínuo de Maharaj, mesmo depois de seu Maha Samadhi. Este propósito foi cumprido até agora e continuará até o fim.
Mesmo após ter lido quase todos os livros das palestras de Maharaj publicados até agora, considero algumas partes das gravações das palestras vespertinas totalmente novas e sempre recentes para todos os leitores espirituais. Por isso esta nova publicação.
Agradeço ao Dr. N.Vanaja por obter o gravador para as palestras e a minha esposa Jayashri pela operação parcimoniosa do gravador, todas as noites.
MOHAN GAITONDE

INTRODUÇÃO
É verdadeiramente uma honra ter sido convidado por Mohan e Jayashree Gaitonde (tradutores vespertinos de Maharaj) para escrever uma introdução para os diálogos gravados de Sri Nisargadatta Maharaj intitulados “Nada é tudo”.
Parafraseando Sri Nisargadatta Maharaj: fique no limite, no espaço onde o ser se torna não ser e o não ser se torna ser.
Como acontece com todos os discípulos de Maharaj que já conheci, as palavras são insuficientes para descrever sua reverência, devoção e gratidão por seu amado Guru Nisargadatta Maharaj.
Durante quase 35 anos, o impacto de “seus” ensinamentos inunda e sobrepuja “minha ilusória existência” com sua objetividade, precisão e habilidade para apontar e descrever AQUILO que é indescritível em palavras.
Como Guru e mentor espiritual, Nisargadatta Maharaj mudava e moldava por completo o curso de cada pessoa que ele tocava. Devo reconhecer francamente que quando o conheci eu não suspeitava e nem poderia imaginar o extraordinário impacto que o tempo que passei com ele catalisaria e faria acontecer. Parafraseando Maharaj:
As palavras de um homem realizado não são desperdiçadas,são como sementes que esperam o tempo propício para brotar, mas que uma vez plantadas, frutificarão.
Ao escrever uma Introdução para os ensinamentos de Maharaj, recordo Jean Dunn (uma das discípulas ocidentais mais próximas de Maharaj), quando comentou:
“Cada frase dita por Maharaj era como um Upanishad”. Antes de continuar tentando descrever o “estilo” do método e dos ensinamentos de Maharaj de modo resumido e conciso, permitam que eu narre uma interação que tive com ele. Espero que o diálogo ajude a abrir uma janela para ver quem ele realmente era, de onde vinha, e os ensinamentos que apareciam “por intermédio dele”.
Para começar, eu, como a maioria, considerava Maharaj uma pessoa e um ser “iluminado” e por isso assim o tratava e via.
Logo vim a entender que Maharaj não era nem uma pessoa, nem um ser “iluminado”.
Para ilustrar: certo dia, no final da década de 1970, eu lhe fiz uma pergunta.
Maharaj respondeu (com muita veemência!!!):
“Você acha que é uma pessoa, então acha que Maharaj é uma pessoa. Você acha que é uma entidade ou divindade, então acha que Maharaj é uma entidade ou divindade. Maharaj não é uma pessoa, nem uma entidade, nem uma divindade. Maharaj é Consciência Cósmica!”
Só posso dizer que esta “experiência” mudou “minha consciência” e me permitiu entender o que parecia ocorrer. Compreendendo que Maharaj não era uma pessoa, entidade ou divindade e sim a própria Consciência Cósmica talvez ajudar a iluminar os ensinamentos e o mestre que pareciam acontecer na salinha de Khetwadi, perto da Grant Road em Mumbai, durante quase 45 anos.
Parafraseando Nisargadatta Maharaj: Você acha que eu sou uma pessoa e que você é outra pessoa e que nós estamos conversando. Na verdade, só existe consciência.
a originalidade de maharaj
questão era: o que tornava Nisargadatta Maharaj tão diferente de qualquer outro Guru ou mestre que eu havia encontrado antes?
Para começar, em meu primeiro encontro com ele eu na verdade não consegui achá-lo na sala. Por quê? Porque com todos os Gurus que eu conhecia, a “energia” parecia jorrar de um ponto específico no espaço-tempo. Com Maharaj, havia uma enorme quantidade de “energia”, uma força magnética que me atraía até sua presença, mas a “energia” não parecia estar vindo de sua pessoa. Além disso, ele tinha uma aparência muito comum. Não usava roupas brancas e uma longa barba, nem estava todo de laranja com a cabeça raspada. Em vez disso, ele se vestia e tinha a aparência igual a qualquer outra pessoa da vizinhança. Sem atrair atenção para sua pessoa (ele costumava dizer: “você não é uma pessoa” ou “não existe uma pessoa”), “ele” apenas ficava sentado no chão fumando um beedi (cigarro indiano fino enrolado numa folha de tendu). Não havia jogo espiritual, nem fingimento, nem hierarquia, nem organização e absolutamente nenhum jogo.
Certa vez ele disse:
“Não estou aqui para acumular estudantes.”
Paradoxalmente, o efeito geral era o de ser atraído magneticamente a “ele”. Seu “modo de ser” (bhaav) me deixava encantado com um profundo senso de reverência, enquanto eu tentava assimilar e absorver cada palavra que ele falava.
Outra coisa que tornava Maharaj tão único era que “ele” nunca me pediu nada, nunca quis nada de mim, em uma palavra, ele nunca precisou nada de mim. Era totalmente centrado no aluno, devoto ou discípulo e não no Guru. Ele também nunca tentou me encaixar em nenhum modelo, papel ou sistema de crenças. Por causa de tudo isso, era totalmente confiável, pois eu sabia que ele sempre estava “do meu lado”.
Outro aspecto único de Maharaj foi ter reavivado a chama de minha compreensão inicial de “espiritualidade”, com o “Descubra quem você é”. E embora isso sempre estivesse no centro de meus desejos e de minha compreensão, eu tinha sido desviado para acreditar em mitologias culturais e espirituais e também no “jogo espiritual”. Sutilmente, isso tinha me desviado de “descobrir quem eu sou” e de “interiorizar” e acabei ficando mais do tipo “me ajustar”.
Outro aspecto de Maharaj era sua extraordinária objetividade e sua didática agressiva. Como ele não precisava nem queria nada de você, nem precisava que você voltasse para casa para fundar um centro ou ser parte de alguma organização com uma missão, era livre para ser direto e brusco. Seu estilo didático era tão direto que às vezes a “dor” (quando ele confrontava meus conceitos mais sagrados e não questionados) era avassaladora, mas ao mesmo tempo extraordinariamente esclarecedora, esvaziadora, libertadora e de certo modo liberadora.
Quando eu perguntava alguma coisa, recebia uma resposta clara e direta ou outra pergunta de volta, uma “pergunta inquiridora” que me levava “mais fundo”. Ele questionava minha pergunta, apontando e focando com um laser do tipo zen-koan, que absorvia minha atenção e desconstruía meus conceitos.
Nisargadatta Maharaj: “Esta fé no ´Eu Sou: do que ela depende, a fé e a crença no que você é – ela depende do quê?”
Com um foco tão intenso, a inquirição que ele propunha, quando “levada para dentro” e contemplada, além de dissolver a pergunta fazia com que a resposta fosse revelada a partir do “interior”. Mais impactante ainda: logo a pergunta, a resposta e o “eu” que você pensava ser e que tinha resolvido fazer a pergunta se dissolviam no nada.
“Minhas palavras, se implantadas em você, destruirão todas as outras palavras e conceitos.” Nisargadatta Maharaj
Quero comentar que eu tinha falsas ideias por ter estado com muitos Gurus no passado. Eu havia erroneamente fantasiado que se você fosse “realizado”, poderia “ensinar”, transmitir e repassar conceitos de algum modo. Acabei por compreender que não era verdade. Reconheci que não havia correlação entre “Realização” e habilidade de ensinar. O que era tão extraordinário e liberador é que Maharaj tinha ambas: habilidade de ensinar e “Realização” e eu logo aprendi que isso é muito raro.
Este acontecer-ensinar era insuperavelmente poderoso. Maharaj ia ao encontro de cada estudante “onde ele estava”. Como um verdadeiro “Mestre do Ensino” se desfazendo de metáforas culturais, ele traduzia suas metáforas culturais e indicações de modo a se adequarem a quem fazia a pergunta. Para um ocidental, isso tornava a transmissão dos ensinamentos uma coisa contínua e uma experiência extasiante, pois era como lâmpadas se acendendo “dentro”, já que caíam por terra conceitos muito acalentados e o vazio-plenitude era revelado.
Então, com grande “força de intenção”, ele fazia os buscadores irem além e abandonarem seus conceitos sobre quem ou o quê eram. Deste modo, a intensidade de suas respostas e das perguntas focadas na inquirição nos desalojava de qualquer estado em que estivéssemos ou em que imaginássemos estar.
A maravilha de Maharaj era a combinação entre “Realização e habilidade de ensinar”, que apontavam diretamente para o “caminho” ou “portal” perfeito para você, fosse qual fosse, que destrancaria a “sua” porta. Em outras palavras: muitos instrutores apresentavam a prática espiritual (sadhana), fórmula ou receita “tamanho único”, que era a mesma para todos os estudantes ou devotos. De algum modo, Maharaj conseguia dar respostas “customizadas” para cada questionador. E era exatamente porque ele não precisava nem queria nada de você que sua objetividade, clareza e integridade entravam em você como um vírus, desmanchando conceitos e também o “eu” que acreditava ter conceitos.
“Quero explodir todos os seus conceitos e colocá-lo no estado do não conceito.”
Nisargadatta Maharaj
OS ENSINAMENTOS
Vistos de longe, os ensinamentos de Sri Nisargadatta Maharaj eram bem simples.
O contexto geral, resumidíssimo, era:
Advaita (termo sânscrito: não dois, ou, uma substância, não duas). Em última análise, é claro, não havia um.
E Vedanta (Neti, Neti, termo sânscrito: “isto não, isto não”). Descarte tudo (termo sânscrito: mama-rupa, nomes e formas) como isto não, isto não.
Este era o contexto geral junto com: descubra, quem é você?
Permaneça no Eu Sou, abandone tudo mais ou segure-se no Eu Sou e abandone tudo mais.
Tudo que você pensa que é,você não é.
Parafraseando Nisargadatta Maharaj: Para descobrir quem você é, descubra primeiro quem você não é.
ALÉM DO EU SOU
Quando um estudante perguntava a Maharaj “Quem é você?”, ele respondia: “Nada perceptível ou concebível.”
Em outras palavras, se você consegue perceber ou conceber, não é você, portanto descarte isso.
Aos que lá estavam para compreender e obter mais informações “espirituais” (conceitos espirituais), ele dizia: “Se você consegue esquecer ou lembrar de algo, não é você, portanto descarte isto.”
Falando de modo simples, descarte tudo que é perceptível e concebível como “isto não, isto não”.
E “Fique na consciência como um portal para o Absoluto”.
À primeira vista isto parecia simples. Metaforicamente é como descascar uma cebola até não sobrar nada, à medida que a mente começa a “esvaziar a mala”. Ou, é como puxar um fio numa bola de barbante. Encontrando o fio organizador e puxando-o, a bola se desenrola. Do mesmo modo, Maharaj dirigia a “sua” atenção para “seus” conceitos ou estado em que “você” estivesse e com isso produzia o desenrolar da mente e de seus conceitos mais acalentados (e acredite, Maharaj sabia muito bem como puxar o seu fio!)
O ABSOLUTO
O que tornava Maharaj ainda mais único é que ele falava do Absoluto, um estado anterior ao Eu Sou e à consciência e que basicamente o Eu Sou e a consciência não eram isto, daí sua contínua afirmação que ele repetia, repetia e repetia:
“Anterior à Consciência”.
Este “entendimento” estava muito além de qualquer coisa que eu tivesse ouvido ou lido naquela época.
Reconheço que Anterior à Consciência não era algo claro para mim na década de 1970. Mas muito tempo depois, percebi que você só pode ver e compreender através do estado de consciência ou no estado de consciência em que você imagina estar ou do qual está próximo. Em outras palavras, é a lente formada pelos conceitos pelos quais um “eu” imagina estar vendo ou compreendendo. O imaginário “eu” só pode ver e compreender através da lente imaginária das ideias, isto é, pensamentos, memória, emoções, associações, percepções, etc. Assim o “eu” (a ilusão de que existe um “eu) só consegue ver suas próprias ilusões. Por essa razão, o ilusório “eu” só consegue entender Maharaj a partir de quem e do que imagina que era e portanto quem ou o que o “eu” imaginava que Maharaj fosse.
De modo simples, digo a palavra “vazio” e pode-se imaginar, visualizar ou vivenciar um vazio como no espaço sideral, MAS a imagem do vazio ou do espaço não é o que isso representa. Em resumo, Maharaj estava além de qualquer coisa que “eu” conseguisse perceber ou conceber. Em minha última visita a Mumbai em 2007, um dos discípulos antigos de Maharaj disse: “como poderíamos compreendê-lo? Ele estava muito além de nós.”
Nisargadatta Maharaj: “Tudo que você compreende só pode ser compreendido através de seus conceitos.”
Reiterando: o estilo didático de Maharaj era rigoroso, incansável, persistente e tenaz. Ele se mantinha no cerne da questão, nunca se distraía, martelando o ponto de que tudo que é perceptível e concebível dependem da crença de que Você É ou Eu Sou. Em última análise, com o Eu Sou se dissolvendo naturalmente, como dizia Maharaj, “Você Não É”. Deste modo, havia a aparência de perguntas sendo respondidas, mas quem estava respondendo as perguntas?
Nisargadatta Maharaj: “No estado absoluto, eu nem sei que sou.”
As interações com ele eram tão monumentais que mesmo hoje sua objetividade continua indescritível, deixando-me sem fôlego, vazio e cheio de reverência. Como se pode imaginar, é muito difícil resumir seu estilo didático e seus ensinamentos numa introdução tão curta.
Assim, espero que você compreenda que esta é só uma pequena tentativa. É “minha” interpretação. É a ponta do iceberg, uma vista, uma janela, escrita por apenas um dos seus discípulos. Esta oferenda é só uma fatia, uma minúscula descrição da incomparável voz de Nisargadatta Maharaj, uma Voz Daquilo que Não É.
Talvez a melhor maneira de concluir seja lembrar uma época em que ele começou a andar de um lado para outro e gritar para mim:
“Não há nascimento
não há morte
não há pessoa
é tudo um conceito
é tudo uma ilusão!!!!!!”
Ele dirigiu um poderoso foco energético para mim e “luz” passou de sua mão através de “mim”.
A lembrança daquele dia ainda permanece comigo mais de 33 anos depois.
Que estes ensinamentos encontrem um lar em seu coração.
Com reverência e amor por meu
GURU SRI NISARGADATTA MAHARAJ
Pranams
Nisargadatta Maharaj Ki Jai!
11 de julho de 2012
STEPHEN H. WOLINSKY
Aptos, Califórnia
PREFÁCIO
Jai Guru…
Este livro é um satsang vivo com Satguru Sri Nisargadatta Maharaj. E por que não seria, uma vez que o Sr. Mohan Gaitonde, o tradutor vespertino de Maharaj, que teve o privilégio de estar com Maharaj de 1979 a 1981, neste livro transcreve estas conversas raras e inéditas com Sri Nisargadatta. O livro tem importância especial no sentido de que, sendo o Sr. Gaitonde fluente em marati, a língua que Maharaj falava, fica mais fácil para o leitor descobrir o verdadeiro significado das palavras de sabedoria de Maharaj. E o amado irmão-Guru Dr. Stephen Wolinsky, que também teve a oportunidade de satsang com Maharaj, gentilmente escreveu uma introdução aos ensinamentos de Maharaj para benefício da próxima geração de buscadores da Verdade.
Foi meu privilégio conviver tanto com o Sr. Gaitonde quanto com o Dr. Wolinsky e agradeço ao Sr. Mohan e à Senhora Jayashree Gaitonde por me oferecerem a oportunidade de escrever este prefácio. É um prazer oferecer minha gratidão a Satguru Nisargadatta Maharaj por meio deste prefácio.
As palavras de Satguru têm a força de despertar e erradicar a doença permanentemente quando refletimos nelas, quando o pensamento se aprofundar nelas. Nisargadatta Maharaj diz: “Para o buscador sincero, a liberação é possível até pelo simples fato de ouvir este conhecimento.” É o que também aconteceu com Nisargadatta Maharaj depois de conhecer seu Guru Sri Siddharameshwar Maharaj em 1933.
Todos aqueles que já chegaram em CASA certamente não estariam lendo este livro. Assim como é altamente improvável que uma pessoa sadia visite o médico em busca de tratamento e que alguém que já tenha se formado faça matrícula numa escola.
Este livro é para todos os buscadores ardentes que procuram a Verdade e para os que tomam os remédios de Nisargadatta Maharaj há muito tempo. Mas qual é o propósito de qualquer um destes remédios? Será apenas acumular remédios aos montes ou será se livrar da doença e do remédio para sempre? Quando encontro ou conheço pessoas que leem os livros de Maharaj há muitos anos, orgulhando-se de sua “lealdade” na leitura destes livros, sinto a mais profunda empatia. Afinal, por quanto tempo se pode continuar a tomar os remédios? Muitas vezes sinto que falta algum elo dentro do próprio buscador.
Neste livro Nisargadatta Maharaj mais uma vez oferece “O Remédio Supremo”, embora num frasco diferente. Em minha opinião, Nisargadatta vem descrevendo mais os efeitos do remédio do que oferecendo receitas e espera que o fervoroso buscador use de discernimento intuitivo e perceba por meio de reflexão contínua e contemplação. Mas surge a pergunta: será suficiente a mera contemplação em palavras da mais elevada sabedoria?
Mesmo tendo ouvido os mais elevados ensinamentos de Nisargadatta Maharaj através de várias conversas, o modo como Nisargadatta se “realizou” no curto período de três anos depois de encontrar seu Guru continua ignorado até agora! O caminho que Nisargadatta trilhou ainda permanece obscuro. A sabedoria revelada através de Nisargadatta Maharaj não vem só por meio de sua própria contemplação, mas também por sua devoção, dedicação e entrega a seu Guru e aos ensinamentos dele. Além de sinceridade e esforço, sua fé inegável no Guru é ignorada, mas na verdade agiu como uma enzima natural para digerir a sabedoria compartida por seu Guru e verdadeiramente perceber seu Eu Real. Tenho certeza de que um buscador arguto definitivamente apreciará esta informação.
Muitas vezes me surpreende ver a presença de confusão e a ausência de clareza nos buscadores, mesmo sendo leitores regulares dos ensinamentos de Maharaj e apesar da objetividade de seus pronunciamentos. Sinto que os leitores devotados podem refletir sobre algumas coisas antes de ler este livro. Primeiro, com “quem” Nisargadatta está falando? E “quem” está lendo ou ouvindo Nisargadatta? Pois ele diz, incansavelmente: “Estou falando para a consciência e não para o corpo-mente.” O buscador que ler o livro lembrando disso com certeza transcenderá além de qualquer leitura e necessidade, que é o propósito único e pleno do ensinamento de Maharaj.
Nada é tudo. Alguém pode perguntar: “como isto é possível?” Não estão todos perdendo tempo buscando “algo”? Por quê? Pode ser porque cada um supõe ser “alguém”. Mas nunca é para achar este algo em alguém. Na verdade, a pressuposição e a convicção de ser apenas um corpo é o obstáculo básico para perceber quem se é realmente. O momento do agora está cheio e pronto para lhe entregar Tudo se você estiver pronto para aceitar Nada!
De algum modo, a palavra “Nada” não interessa ao buscador, enquanto a palavra “Tudo” o fascina. Por quê? Por que se teme tanto o “Nada”? A ideia de nossa ausência, mesmo que momentânea, parece criar medo da não existência, embora cada um e todos desfrutemos a ausência de um “eu separado” todas as noites, quando dormimos profundamente, O medo do Nada é o medo da morte que, por sua vez, é o medo do desconhecido. A incapacidade de reconhecer o segredo oculto além do Nada de algum modo obriga o buscador a fechar as portas do Entendimento Supremo, na ausência de buscador. Em resumo, a palavra Nada repele e a palavra Tudo atrai, quando estas aparentes contradições são percebidas superficialmente. As contradições não existem externamente, mas sim como uma divisão interna na mente do buscador.
Que Nisargadatta Maharaj faça jorrar bênçãos nos buscadores dedicados de modo a reunirem coragem para enfrentar o supremo e divino paradoxo de que Nada é Tudo.
Se você está mesmo pronto para Nada, este livro é um perfeito teste. Este livro, que focaliza os ensinamentos finais de Nisargadatta Maharaj, certamente transcenderá a busca na Compreensão de quem você é, acabando para sempre com a busca.
É um grande prazer apresentar este puro buquê de indicações de Satguru Sri Nisargadatta Maharaj para todos vocês. AQUILO, o eterno estado onde nada falta e onde nada mais é necessário. Nem a experiência do estudo, nem o estudo da experiência podem revelar AQUILO. AQUILO está antes e além de ambos. A divina luz que deleta permanentemente a ideia de distância e de trevas entre você e seu Eu Real é o Satguru. Nada pode competir com a Graça de Satguru.
Satguru Sharan
Com amor,
NITIN RAM
Autor de “Self Calling: Self Reminder Meditations”
BUSCA OU ENTENDIMENTO?
A Busca se baseia em alguma razão, o Entendimento não tem nenhuma!
A Busca tem esforço e propósito, o Entendimento é espontâneo e sem esforço!
O Entendimento está ausente na Busca, enquanto o “buscador” está ausente no Entendimento!
A Busca é formada por buscador, buscar e buscado, ao passo que esta trindade está completamente ausente no Entendimento!
A Pesquisa consiste de pesquisa, pesquisador e pesquisado, o Entendimento nega o próprio “pesquisador”!
A Busca é formada por fases, intervalos e talvez algumas práticas, ao passo que o Entendimento é eterno e ocorre apesar disso!
A Busca tem um objetivo, ao passo que o Entendimento em si não possui objetivo.
A Busca tem o apoio de ouvir, ler ou refletir, enquanto o Entendimento é autossustentável (independente)!
O temor de esquecer o conhecimento acumulado prevalece na Busca, enquanto até mesmo o pensamento de ter compreendido está ausente no Entendimento!
O cenário da Busca é a dualidade, enquanto o Entendimento é não-dualidade sem cenário!
A Busca é um estado sempre mutável, ao passo que o Entendimento é um estado sem estado!
Na Busca existe o cadeado e ocorre a pesquisa pela chave, enquanto no Entendimento prevalece a convicção clara de que cadeado e chave nunca estiveram separados!
Jai Guru
NITIN RAM
26 de novembro de 1979
Por que a vida é cheia de conflitos?
Visitante: Eu estou fazendo perguntas e você está respondendo. Parece que para você todas essas perguntas são irrelevantes. Posso saber o que você considera importante?
Maharaj: Em sua experiência mundana, o que é o mais importante?
V: Não sei.
M: Você passou a saber que é, que existe. O que pode ser mais importante para você além do fato de que você é? A coisa mais importante é seu ser ou consciência. Mas o estado “Eu Sou” é a qualidade de seu alimento físico. Enquanto a consciência está presente você pode adquirir conhecimento mundano e se orgulhar disto, entretanto tudo isso só vai durar enquanto os fluidos alimentares do corpo estiverem úmidos. Quando os sucos secarem completamente, o Vasudeva, ou aquele que sente o cheiro de seu ser, desaparecerá.
V: Minha assim chamada existência depende de fluidos alimentares.
M: Quando você voltar para seu país, as pessoas vão perguntar: “Que conhecimento você obteve lá?” O que você vai responder?
(Silêncio)
M: Tudo isso equivale a conhecimento ou jnana (cuja pronúncia correta é dnyana). Além está Vijnana ou Parabrahman. O não-manifesto se manifestou com a consciência de uma criança ou da alma individual.
V: Eu sou esta criança.
M: Quando você está aqui, fale só de sua própria experiência. Não é sua consciência de criança a responsável pelo conhecimento que você tem de seu mundo? Se a consciência de criança não tivesse surgido, você teria feito alguma pergunta agora?
(Nenhuma resposta)
M: No início a consciência surge, e é como o espaço e com amor por si mesmo. É amor por existir. Independentemente de quem vem aqui e independentemente da erudição que tenha, eu sei quem veio e consigo apreendê-lo. Sem isso, nem ele nem eu conversaríamos.
V: É possível mudar a consciência de criança para consciência de adulto?
M: É como perguntar como aumentar o espaço. Demolindo prédios, o espaço aumentará. O estado de ser é a qualidade dos fluidos alimentares. Quando eles desaparecem o ser vai para o estado de não ser. A consciência de criança não é conhecimento, e sim ignorância. Antes da consciência não existe conhecimento “Eu Sou”. Isso é conhecimento transcendente, Vijnana ou Parabrahman. Do estado não-manifesto do não ser surge a consciência de criança. Como isso pode ser conhecimento? A consciência é conhecimento material, como é a qualidade de sattva ou fluidos alimentares. Sem sattva a consciência não pode aparecer.
V: Não tenho sorte por ter nascido? A consciência não é uma bênção?
M: O maior erro do ser é surgir do estado de não ser.
V: Você está sugerindo que os casais não devem procriar?
M: (em inglês): Olhe para si mesmo.
V: Por que a vida é cheia de conflitos?
M: Você deve ter notado o conflito entre os cinco elementos. Em última análise, este conflito se estabelece na Terra. Cada grão de arroz, de trigo, etc., é composto dos cinco elementos. O conflito vai para o alimento que você ingere. Todos os seres vivos compartilham do alimento e assim, do conflito.
Assim como uma pessoa é afetada pelo consumo do álcool, também somos afetados pelos conflitos no alimento que ingerimos.

27 de novembro de 1979
O QUE É MEDITAÇÃO?
Maharaj: Nosso senso de existir não tem corpo. É denominado Brahman. Sem você ter conhecimento, o cântico “Eu sou Brahman” acontece em seu interior. Aquele que percebe sua verdadeira identidade como Brahman é adorado pelos aspirantes espirituais. Brahman ou Deus é sua verdadeira forma. Esta identidade não tem morte. Você tem medo da morte porque se identifica com o corpo. Se desenvolver a fé como está sendo instruído agora, jamais experimentará a morte. Então não terá necessidade de perguntar a ninguém sobre assuntos espirituais. Em vez disso, as pessoas o visitarão em busca da Verdade.
Visitante: O que é meditação?
M: Não perder de vista sua verdadeira identidade é meditação. A identidade física não deve ter lugar em sua fé. Quando você percebe sua consciência como o Deus de todos os deuses descobre-se infinito e ilimitado.
V: Não é Deus maior do que eu?
M: Sua consciência é a prova de que Deus é. Sem você, quem está lá para reconhecer a grandeza Dele? Não esqueça deste fato. O conhecedor da consciência não tem morte. Ele abandona o corpo em estado beatífico.
V: No mundo, temos prazer em realizar coisas.
M: Mas o risco e o medo do fracasso acompanham isso. O pior medo é o da morte. Diz-se que os tesouros ocultos são protegidos por fantasmas de serpentes. Você tem que agradar aos fantasmas com a oferenda adequada antes de tocar o tesouro. Negociações incorretas podem conduzi-lo à morte.
Da mesma forma, para conhecer o Eu Real você tem que fazer a oferenda de sua identidade física. Depois disso, o Eu Real fica livre do corpo. Então o fim do corpo se torna beatífico.
V: Será que cantar “Eu não sou este corpo” ajuda?
M: Você tem que ser como é na realidade. Você é a consciência e não um homem ou uma mulher. Você é o conhecedor da luz. Você pode avaliar a claridade da luz e não o contrário.
V: Qual a influência de Maya ou ilusão?
M: Maya lhe deu a forma física. Mas quando você encontra seu Sadguru ele lhe dá a forma de sua consciência. Antes você era conhecedor do corpo, que mudou para conhecedor da consciência. Este estado é denominado Vijnana ou Parabrahman.
V: Isto está além da manifestação?
M: A manifestação se deve aos cinco elementos. Enquanto você for parte disto haverá sofrimento físico. O discípulo que vê seu Guru como infinito percebe o mesmo que a forma do Guru. Vendo seu Guru como Paramatma, o discípulo percebe-o como a si próprio.
V: O que acontece com o conhecimento do Jnani?
M: O conhecimento se dissolve ou se funde no Jnani. O Jnani não se dissolve. Os estados de vigília e sono estão ausentes no Jnani. Ele não tem nome ou forma. Tudo isso permanece até conhecer o Eu Real, mas não além. Tudo isso é muito fácil, mas parece ser de difícil compreensão. Só alguém raro consegue percebê-lo. Temos que transcender não só o corpo, como também a própria consciência. Vai-se além de todo o conhecimento. Todas essas mudanças acontecem sem qualquer rejeição deliberada das identidades antigas.
Como uma vasta massa de água caudalosa, a partir da suprema consciência a consciência entra em existência. Purusha é espírito cósmico, Pura significa enchente. Purusha é apenas uma testemunha. Todas as atividades se devem a Yoga-maya ou à ilusão iogue. Sem ser convidada, ela assume as formas para agir. As verdadeiras ações se devem ao alento vital, que se deve aos cinco elementos. Os cinco elementos, as três gunas (sattva, rajas e tamas) e Prakriti e Purusha somam 10. Estes são meus órgãos de conhecimento e ação. Devido ao sattva ou essência dos alimentos, a consciência aparece e todo sofrimento se deve a ela. Todos esses acontecimentos e a experiência por causa da consciência não foram solicitados e são excessivos. Não tenho participação nisto tudo que acontece.
V: Você poderia descrever seu estado de modo que eu possa entendê-lo?
M: Palavras não podem me descrever. As palavras e seus significados são totalmente inadequados para Aquilo. Você também é a mesma coisa.
V: Então como é que eu me identifico com o corpo?
M: Quando veio esta identidade?
V: Não me lembro. Mas deve ter sido depois de meu nascimento.
M: Você estava presente na hora em que nasceu?
V: Já que nasci e meu nascimento foi comemorado pelos meus pais, devo ter estado presente lá.
M: Então isso não é o que você sabe, é só uma inferência.
V: É verdade.
M: Tente relembrar o acontecimento mais remoto em sua vida. Quantos anos você tinha?
V: Lembro de minha visita a Niagara, quando eu tinha quatro anos de idade.
M: Este é o começo de sua identidade. Por volta desta idade você deve ter reconhecido sua mãe. Ela lhe disse que seu nome era Wilson e que você era um menino e não uma menina.
V: Se eu fosse Paramatma, deveria saber tudo sobre mim sem minha mãe me dizer isso.
M: Paramatma está num estado de não ser. É semelhante ao que ocorre no sono profundo.
V: Ele está sempre em sono profundo?
M: Ele nunca dorme, daí o termo vigília também não se aplica a Ele.
V: É muito interessante. Por favor, me diga mais sobre Aquilo.
M: A época em que você foi concebido no ventre de sua mãe foi o início da manifestação. Antes disso, você era não-manifesto e estava no estado de não ser. Depois da concepção, o estado de não ser continuou. Sua manifestação é semelhante ao súbito aparecimento da luz quando se risca um fósforo. Só há luz – não há nada antes e nada depois disto. Sua identidade com nome e forma começou a funcionar a partir dos quatro anos. Como você surgiu de um estado de não ser, teve que iniciar seu conhecimento a partir de zero. Você não sabia quem era. A coisa mais próxima de você era seu corpo. Naturalmente você sentiu que era o corpo e sua mãe e os outros confirmaram isto. Também poderia ser o contrário, isto é, sua mãe dizer que você era o corpo e que tinha o nome de Wilson. Você não teve outra escolha senão colocar seu selo de confirmação ali.
Depois do surgimento da forma viva, Paramatma aceita nome e forma e se ajusta ao que acontece ao redor. O que está acontecendo e porque, Ele não sabe.
Toda a vida da forma é como um fósforo aceso e continua pelo tempo que durar a luz. Os cinco elementos têm uma forma?
V: Não.
M: Não existe criador de tudo isso. É tudo um acontecimento espontâneo. Tudo está bem até a forma surgir com o estado de ser, com amor por si mesma, amor por ser. Com a vida começa a luta pela sobrevivência. Todas as atividades de todos os seres vivos são para sustentar o estado de ser. Isto inclui a proteção do corpo e a busca por alimento. Fora disto eles não têm conhecimento de sua origem. A substância cósmica e o espírito cósmico não têm corpo, mas todos os corpos vivos entram em existência por causa deles. Todo o espetáculo do mundo não foi solicitado e não há nenhuma necessidade dele. Eu digo que meu corpo é a união dos cinco elementos. Isto se aplica a todas as formas, inclusive à sua. Você sabe disto. Seu corpo ocupa espaço, que é parte dele. Há ar ali. A temperatura do corpo mostra a presença de calor. A maior parte do corpo é água e todo o conteúdo restante é da terra. O corpo todo é o alimento da consciência, que é a qualidade da essência do alimento.
Em toda a existência, o sofrimento só ocorre devido à consciência.
V: Diz-se que o nascimento é uma dádiva de Deus.
M: Esta é sua própria experiência?
V: (Nenhuma resposta)
M: É o prazer momentâneo de alguém e tenho que sofrer 100 anos por causa disto. Não é? Por que devo sofrer pelo ato de alguém? Por que devo ser punido? Este é só um exemplo.
Dos cinco elementos parte um fluxo de consciência de várias formas. Os cinco elementos não sofrem. Só as formas sofrem por causa da consciência. Na forma humana o sofrimento é maior, devido à esperança de um futuro melhor e então por isso devo viver. Tudo isso é a jogada da ilusão básica. Quando você está doente, toma um remédio. Será que sua doença morre?
V: Eu sobrevivo, enquanto a doença desaparece.
M: A doença não morre, mas seu sofrimento acaba. Para resumir tudo isso, desde quando nós nos tornamos sofredores?
V: Desde o aparecimento de nosso estado de saber.
M: É isso. Agora, este estado de saber é sofrimento ou um mar de prazer?
V: (Silêncio)
M: As esperanças para o futuro só existem na forma humana. Mas será que existe alguma entidade tangível em forma humana que possa prosperar no futuro?
Quero continuar minha existência, mas como o quê? De que tipo? Quem pode me dar uma resposta? O nascimento não é de uma forma humana, mas do sofrimento em forma humana. Não é?
V: (Nenhuma resposta)
M: Os cinco elementos, as gunas, a substância cósmica e o espírito cósmico – há uma união de todos esses 10, no centro do qual existe o “eu experimento”. Não tenho nenhum conhecimento, mas quando um visitante chega, por mais erudito e cheio de arrogância que seja, eu sei que ele não sabe nada.
Quando se está inconsciente sob a influência de clorofórmio a operação é feita. A pessoa sente dor ao recuperar a consciência. Todas as nossas atividades mundanas acontecem no estado semiconsciente. Sentimos a dor depois, quando ficamos mais sensíveis.
V: Como você se autorrealizou?
M: Eu tinha plena fé em meu Guru. Eu vivia em suas palavras. O resto do que ocorreu foi espontâneo.
V: Podemos saber o que seu Guru disse?
M: “Você é tudo que existe. No momento, você é a consciência. Deus, Ishwara, etc., são os nomes de quem você é.” Estas palavras bastaram para que eu mudasse completamente.
V: Fale mais de sua existência atual.
M: Eu sou autossuficiente. Não preciso de nenhuma graça ou de apoio externo. Não é que alguém tenha me protegido e então eu sou. Eu sou aquilo que permaneceu desafetado nas várias dissoluções do universo.
V: Mas você parece tão simples, como nós.
M: Aqueles que me visitam me julgam segundo seus próprios conceitos.
V: Por que a maioria das pessoas não vai até o fim da espiritualidade?
M: Elas não estão em busca da Verdade, mas só da paz e da felicidade. Quando conseguem isso ficam satisfeitas e se acomodam aí.
28 de novembro de 1979
NADA EXISTE, MAS PARECE EXISTIR
Maharaj: Não sou o corpo, que é apenas a essência dos alimentos. Não sou a consciência, que é a qualidade da essência dos alimentos. Deve-se proceder desta maneira.
Visitante: Então quem sou eu?
M: Você não é o que é conhecido, mas você é o conhecedor.
V: Qual a causa da ignorância?
M: É por cauda de maya, a ilusão. Por causa disto há um tipo de amortecimento e obscurecimento do intelecto. O uso das palavras é para um melhor entendimento. Na meditação não há palavras, apenas entendimento.
V: O que um buscador avançado encontra?
M: Ele sabe que não é nem maya, nem Brahman.
V: Um Jnani sofre quando vê a morte de uma árvore ou de qualquer ser vivo?
M: Você sofre porque sua existência está restrita a um corpo. Um Jnani é infinito e ilimitado, portanto não há dor. No oceano há bilhões de ondas. Mas o oceano não é afetado.

V: Meu sofrimento é porque sinto unidade com a forma viva quando ela está morrendo.
M: Para superar isso, conheça o Eu Real como ilimitado.
V: Podemos dizer que os seres vivos não têm existência?
M: Nada existe, tudo parece existir. A existência é como a luz do sol. Desaparece, mas não morre. As coisas aparecem e desaparecem. Não há destruição. Assim, um Jnani não se perturba com os acontecimentos.
V: Então sofremos por causa de nossa incompreensão.
M: Veja o caso de duas aldeias vizinhas. As pessoas das duas aldeias podem ter negócios e outras atividades em comum, mas será que uma aldeia conhece a outra? Será que Pune conhece Mumbai? Será que Pune conhece a cidade de Ahmednagar, que é sua vizinha? Os nomes maya, Brahmam eParabrahman são como Pune, Mumbai, etc. O que se aplica a Mumbai e Pune também se aplica a Brahman, maya, etc. Os habitantes de Mumbai talvez briguem com os de Pune, mas será que Mumbai fez alguma coisa boa ou má para Pune? Assim como as cidades como Mumbai, Pune não faz nada, mas as pessoas de lá ganham a vida, Parabrahman não faz nada, mas tudo acontece em Sua presença.
Em Mumbai há um templo denominado Mumbadevi. As pessoas fizeram o ídolo. Quando é adorada, a deusa dá o que é desejado.
Da mesma forma, em toda aldeia há templos construídos pelas pessoas e os deuses recebem o nome das aldeias. Mumbadevi significa deusa (devi) de Mumbai. Parabrahman é o completo. É sem forma e portanto não tem corpo e nem membros. Não espera nada de você, não precisa agradar você.
V: Como posso perceber Parabrahman em mim?
M: Para isso, você precisa aprender a permanecer no estado sem corpo. Na identidade física não há chance de realização, mesmo após incontáveis nascimentos. A identidade física ficará até o fim. Lembre sempre que sua existência é independente do corpo e que estou apontando a mesma coisa para você. Tudo depende de sua fé.
V: Eu tenho plena fé em você.
M: Sua experiência atual de ser é como uma doença. Eu existia sem este estado de ser. Todas as minhas atividades não são para desfrutar a doença e sim para torná-la tolerável. Até o sono profundo é um remédio para a doença. Meu Eu Real existe sem esta doença.
V: Centenas de pessoas devem ter se beneficiado de seus ensinamentos.
M: Invisto grande esforço e energia transmitindo este conhecimento a muitos, mas não me pergunte o que eles fazem com isso.
V: Por favor, explique.
M: Estão ocupados com seus afazeres mundanos. Que outra coisa podem fazer? Para se beneficiar, primeiro há que se adequar. Não é possível ensinar todo mundo a partir de A, B, C.
Nossa forma e identidade mudam a cada momento. Da infância à velhice muitas fases vêm e passam. Este velho corpo também vai cair. Por que se preocupar com aquilo que muda o tempo todo? Quando você mesmo está mudando o tempo todo, o que você aprende ou possui, como tudo isso ficaria com você?
29 de novembro de 1979
VOCÊ NÃO ESTÁ CONFINADO A SEU CORPO
Visitante: Devo renunciar à vida mundana pelo progresso espiritual?
Maharaj: Abandone sua identidade física. Lembre sempre que você não é o corpo. E então faça o que gostar.
V: Devo meditar?
M: Permanecer em plena consciência de que você não é o corpo é meditação.
Você sabe que tem um corpo por causa de sua consciência. De início, sabendo que você não é o corpo, deixe a consciência ser sua forma.
V: Tenho dificuldade para esquecer que sou o corpo.
M: Esqueça o passado. Agora você está aqui e estou lhe dizendo o que você é. Tenha fé e o que é necessário acontecerá lentamente.
V: Qual a diferença entre o mumukshu, alguém que deseja ser liberado e o sadhaka, um buscador espiritual?
M: O mumukshu tem um corpo, mas o buscador é sem corpo. Por causa de sua identidade com o corpo, a morte e o renascimento se aplicam a você.
V: Qual a diferença entre um buscador e um sábio ou siddha?
M: Um siddha atingiu o supremo. Não há a menor dúvida de que ele não é um corpo com nome e forma. Ele não é mais um indivíduo, nem homem, nem mulher.
V: Quem tem poderes espirituais é um siddha?
M: Não. Quem está estabelecido no Eu Real é um siddha.
V: Um sábio recorda sua ignorância antes de se tornar sábio?
M: Assim como o sol não conhece a escuridão, um sábio não conhece a ignorância.
V: Mais do que obter autoconhecimento, gostaria de me livrar da dor.
M: Para isso você precisa se livrar da ignorância. Então também não haverá morte e renascimento para você. Autoconhecimento é como o nascer do sol. Você vê as coisas claramente como elas são.
V: Meu corpo nasceu, não eu.
M: Sua forma é consciência ou conhecimento e a ignorância do nascimento não pode tocá-la, portanto você não tem experiência de nascimento.
Você deve ter o conhecimento da consciência para remover toda a ignorância. O Eu Real deve ter conhecimento de Si mesmo.
V: O que acontece na suposta morte?
M: O alento vital e a mente saem do corpo. Como a consciência é infinita e onipresente, não tem o escopo de ir a lugar nenhum. Antes de ir, já está lá. De consciente, ela se torna não consciente apenas lá. É como o esfriar da água quente quando a retiramos do fogo.

V: O que é Videhi ou existência sem corpo?
M: Por causa do corpo de alimento sattva, passo a saber que eu sou. Isto não quer dizer que eu seja o corpo. Sou separado do corpo e onipresente. O corpo tem uma forma e recebe um nome. Mas o nome e a forma não se aplicam a mim.
V: O Atma ou Eu Real tem qualquer noção de “Eu Sou” ou de “eu experimento”?
M: Não. Só existe puro Ser. É o estado não dual. Com a identidade física vem o “eu” com uma forma separada. Seguem-se o mim e o meu. Todas as experiências que tem, ele as considera como conhecimento. Tudo isso leva à servidão.
V: Ouve-se falar do reavivamento dos supostos mortos no caminho para a cremação. Qual é o sinal certo de que uma pessoa está morta?
M: É necessário esperar e observar a pele da pessoa. Se você notar o início de um inchamento na pele, é sinal certo de que o alento vital saiu do corpo. A ausência de inchamento indica a presença de alento vital no corpo, que pode levar a um reavivamento.
V: Quando eu o vejo à minha frente, como pode você dizer que não nasceu?
M: Se nós nascemos, deveríamos ter conhecimento de nosso nascimento. Você tem conhecimento de seu nascimento?
V: Não.
M: Você formou o hábito de acreditar em tudo que lhe dizem. Eu não faço isso. Não assinarei papéis procurando confirmar que nasci.
O estado de vigília é possível sem a existência do estado de sono antes dele?
V: Não.
M: A vigília é conhecimento e o sono é ignorância. O sono dá força para o estado de vigília existir e continuar por algum tempo. Um estado é sempre seguido de outro.
V: Isto quer dizer que enquanto estamos no corpo, estamos adormecidos?
M: Você não está confinado ao corpo, você está em tudo. A limitação é sua imaginação. O sono deve ocorrer para que se siga o conhecimento ou estado de vigília. Toda forma humana é uma filha da ignorância. Vamos parar por aqui, porque agora está na hora dos nossos bhajans da noite.
30 de novembro de 1979
DESDE QUANDO VOCÊ É E DEVIDO A QUÊ?
Maharaj: Você sabe que é, que existe. Esta lembrança é a qualidade da essência do alimento de seu corpo. Se o suco alimentar perder a liquidez, seu estado de ser desaparecerá. O suco alimentar é denominado sattva, cuja qualidade é consciência ou estado de ser. A palavra sattva se compõe de sat (existência) e tva (você). Significa que, na realidade, você é a existência. Em toda forma viva a consciência é sempre acompanhada do alento vital. Todas as atividades acontecem devido ao alento vital.
Passamos a saber que somos por causa do corpo alimentar. Mas quem passa a saber, isto não se pode saber. Todo pensamento neste sentido é apenas imaginação ou um conceito. O senhor ou a senhora Alguém é um conceito.
Isto se aplica a todos. Você é sem nome e sem forma. Você imagina que é o corpo e que o nome dado ao corpo é o seu. Se não tivessem lhe dado um nome, o que você teria dito que é seu nome?
V: Nada.
M: Você aceitou um nome porque lhe disseram muitas vezes para fazer isso. Um nome é útil para propósitos práticos, como chamar você, na escola, na faculdade e para contas bancárias, etc.
V: Percebo que minha raiva e meu ódio estão aumentando e minha capacidade de me manter alheio ao corpo-mente está enfraquecendo.
M: Não existe a questão raiva e ódio quando você não tem corpo. Seu senso de existir não é você, é a qualidade do corpo-alimento. Entenda isso corretamente.
V: Mas ando preocupado porque meu controle mental está ficando menor.
M: O verdadeiro conhecimento de si mesmo é a única solução para seu problema. Com este conhecimento suas esperanças, desejos e vontades vão desaparecer, com isso, a raiva e o ódio também irão. Quando você se vê como não tendo forma, todos os problemas perdem sua sustentação.
V: Qual a diferença entre identificação com o corpo-mente e não identificação com o estado de ser?
M: Não há diferença?
V: Posso voltar à minha pergunta original?
M: Existe alguma pergunta antes do seu suposto nascimento? Quando uma criança nasce, qual é a pergunta original? O conhecimento “nós somos” (nossa consciência) é conhecimento material. Não é?
Para o recém-nascido, o senso de ser estava adormecido e seu desenvolvimento aconteceu nos primeiros três a quatro anos. Sem examinar a raiz da consciência de criança, da origem da consciência, as pessoas fazem perguntas irrelevantes.
Você já pensou alguma vez sobre a raiz da consciência?
V: (Nenhuma resposta)
M: Durante alguns meses, o corpo da criança é um pedaço de carne. O que existe lá além de material alimentar? Desde quando você é e devido a quê? Devido a quê a raiz ou a criança apareceu? Qual a causa da consciência?
Existe vida enquanto o material físico está úmido. Se a umidade se vai, não há vida. Talvez você não consiga entender o que falamos aqui.
1 de dezembro de 1979
CONSCIÊNCIA, A ILUSÃO PRIMÁRIA
Maharaj: Sua existência é como o aparecimento da luz quando um fósforo é riscado. Não há nada antes e nada depois.
Com que equipamento você vai começar sua procura? Quando a luz (consciência) se extingue, tudo acaba – nada antes e nada depois.
No presente, o que estou vivenciando é conhecimento material. O estado de ser é a qualidade do corpo alimentar. Falo de meu ponto de vista. Agora estou vivenciando meu estado de ser. Que controle tenho para continuar isso? Não preciso continuar nem mais um momento. No estado de ser eu vivencio o mundo. Já me fartei dele. Quando comecei a busca por Deus, me bastava olhar para a origem de mim mesmo, de minha consciência. Houve um tempo em que eu não existia. Agora existo. O que é tudo isso? Qual o significado de minha não existência – de minha não existência antes de meu suposto nascimento? Isto era tudo que eu examinava. Meus pais, etc., me foram mostrados e foi como ver um seriado na TV. Eu compreendi o significado. Em resumo, investiguei a transição de meu não ser para ser. Para mim era importante descobrir como o estado de ser surgiu de meu estado de não ser. Se me perguntarem como eu era há 100 anos, como vou responder? Meu estado de ser estava ausente.
Deus pode ser grande, mas para mim isso era menos importante do que meu aparecimento de não ser para ser. Ontem eu disse aos visitantes que nossa experiência no mundo era cheia de conflitos e conflitos exagerados. O que você tem a dizer sobre isso? No passado houve centenas de guerras, inclusive as duas guerras mundiais. Você já viu alguma paz neste mundo? O conflito não é só entre países – está dentro de cada país – dentro de cada pessoa. Não é mesmo? Eu não tive que lutar por bem estar e prosperidade, só para achar a origem de meu estado de ser. Além disso, meu estado de ser tem limite de tempo – prestes a desaparecer a qualquer momento. Nestas circunstâncias o que posso esperar de Deus, por maior que Ele seja?
Se eu tivesse qualquer controle sobre meu estado de ser, teria dado devida importância a Deus. Ele pode me dar prosperidade, mas de que me serve se posso perder meu estado de ser a qualquer momento? Quando eu não era, não havia problemas. O senso de ser não foi solicitado, está limitado pelo tempo e depende da essência dos alimentos.
Nosso conhecimento é sazonal, como uma estação chuvosa. A estação dura de 60 a 100 anos. Tudo isso é observação minha. Você é livre para examinar por si mesmo.
Até que ponto minha existência me será útil? Estas observações não são para o homem comum. Ele talvez perca suas esperanças, desejos e vontades. A vida é uma luta que exige vontade, coragem e energia. Este conhecimento tornará um homem inadequado para lutar. Temos que ter a capacidade de transformar poeira em ouro. As qualidades mundanas são obrigatórias para vivenciar o mundo. Do contrário, você viverá como se o mundo não existisse. Com a redução de esperanças e desejos, seu mundo também se desvanecerá na não existência.
Para sustentar a vida devemos estar prontos a fazer qualquer coisa que o tempo exija. Para isso, alguns têm que governar seu país, alguns têm que limpar banheiros e outros têm até que mendigar pela sobrevivência. Temos que fazer tudo isso para tolerar o estado de saber.
O estado de saber também dá esperança de bem-estar futuro, que é a força motivadora de todas as atividades. Depois de tudo, o que a pessoa quer é continuar a ser, a existir. Há o amor por si mesmo, o amor por ser, isto não deve desaparecer.
Bhagavan Sri Krishna explicou a essência dos Upanishades para Arjuna no Bhagavad Gita. Isto foi traduzido em marati pelo sábio Jnaneshwar. Este livro é chamado Dnyaneshwari. Mas seu irmão mais velho e Guru Nivrutti Nath comentou que era só uma tradução e não a obra original. “Agora escreva alguma coisa sua.” Então Jnaneshwar (Dnyaneshwar) escreveu um livro chamado Amrutanubhava. Tendo realizado o Imortal, Jnaneshwar o colocou em palavras. Não existe morte nenhuma. Tendo percebido isso, ele entrou em Maha Samadhi (abandonou o corpo) quando tinha apenas 21 anos. O que é tudo isso? Será que alguém pensa neste tipo de assunto? O que é imortalidade? É para testemunhar a suposta morte? Jnaneshwar não tinha experiência de morte. O mesmo está aqui (em meu caso). Se não nasci, como posso morrer? Se não houve nascimento, como esta forma apareceu? Isto foi mostrado na TV. Eu o chamo de química. A foto do Guru de nosso Guru, Sri Bhausaheb Maharaj está aqui. Quem a tirou e o que conserva a foto? Ele está usando apenas um dhoti, mas a foto é muito viva. O que está conservando a foto há 100 anos? Eu chamo isto de “química”.
Neste mundo todas as aparências se devem a esta “química” e as atividades se devem à “mecânica”. Não há Deus, não há devoto, não há maya e não há Brahman.
O que você tem a dizer sobre tudo isso? Como uma forma viva produz uma forma como ela mesma? Um humano de um ser humano, um leão de um leão, um asno de um asno? A energia química, que possui uma mente, tira essas fotografias e a própria energia assume a mesma forma. Toda habilidade e crescimento da forma se deve à “mecânica”.
Nós pensamos que todo desenvolvimento precisa de treinamento. Bem, veja o caso de um garoto pobre muito mal humorado. Ele se eleva à estatura de sábio e as pessoas o veneram. Os antigos reis são facilmente esquecidos, mas as pessoas lembram e veneram este sábio. Como aconteceu tudo isso? Alguém fez isso ou ajudou a acontecer? Um templo é construído em nome do sábio e no topo há uma cúpula dourada que pesa uma tonelada. Em Pune viveu um sábio chamado Jangli Maharaj, que significa sábio da floresta.
O suposto nascimento é o aparecimento do estado de vigília, de sono e de saber. Enquanto os três estados estiverem lá, a sede, a fome e as atividades para saciá-los continuarão.
Muitas encarnações aconteceram no passado, mas quem pode parar a criação, a manutenção e a destruição? Não tenho nenhum orgulho de meu conhecimento. Que controle tenho sobre qualquer coisa? Até mesmo Brahma, Vishnu e Mahesh (Shiva) não puderam fazer nada que durasse muito tempo. O que eu chamo de “poder químico” é denominado Consciência Suprema ou ilusão primária (Moola-maya). O comportamento ou atividades ocorrem por causa de sattva, rajas e tamas, que levam a modificações mentais. A observação das atividades ocorre devido a sattva – a informação “Eu Sou”. Todo o acontecimento é devido às três qualidades e não há você e eu nisto. Os limites de tempo são decididos por Mahat- tattwa ou Grande Realidade. Brahma, Vishnu e Mahesh existem há milhões de anos. É um longo tempo, mas não ilimitado. Isto indica por quanto tempo a qualidade sátvica da Grande Realidade durou para essas divindades. O total das vidas de todas as divindades – alguns bilhões de anos – totaliza um momento da ilusão primária – significa que tudo era falso.
A duração das vidas de Brahma, Vishnu e Mahesh é diferente. Eu as chamo de relógios, isto é, o relógio denominado Brahma, por quanto tempo funcionou? O relógio denominado Vishnu funcionou 10 vezes mais e o relógio Mahesh funcionou 10 vezes mais que Vishnu. O relógio denominado Moola-maya só funcionou uma vez, para igualar o tempo total de todos os três. Depois, o que aconteceu com todos eles? Nada, pois tudo era uma ilusão.
Tenho falado nos últimos 40 anos. Vieram muitos visitantes. O que fazem agora? Todos estão ocupados com seus afazeres familiares. Este é o primeiro dever, que eles têm que cumprir. Está no filme e tem que acontecer deste modo.
Devo continuar expondo o conhecimento espiritual? Quando falo, o que está à minha frente? Outros também falam, mas o que está à frente deles? Eles estão dando informação de quem? Quando alguém fala, deve se referir a algo.
Meu estado de ser, por mais longo que seja, tem que desaparecer um dia. Qual a utilidade de tudo isso? O estado de ser surgiu do estado de não ser. Se eu tivesse estado consciente disto, não permitiria que meu estado de ser surgisse. Eu teria me mantido alheio. Mas ele apareceu sem meu conhecimento. Devo saber o como e o porquê disto.
Primeiro me ocorreu que eu deveria perguntar a Deus sobre o surgimento de meu estado de ser. Mas em meu estado de não ser, onde estava Deus? Muitos vieram a mim oferecendo ajuda. Mas eu lhes disse: “sem vocês darem nada, o que eu já possuo é suficiente para mim.”
Em meu caso tudo está sob meu controle, exceto meu ser, que em realidade é um não ser. Não tenho nascimento nem morte. Sou intocado por qualquer ação. O que isso significa? Será que as pessoas pensam nessas coisas? Em toda parte só vemos pessoas seguindo cegamente. Com todo esse pano de fundo, estou fazendo bhajans quatro vezes por dia.
2 de dezembro de 1979
VOCÊ ESTAVA AUSENTE NO SEU PRIMEIRO ANIVERSÁRIO
Maharaj: Quando é que alguém se conscientiza de sua servidão?
Visitante: Quando já está na servidão.
M: Você saberá quando se tornar Aquilo. Adivinhar é inútil.
Nós ouvimos todos falarem. Até uma criança fala. Tudo está correto e em ordem por agora. Mas a soma total de toda conversa é zero.
Eu tenho que saber de mim mesmo, como meu estado de ser surgiu do estado de não ser. Muitos vêm aqui e falam de seus gurus. Eu lhes digo que estou a par. Seu guru é tão grande quanto uma montanha. Ele é maior do que você sabe. Não o largue. Na verdade, não existe nada. Tudo se soma a nada. No passado muitas coisas aconteceram. Mas o que existe hoje? É como se nada jamais tivesse acontecido. Nada bom nem ruim aconteceu, nada vai acontecer com ninguém. Tudo isso é muito claro para mim. Então por que perturbá-los?
Alguém, que não me conhece, transmite informações minhas. Como isso é possível?
V: (Nenhuma resposta)
M: Você é um juiz. Dê seu veredito. Antes do aparecimento de meu estado de ser, eu estava no estado de não ser. Do contrário, teria parado isso. Por que devo ficar num lugar imundo durante nove meses para o surgimento deste estado de ser não solicitado, isto é, o ventre materno – que lugar horroroso!
Não havia razão para eu aceitar tudo que acontecia. A química estava criando meu corpo durante nove meses. Você por acaso teria se permitido ser naquele lugar malcheiroso? Você poderia ter parado aquilo só se tivesse conhecimento antes do acontecimento. Essas coisas só podem acontecer no estado de não ser.
Muitos milhões foram gastos para construir um prédio. A construção levou 10 anos. Hoje é a inauguração. Da mesma forma, quando seu estado de ser iniciou seu aparecimento – qual foi o ponto de partida?
Um astrólogo anota a data e a hora do parto para fazer a previsão. O verdadeiro nascimento é a data e hora da concepção e não o parto. Há um erro de nove a dez meses na hora anotada. Como podem as previsões se realizar? Mas as pessoas acreditam. Elas dizem que a posição dos planetas obrigatoriamente afeta o recém-nascido. Apontei este erro para um astrólogo idoso durante nossa visita a Sirpur, perto de Dhule. Qual é o ponto de partida de sua crença (graha) de que é? (A palavra graha significa tanto “planeta” quanto “crença” em marati.) Não é a posição dos planetas que afeta seu futuro, é sua crença na astrologia que afeta você. Você faz sua consciência acreditar e a consciência é o próprio Deus. O que a consciência acredita, acontece. É o mau uso de um grande poder oculto. Você põe um selo de reconhecimento nas previsões astrológicas e faz um convite aos problemas.
O que você não acredita não pode perturbá-lo. As mulheres grávidas hindus não olham para um eclipse da lua, pois acreditam que tem efeitos ruins. O mesmo eclipse é visto pelas mulheres grávidas muçulmanas sem qualquer efeito prejudicial. Elas não acreditam nesses maus efeitos. As damas hindus têm medo porque há casos de partos de bebês deformados porque elas olharam para um eclipse.
Quando começou a crença de que somos, de que existimos? Foi na época a partir de quando lembramos de certos acontecimentos em nossa vida, como ir à escola, apanhar dos pais ou do professor, primeira vez que andamos de bicicleta ou primeira vez que desfrutamos da comemoração do aniversário, etc. Antes disso todos os eventos aconteciam, mas na ausência de nosso estado de ser. Este primeiro dia foi mais ou menos quando você tinha de três a seis anos de idade.
Antes do aparecimento do estado de ser, seu estado era o mesmo que 10 dias antes da concepção. Por isso digo que você estava ausente nas comemorações de seu primeiro, segundo e talvez terceiro aniversário. Foi o material alimentar que nasceu e não você. Sua chegada aconteceu três a cinco anos depois do nascimento do corpo.
Você sente que é dotado de conhecimento e que realizou Brahman. Mas você está ignorando o ponto principal, que é sua verdadeira identidade. Sem levar em conta o Um que está falando, suas palavras não tem significado.
Quando os ignorantes falam de Ram e Krishna, podem ser desculpados. Eles não foram informados de quem são e é só a ignorância que está falando. Mas quando você fala de Ram e de Krishna, deve ser lembrado que é Ram ou Krishna quem esta falando.
Paramatma ou Parabrahman está sempre presente, mas Sua existência é como a não existência. Em outras palavras, Ele existe em estado incognoscível, portanto se um sábio existe sem ser notado, isso está em perfeita ordem.
A partir de Parabrahman há a existência dos cinco elementos, das três gunas (qualidades), de Prakriti e de Purusha. Nisto se incluem o sol, a lua e todas as estrelas. Quando eu estava no estado de não ser toda a criação não tinha acontecido. Tudo isso surgiu com o aparecimento de meu estado de ser. Meu não ser é um estado perfeito – é o Parabrahman intemporal, imaculado, sem estado de ser. É a Verdade e é sempre existente. Em toda a existência você não consegue apontar nem uma só coisa que seja sempre existente.
3 de dezembro de 1979
CONSCIÊNCIA, O DEUS SEM FORMA
Maharaj: Que Deus possa lhe dar uma vida longa de mais de 100 anos. Nesses anos sua identidade continuará a mudar, nenhuma identidade aderirá a você até o fim. Você vai dizer: “eu era assim, eu era assado”. Por fim, sua identidade como um homem muito velho também desaparecerá. Se cada identidade muda de tempos em tempos, qual é sua conquista, que você possa dizer “isto sou eu”? Com qual identidade definida você vai continuar e desfrutar de suas posses?
No mundo todo, você consegue apontar uma única coisa que seja imutável? Com este cenário, um sábio joga todo o conhecimento pela janela. Ele é livre de conhecimento.
Sem corpo alimentar a consciência não pode surgir. Em outras palavras, para o estado de ser surgir, a forma de um corpo alimentar é obrigatória. Com o passar do tempo, milhões de corpos aparecem. Todos esses corpos são limitados temporalmente. Após seu tempo, eles novamente se fundem nos cinco elementos. A consciência surge devido à atração mútua entre a substância cósmica e o espírito cósmico. Com a consciência, surge a experiência mundana. O amor mútuo mantém o mundo vivo.
Visitante: Como um iogue entra em samadhi?
M: O iogue fecha os seis chakras - muladhar, swadhishthan, manipur, anahat, vishuddha e adnya (ou ajna) - na coluna e fica no centro sahasrar na cabeça. Agora, por favor me diga - o que é responsável por sua forma atual?
V: Eu tenho outra pergunta. Depois de morrer, para onde se vai?
M: Quando se ouve uma notícia chocante, ficamos inconscientes. Para onde fomos? Como a consciência é recuperada, você não chama isso de morte. Na suposta morte a consciência não reaparece. A consciência não vai a lugar nenhum. O corpo se torna inadequado para sua manifestação.
V: O que ouvimos dos outros é bem diferente.
M: Num sábio, as palavras vêm de nirvikalpa ou percepção direta. Não é conhecimento imaginado ou aprendido.
V: Você raramente comenta sobre outros gurus ou mahatmas.
M: Para despertar você, eu o levo até sua origem. Falo da consciência de criança, onde o estado de ser está inicialmente adormecido. Assim como uma manga verde amadurece com o tempo, o estado de ser surge na consciência de criança. Eu conheci a consciência de criança e falo sobre ela. Como eu poderia criticar os outros? Quando eu critico alguém, como devo considerá-lo? Devo considerá-lo como aparece – uma alma individual ou como sua verdadeira natureza? Devo considerar sua altura, seu peso e sua cor? Sou incapaz de criticar alguém. Só a ignorância de julgamento pode levar à crítica.
Quero dizer e repetir muitas vezes que a formação do corpo acontece sem se saber e o estado de conhecimento vem depois de três a cinco anos. Ele, ela ou qualquer um é o estado de conhecimento. Não se usa ajuda externa para saber nosso estado de conhecimento. Temos que depender totalmente de nós mesmos. Uma criança pode se tornar qualquer coisa – pobre ou rica, ignorante ou sábia, mas o que estava na raiz, que possibilitou que tudo acontecesse? Qual a semente ou raiz de todo acontecimento? A raiz ou semente é a mesma para todos. Origina-se dos sucos alimentares provenientes da vegetação dos cinco elementos. Nossa consciência reside nos sucos alimentares consumidos e digeridos.
No alimento origina-se o movimento devido ao alento vital, acompanhado de consciência ou do senso de ser. A linguagem do alento vital é a mente. Só o corpo alimentar tem forma, mas isto não pode ser a identidade de ninguém. Todo o resto, isto é, o alento vital, a mente e a consciência não têm forma. Não há branco, preto, baixo ou alto ali. A consciência também é denominada Mahat Tatwa, Brahmasutra ou Hiranyagarbha. Sem nosso sentido de ser, como podemos reconhecer Deus ou Ishwara? Quando conheço minha própria origem, será necessário que eu busque a origem de outros? Nunca vou ao encontro de nenhum guru, santo ou sábio. Se alguém me convida a conhecer algum mahatma, eu lhe digo que seu guru é verdadeiramente grande, como uma montanha.
O que eu sou na fonte os outros também são. Para cada ser vivo há o corpo alimentar e o senso de ser junto com o alento vital. O nascimento de cada ser vivo é o surgimento do estado de vigília, de sono e o senso de ser. Aqueles que não conseguem entender ou aceitar esta simples verdade sobre sua origem vão de lugar em lugar em busca de conhecimento. Eles imaginam e escrevem seu próprio destino e sofrem por causa disso.
Você fica preso ou pendurado em seus próprios conceitos. Quem não conhece sua própria origem, como se pode esperar que conheça a origem de outros? Mas as pessoas se tornam gurus e qualquer um pode ter seguidores. Todo conhecimento, por maior que seja, é completamente inútil se não inclui o conhecimento de nossa própria fonte.
Se a grandeza de um guru é julgada contando o número de seguidores que ele têm, o vasto conhecimento de alguém pode, da mesma forma, tornar alguém grande.
Lembre sempre que a coisa mais grandiosa é sua consciência, sem a qual você nem conseguiria notar o grande mundo. Se seu estado de conhecimento não é, o que pode você conhecer? Sem seu estado de conhecimento, existe dor ou prazer para você?
Uma criança pode dizer qualquer coisa, e por causa de sua idade está tudo em perfeita ordem. Quando avaliamos algo, temos que considerar a época e a idade. Depois de conhecer sua natureza sem corpo, o que um sábio fala, isso também está em ordem. Você deve notar aqui que agora ele sabe que não é o corpo, portanto seus pronunciamentos são a Verdade.
Na História você lê muitos diferentes pronunciamentos. Você deve reparar a época em que foram ditos. Eram corretos para aquela época. O efeito do tempo é tal que declarações são feitas sem pensar nas dificuldades e sofrimentos consequentes. O tempo fornece a força motivadora para os acontecimentos se realizarem. Atualmente, se estou sentado no chão, preciso usar do auxílio de minhas mãos para me levantar. É o resultado do tempo que passou. As mudanças ocorrem devido à fase que passa. Um jovem podia lutar contra um elefante. Também foi uma fase que passou. Depois ele já não podia fazer isso. Onde são decididas estas fases? No suposto nascimento, no corpo astral, acontecem as mudanças necessárias.
Todos os acontecimentos futuros não são determinados pelo mundo, e sim no mundo astral. Todos os futuros acontecimentos são filmados e estão prontos a se desenrolar segundo as fases que passam.
Em meus 83 anos tenho que segurar uma xícara de chá com as duas mãos. O que há de errado comigo? Idade suficiente ocorreu na criança que surgiu há 83 anos. Eu chamo isso de Har Har Mahadeo, isto é, tudo está acabando (alusão ao grito de guerra do soldado frente a frente com a morte). Qual é a tarefa de um médico? É tentar manter a consciência no corpo do paciente – não permitir que desapareça. Por alguma razão, se a nutrição não chega à consciência, esta não pode permanecer no corpo. Como a consciência é a qualidade da essência do alimento, um fornecimento de alimento apropriado é obrigatório.
Para ver, você precisa de luz. A luz é fornecida pela comida queimada em seu corpo, isto é, em seu estômago. A consciência é luminosa e divina e é chamada Bhagwan ou Vasudeo. O alimento consumido sustém o estado de ser. A Consciência Suprema ou a grande Realidade está em seu material alimentar. Comida é necessária para manter a memória “Eu Sou” intacta.
Houve época em que existi como se não existisse, e não havia luta pela sobrevivência. Deste estado surgiu o estado de servidão da atual época, que precisa de nutrição. Eu conheço o segredo da transição do estado livre de problemas para o estado problemático.
Houve época em que meu estado de ser não estava presente. Passei a conhecer o surgimento do estado de ser. Eu sou sua testemunha. A transição do estado de não conhecimento ao atual estado de conhecimento é, em si, um milagre. Como a transição aconteceu, isso é tudo que vi. A transição se aplica a todas as formas vivas. Mas um ser raro em forma humana sabe o segredo de como isso acontece.
4 de dezembro de 1979
CONHEÇA SEU ESTADO ETERNO
Maharaj: Nossa existência está aí enquanto o material alimentar, devido ao qual a consciência de criança surgiu, sustenta o estado de ser. Quando o material seca totalmente a consciência desaparece. Você leu “Eu sou Aquilo”?
Visitante: Sim.
M: Depois de conhecer o Eu Real é difícil manter o estado de ser. O alento vital deixa o corpo repentinamente. No caso de Shri Krishna, ele continuou apesar de conhecer plenamente o Eu Real.
V: Dizem que Bhagwan Krishna atingiu o estado de realização mais elevado.
M: Ele é perfeito em todos os sentidos. Podia facilmente se misturar com os pequenos ou com os grandes. Ele não tinha nenhum tipo de pose ou atitude. Estava no estado mais natural, chamado de “Sahaja-Awastha”.
V: Dizem que a vida é um círculo, vai-se para onde se começou.
M: Um nenê não tem memória, não pode reconhecer ninguém. Um homem muito velho perde todo o conhecimento e a memória. Ele é quase como um nenê. O velho vive enquanto o princípio de criança existe. Quando não existe mais, o homem é declarado morto pelas pessoas ao seu redor. Mas um sábio chama isso de liberação e não morte.
V: Você sempre enfatiza nossa consciência, por quê?
M: Você pode ter todo o conhecimento contido numa enciclopédia, mas qual é seu primeiro conhecimento?
V: Primeiro eu sei que “Eu Sou”. Este é meu primeiro conhecimento.
M: Se o primeiro conhecimento está ausente, qual a utilidade do resto de seu conhecimento, por maior que seja?
V: É tudo inútil.
M: Esta é a importância do conhecimento “você é” ou de sua consciência. Se isso desaparece, o que você pode desfrutar? Você pode ser um homem muito rico. Sem consciência, qual a utilidade de toda sua riqueza? Então, o que é grande: riqueza ou consciência?
V: É suficiente lembrar o que ouvimos de você?
M: Não. Não deve permanecer no nível verbal. Veja o exemplo do gado obtendo nutrição do pasto. Ele o come, mastiga e depois rumina. Você tem que assimilar o que ouve da mesma maneira. Deve torná-lo seu. Então não será preciso lembrar disso.
V: Qual é a diferença entre um discípulo e seu guru?
M: O primeiro é atma e o segundo Paramatma. O primeiro tem conhecimento e o segundo transcende o conhecimento. Milhões de Brahmans dinâmicos estão no Sadguru.
V: Quando desperto do sono profundo, primeiro sei “Eu Sou” e então percebo o mundo.
M: Seu mundo está em sua consciência, como a luz do sol está no Sol. Quando há consciência há os cinco elementos, as três gunas, Prakriti e Purusha.
V: Se sou tão grande assim para ter esta grande consciência, a autorrealização deveria ser fácil para mim.
M: Como pode a autorrealização resultar de conceitos?
V: Dizem que Deus é grande.
M: Deus e a ilusão primária podem ser grandes, mas sem seu estado de ser, quem reconhecerá esta grandeza? Você deve estar sempre consciente da grandeza de sua consciência. Você nunca é o corpo. Isto também é muito importante.
V: A Verdade ou o Absoluto devem estar cheios de conhecimento.
M: Ao contrário, Ele não tem nem o mais leve toque de conhecimento. Isto não é algo que ouvi dizer, e sim minha própria experiência eterna. O uso da palavra “experiência” é apenas para sua compreensão. Na Realidade esta palavra não tem lugar.
A experiência física é um incômodo para mim. É como pegar um nenê abandonado na rua e depois ter o trabalho de educá-lo. Assim como aquele que pega o nenê não estava preocupado com isso, eu não estou preocupado com o mundo e sua experiência. Não havia obrigatoriedade de cuidar da criança, mas aconteceu devido à compaixão. Você poderia ter evitado isso?
V: Não.
M: Os iogues e os ascetas estão em busca da Verdade. Só o Eterno pode ser chamado de Verdade. Não é?
V: Sim.
M: A associação com a Verdade é muito normal para mim. Meu atual estado de ser é como uma dolorosa espinha. Desde tempos imemoriais tenho conhecimento do Eterno e da Verdade – independentemente do que sejam. Ninguém pode ser uma testemunha disto.
V: Qual é sua reação à inveja, ao ódio e às brigas no mundo?
M: Me desagradam as pessoas causando problemas a outras e inflingindo-lhes dor. Mas elas não conseguem abandonar suas tendências errôneas.
Eu pergunto a meu estado de ser: “você não estava lá e vai desaparecer após um curto período. O que você quer? O que vai satisfazê-lo? Por que você está lutando tanto?”
Qual a utilidade dos objetos dos sentidos quando seu estado de ser não existir mais?
V: Esta também é nossa experiência sobre nosso estado de ser.
M: Independentemente do que você veja ou faça, você instantaneamente sabe que não estava lá antes do suposto nascimento.
Todo mundo, direta ou indiretamente, recebeu iniciação de acordo com a religião a que pertence. Não será importante conhecer o princípio da iniciação? Não será necessário descobrir qual a natureza deste princípio? Quem responderá as minhas perguntas?
V: Muitas perguntas deste tipo nos perseguem, sem qualquer solução duradoura.
M: Todos os seres humanos estão lutando o tempo todo. Comparada com o Eterno, toda existência é momentânea. É só uma aparência, sem qualquer substância. A existência humana é como o devaneio de uma pessoa ociosa deitada na cama. Tudo que o ser humano quer são os desejos de uma não entidade. Comparada com o Eterno, a existência momentânea de qualquer forma é realmente uma não existência. Então por que se dar todo esse trabalho?
Suponha, agora, que eu quero existir, eu quero ser. Mas como devo ser, como deve ser minha aparência, qual deve ser minha natureza e em que forma devo existir? Todo pensamento humano é guiado por emoções e tradições. Isso também é a origem e o conteúdo de todas as formas humanas.
V: Recentemente comecei a ler um livro chamado Amrutanubhav escrito pelo sábio Jnaneshwar, com comentário do Sr. P.Y. Deshpande.
M: Eu direi ao Sr. Deshpande, “você é grande por ter feito esta obra.”
Quem vem primeiro, a experiência ou o experimentador?
V: É claro que o experimentador vem primeiro.
M: Qual é a natureza do experimentador? E qual é sua experiência de imortalidade? Qual é sua observação?
V: Não posso comentar, até agora só li umas poucas páginas.
M: Quem é que se comporta? As três gunas ou qualidades: sattva, rajas e tamas fazem todas as atividades. Quem faz uso das qualidades de modo a se comportar? Sattva é a qualidade dos cinco elementos dos quais o primeiro é espaço. A interação ou o conflito entre os elementos, em última instância, ocorre na superfície da Terra. Então a vegetação é criada com várias formas. Daí são criados os outros seres vivos. Destes, o melhor é a forma humana.
O que é Eterno é a única Verdade. Não há ir e vir ou aparecimento e desaparecimento para ele. Como a Realidade é uma e apenas uma, não pode haver nenhuma testemunha para ela. O que está ocorrendo é o efêmero denominado mundo. Comparado com o Eterno, a existência mundana é momentânea – como se não existisse. Todas as experiências de uma vida estão restritas apenas a esta vida. Não há continuidade de experiências de uma vida para outra.
O Eterno não tem nem o mais leve toque de ilusão primária. O senso de ser ou consciência está ausente no Eterno. Aquele que sente que é abençoado não pode ser realizado. Enquanto houver a ideia de virtude ou de mérito religioso, não há esperança de autorrealização. Seu estado atual é inverdade, pois está mudando e não é Eterno. Você tem que conhecer seu estado Eterno.
Seja o que for que eu não era, joguei tudo aquilo fora, tudo pela janela. Depois de me descartar de todo meu suposto ser, também me descartei de meu não ser. Sou o Eterno, que não pode ser descrito como isto ou aquilo.
Minha observação se alinha com o seguinte verso de Swami Ramdas no livro Dasbodh: “Tudo que apareceu, tudo que desapareceu, tudo que não era, não existiu. Tudo que sobrou destes dois acima, isto permaneceu, mas além de toda a descrição.”
No mundo todo, aquele que não consegue encontrar uma testemunha para seu Eu Real, este é um Ser raro. Um devoto de Deus é protegido por Deus e Ele é a testemunha do devoto, mas um sábio não consegue encontrar uma testemunha de seu verdadeiro ser. Não há outra testemunha além do próprio sábio.
Se um visitante insiste em sua própria opinião, eu o incentivo a mantê-la. A única condição que faço é que ele deve estar plenamente satisfeito com sua própria opinião. Não deve haver nenhuma perturbação em sua mente.
Todos os nossos problemas e esforços para encontrar uma conclusão são devidos ao surgimento do estado de ser. No sono profundo e também depois da autorrealização, quando o estado de ser desaparece, os problemas acabam.
Se você é ignorante, pode minimizar suas dificuldades evitando ferir os outros.
Aquele Ishwara morreu em alguém, então o que aconteceu? O mesmo que aconteceu aqui (Maharaj aponta para si mesmo).
Minhas palavras são difíceis de entender e mais difíceis ainda de aceitar.

5 de dezembro de 1979
SUA CONSCIÊNCIA É UMA ENGANAÇÃO
Maharaj: Neste mundo nós observamos o luto das pessoas por conveniência.
V: Como assim?
M: Um marido sente dor ao ver a esposa morta. Se observarmos uma mulher quando seu marido morre, parece que ela logo vai se juntar a ele. Mas ficamos chocados ao ouvir que ela casou de novo.
V: Qual a razão?
M: Você não sabe quem você é. O que você pensa que é está sempre mudando sem sua permissão e sem seu conhecimento. Então como podem seus sentimentos e suas promessas permanecer imutáveis?
V: Isto é verdade.
M: Considere seu próprio caso, seu próprio passado. Você se surpreende ao ver quem era e quais eram seus pensamentos, comparados à sua condição atual. Sua própria identidade muda de tempos em tempos: de um dinâmico jovem para um velho preso ao leito, que deve ser alimentado com uma colher em seus últimos dias.
Existe alguma sinceridade, alguma consistência em quem você pensa que é? Qual é a identidade que está sob seu controle?
V: Estou interessado em yoga.
M: O que é yoga? É a união com seu ideal. Quando você tenta conseguir alguma coisa, tem que considerar qual será sua identidade quando conseguir. Se levar muito tempo, provavelmente você não será o mesmo que é agora. Por causa da incerteza que isto inclui, o esforço de conseguir alguma coisa se torna vazio.
Se você vai para o espaço sideral e devido a certos problemas técnicos não consegue voltar para a Terra, seu estoque de comida está fadado a acabar. Então o que acontecerá com seu estado de ser? Sua confiança de que você é, o que acontecerá com ela?
Sua autoconfiança depende do mundo ou dos sucos alimentares consumidos? Se sua existência é tão dependente, qual a utilidade de lutar tanto para fazer qualquer coisa? A prova de seu ser está no material alimentar. Nosso estado de ser é tão dependente que não tem valor nenhum. Se alguém tem uma visão de Ishwara, não há necessidade de se sentir maravilhoso por causa disso. A visão não o tornou independente do material alimentar. Quando os sucos alimentares secam o estado de ser vai embora, mesmo sem dar aviso prévio.
As várias palavras do idioma sânscrito parecem ter se originado sob a influência de conhecedores da Verdade. Veja a palavra Satwa ou Sattwa, que é a primeira guna ou qualidade. A quinta essência do alimento é chamada Sattwa. Esta palavra é dividida em Sat + tva. Sat significa existência e tva significa você, portanto Sattwa significa a existência que é “você”. A qualidade da essência alimentar é o conhecimento “você é”. É o Eterno você, que passa a saber que existe. Sem um corpo alimentar o Eterno não sabe que existe.
Isto não é mero conhecimento para você, mas sua própria experiência. Por causa do corpo você, o Eterno, sabe que é. Quando seu corpo não era, você não sabia nada a respeito.
O Eterno não precisa comida para se manter. Mas a consciência, que é a expressão do Eterno, precisa de essência alimentar – Sattwa – para sustentar a si mesma. Aquele que conhece a fonte da consciência percebe o Eterno e percebe o Eterno como seu Estado Eterno.
V: Quando o estado de ser abandona o corpo, podemos chamar isso de morte?
M: Morte é a palavra errada. Nós podemos chamar de liberação. Quando a água quente esfria, nós não chamamos isso de morte. O esfriamento do corpo quando não há mais estado de ser é parecido. As pessoas dizem que eu sou um Dnyani (comumente escrito como Jnani). O que sei? Só sei que o conhecimento “você é”, ou sua consciência, é uma perfeita enganação. Você ama seu estado de ser, embora seja intolerável. Este paradoxo é a enganação. Mesmo um indivíduo acamado, em seus últimos alentos, quer mais vida. Já perdeu tudo, inclusive a memória. Seus parentes próximos têm que se reapresentar a ele repetidas vezes.
Você pode ter obtido grande mérito religioso, mas qual será sua última forma, que você levará consigo? Quando a gota se funde ao oceano, onde pode manter seus ganhos e certificados? Qual a relação entre o conhecimento “você é” e o conhecimento acumulado por você durante a vida? Quando o conhecimento “você é” por si só se torna não conhecimento, onde está o conhecimento acumulado? Que controle você tem sobre qualquer coisa, quando seu próprio ser está fora de seu controle? Quando nosso estado de ser desaparece como se nunca tivesse existido, o que é deixado para trás para ser comentado? O mundo é cheio de paradoxos.
(Silêncio.)
M: A palavra ananda ou bem-aventurança é muito liberalmente usada como sadananda, ananda isso e ananda aquilo. Mas lembre que ananda é uma qualidade que não tem lugar no Absoluto, que é nirguna ou não qualitativo. A bem-aventurança tem lugar enquanto há consciência, mas não além.
A maioria das pessoas venera Deus para obter ganhos materiais. Elas não precisam de autoconhecimento e Deus lhes dá o que querem, isto é, posses mundanas e bem-estar. É muito raro encontrar um cliente para o autoconhecimento.
Enquanto há consciência, pode-se pensar em pecado e mérito religioso. A consciência é limitada pelo tempo. Quando a consciência não existe, quem está lá para sofrer devido ao pecado ou usufruir devido ao mérito religioso?
Quando você sabe que “você é”, com este conhecimento continua a acumular conhecimento mundano. Quando não sabe que “você é”, quem está lá para acumular?
Você pensa que é assim ou assado, mas pode garantir a si mesmo que vai estar sempre lá para pensar assim?
Todas as suas ações e experiências são limitados pelo tempo. Nada nos dá companhia duradoura, inclusive esta conversa que está acontecendo agora.
V: Não podemos levar nada conosco.
M: Nada fica conosco permanentemente. Falar de alegria ou de bem-aventurança, isso são qualidades e nenhuma qualidade pode ficar permanentemente conosco. Enquanto soubermos que “nós somos”, essas qualidades permanecem. Essas palestras são como uma escova para limpar e clarear a ignorância, para que o Absoluto se abra. A maioria das pessoas venera Deus buscando recompensa para isso. Elas não têm interesse no autoconhecimento. As pessoas entoam cânticos devocionais (bhajans) ou meditam para conseguir o que querem. O verdadeiro buscador não gosta deste tipo de devoção e é um ser raro. Nosso senso de ser é divino. O supremo propósito da espiritualidade é conhecer o Eu Real e ter verdadeira paz. Muitas vezes os buscadores adquirem poderes espirituais e ficam enredados neles. Eles pensam que atingiram o supremo e que isso é o objetivo de sua espiritualidade.
V: Em vez de meditar num objeto externo, meditar no Eu Real interior também é um tipo de adoração?
M: Esta é a tradição normal de se aproximar do Eu Real. É a fé que leva as pessoas a fazerem isso.
Para todos os buscadores o supremo destino é o mesmo, mas algumas práticas são difíceis, é como puxar uma carreta em vez de empurrá-la.
Não apregoamos nenhuma prática. Quem lê o Bhagavad Gita corretamente lê suas próprias informações ali e não as de Krishna. A gente se vê como imortal, o Eterno. Quem se considera um corpo permanece como mumukshu e não se qualifica para ser um buscador.
M: Atma não é só uma palavra, mas é o que nós somos na verdade. Perde-se a individualidade e se permanece como Eu Real.
Nosso senso de ser em si é o dinâmico Brahman ou Maya. Sua existência sem o senso de ser é Parabrahman ou o Absoluto. Quando sabemos que “nós somos”, o mundo acompanha isso com todos os problemas. Não saber que “você é” lhe dá descanso e paz. A atenção é incompleta. O que está além da atenção é pleno e completo.
V: Devemos agir sem expectativas.
M: O mundo está cheio de atividade. A consciência dinâmica (Chaitanya) está cheia de lutas e conflitos. Quando o “Eu Sou” se vai, todos os problemas acabam.
V: O que é supremo na espiritualidade?
M: Todo o suposto conhecimento (Jnana) se torna Vijnana ou além do conhecimento. O conhecimento se torna não conhecimento. Diz-se que Parabrahman não tem desejos. Significa que o Absoluto não tem utilidade para Si mesmo. Ele pode ser útil para outros.
6 de dezembro de 1979
MAYA é autoamor
Maharaj: Com o surgimento de “eu amo”, o espaço aparece com o começo do mundo.
V: Com isso também há o surgimento do corpo e a pessoa tem a tendência de adquirir coisas por prazer.
M: Este é o estágio inicial dos insípidos e obtusos.
V: A pessoa desenvolve o amor.
M: Todo ser vivo nasce como o próprio amor ou é afetado pelo amor. Apesar do sofrimento insuportável, há amor por existir. Aquele que sabe o que este “eu amo” é, é liberado e seu “eu amo” desaparece.
V: Como maya está relacionada ao amor?
M: Maya é autoamor. Quando não sabemos que “nós somos”, este estado está em perfeita ordem. Quando sabemos que “nós somos”, isto não é o problema de um indivíduo, mas uma dificuldade mundial.
V: Devido a isso, alguns renunciam todos os deleites ou gratificações sensoriais.
M: Não encontramos isso na vida de Sri Krishna. Um sábio é desprendido e, portanto não é afetado pelos problemas e atrações mundanos.
V: Outros são atraídos pelos objetos do mundo.
M: A identidade física e o ego da pessoa são responsáveis por isso. O ignorante está consciente do corpo, mas puro Brahman não tem consciência dele. Até um nenê não sabe que tem um corpo.
V: O que é que leva à paz e à tranquilidade?
M: Não me sinto bem. Vamos parar por aqui.
7 de dezembro de 1979
ENCONTRE A FONTE DO “EU SOU”
Visitante: Qual é a causa da ignorância?
Maharaj: O conhecimento “você é” é o único conhecimento confiável. Mas o homem tem o hábito de coletar conhecimento de cada fonte e carregar o fardo na cabeça. Ele é informado sobre o nascimento e o renascimento. Embora o nascimento não seja sua própria experiência, ele a assume como verdadeira. O conhecimento humano é cheio de conceitos e de imaginação.
V: E a lei do karma? Isto é, temos que sofrer na vida seguinte os efeitos do que fazemos nesta vida.
M: Já que você se considera seu corpo, a lei do karma o afeta. Você até tenta se beneficiar dela. Quando você conhece seu Eu Real como tal, a lei não o afeta.
V: A lei do karma nos assusta.
M: Nosso senso de ser é a qualidade da quinta essência da comida e a forma do material alimentar é assumida por nós como nossa forma. A natureza Eterna não tem senso de ser.
Quando o alento vital sai do corpo, este se torna inerte. É como uma chama que se extingue. Será que a chama vai para algum lugar? Quando o corpo cai, não vai a lugar nenhum. No suposto nascimento não há vinda de lugar nenhum. O Eu Real está em todo lugar. Ele não deixa nenhum espaço para viajar até lá.
M: Quando falo, não falo de nenhum indivíduo específico. Falo da natureza da consciência. O ciclo de criação, sustentação e dissolução continua imperturbado. Nenhum mahatma ou encarnação como Ram ou Krishna podem parar o ciclo. Falo de encarnação. O que havia antes de chamar alguém de encarnado? O que levou a uma pessoa comum mudar para encarnada? Você nunca pensa no que era antes do surgimento do corpo, nem como o conhecimento “Eu Sou”, que não existia, começou a surgir.
Você está tão habituado a viver em conceitos que se distrai assistindo a dramas e filmes. Você se perde na imaginação alheia, vazia de qualquer conteúdo. É assim que passa seu valioso tempo.
Os conceitos acalentados por um profeta se tornam religião para seus seguidores. Em vez de seguir alguém, descubra como a certeza “Eu Sou”, que depende da respiração, apareceu. Sem ir até a fonte do “Eu Sou”, falar sobre Ishwara e Brahman não tem valor. Todo mundo sabe que “Eu Sou” estava ausente e que de repente surgiu. Agora você sabe que “você é”. Além disso, qual é seu conhecimento? Sua tarefa principal é encontrar a fonte do “Eu Sou”.
Veja o exemplo do mundo onírico. Quando o senso de ser aparece no sono profundo, o mundo onírico começa com um novo corpo para você.
(Silêncio.)
M: Não é o mundo onírico nada além de uma criação da consciência?
V: Sim.
M: Enquanto assiste a um sonho, a pessoa esquece que está fora do sonho e que dorme confortavelmente na cama. Na realidade, testemunhar o sonho ocorre sem nenhum envolvimento. No sonho também há identificação com o corpo onírico, que sofre. O mundo onírico parece ser real até acordarmos. Às vezes nos vemos mortos no sonho.
O mundo nasce em sua consciência. A consciência de estado de vigília dá surgimento ao mundo de vigília e a consciência onírica ao mundo onírico.
Nada existe na ausência da consciência. Significa que sua consciência contém tudo.
8 de dezembro de 1979
O NASCIMENTO E A MORTE SÃO MITOS
Maharaj: Nosso senso de ser é a qualidade da essência alimentar, feita dos cinco elementos. Só existe um corpo alimentar, mas não um indivíduo. Há manifestação, que contém tudo. Quando não há indivíduo, quem nasce e quem morre? Só há aparecimento e desaparecimento, como uma chama. Ir e vir é um mito. O material alimentar ou Sattva dá força às gunas ou qualidades de Sattva, Rajas e Tamas e por isso as atividades acontecem. Devido ao envelhecimento, o corpo alimentar não consegue fornecer força suficiente para as atividades. Há fraqueza generalizada, inclusive física e intelectual. Se não sou os cinco elementos, não posso ser o corpo. Portanto, as três qualidades de Sattva, Rajas e Tamas não são minhas.
Das três qualidades, a principal é Sattva. Nosso senso de ser é sua qualidade. Sattva fornece luz e força para Rajas e Tamas.
Quando alguma coisa queima, há luz. O corpo alimentar queima, dando lugar à luz da consciência, na qual você pode ver o mundo.
V: O que é Atma?
M: Não é apenas uma palavra. Atma significa você indiviso. Atma ou nosso ser não pode ser sentido sem Sattva ou corpo de essência alimentar.
9 de dezembro de 1979
SUA EXISTÊNCIA É UM SER EMPRESTADO
Maharaj: O conhecedor da mente não é afetado por ela. O indivíduo se envolve com a mente devido à identidade física que tem, devido à identificação com o corpo.
Visitante: Normalmente a mente nos controla.
M: Veja o exemplo da vareta de incenso que está queimando. Seu aroma chega até mim. Não sou nem a vareta, nem o aroma. Da mesma forma, sinto o cheiro de minha presença devido ao corpo alimentar. Não sou nem o corpo, nem o senso de presença (consciência).
V: Por que Adi Shankara entrou em Maha Samadhi (abandonou o corpo) em idade jovem?
M: Não tenho nada a ver com a continuação ou com a saída deste senso de presença.
A respiração acontece continuamente. A respiração entra e sai do corpo, apesar de você. Se você não é respiração nem alento vital, como pode ser a mente? Como você pode ver sua mente, você é separado dela.
O corpo é feito dos cinco elementos. Se você não é os elementos, como pode ser o corpo? Devido à ignorância você considera a morte do corpo como sua morte, mas você é aquilo que se separa e sai do corpo. Você não tem morte.
Não tenho expectativas deste corpo e de sua existência. Não tenho expectativas de você. Se você vem me visitar ou não, não importa.
Sua existência é um ser emprestado e limitado pelo tempo. Está destinada a partir. O que você pode esperar dela?
V: Por que Shankara partiu tão jovem?
M: Você saberá quando se tornar igual a Ele.
V: Outro dia a raiva veio a mim. Não digo que fiquei com raiva. Com uma atitude de separação da raiva, pode haver comportamento irresponsável?
M: A raiva está ligada à mente. Você é a mente? O que você é? Quem observa o fluxo de pensamentos?
(Silêncio.)
M: Não adianta se identificar com a mente. Mesmo que você se identifique com a consciência, ela também vai desaparecer.
V: Mas nós precisamos da consciência.
M: Sem nenhuma necessidade de ter uma consciência, você tem que sofrer por causa da consciência.
V: Todas as nossas necessidades são por causa da consciência. Sem ela não há necessidades.
M: Você está dizendo as palavras que ouviu. Palavras não podem descrever os liberados.
V: Então o que devo fazer?
M: Não faça aquilo que está com vontade de fazer. Mas nada para, mesmo quando não há necessidade daquilo. Você acordar de manhã, de onde surgiu isso?
V: (Nenhuma resposta)
V: Se alguém está certo de ter autoconhecimento, o que você diz?
M: Este é um sinal seguro de estar na ignorância. Muitos me visitam buscando minha confirmação para sua autorrealização, mas fracassam em obtê-la.
Há muitos lugares onde o autoconhecimento é transmitido, mas o modo como isso é feito aqui talvez você não encontre em outro lugar.
A gente tem que observar o imutável em meio ao mutável. A experiência de dia e noite é mutável, não imutável. Um contentamento dependente não é verdadeiro. O verdadeiro contentamento não tem gosto, isto é, no verdadeiro contentamento não há senso de ser. Tudo que pode ser testemunhado não é seu Eu Real.
V: E se estou plenamente satisfeito com o que compreendi?
M: Então apenas esteja lá. É o suficiente. Não quero desagradar ninguém, pois estou aqui para desenraizar a própria causa do desagrado.
Se alguém fica feliz por vir aqui, será que preciso de suas bênçãos? Se alguém vai embora com desagrado, devo eu procurar seu perdão? Não é o Eu Real que fica feliz ou infeliz. É só a mente, que não é importante.
V: Embora as experiências mudem, a testemunha permanece a mesma.
M: Isto muda, devido ao que acontece o testemunhar. Você consegue ver uma estrela distante utilizando um telescópio. Da mesma forma, a consciência é um telescópio com que você observa objetos. Este é um trabalho seu?
V: É o trabalho da consciência.
M: O testemunhar acontece. Não pode ser chamado de trabalho, portanto a testemunha não é quem faz.
V: Nosso corpo também é como um telescópio.
M: O corpo é como a lama.
V: É só material alimentar.
M: Não importa quem me visita. Minha palestra não é para agradar ninguém. Podem até me ver dizer o contrário da expectativa de alguém. O ouvinte ouve com sua identidade física, como homem ou mulher. Daí a falta de compreensão. Como posso falar apoiando a ignorância de alguém?
Falarei a Verdade, esteja ela de acordo com sua opinião ou não. Num sonho alguém se vê como um garoto de cinco anos. Ele cresce até a idade de 100 anos. Vive coisas boas e más e finalmente morre. O sonho termina ali, devido ao acordar. No sonho, o que era real e o que era falso? No sonho a pessoa viu até o deus Brahma. Enquanto via o sonho, a testemunha do sonho foi esquecida e alguém passou a participar do mundo onírico. Para quem o mundo onírico, incluindo o corpo onírico, apareceu? A testemunha faz parte do mundo onírico? O mundo onírico foi visto pelo corpo adormecido ou pelo corpo onírico? Quando o sonho terminou, o que aconteceu ao deus Brahma visto no sonho? Será que ele vai reencarnar?
V: Ele nunca existiu.
M: Na experiência onírica, o que era falso? No sono profundo, o senso de vigília era falso e tolo.
V: Se esta vida é igualmente falsa, por que aceitei este nascimento?
M: Você está dizendo uma mentira. Conscientemente você nunca teria aceitado um nascimento. Aconteceu sem seu conhecimento. Você veio a saber disso de três a cinco anos depois. Conscientemente, quem entraria no ventre para lá apodrecer durante nove meses?

10 de dezembro de 1979
O INTELECTO É PRODUTO DA MENTE
Maharaj: Neste mundo você encontra diferentes tipos de forma. Todas são limitadas pelo tempo.
Visitante: Será que todas essas formas têm o conhecimento “Eu Sou Fulano de Tal?”
M: Isso só acontece com os seres humanos.
V: Será que um nenê sabe que ainda é nenê?
M: Leva de três a cinco anos para saber isso. Que idade você tinha quando reconheceu sua mãe pela primeira vez?
V: Uns quatro anos de idade.
M: Antes disso você nem sabia que existia.
V: Podemos dizer que a consciência estava adormecida?
M: Sim. Como no sono. Podemos fazer a toalha pegar fogo. Sua consciência era como o fogo na toalha. Existe fogo na toalha?
V: Sim, adormecida. As crianças dizem palavras. Isto é conhecimento?
M: Isso é ser como um papagaio. Elas não sabem o que estão falando. Antes dos três anos, não há inteligência nem para saber da existência. Quando o conhecimento “Eu Sou” está ausente, não pode haver nenhuma expectativa de “ser”.
V: Com o autoconhecimento fica claro que não se é a consciência?
M: Quem tem autoconhecimento? É o corpo?
V: Não há nada que saiba.
M: Então quem está falando?
V: Não sei.
M: Então pegue tudo isso como falso.
V: Quero mais esclarecimentos sobre isso.
M: O intelecto se desenvolve depois de reunir conhecimento. A educação é feita para desenvolver o intelecto. Sem educação e treinamento adequados, será que você pode chamar alguém de inteligente?
V: Não.
M: Você consegue ensinar uma criança de dois anos, que não sabe que “é”?
V: Não. Qual é a utilidade da mente?
M: Tem-se que usar a mente para desenvolver o intelecto. O intelecto é produto da mente.
V: Não será a mente espiritual um obstáculo nas atividades mundanas?
M: Tem-se que desenvolver a mente para ter êxito no mundo. Você tem vontade de perguntar algo profundo, mas é incapaz de perguntar.
V: Quando eu lhe faço uma pergunta você aponta meu erro. Este erro se deve a minha identidade física. Será que isto significa que todo esse debate aqui é para saber que não existe nada?
M: Tudo isso é conversa material, um resultado da essência alimentar.
(Silêncio.)
M: O supremo propósito é alcançar o estado Parabrahman, sem desejos. Em outros lugares você será conduzido a mais e mais atividades para alcançar resultados melhores.
V: A confiança de que somos é útil para nós.
M: Sem isso, como você vai conduzir suas atividades?
V: Por que outros instrutores espirituais se abstêm de dizer a Verdade?
M: Eles têm seu próprio interesse nisso. Promover a ausência de desejos afetará os próprios negócios espirituais deles. Isso tem que continuar. Ouvindo minhas palestras, a pessoa desenvolve a convicção de que seu próprio nascimento é uma ficção. Não tem realidade. Obviamente, sabe-se que não há nascimento, nem morte. Não há ida e vinda. Isto faz com que todas as atividades desnecessárias repousem.
V: Saber intelectualmente que não se nasceu e realmente perceber isso, as duas coisas não são o mesmo.
M: Você já sabe que é, antes do intelecto. Você é antes até mesmo da consciência. Cem anos atrás você estava presente, mas não havia consciência. Você discorda?
V: Não.
M: O Eterno sabe que não havia consciência. Tudo que é conhecido através da consciência é efêmero. O suposto nascimento e a suposta morte são uma parte do passageiro.
V: O que é o nascimento?
M: O surgimento de “Eu Sou” ou o senso de ser é o suposto nascimento. O Eterno não tem senso de ser. Nascimento significa ficar consciente de nossa presença. Levou nove meses no ventre e alguns anos fora para o surgimento do senso de ser. É como cozinhar o material alimentar aquecendo, mexendo e adicionando sal, pimenta, etc., para dar gosto. Levou aproximadamente quatro a seis anos para o gosto “Eu Sou” surgir. Não é o nascimento de alguém – ele ou ela. O conteúdo do ventre era o conhecimento “Eu Sou” em condição latente.
11 de dezembro de 1979
EM ÚLTIMA ANÁLISE, CONHECIMENTO É IGNORÂNCIA
Maharaj: O suposto nascimento é o surgimento da ignorância que prevalece até a suposta morte. Um ser raro conhece esta ignorância e observa todo o suposto conhecimento como inútil. Um Jnani descobre que a existência não vale os esforços que exige.
O que você aprende aqui, não espere ouvir isso em outro lugar. Lá você se enredará em atividades.
Visitante: O que você pode falar sobre a pureza dos brâmanes e a intocabilidade das castas inferiores?
M: Tudo isso são acontecimentos na pura ignorância. No autoconhecimento não há lugar para o conhecimento, mesmo o conhecimento “Eu Sou”. Tudo é esvaziado. Você já ouviu isso em algum lugar?
V: Não.
M: Para alguns instrutores espirituais, a consciência é o limite máximo. “Você não é o corpo e sim a consciência dinâmica (Chaitanya).” Eles não vão além da consciência.
Até meu Guru me disse: “Você é consciência, Deus. O que está além disso você mesmo tem que descobrir.”
V: Um sábio está sempre na bem-aventurança?
M: Este corpo está queimando. O autoconhecimento tem uma qualidade estranha. Às vezes é insuportável.
Tradutor: É a consciência que se torna insuportável?
M: Como você fez esta pergunta? Além da consciência, o que há para ser suportável ou insuportável? Na espiritualidade alcança-se um estado de não dualidade. Não há nem “Eu Sou” nem outros. Quando há um, outros estão destinados a acompanhar. O autoconhecimento é profundo e misterioso.
Quando há um, um precisa de muitos. Um nunca está satisfeito com as mínimas necessidades básicas. Um nunca tenta vivenciar a bem-aventurança de ser. Em vez disso, deseja mais felicidade adquirindo cada vez mais coisas. Por que as pessoas lutam por mais?
Tradutor: A pessoa não consegue ficar em paz com a consciência e tenta esquecê-la na atividade.
(Silêncio.)
M: Será que as pessoas estão contentes com a bem-aventurança do Eu Real (Atmananda)?
A consciência fica consciente da atenção ou a atenção dá atenção à consciência? Qual é a sua experiência?
Você acaba conhecendo alguma coisa por causa da consciência. Sem a consciência, há algum conhecer? Não é o conhecer doloroso como uma picada de alfinete? Para esquecer isso ou tornar a dor suportável a pessoa se envolve em atividades.
Sem a graça do Guru não se pode sair destas dificuldades. Nós achamos que somos o que na verdade não somos. Esta é a causa de todo nosso sofrimento e de toda nossa infelicidade. Se você é tudo, não há medo. A presença de outros é a causa do medo. Alguém pensa neste tipo de coisa?
V: Não, não ouvi isso em lugar nenhum.
M: Todas as palavras vêm de uma fonte além do Eu Real. O Eu Real não tem linguagem própria. Uma criança de dois anos não tem linguagem própria. Ela aprende com a mãe. No início estamos livres da linguagem. Nós a aprendemos dos outros. O que não é nosso tem que ir, no fim. Se vivemos muito tempo, a linguagem nos deixa.
V: O Eu Real está cheio de felicidade?
M: O Eu Real está livre da tristeza, portanto não precisa da felicidade. O Eterno é a única Verdade. A não verdade é limitada pelo tempo. Vem e vai. Os ignorantes não têm escolha, a não ser viver a vida como ela se desenrola.
M: A consciência é divina, mas mesmo assim não pode fazer companhia indefinida ao Eterno. A consciência não pode ser Eterna. Um Jnani é uma expressão do Eterno em uma forma. Ele não é a forma, apenas parece ser. Ele é o Eterno.
A consciência não pode fazer companhia ao Jnani indefinidamente. O que isso significa?
Tradutor: Significa que a consciência vai deixar o Jnani.
M: Viver em uma forma não é doloroso? A vida está cheia de problemas. A experiência da Consciência Universal está cheia de dificuldades. Exceto isso, não há a questão de perda ou lucro ali. A dor se deve a uma identidade errada devido à ignorância. Somos punidos por nos considerarmos como algo que não somos. Nessas circunstâncias, devo transmitir conhecimento?
Tradutor: Os buscadores mais sinceros precisam disto.
M: Algumas pessoas que sempre procuram o melhor, inclusive no autoconhecimento, mas não estão preparadas a pagar o preço disso. Elas guardam até um beedi, sem oferecê-lo a ninguém. As pessoas vêm ouvir e saem no meio da palestra, sem pedir licença para sair.
Algumas pessoas fazem perguntas irrelevantes. Eu lhes digo para não desperdiçarem tempo e energia. Apenas tente descobrir como e porquê o estado de ser apareceu.
O estado de ser estava ausente há cem anos. Este é seu conhecimento direto. Por que e como ele apareceu também deveria ser sabido diretamente, sem ter que consultar livros ou outras pessoas.
V: Nosso conhecimento é cheio de conceitos.
M: Os conceitos mantêm a ignorância e fazem surgir o medo.
Uma vez havia um Guru sentado com seus discípulos. Cada discípulo foi previamente instruído em separado a respeito de um cesto cheio de guirlandas. Os discípulos tinham que colocar a guirlanda no Guru, um por um. Em caso de dúvida, podia-se “pular” a colocação da guirlanda, sem contar a ninguém.
O primeiro discípulo levantou a tampa do cesto e pegou uma guirlanda. Ele a deixou cair imediatamente de novo no cesto, pois era uma serpente. O mesmo aconteceu com os outros discípulos. O último discípulo, que tinha fé total em seu Guru, pegou a guirlanda feita de flores recém colhidas. Este discípulo estava livre de conceitos e portanto não tinha medo. Os conceitos levam à ilusão e à apreensão.
Considere seu estado de ser como Deus e adore-o apenas com o senso de ser. Assim seu estado de ser verdadeiramente se tornará Deus. Deus é consciência ou conhecimento e o Guru também é conhecimento. Esta adoração é apregoada na devoção com atributos (Saguna Bhakti). Assim, quando se tem este conhecimento, sua verdadeira natureza como ignorância fica clara. Por fora, o que parece ser conhecimento é pura ignorância na fonte. Assim o conhecimento retira a ignorância e o que permanece está em perfeita ordem.
V: Então como a pessoa deve ser comportar no mundo?
M: Se você deseja estudar uma árvore, deve observar a folhagem ou as raízes?
V: Raízes.
M: Sua pergunta não se origina das raízes. Se alguém diz algo irrelevante, só o “torço” ali.
V: Por que o conhecimento “Eu Sou” é tão importante?
M: Sem ele, você teria conhecimento de seu mundo? Então como pode subestimá-lo?
V: Como se livrar dos conceitos de nascimento e morte?
M: Quando você conhece a origem e a causa de sua consciência, não há nascimento nem morte para você. É como pegar o ladrão. O conhecimento “Eu Sou” estava ausente. Entrou repentinamente como um ladrão. Aqui, a noite significa ignorância. O Eterno nunca disse “Eu Sou”. O ladrão que entrou está dizendo “Eu Sou”. Nós devemos descobrir por onde o ladrão entrou. O ladrão não entrou sozinho, mas com o Espírito Cósmico (Purusha) e com a Substância Cósmica (Prakriti), isto é, com o aspecto masculino e feminino. E qual o significado deste acontecimento? É “Eu Sou”, isso é tudo. Você estava no estado de não dualidade, onde o senso de ser estava ausente. Devido a este ladrão a dualidade começou com “Eu Sou” e com a vivência no mundo.
(Silêncio.)
M: O Espírito Cósmico é a experiência de silêncio, onde não há palavras. As palavras iniciam com a Substância Cósmica, que é o aspecto feminino. A ausência de senso de ser é o ideal. As atividades começam com o surgimento do senso de ser. No sono profundo, assim como no Samadhi, o senso de ser está ausente e há contentamento. O surgimento do senso de ser é o início dos conflitos. Em sua ausência há paz e tranquilidade.
Em outros lugares você aprende a fiel observância dos deveres para obter sucesso e felicidade. Aqui eu lhe mostro a futilidade da ação e removo a própria causa das perturbações. Eu lhe mostro como e porquê as ações não são necessárias para o verdadeiro contentamento.
Com atividades você pode estar melhor durante algum tempo, mas nenhuma ação lhe dará contentamento eterno.
Na ausência do senso de ser não havia necessidades, nem o desejo de ser ou existir. O senso de ser dá origem a todos os tipos de necessidade.
As pessoas se voltam para a espiritualidade apenas quando surge o autoconhecimento que há nelas em condição latente. Assim como o suposto nascimento acontece sem sabermos, o surgimento do autoconhecimento acontece sem sabermos.
Na ausência do surgimento do conhecimento (Sol), as pessoas não desenvolvem interesse na espiritualidade. A condição latente é como a existência de fogo nesta toalha.
Outros instrutores lhe dirão como alcançar a perfeição. Nenhum vai dizer que você já é perfeito antes de fazer qualquer coisa. A questão está apenas em saber disso diretamente.
(Silêncio.)
M: (para um visitante novo): Você diz que não tem Guru. Por sua conversa parece que você tinha um Guru.
V: Eu realmente não tenho Guru.
M: Você está escondendo algo. Na espiritualidade você deve ser franco e aberto. O que você entende pelo termo Guru?
V: É um instrutor espiritual.
G: Guru significa consciência ou conhecimento. Quando você o conheceu, ele despertou o conhecimento em você. É por isso que você desenvolveu interesse pelo autoconhecimento. Espiritualidade é dar e receber conhecimento. Guru, o doador, é o conhecimento, e o discípulo, o recebedor, também é conhecimento (jnana).

12 de dezembro de 1979
LER AS ESCRITURAS AJUDA?
Maharaj: Devido à ignorância, as pessoas se identificam com o corpo. Esta identidade tem fim ao ser cremada ou enterrada. O que você realmente é, como eu lhe digo, não é destruído. Separa-se do corpo morto. O que sai do corpo é a forma de Deus. O conhecimento “Eu Sou” é Deus. O conhecedor de Deus é um Jnani.
M: Acredita-se na morte devido à ignorância. Se a morte fosse uma realidade, mesmo num único caso, todos os seres vivos teriam morrido. Um corpo está vivo devido à consciência. Devido à separação da consciência, pode-se dizer que os corpos têm morte. Como você é a consciência e não um corpo, você não tem morte.
O mundo se originou de uma causa (consciência) tão pequena quanto um átomo. Você pode criar uma montanha de uma semente de mostarda? Mas isso realmente aconteceu, portanto este mundo é falso. Mesmo assim, temos que nos comportar adequadamente e cuidar de nós mesmos e de nossos entes queridos. Assumindo que o mundo é falso, se a gente se comportasse do jeito que quisesse, isso levaria à confusão e ao caos. Apesar de todos os esforços, há muito sofrimento no mundo. Uma vida plena de contentamento só é possível após a autorrealização. As palestras vespertinas começam às 5h e vão até 6h30. Sem perguntas e respostas, a gente acharia esta hora e meia muito monótona. Da mesma forma, neste mundo falso aconselha-se um comportamento verdadeiro. Mesmo assim, deve-se saber o que é genuíno e o que é falso. E quando se sabe o como e o porquê de nossa presença no mundo o trabalho está feito.
Maya ou ilusão nos mostra que tudo é falso. Mas ela mesma é uma enganação.
O mundo aparece à luz de nosso estado de ser. Nosso estado de ser também é denominado Ishwar ou Deus.
Visitante: Por que somos tão infelizes?
M: Consideremos nossa experiência onírica. Se um rei se vê como mendigo, pode ser feliz? Nossa condição é semelhante, mesmo no estado de vigília. Não sabemos quem somos. Acreditamos ser quem, na verdade, não somos. Como pode isso levar à paz e à tranquilidade? O que é preciso é o conhecimento correto e não cada vez mais aquisições mundanas.
V: O sucesso mundano nos dá satisfação temporária.
M: Há cem anos nós não sabíamos quem éramos, que existíamos. Agora conhecemos nossa presença. Este é o erro. Assumimos nosso ser como verdadeiro. Os problemas começam aí. No autoconhecimento nosso estado de ser termina, junto com todos os seus problemas.
V: É tão bom estar na sua presença.
M: Você está estendendo demais sua estadia. Deve dar uma chance aos outros. De novo eu digo que você não é seu corpo, mas a consciência dinâmica (Chaitanya Atma). Isso basta. Agora, não fique mais aqui.
É como casar um filho. Depois disso, o modo de aumentar a família e como cuidar dela é tarefa dele e não sua. Seja o que for, é seu conhecimento “Eu Sou”. É honesto, é desonesto. É Maya, é Brahman. Você ouviu? Bem, agora basta. Você pode ir.
M: Parabrahman, o Absoluto, não tem desejos. Qual a utilidade deste estado de ser para Ele? Quem conhece a Verdade permanece alheio. O silêncio cai bem a um Sábio.
V: Ler as escrituras ajuda?
M: Ler as escrituras e ficar confuso não acaba nunca. No Mahabharata, a origem dos kurus e dos pandus confunde você cada vez mais. Em vez disso, conheça seu estado de ser como luz (Bhagawan) e divino e medite nisso. Isso deve bastar. Seu estado de ser é a semente do mundo. É seu capital principal. Leve-o consigo e vá. Estou lhe mostrando sua posse mais grandiosa e valiosa. Medite nela e seja livre.
V: Somos muito gratos a você.
M: Alguns visitantes recebem conhecimento de nós e com isso argumentam e discutem conosco. Se o conhecimento fosse deles, seria outra coisa.
V: É como dar uma espada a um louco.
M: No sono profundo, seu sentimento de falso acordar faz surgir um falso mundo onírico. Como pode uma coisa falsa dar origem a algo verdadeiro? Da mesma forma, a raiz do mundo de vigília é falsa. A raiz é “Eu Sou”. Como pode isso dar origem a um mundo verdadeiro? Portanto, este mundo é igualmente falso.
13 de dezembro de 1979
A TRANSCENDÊNCIA DE SE TORNAR E DE SER
Maharaj: Você pegou o mantra?
Visitante: Sim.
M: O mantra recorda você de sua verdadeira identidade. Seus pais lhe deram um certo nome e todos o chamam por este nome. Mantra é denominado Nama (Nome) Mantra, isto é, chamar a si mesmo como é na realidade. Este mantra é muito poderoso e eficaz.
Meu Guru me deu este mantra e o resultado é todos estes visitantes do mundo todo. Isto mostra seu poder. Há diferentes mantras. Cada um tem um propósito, que é alcançado entoando continuamente o mantra.
Você não sabe como sua respiração acontece. Então será bem difícil conhecer o ilimitado. Até agora você perguntou muitas coisas a muitas pessoas e no fim das contas ainda está na ignorância. Há uma pergunta que você nunca fez a ninguém. A pergunta é “se você existe”. Você existe e este é seu conhecimento direto. Você sabe disso até na escuridão total. Agora tente conhecer a si mesmo sem perguntar a ninguém. Seu capital é o conhecimento “você é”. Faça uso dele. Medite sobre ele, com ele.
V: Posso usar minha própria língua, minha língua materna?
M: A meditação não tem palavras. De uma flor surge a fruta e há sementes na fruta. Antes do aparecimento da flor algo aconteceu na planta para aparecer a flor. Para todos, o primeiro conhecimento é o de sua própria existência. Depois disso há conhecimento sobre os outros e o iniciar das atividades. Nós agimos de acordo com o sentido dos sons que ouvimos. O ouvinte do som não está no corpo. O corpo é feito da quinta essência do alimento. Sua qualidade é nosso senso de ser. O ouvinte do som não é o corpo alimentar. É o conhecedor da consciência.
M: (para um novo visitante): Todo esse conhecimento, qual sua utilidade para você?
V: Ficar livre da ignorância.
M: Com este conhecimento o indivíduo fica livre de todo vir a ser, bem como do ser. O que ainda há de ser feito por ele?
V: Nada.
M: Um Jnani fica livre do bom e do mau, do lucro e da perda, do nascimento e da morte. Todos os cinco elementos nascem na consciência, na qual eles acabam por se fundir.
Alguns instrutores declaram que a consciência é Ishwara ou Brahman e isto é o que somos, mas não é o supremo conhecimento. Este conhecimento está no campo de maya ou ilusão.
V: Ter visões indica progresso espiritual?
M: Consegue-se ter visões de Deus de acordo com nossa imaginação. Antes da autorrealização o Sábio Namdeo costumava ver o deus Vitthal em forma humana. Vitthal costumava brincar e fazer refeições com Namdeo. Para Namdeo aquilo parecia ser o supremo em termos de espiritualidade. Outros sábios contemporâneos como Jnaneshwar e Muktabai comentaram que Namdeo ainda não estava maduro para ser um sábio. O Supremo está além de todas as formas. Todas as experiências e visões são no campo da consciência, que é a qualidade da essência alimentar. O indivíduo tem que perceber a si mesmo como conhecedor da consciência. Se você parar de comer, estará consciente?
V: Não.
M: Enquanto observa um sonho, você está realmente acordado?
V: Não. Mas isto só é sabido depois de realmente acordar.
M: Se o corpo ainda é sua identidade, isto significa que todo este conhecimento caiu em ouvidos moucos.
Neste mundo encontramos imaginação poética e não Verdade. Ninguém tem tempo para ir até a raiz e descobrir a Verdade.
Os filmes se tornaram muito populares e os cinemas estão lotados. O que há lá, além da imaginação de outrem?
O profeta Maomé apregoava a poligamia para os muçulmanos. A proporção de mulheres para homens era muito alta e era preciso que todas as mulheres se casassem. Isso também ajudaria a aumentar a população muçulmana.
Todos esses acontecimentos perturbam nossa mente. Um ser raro tenta descobrir as respostas em seu interior. O indivíduo vai para a fonte de si mesmo. Não somos o corpo, que é apenas material alimentar. A consciência é a qualidade do corpo alimentar, portanto também não somos a consciência. “Quem sou eu sem a consciência?” - para essa pergunta não há resposta. Até os Vedassilenciam neste ponto. O mundo está contido num grão de alimento. Como pode ser verdade? Observando isso, o indivíduo se torna alheio e despreocupado.
JOGO DOS CINCO ELEMENTOS
Ouvimos louvores sobre uma divindade, recitados em versos em tom de bênção no início de uma representação. Nos versos há alguns indícios dos eventos que se seguem. Da mesma forma, minha doença atual (câncer) indica a plenitude que será vivida num futuro próximo.
M: (para o visitante): O que é bom para mim, você pode aceitar corajosamente?
V: Isso é duvidoso.
M: Se você tiver sono eterno, será feliz?
V: (Silêncio).
M: Os eventos que acontecem são por sua causa ou devido aos cinco elementos? Como você pode esperar um comportamento pacífico dos cinco elementos? Independentemente do que aconteça, você não tem papel para representar ali.
Por causa da identidade física você vivencia felicidade ou infelicidade e tem que acreditar em nascimento e morte.
Todos os seus órgãos de sensação são função dos cinco elementos. Seu próprio senso de ser é a qualidade da essência alimentar, feita dos cinco elementos.
M: A palavra que você pronuncia é qualidade do espaço. O toque físico é qualidade do ar. A forma é qualidade do calor. O suco é qualidade da água. E o cheiro é qualidade da terra. Onde está você em todos esses órgãos dos sentidos?
Você pode tentar controlar o corpo feito dos cinco elementos, mas como controlar os ilimitados cinco elementos ao seu redor? Para você, há os cinco órgãos dos sentidos, mas os mesmos operam como os cinco elementos externos.
Os cinco elementos se reúnem para formar sattva ou a quinta essência da comida, na qual está seu senso de ser. Alguém chega a conhecer o ser de um indivíduo. Quem chega a conhecer, não pode ser dito. O senso de ser nos seres humanos se identifica com o corpo como sua forma. No total há 84 trilhões de formas diferentes como vermes, aves, animais, etc. Todas as formas se devem aos cinco elementos, todas as atividades devido aos cinco elementos. A existência do “mim” como autor no ser humano é imaginária.
Quando você passa a conhecer esta realidade, todas as suas preocupações acabam e todas as suas identidades chegam ao fim. O Absoluto não tem cor, nem plano, nem nome, nem forma. Todos os nomes e formas surgem na Terra e toda a imaginação e todos os escritos se devem à consciência em forma humana. O mundo está cheio de livros com os conceitos de seus autores.
O que consideramos ser, isso continua a mudar com o tempo. De nenê a criança, a garoto, a jovem, a homem de meia idade, a muito velho, nossa identidade muda com o tempo. Nenhuma identidade é estável e nosso conhecimento sobre nós mesmos é válido só para aquele momento, portanto o que pensamos ser em qualquer hora não tem valor. É tudo sem sentido. As identidades não são nossas, são os estados do material alimentar, que contém o senso de ser de alguém. Quando o senso de “Eu Sou” se vai, as pessoas chamam isso de morte.
Conhecer nossa existência é sofrimento e é uma qualidade do corpo alimentar. Quando não conhecemos nossa existência, isso está em ordem e está bem.
Quando você não sabe que “você é”, existe algum medo?
V: Não há nenhum medo.
M: O que eu sei ser, eu não sou aquilo. Eu sou Aquilo que não posso conhecer.
Para ir mais além, eu sou o solo, eu sou as pedras. Eu sou o alimento consumido. Eu também sou aquilo que deixamos cair no vaso sanitário todas as manhãs. Não sou um indivíduo, mas o amor e os sentimentos. Em vez de chamar o transitório de inverdade e enganação, nós o chamamos de maya, a ilusão.
Conhecemos pessoas que têm certeza de saber muito. No meu caso, eu sei que não sei nada.
Em vez de dizer que se viveu 100 anos, deveríamos dizer que sofremos 100 anos.
Você é uma testemunha dos eventos que acontecem ao seu redor. A identificação leva à felicidade ou à infelicidade. Se não há testemunhar, haverá felicidade ou infelicidade? Sem perguntar a ninguém, você consegue dizer que houve uma época em que não havia nada a testemunhar. Esta era sua experiência há 100 anos, portanto o testemunhar em si é um pecado. O pecado não é de um indivíduo, mas do mundo todo.
Um ídolo de pedra feito pelo homem, ao ser adorado lhe dá o que você deseja. Esta consciência é muito mais poderosa. Quando adorado como Deus, ele pode lhe dar qualquer coisa.
Para os buscadores sinceros, a liberação é possível só por ouvir este conhecimento. Não há necessidade de sofrer fazendo sacrifícios e penitências. Todas as falsas identidades caem por terra e o supremo permanece em toda sua pureza.
V: Então o que devo fazer?
M: Não se preocupe com isso agora. As coisas vão acontecer com você conforme precisam acontecer.

14 de dezembro de 1979
“EU NÃO SEI” É O MELHOR ESTADO DO SER
Visitante: Resolvi todos os meus mistérios, exceto o do Eu.
Maharaj: Quando você olha para si mesmo como é, nenhum mistério permanece. Você tem conhecimento direto de seu nascimento?
V: Não.
M: Após seu suposto nascimento você naturalmente começou a ter fome e sede, e também a urinar e excretar. Não eram atos seus. Seu conhecimento contém tudo. Se não houver estado de conhecer, não há nada.
O conhecimento “você é” ou sua consciência é um depósito de todas as formas visíveis. Todo o seu mundo está ali. Sua memória “você é” se identifica com o corpo. Mas a memória não tem forma. Mesmo que você a chame de Atma ou Eu Real, o Eu Real não tem forma.
Você já pensou em sua verdadeira identidade?
V: Eu tento me lembrar de meu verdadeiro ser.
M: Se você não é seu corpo e seu nome, o que você é?
V: (Silêncio)
M: Deixe o corpo lá. Apenas não se identifique com ele. “Eu não sei” é a melhor atitude. Não podemos apontar nossa Realidade como sendo isto ou aquilo. Só podemos dizer “neti, neti” , que significa “isto não, isto não”.
Quando você realiza o Eu Real, não há necessidade de repetir “eu não sou este corpo”. Então você usa o corpo como instrumento.
M: No sono profundo você tem consciência do corpo?
V: Não.
M: A identificação com o corpo surge depois de acordar. Quando um buscador passa a saber que sua consciência é composta de todos os cinco elementos e das três qualidades, o que se pode dizer sobre seu valor? Aqueles a quem chamamos de encarnações tiveram a mesma consciência que você tem agora. O mundo nasce em sua consciência.
V: Existem reformadores sociais no mundo que fazem muito pelas pessoas.
M: Sim. Eles fazem boas obras. Se começarmos a contar o número de seres vivos nascidos na Terra até agora, a que número você chega?
V: (Silêncio)
M: Quando você ouviu a primeira palavra ou frase em sua vida? Que idade você tinha então? Quantos anos você tem agora?
V: Cinquenta.
M: Não é muito. Você conhecia seus pais há 51 anos? Nós pensamos em nossa existência somente após o estado de ser surgir e não antes.
Algumas pessoas se presumem onipotentes. Mas temos alguma identidade definida que possa fazer qualquer coisa sem errar? Neste mundo será que alguém conseguiu fazer alguma reforma que durasse indefinidamente?
M: Na infância nós seguimos nossos pais e fizemos tudo que eles nos disseram. Agora seu Guru lhe diz que você não tem nome nem forma e que é livre neste exato momento. Por que não aceita isso?
Há estágios na evolução do indivíduo. Fala-se o que se compreende. Nossa fala é correta para o estágio em que se está. Quando a gente realmente compreende, sabe que nunca nasceu. Então não se consegue fazer perguntas sobre a data e a hora de nosso nascimento. Se não há nascimento, como pode a morte surgir?
V: Existe conhecimento “Eu Sou” no material alimentar?
M: Os sucos alimentares não têm o conhecimento “Eu Sou”, mas quando eles se tornam o corpo de um ser humano, o conhecimento “Eu Sou” começa. A partir daí começam também o sofrimento e a luta pela sobrevivência. É natural para o “eu amo” lutar para existir. Quando o senso de ser surge inadvertidamente numa forma, o suposto nascimento acontece.
V: O sofrimento é evitável?
M: Os acontecimentos ou eventos fluem da consciência e alguém imaginário ou algum ser que sente sua existência individual sofre por causa deles. O corpo alimentar tem forma, mas o comportamento não tem forma.
O conhecimento “Eu Sou” é qualidade de sattva ou da essência alimentar e os estados de vigília e de sono o acompanham. Quando o corpo alimentar fica velho, os órgãos dos sentidos e os órgãos de ação ficam fracos e não funcionam bem.
O senso de ser de qualquer pessoa não tem nome nem forma, mas o indivíduo assume a forma do corpo alimentar como sua própria forma e aceita o nome que lhe é dado. Os acontecimentos bons ou ruins são apenas conceitos, uma vez que não há ninguém a quem eles possam ocorrer. Na ignorância, o indivíduo acredita em sua existência e presença real. Este hábito é formado desde a infância e não sai facilmente.
Estrelas distantes e invisíveis ficam visíveis com um telescópio. Sua consciência é como o telescópio, devido ao qual muitas coisas se tornam visíveis. A observação é a qualidade da consciência e não do observador. O testemunhar da consciência acontece para o observador. A consciência contém tudo. Testemunha tudo que acontece com o observador.
M: (para o visitante): As conversas que estão acontecendo agora, de que qualidade são?
V: São qualidade da consciência.
M: Do trigo e do arroz, quantos diferentes tipos de itens alimentares você pode fazer?
V: Inumeráveis.
M: Da mesma forma, não há fim para os acontecimentos na consciência. O que é nascimento?
V: É o aparecimento da consciência “Eu Sou”.
M: Todas são qualidades da consciência e não da testemunha da consciência. A consciência ocupa o universo inteiro e é denominada Vishwambhara. Inúmeras pessoas e outros seres vivos viveram nas últimas três eras. O que aconteceu com eles? Como estão agora?
V: Morreram há muito tempo.
M: Eu sei como estão agora. Todos eles são como você, como o que você era antes de assumir esta forma. Todos os seus mistérios se resolverão assim que você souber o “como e porque” de sua consciência. Você sabe que sua consciência não estava lá (há cem anos). Agora está. O “como e porque” dela, você deve saber. É sua tarefa saber. Quem mais vai saber e lhe dizer?
Agora estou falando. Para quem estou dizendo tudo isso? Não estou falando para homens e mulheres. Estou falando para o princípio do nascimento. As formas apareceram depois do suposto nascimento.
Você é incapaz de participar nestas palestras, uma vez que não tem conhecimento. Quem tem conhecimento aqui? É uma piada convencer os visitantes estrangeiros?
Os buscadores ficam confusos ouvindo afirmações diferentes em épocas diferentes. “Ontem ele disse isso. Hoje está dizendo algo totalmente diferente.” Embora eu esteja falando com a consciência pura (princípio do nascimento), os ouvintes são homens e mulheres. Daí a incompreensão e a confusão.
(Silêncio.)
M: O material alimentar não é um ser vivo. Se um jumento come, o material se torna jumento. Se um macaco come, o material se torna macaco. O princípio do nascimento não é produto da imaginação, mas você (homem ou mulher) é. Então como pode haver um entendimento correto?
Na existência não há nada menor ou maior que a consciência. Todos vocês vivenciam-na como seu “Eu Sou”. No campo da consciência há nomes infinitos, mas a testemunha da consciência não tem nome.
Quando falamos para outros, usamos palavras da nossa escolha. Outros usam palavras da escolha deles. Se há desacordo sobre as palavras usadas, há discussões e até uma briga. As palavras fazem surgir palavras mais duras ainda e o sábio pede que todos parem de falar. E há silêncio e paz.
O mundo funciona com o entendimento de que todos os corpos e o mundo são reais. Na verdade, ambos são falsos e isso é verdadeiro entendimento. Os corpos e o mundo são feitos dos mesmos cinco elementos. O indivíduo que vê a si mesmo como separado do corpo alimentar já está livre.
O Absoluto é sem nome, mas ao tentar entender nós usamos nomes como Paramatma ou Parabrahman.
M: As pessoas que me visitam acham difícil me entender. Seria uma conquista se até mesmo uma única pessoa de todo um grupo me entendesse corretamente.
O que você vê, este mundo nada mais é do que as formas assumidas pela imaginação do intelecto humano. O mundo foi feito belo pelas ideias que fluem externamente em forma humana. O conceito “Eu Sou” em forma humana tem grandes poderes. Mas a identificação com o corpo resultou na tragédia da morte.
V: Tudo é tão real. Como pode ser uma ilusão?
M: Do ponto de vista do Absoluto tudo é maya, uma ilusão.
V: Qual é o poder da consciência?
M: Assim como há fogo nesta toalha, mas não é visto, há grandes poderes e habilidades na consciência.
V: Como o senso de ser surgiu do Eterno?
M: Nosso senso de ser é o conteúdo do ventre. Está latente no ventre e continua a ser assim até três a cinco anos após o parto. É como uma manga verde que leva tempo para ficar doce. Quando seu estado de ser atingiu maturidade, você começou a reconhecer sua mãe. Este ser é muito antigo e eterno, mas não tinha senso de ser. O senso de ser só apareceu depois da disponibilidade de um corpo alimentar. A condição de nosso ser até a idade de três a cinco anos é a mesma que a do Eterno.
V: Por que a Verdade se tornou tão difícil de perceber?
M: A Verdade está disponível para todos, mas permanece oculta. Uma formiga pega um cristal de açúcar coberto de areia. Você tem que pegar a ajuda do Guru para localizar a Verdade e percebê-la. A Verdade se torna aberta e livre quando todos os conceitos ouvidos e lidos são jogados para longe.
V: Por que um sábio é tão raro de encontrar?
M: Diz-se que aquele que realiza o Eu Real o esconde. Na verdade, não há esconder. Uma vez que não há clientes reais para a Verdade, o sábio parece ocultá-la. Um ser raro busca a Verdade. Os outros vão atrás das coisas do mundo. Eles adoram a Deus por causa dos ganhos materiais. Um sábio está cheio de paciência para esperar pelo buscador raro. O Sábio Jnaneshwar disse que o conhecimento é transmitido de acordo com a capacidade do ouvinte.
V: O que é maya?
M: Quando passamos a saber que somos, gostamos e queremos manter isso. Isso é maya.
V: Por que existe confusão e caos no mundo?
M: O verdadeiro despertar é perceber o Eu Real. Este (seu) despertar é tão bom quanto o despertar do sonho. Você não espera nada de seu mundo onírico, pois é falso. Mas este mundo é tão falso quanto o mundo onírico. Você o assume como verdadeiro e espera ser beneficiado. Enquanto não perceber seu Eu Real não haverá ordem em seu mundo.
V: Por que nosso estado de vigília é falso?
M: O conhecimento “você é” é a semente do mundo que você vê. O sonho “você é” dá origem a seu mundo onírico e o estado de vigília “você é” dá origem a este mundo. Como o próprio “você é” é uma ilusão, ambos os mundos são falsos. Eu não vivo o mundo através de livros. O mundo é minha experiência direta. É a qualificação de meu conhecimento “Eu Sou”. Eu existo, portanto eu vejo meu mundo. O mundo é feito dos cinco elementos. Esses elementos não seguem nenhuma diretriz. São livres para se comportar como querem. Portanto, o mundo é como é.
V: Eu não deveria ter nascido num mundo assim.
M: Num momento, bilhões e bilhões de nascimentos acontecem. De quem são esses nascimentos? Você lhes dá nomes de acordo com as formas do corpo. Mas todos eles são aparecimentos da consciência em corpos alimentares de 84 trilhões de diferentes tipos de espécies, da ameba ao ser humano. Todas essas formas desaparecem mas não a consciência, que é imortal.
V: Por que existem tantas religiões?
M: O indivíduo gosta de seus próprios conceitos e quer que outros os sigam. Se isto tem êxito, obtêm-se seguidores. Isto leva aos credos e às religiões.

15 de dezembro de 1979
O ETERNO ESTÁ FALANDO AQUI
Maharaj: O corpo humano, tanto quanto as outras formas vivas, é feito da essência alimentar em que os cinco elementos estão presentes. As atividades acontecem devido às três gunas ou qualidades. Você consegue indicar um único corpo onde os elementos estejam ausentes?
Visitante: Não. Isto não é possível.
M: Nem as encarnações de Ram ou Krishna conseguem ser exceção a isso.
Todos os elementos são imensuráveis e ilimitados. Considerar uma existência separada para cada forma viva ou indivíduo é imaginário.
O seu mundo existe quando você sabe que é. No sono profundo você não sabe que é e não há mundo.
Nós somos o resultado dos sucos alimentares nesta Terra. A Terra é passível de ser conhecida?
V: Não.
M: Você é o pó ao qual acaba retornando no fim. As pessoas vêm aqui para que seus problemas sejam resolvidos. Talvez elas venham aqui quando seus problemas estão perto do fim.
V: Maya existe após a autorrealização?
M: Para o sábio, não importa se ela existe ou não. Um homem doente foi aconselhado a beber a mistura depois de esfregar ar no espaço durante três dias. Existe conhecimento nas palavras de qualquer pessoa deste mundo?
(Silêncio)
M: As pessoas que vêm aqui talvez reclamem que não receberam nenhum conhecimento, que ficaram mais confusas.
O Eterno está falando aqui, fazendo uso de palavras. O Eterno não é parte do transitório.
V: As pessoas sofrem de acordo com suas crenças?
M: Se as pessoas expressam certeza de que algo de mau acontecerá com elas, eu lhes digo que este é seu destino, que não posso mudar.
Para mim é suficiente perceber que não faço parte daquilo que vem e vai, que nasce e se põe.
V: Se não sou o corpo, quais são meus limites?
M: Digo aos buscadores para não se subestimarem. Você é tão grande que seria difícil achar uma corda suficientemente comprida para dar a volta em você.
Em outras palavras, levaria muitas eras para andar ao seu redor e mesmo assim não daria para completar o círculo. É melhor sair deste lugar o quanto antes, antes que você perca todas as crenças que tem em si mesmo. Aquilo que diz alguma coisa é sempre a consciência e o que é dito é a expressão da consciência.
V: A cada momento há bilhões e bilhões de nascimentos.
M: Quem nasce?
V: Seres humanos, animais, etc.
M: Não. Todos são nascimentos da consciência em diversas formas. Assim como o embrião se mantém escondido, o ovo Cósmico (Hiranyagarbha) também se mantém escondido.
Existem cientistas fazendo grandes invenções. Há astronautas indo para o espaço para estudar planetas distantes. Quando esses grandes homens estudarem a si mesmos, o que encontrarão?
V: Nada.
M: O conhecimento dos cientistas é conhecimento material. Nosso conhecimento “nós somos” também se deve ao material alimentar. Até agora os cientistas ainda não tiveram êxito em criar seres humanos diretamente do material alimentar. Para isso a união de masculino e feminino é necessária.
V: Você tem autoconfiança para enfrentar qualquer pergunta?
M: Quando as pessoas do mundo todo me visitam, não tenho nada com que me preocupar. Um indivíduo, que nasceu, só estará visitando. O não nascido não pode vir. E o que é nascido é muito bem conhecido por mim. Eu sei como a consciência apareceu e onde está situada.

16 de dezembro de 1979
SUA NECESSIDADE DE EXISTIR O TORNOU LIMITADO
Maharaj: As coisas são como são. Uma flor é como é e a outra é como é. Há necessidade de alguma outra análise?
(Silêncio)
M: Primeiro surgiu a consciência e depois todas essas cenas. Na cena, formas diferentes aparecem em épocas diferentes. Da formiga aos seres humanos as atividades acontecem segundo o fluxo de pensamentos. A consciência em todas as formas é limitada pelo tempo. Quando o tempo acaba, ela desaparece. Assim como você vê relva e brotos de plantas surgindo na estação chuvosa, há criação de seres vivos de vários tipos.
O sofrimento humano se deve a conceitos, que podem ser diferentes dos fatos reais. Um homem é guiado e dirigido pelo fluxo interior de pensamentos que tem. Por isso uma pessoa sem importância pode se tornar uma grande figura histórica.
Visitante: Isso é verdade. Sem direção interior não teríamos feito nada.
M: É a consciência que ouve o Guru e não sua mente. Dê atenção a sua consciência. Medite nela como Guru, como Deus, como Brahman. O universo e todas as 10 direções surgem dela. Você próprio tem que perceber esta verdade.
M: Faça o que lhe digo e seu progresso espiritual e sustento material serão bem cuidados. Um ser raro percebe a verdade disso. Eu sou igual a você. A diferença está apenas na realização. Você é tão elegível quanto eu para alcançá-la.
V: Nós temos nossas limitações.
M: Você acha que é um indivíduo, mas não é. Eu me conheço como manifesto e ilimitado. Quando “Eu Sou”, a criação, a manutenção e a dissolução também estão aqui. Mas eu sou Aquilo que não tem nascimento nem morte.
Os cinco elementos estão presentes em todas as formas vivas. Para dar um exemplo, o ar ou alento vital está presente em todos os seres. Eu sou Aquilo ou aquilo que é meu, que é comum a tudo. Você pode chamar isso de Brahman. Eu não sou um indivíduo, mas sim indivisível ou presente em tudo. As qualidades dos cinco elementos são minhas próprias qualidades. Todas essas qualidades fazem a natureza (Nisarga). Todas as encarnações acontecem na natureza. Todas estão em união com os cinco elementos e têm uma forma individual. Para vocês, todas as formas de homens e mulheres são reais. Para mim, até Prakriti e Purusha não têm forma. Você dá nomes diferentes a várias formas, mas você concorda que sem forma todos são um.
Todas as formas são limitadas pelo tempo. Comparada com o infinito, qualquer duração de tempo é tão curta como se fosse zero, portanto todas as formas são apenas vislumbres, ilusórias. Seu aparecimento é apenas momentâneo.
Do ponto de vista do sábio, uma criança nascida e uma criança antes da concepção, ambas pertencem à mesma classe. O aparecimento momentâneo se funde com o desaparecimento eterno. Há diferenças no aparecimento, mas unidade no desaparecimento. Até os sonhos aparecem e perturbam. Serão reais?
V: Não. Fico feliz por ouvir de você o que Deus é.
M: Não. Tudo isso são informações suas. Quem você é, na verdade? Meu Guru me disse quem eu sou. O mesmo lhe digo eu. Você concorda?
V: Sim.
M: O mundo que vejo é minha própria expressão. Todas as informações que eu recebo sobre o mundo são minhas próprias informações. Para você, aquele homem e aquela mulher são diferentes. Mesmo um homem que faz o papel de mulher numa representação não esquece que é um homem. Para mim, todos são eu. Todos os nomes e formas são meus próprios nomes e formas.
Brahman não é homem nem mulher. É sem forma. Você nota a forma e esquece o conteúdo, a Realidade. Todos os cinco elementos são responsáveis por qualquer forma. Considerar-se homem ou mulher é um tipo de doença. Quando você ouve essas palestras, você se vê como infinito e ilimitado. Não pode ficar restrito a um pequeno corpo. Lentamente, veja a si mesmo como cada vez mais amplo. Logo perceberá que devido à doença da identificação com o corpo você se tornou homem ou mulher. Não se trata de dizer aos outros quem você é e sim de ter convicção interior de sua verdadeira natureza.
Um ser raro como Krishna vê a si mesmo como é e conta aos outros. No Gita ele deixou isso bem claro. Ele vê a si mesmo no mundo e tudo é informação dada por ele. Todos os nomes como Shiva, Ram e Krishna são os nomes da natureza (Nisarga) personificada. Esses nomes descrevem o comportamento da natureza.
Assim como as qualidades de cada um dos cinco elementos diferem das dos outros, na natureza vemos diferentes qualidades. Quando você não consegue mudar uma criança, você admite que suas qualidades sejam de tal modo que não podem ser mudadas.
Todo o funcionamento da família universal se deve a Prakriti e Purusha. Purusha é só uma testemunha e é tudo obra de Prakriti.
Um verdadeiro discípulo diz: “Sendo a morte inevitável, por que não fazer o que meu Guru diz e ver o que acontece?” Um grande devoto trata Deus como seu amigo e Lhe diz: “Tudo pertence a Ti e vai permanecer só Contigo. Por que achas que pegarei qualquer parte disso?”
(Silêncio.)
M: Tenho observado a vida como é e recebido lições dela. Nossa existência em qualquer forma não tem absolutamente nada de confiável. Um parente próximo que hoje está conosco pode não estar lá amanhã. Um filho único pode cair morto na frente dos pais.
Esta é a verdadeira natureza da existência, que não podemos mudar. Só podemos mudar a nós mesmos para ser afetados o menos possível por esses infortúnios. A insegurança nos ensina a ser desprendidos. Nada deveria ser capaz de perturbar nossa paz e tranquilidade. Eu usei as incertezas da vida de modo prático.
Até agora falei do lado que é conhecido. O outro lado, do qual você não tem nenhum conhecimento direto, é a Verdade. A primeira é a consciência (Saguna) é a outra é não consciente (Nirguna), sem nenhum atributo. O consciente parece ser ilimitado mas é transitório e mentiroso. O não consciente parece ser pequeno mas é eterno e portanto, é a Verdade.
Minha necessidade de existir me tornou limitado. O fato de ser incompleto aumentou em proporção direta à minha necessidade. Quando não havia necessidade de existir, eu era ilimitado, Verdadeiro e Eterno.
Aquilo que não é conhecido diretamente, Aquilo é a Verdade. Aquele estado meu, sobre o qual não posso dizer nada, está em perfeita ordem. O manifesto é transitório e o não-manifesto (Nirguna) é Eterno e Aquilo é a Verdade.
V: A espiritualidade também nos ensina como viver neste mundo.
M: Sim. Não ame o transitório, se você deseja paz e tranquilidade. Ame o Eterno, se puder. Pelo menos ame seu “Eu Sou”. Faça amizade com ele. Ele nunca o deixará sozinho. Vai lhe fazer companhia para toda a vida. É o melhor Companheiro Divino e o mais íntimo. É o mais confiável.
17 de dezembro de 1979
TODOS OS INDIVÍDUOS SÃO IMAGINÁRIOS
Maharaj: Não há vida sem os cinco elementos. Todos os supostos indivíduos devem sua existência aos cinco elementos. Todos os objetos são feitos de dois ou mais dos cinco elementos. Só quando os elementos se juntam para formar sattva ou essência alimentar há o senso de ser ou Atma (Eu Real). Embora todas as formas vivas sejam limitadas pelo tempo, algumas formas, como a de Markandeya, têm vida muito longa.
Na natureza e na consciência não há lei e ordem. O homem deseja ordem, mas não tem controle sobre a natureza. Assim, ele pressupõe lei e ordem na natureza.
Os cinco elementos, as três qualidades e Prakriti e Purusha são todos sem forma. Todas as formas feitas destes 10 têm existência imaginária.
Estou tendo meu gosto de “Eu Sou”. Não estava aqui há 100 anos, mas agora está. Minha primeira tarefa é encontrar o “como e porquê” deste gosto.
(Silêncio.)
M: Na busca pela Verdade descobri que meu “eu” não tinha existência. Descobri que este “eu” não era individual e sim o “eu Universal”. O verdadeiro “eu” era da existência inteira, sem qualquer individualidade. Com esta descoberta minha busca acabou. O que existia não era “eu” e sim Brahman. Você sente que sua existência é importante. Assim, tudo é importante para você. Se sua existência perde a importância, nada tem qualquer importância para você.
Você sabe que “você é” e quer existir sempre. Você quer a companhia de seu corpo indefinidamente. Mas é um corpo alimentar que tem envelhecimento e limite temporal. Como pode permanecer saudável para sempre?
Cada ser humano parece ser feito de dois objetivos. O primeiro é um objetivo assumido, o início do “Eu Sou” e o segundo é o objetivo ativo, que trabalha para o sustento do primeiro. Sem o primeiro, o segundo não tem sentido. O segundo depende do primeiro e o sustenta. O segundo funciona pelo tempo que o primeiro existir.
Como todos os indivíduos são imaginários, é errado criticar as questões familiares de alguém. Na verdade, é uma questão do Inteiro – Brahman. O corpo astral ocupa a totalidade da existência. Embora nos limitemos ao corpo, esta não é nossa experiência real. Sempre vivenciamos tudo ao nosso redor, onde nosso corpo também existe. Isto se aplica tanto ao estado de vigília quanto de sono. É por isso que parecemos estar tentando nos forçar a ser corpos contra nossa experiência real, que é outra. Não é um indivíduo que vivencia o inteiro, mas é o inteiro, o manifesto, que vivencia o inteiro. Todo ser não está separado, está sempre com o grupo de 10 – cinco elementos, três gunas, Prakriti e Purusha.
Visitante: É possível transmitir conhecimento sem palavras?
M: O uso de palavras é para ajudar você a entender. Sua ignorância é devida às palavras lidas e ouvidas. Minhas palavras têm a intenção de apagar aquelas palavras. Alguns visitantes fazem uso das palavras para argumentar. A compreensão correta leva a cada vez menos palavras e a cada vez mais silêncio.
V: Como a meditação no conhecimento “Eu Sou “ pode ajudar?
M: Além de seu corpo e do senso de ser, qual é seu capital neste mundo? Sem perguntar a ninguém, que conhecimento direto você tem? Você sabe que “você é” e conhece o mundo em que seu corpo existe. Você não tem conhecimento direto de Deus ou Brahman.
Seu conhecimento “Eu Sou” vem primeiro e depois o mundo, portanto seu conhecimento “Eu Sou” deve ter o primeiro lugar em importância. Você sabe que o conhecimento “Eu Sou” estava ausente há 100 anos. Agora está aqui. Seu primeiro dever é descobrir o “como e porquê” do surgimento de “Eu Sou”. Outras coisas de menor importância podem ser investigadas depois. A meditação em “Eu Sou” é feita para permanecer livre de palavras e pensamentos.
Neste isqueiro a chama é mantida pelo gás incandescente. Da mesma forma, sua consciência é mantida pela digestão do alimento que você come. Vemos o corpo comer, mas a beneficiária é a luz da consciência ou a luz do conhecimento “Eu Sou”.
V: Depois da autorrealização o que acontece com a servidão?
M: O indivíduo a vê como ilusória. Ele vê a si mesmo como um grande Sol iluminando toda a existência. Até aquele momento, estava embaralhado nos conceitos de sua própria mente. Toda ignorância e servidão são devidas ao conhecimento lido e ouvido. Fique no estado anterior a ouvir qualquer coisa. No estado anterior à consciência não havia infelicidade e portanto, nenhuma necessidade de ser feliz. Seu estado de conhecimento é a semente do sofrimento, que dá origem a seu mundo, cheio de infelicidade.

18 de dezembro de 1979
POUQUÍSSIMOS DUVIDAM DO CONTEÚDO DAS ESCRITURAS
Visitante: Como era nossa existência antes do surgimento do estado de ser?
Maharaj: Era não-manifesta, como se não existisse. Seu surgimento foi como o súbito aparecimento de uma planta na estação chuvosa. Eu lhe pergunto que caminho a planta fez para aparecer lá. Para ela, não é questão de chegar lá por nenhum caminho. Esta lá, mas não-manifesta. Só se manifestou lá.
V: E a lei do karma?
M: Nascimento, renascimento e lei do karma são todos conceitos baseados na ignorância da Verdade.
Quando todas as formas são imaginárias, de quem pode ser o karma (ação) e de quem poder ser o nascimento/renascimento? Se o indivíduo tivesse uma forma concreta real, sofreria na mesma forma devido às suas ações.
A lei do karma é baseada na suposição de que todas as formas são reais e que há um registro de todas as ações. Embora todas as formas sejam falsas, o que há de verdadeiro nelas são os cinco elementos. Os elementos podem ser responsabilizados pelas ações e devem ser punidos na medida em que o mereçam.
V: Como a inverdade se estabeleceu como Verdade?
M: Nas escrituras há acréscimos feitos por escritores não autorizados. A maioria deles é de pessoas ignorantes, cujos livros seriam normalmente ignorados. Então esses escritores indicaram o nome de Vyasa, etc. como autores, para serem facilmente aceitos pelo povo.
E também há pouquíssimos que questionam o conteúdo das escrituras. Elas são aceitas naturalmente como a Verdade. Mesmo que não sejam, não importa. Para o homem comum, a espiritualidade vem por último em sua lista de prioridades. Há outros assuntos importantes como a comida, a alta de preços, a instabilidade política, etc., que necessitam atenção imediata. A espiritualidade pode esperar até que se esteja bem velho. Portanto, à medida que os anos passam a verdade duvidosa fica estabelecida como Verdade.
V: Se todas as formas são irreais, é inútil ir e vir ou nascer e renascer.
M: O mundo está cheio de pessoas e a população aumenta sempre mais. De onde elas vêm? Elas só aparecem e se multiplicam lá. Elas só vão desaparecer lá.
Todos os seres vivos são livres para agir. Não há qualquer obrigatoriedade, de nenhum tipo, para se reproduzirem. A multiplicação de corpos alimentares ocorre espontaneamente.
V: O sábio Tukaram disse: “Eu estava em Vaikuntha (a morada do deus Vishnu) e de lá vim.”
M: Se eu o encontrar, eu lhe perguntarei: “Onde estava você em Vaikuntha?” Vaikuntha e Kailas (a morada do deus Shiva) são conceitos muito populares, para onde se diz que os que têm merecimento vão depois de partir daqui.
Passamos a saber de nossa existência apenas aqui, nesta Terra e vamos desaparecer apenas aqui. Onde há a questão de ir ou vir de Vaikuntha ou Kailas?
Assim como acrescentamos o prefixo “falecido” para os que já partiram, os hindus acrescentam o prefixo Vaikunthavasi (residindo em Vaikuntha) ou Kailavasi (residindo em Kailas).
A época em que você primeiro passou a saber que “você é” e o lugar onde isto foi sabido, essas coisas lhe dizem a época e o lugar de sua manifestação. Não há a questão de você vir de nenhum outro lugar. Da mesma forma, você se funde com o não-manifesto quando seu “Eu Sou” não é mais.
V: Um Jnani faz uso do intelecto?
M: Você faz uso do intelecto para seu sustento. Para o conhecedor do intelecto o sustento acontece espontaneamente.
V: Como o do embrião?
M: Sim. Ele é verdadeiramente independente (swatantra) e autossustentável. Aquele cuja ênfase está no “eu” como autor tem um caminho longo a percorrer, mas aquele que se estabiliza no anterior ao “eu” alcança o Eu Real. Temos que voltar ao estado em que o “Eu Sou” estava ausente. Esse estado está em perfeita ordem.
Cada um passa a saber que é através dos sucos alimentares, mas em última análise, quem é que passa a saber? Para entender, você lhe dá um nome, por exemplo: “Absoluto”. Significa que é o Absoluto que passa a saber que “Ele é”. Sri Krishna foi uma expressão do Absoluto. Durante sua vida ele disse muitas coisas, o Bhagavad Gita é sua canção, mas o Absoluto permanece livre de palavras e intocado por elas.
V: Outros animais são afetados por conceitos?
M: O homem acumula conceitos lendo e ouvindo. Na ausência do intelecto, os outros animais não têm esta capacidade.
V: As devotas de Krishna (gopis) lembraram-se dele após sua morte?
M: Durante a época da própria vida de Krishna, as gopis perderam sua individualidade e se uniram a Krishna. Assim, esta questão não surge. Quando a notícia “Eu Sou” se vai, o que fica é o estado sem notícias (Nivrutta).
19 de dezembro de 1979
A MENTE-INDICADORA, NÃO DITADORA
Maharaj: Estou em meu Verdadeiro estado, o Absoluto. Embora eu não esteja restrito a este corpo, ele indica onde estou. Isso continuará até o fim do corpo. Em meu estado Eterno há existência sem a notícia “Eu Sou”.
V: Como você descreveria sua vida?
M: É cheia de modificações mentais e sempre em busca de entretenimento. Assim como você sabe da presença de um rato morto pelo cheiro, agora você está sentindo o cheiro de sua própria presença. Mas este cheiro tem limite de tempo e vai desaparecer. Há 100 anos você não sentia o cheiro da sua presença. Começou depois do suposto nascimento. O que começou também tem que parar um dia, na suposta morte.
Antes de sentir o cheiro da sua presença, quais eram seus desejos e exigências? Agora não há fim para seus desejos e aquisições.
V: Como a mente está ligada ao alento vital?
M: Mente é outro nome para alento vital. Existe ar na atmosfera e há inspirar e expirar. Devido a isso o alento vital funciona. Isso resulta no fluxo de pensamentos, que chamamos de mente. O ignorante funciona de acordo com seu fluxo de pensamentos.
V: Um Jnani tem mente?
M: Ela está lá, mas muito fraca e distante. Assim como você não é perturbado por acontecimentos de menor importância na Rússia, nenhum pensamento afeta um Jnani.
V: Você ignora de modo completo a mente?
M: As exigências da mente são aceitas em assuntos como ir ao banheiro, etc. A mente de um Jnani não tem vez. Só serve como indicadora e não como ditadora. A mente é ditadora para os ignorantes. Agora mesmo vimos uma pessoa que estava sentada aqui em silêncio e que de repente se levantou e foi embora. Quem lhe disse para ir embora?
V: A mente.
M: O homem acha que ele é quem decide e quem faz. Esquece que ele, junto com todos os seres vivos, faz parte dos cinco elementos. O que acontece entre os cinco elementos acaba por chegar à Terra, da qual o homem faz parte. O homem tem que agir de acordo com o resultado da interação de todos os elementos.
V: Um Guru conhece esta interação?
M: Aquele que conhece a ação correta e a ação que deve ser evitada é um Guru.
V: Se nosso próprio ser é a qualidade da essência alimentar, não se pode esperar ter controle das ações.
M: Nosso senso de ser é como uma estação, que tem início e também fim. Nosso ser é mais importante para nós e tomamos todas as precauções e trabalhamos regularmente para seu sustento.
V: Que práticas espirituais você recomenda?
M: Tente viver separando a si mesmo do corpo e de seu nome. Se você não é o corpo e seu nome, quem é você? Embora se considere um indivíduo, seu conhecimento “Eu Sou” é a yoga (união) dos cinco elementos e das três qualidades. É a yoga dos oito (cinco + três) membros ou Ashtanga (oito membros).
V: Por que acho tão difícil ficar sem atividade física ou mental?
M: Porque você quer esquecer seu estado de ser, que lhe dá problemas. No sono profundo você está confortável, pois seu estado de ser é esquecido.
V: Como ficar livre deste problema?
M: Conheça seu estado de ser, isto é, o “como e porquê” dele.
V: Como conhecê-lo?
M: Medite em seu estado de ser, isto é, fique sem pensamentos e seu próprio estado de ser lhe contará todos os seus segredos.
V: A formação de meu corpo aconteceu sem meu conhecimento e sem minha permissão. O que você pode dizer sobre seu fim?
M: O fim pode ser com seu conhecimento, mas será novamente sem seu consentimento. Até Deus (Ishwara) tem um fim.
V: Qual a importância de Mahat Tatwa ou Suprema Consciência?
M: Assim como tudo que você possui se deve a seu poder monetário, toda sua existência se deve a Mahat Tattwa ou Suddja (pura) Sattwa. Quando a luz de Sattwa se põe, tudo acaba. Seu mundo é qualidade de Sattva.
V: Quem é Vasudeo?
M: Vas significa cheiro. Você conhece seu ser. Significa que você sente o cheiro de seu ser por causa da consciência. A consciência é Deus (Deo). A luz ou Bhagwan estará no corpo enquanto você sentir o cheiro de seu ser. Quando a consciência se separa do corpo, o cheiro para. Nada morre.
V: O que é autoamor?
M: O que nasce é autoamor. Você quer viver de qualquer jeito. Você ama existir. O autoamor é seu capital principal.
V: Um Jnani tem autoamor?
M: Um Jnani é aquele que conhece a origem do autoamor. Ele não tem autoamor. A ignorância mantém o autoamor. O ignorante sofre muito devido ao autoamor. Todas as suas atividades, inclusive yoga, meditação e penitências para a autorrealização se devem ao autoamor. Maya é autoamor. Enquanto você amar viver não poderá se livrar de maya. Você não é um diretor, é apenas um impotente ator no espetáculo de sua vida.
V: Como me livrar desta ignorância?
M: Você não pode removê-la com esforço. Ela se vai quando você conhece a causa.
V: Por que só uns poucos estão interessados no autoconhecimento?
M: O impulso tem que vir de dentro. Quando as pessoas descobrem que suas conquistas materiais não podem lhes dar muito, começam a busca espiritual. A futilidade da riqueza não pode vir aos pobres, portanto os indianos têm um longo caminho a percorrer para se voltar para a espiritualidade. Um número considerável dos que vêm aqui está interessado em seus problemas mundanos. Os visitantes da Europa e dos Estados Unidos aumentam cada vez mais.
V: Como se livrar da identidade física?
M: Você deve lembrar-se do fato de que é infinito e ilimitado. Por treinamento e hábito se imagina limitado ao corpo. Seu alguém imaginário é perturbado por problemas. No caso de um Jnani, não há ninguém para sofrer.
V: Falar continuamente deve ser cansativo para Maharaj.
M: Este cadáver (meu corpo) está queimando a cada segundo. Os médicos me aconselham a parar de falar e tomar os remédios, mas o que eles sabem? Para mim, o remédio será pior que a doença. Não há dor, apenas fraqueza. Não tenho energia para sentar, mas assim que fico sentado na frente de vocês começo a falar.
V: Nosso senso de ser é muito pequeno, mas contém um vasto espaço.
M: Quando Krishna disse: “Eu sou tudo”, ele quis dizer que seu estado “Eu Sou” é tudo. Esta é a experiência que todos têm.
Mesmo quando Krishna era muito jovem, muitos iogues e mahatmas o visitavam buscando conselhos e bênçãos.
V: Encarnações como Ram e Krishna fizeram muito pelo mundo.
M: Mas alguma reforma durou muito tempo? Conseguiram eles ou qualquer outra pessoa parar os ciclos de criação, manutenção e destruição? Puderam controlar os cinco elementos?
V: Alguns grandes homens declararam que voltariam em tal e tal lugar.
M: Eu não direi isso, porque todas as formas são minhas formas e tudo que é visto é uma expressão minha.
V: Nós vemos corpos mortos. Então como você diz que não há morte?
M: Todos os corpos são feitos de cinco elementos e estão vivos por causa da consciência. Quando a consciência se separa não há vida no corpo. A consciência não morre, apenas se separa do corpo. Sem consciência, o corpo só estava morto. Então quem morre aqui?
A consciência serve como instrumento, devido ao qual o testemunhar acontece para o Absoluto. Sem consciência o Absoluto não consegue testemunhar nada. O Absoluto primeiro testemunha a consciência quando ela existe e então testemunha seu conteúdo. Se a consciência é denominada Brahman, sua testemunha é Parabrahman.
M: (para um novo visitante): Há quantos anos você está fazendo suas práticas espirituais?
V: Há mais de 12 anos.
M: Você sabe que esta consciência não estava lá… digamos, há uns 100 anos?
V: Sim.
M: Seu senso de ser é limitado pelo tempo. Tem início e também fim. Para o Absoluto e também para a consciência, não há ir e vir. A consciência surge e no fim ela se separa do corpo. O testemunhar acontece para o Absoluto e então para de acontecer quando a consciência se separa do corpo.
V: Qual a utilidade de todo o meu conhecimento espiritual?
M: Sem conhecer o “como e porquê” da transição do estado de não conhecimento para o estado de conhecimento, todo conhecimento é inútil.
Quando seu avião aterrissou na Índia você soube a hora de chegada. Da mesma forma, qual a hora de sua chegada nesta vida?
V: É a data e a hora de meu nascimento.
M: Não. É a hora de sua concepção. Esta é verdadeira chegada e não a hora do parto. Você sabe de onde chegou?
V: Não. Aconteceu sem meu conhecimento.
M: Seu estado era o mesmo antes da concepção, durante a mesma e cerca de três anos após. Você veio a saber de sua chegada três a cinco anos após o parto. Na concepção sua presença era latente, como a presença do fogo nesta toalha. Uma criança começa a saber de sua presença depois de começar a reconhecer sua mãe.
V: Pode o fogo queimar esta consciência?
M: Não. Ele só pode queimar o corpo. A consciência se separa do corpo. O Eu Real é indestrutível e imortal. Autoconhecimento é conhecer seu estado antes da concepção.
V: Qual é sua verdadeira identidade?
M: É Aquilo que não muda com o tempo. Todas as nossas identidades mudaram com o tempo. Não é inútil todo o conhecimento que temos de nós mesmos?
V: Todas as nossas lembranças são fotográficas. Qualquer cena passada de nossa vida, quando relembrada, aparece à nossa frente em forma de fotografia.
M: Você tirou essas fotos? Elas acontecem automaticamente. Todas as nossas atividades continuam suavemente por causa dessas fotografias. Você pode reconhecer as pessoas e os lugares que já visitou antes.
V: Como reconhecemos uma pessoa ouvindo sua voz?
M: Isso também é registrado.
V: Qual a utilidade de cantar Guru-Mantra?
M: Para a purificação geral, inclusive a dos cinco pranas (alentos vitais). Embora o alento vital seja apenas um, é subdividido em cinco pranas, de acordo com suas funções. O buscador puro percebe o Eu Real.
V: Por que os verdadeiros buscadores são pouquíssimos em número?
M: Só uns poucos têm o impulso interno. Não pode ser desenvolvido externamente. Aquele que recebe a graça divina do Eu Real encontra seu Sadguru. Primeiro há a graça Atmakrupa do Eu Real, depois a graça Gurukrupa do Guru e por fim a autorrealização.
V: O Atma (Eu Real) é um ou muitos em diferentes formas?
M: Atma é só um, mas se expressa como “Eu Sou” em formas diferentes. Todos os cinco elementos se juntam para que o senso de ser apareça. Para a autorrealização, deve-se abraçar “Eu Sou” por si mesmo, isto é, permanecer sem pensamentos. Isto é chamado de meditação. Esquecer o mundo e manter a alma, isto é “Eu Sou”.
V: Parece que cada um tem um Atma separado.
M: É o mesmo lago que fornece água para a população de Mumbai. A água é uma só, mas quando enche os reservatórios em diferentes prédios, todo mundo diz que a água é sua.
V: Como você descreveria Verdade e inverdade resumidamente?
M: O que você não pode saber é a Verdade e o que você pode saber, mas muda, é a inverdade.
V: Nascer é sofrer. É possível ficar sem nascer?
M: Você não pode parar aquilo que acontece sem seu conhecimento.
V: Pelo menos Deus devia parar isso.
M: Todas as formas vivas, inclusive as de Ram e Krishna, são produtos de Nisarga (natureza). Deus não criou este universo. Uma forma viva é o alimento de outra forma viva. Isto não é crueldade? Até nós fazemos o melhor possível para evitar a crueldade. Será Deus tão cruel para fazer tudo isso? Um criador assim deve ser um idiota ou um demônio.
Há tanta destruição devido às calamidades naturais. Se Deus tivesse criado o universo, teria tido o cuidado de controlar os cinco elementos. Como não há criador, os elementos estão livres para agir sem controle.
V: Se não Deus, pelo menos Brahman ou Parabrahman deveriam fazer alguma coisa.
M: Todos esses nomes são dados só para uma melhor compreensão. Não há formas correspondendo aos nomes. A criação de todas as formas vivas é como cozinhar uma panqueca na chapa quente. Seu destino é de acordo com a qualidade da essência alimentar (Sattva) na época da criação. Alguém se tornará mendigo e outro rei, segundo a qualidade. Outro, que não pode ser descrito em palavras e que está além do espaço, é um Jnani. Ele não tem nome nem forma.
V: O surgimento do “eu sinto o gosto” é o nascimento, e seu desaparecimento é a morte. Para onde irá o gosto após a morte?
M: A chama deste isqueiro a gás, para onde vai quando se extingue? Ela desaparece no lugar de onde surgiu. Não há ir e vir. O céu e o inferno são ideias criadas pelos espertos para fazer as pessoas se comportarem direito.
V: Como posso ter certeza da existência de Deus?
M: Você tem qualquer dúvida de sua existência?
V: Não.
M: Você sabe que é por causa de sua consciência. Eu lhe digo que sua consciência é Deus. Duvidar da existência Dele é duvidar da sua própria existência. Sua consciência contém o mundo inteiro.
Você encontra muitos que dizem que Krishna é a alma deles, mas eu lhe digo que eu sou a alma de Krishna.
V: Como conhecê-lo?
M: Você tem que encontrar sua natureza Eterna. Então saberá que você, como Deus, não existe. Aconteceu no meu caso. Primeiro Ishwara morreu e então… (Maharaj aponta o dedo para si mesmo). Você sabe tudo que Deus sabe e Deus sabe tudo que você sabe. Quando todo meu conhecimento desaparecer, Deus também se tornará um branco.
V: Muitos estão se interessando por Deus.
M: Isto é por causa da incerteza na vida e do medo. Quando você realmente entende as qualidades de sattva, rajas e tamas todo seu medo vai embora. Seu “Eu Sou” é qualidade destas três. Elas não têm morte, então como pode você morrer? Não saber que “você é” não pode ser chamado de morte. Também acontece no sono profundo. Você está morto?
V: Por que não sou este corpo?
M: Este corpo, que é feito dos cinco elementos, é parte do universo. Como você não é os cinco elementos, como pode ser o corpo? Este corpo contém a notícia de que você existe. Você não pode ser a notícia.
V: Eu nunca estou sozinho, nem quando sonho. Se o “Eu Sou” é tudo, é possível estar sozinho sem ninguém ou sem nada?
M: Isto só é possível quando seu “Eu Sou” desaparece. Então não há outros ou outras coisas. Este é o estado não dual.
V: Às vezes ficamos felizes ou infelizes por causa dos outros.
M: A existência dos outros depende de você. Há 100 anos, quando você não era, todos estavam ausentes. No sono profundo tudo também desaparece. Tudo isso, que depende de você, não deveria lhe dar felicidade ou infelicidade. Sua existência não depende dos outros.
V: Você tem morte?
M: Eu permaneci sem morte? Tendo morrido, estou vivo. Vejo todo mundo como eu mesmo – puro e completo. Mas eles se seguram em suas crenças e sofrem. O que posso fazer?
(Silêncio.)
M: Como vejo alguém? Eu vejo como um, como era um anterior à concepção. Mas todos se consideram de acordo com seu próprio conceito. De acordo com isso, a pessoa sofre. O Eterno não precisa de remédios para existir e sobreviver.
V: Há felicidade ou infelicidade só após o nascimento.
M: O nascimento significa o surgimento dos três estados de vigília, sono e conhecimento, e o comportamento é pelas três qualidades de Sattva, Rajas e Tamas. Onde está você em todas essas coisas? Você imagina estar lá e sofre. A felicidade ou infelicidade é só uma imaginação do imaginário.
Todas as ações do indivíduo servem para dar alívio ao sofrimento. A pessoa chora, grita ou maltrata os outros na raiva. Todas essas ações ajudam a acalmar a mente da pessoa.
V: Até a doença pode ser imaginada.
M: Muitas vezes as pessoas vêm a mim com alguns problemas físicos. Eu lhes digo: “Não há nada errado com você. Esqueça isso. Nada pode lhe acontecer.” E essas pessoas são curadas sem remédios. É a cura pela fé.
M: (para um visitante novo): Você tem certeza que “você é”. Do que depende esta certeza?
V: É muito claro em suas palestras.
M: Se você realmente sabe disso, torna-se imortal. Consideremos um lampião a óleo. Sattva é a luz, onde as atividades acontecem devido a Rajas. E a fuligem no tubo de vidro do lampião é Tamas.

20 de dezembro de 1979
SEUS CONCEITOS TOLDARAM O EU REAL
Maharaj: No que diz respeito ao Eu Real, eu lhe dou dicas importantes, úteis. Realizá-las é tarefa sua. Os pais ajudam o filho a se casar. O que fazer depois disso é tarefa dele e não dos pais. Ouvir este conhecimento é morrer em vida. É a morte de nossa identidade, que fica com o ignorante até o fim. Os medrosos abandonam o sábio por medo de extinção.
O indivíduo é tão apegado ao corpo que acha impossível aceitar até uma separação do corpo. Para ele é como se fosse a morte do corpo. Para o verdadeiro buscador, o corpo é apenas uma causa para a pergunta: “o que sou eu?” Ele não tem dúvida de sua existência separado do corpo.
V: Posso conhecer ou observar minha morte?
M: A morte acontece quando o senso de ser desaparece permanentemente. Sem o senso de ser, como você conhecerá a morte? Você dorme todos os dias. Se não há despertar no sono ou depois dele, é a morte. A diferença entre sono e morte é só o medo da última. Para o Jnani, a extinção do alento vital é venturosa, semelhante à sua felicidade no banheiro todas as manhãs.
V: Quando eu não durmo, tomo uma pílula.
M: Da mesma forma, o senso de conhecer, a vigília e o sono são o resultado de uma grande pílula denominada essência alimentar. O que é o nascimento, senão o surgimento desses três estados? Seu desaparecimento é a morte.
V: Quem está apto a receber conhecimento espiritual?
M: Aquele que está angustiado com problemas físicos, mentais e espirituais.
V: Se eu não conseguir libertação nesta vida, morrerei?
M: O estado de conhecer, a vigília e o sono são qualidades da essência alimentar. Você é o alimento que come?
V: Não.
M: O corpo é seu alimento, não você. A morte do corpo não é a sua morte. Depois disso, seu estado de conhecer não existirá mais. Há 100 anos seu estado de conhecer estava ausente. Você estava morto?
V: Não. Se não existe morte, quer eu esteja realizado ou não, por que me dar a todo esse trabalho?
M: Apenas o conhecimento verbal, sem realização, não pode remover o medo. Você não consegue encher o estômago lendo o cardápio do café da manhã. O conhecimento é definido como Aquilo que liberta. Traz paz e tranquilidade. A carga que você carrega na cabeça será então colocada em sua mesa.
V: Quando não existimos mais, quem está lá para receber as oferendas feitas aos que partiram?
M: Ninguém. Os que fazem as oferendas ficam satisfeitos e o sacerdote recebe seu pagamento (dakshina).
V: Agora estou livre da maioria de meus conceitos.
M: Seus conceitos, baseados em boatos, toldaram o Eu Real. Este conhecimento deve libertar você até do “Eu Sou”, que também é um conceito. Sua Bíblia está cheia de conhecimentos e o clérigo a prega. Mas ninguém prega deste jeito.
V: No Ocidente os sábios não gozaram de liberdade para dizer a Verdade.
M: Quando falo aqui, tenho que sofrer os efeitos. Esta é uma verdade estabelecida.
V: Você pode esclarecer isso um pouco mais?
(Silêncio)
Intérprete: Maharaj costumava dizer que as palavras do Jnani são muito poderosas. Têm grande impacto nos ouvintes, inclusive no próprio Jnani.
Ele mencionou um lugar de peregrinação onde vivia um Jnanihá muito tempo. Todos os visitantes sentiam o ambiente sagrado daquele lugar e tinham que ir embora de lá depois de alguns minutos. Maharaj disse que qualquer desejo do Jnani, como por exemplo, “me deixe em paz”, funciona mesmo depois de seu Maha Samadhi.
Um Jnani precisa ter muito cuidado quando usa palavras. Elas têm efeito bom ou mau segundo sua aplicação.
Maharaj não gosta da queima de fogos devido ao som e à poluição do ar que causam. Uma vez, ele disse: “Não sei por que as pessoas queimam dinheiro e casas.” Ele se corrigiu imediatamente, dizendo: “É claro que as casas não foram queimadas.”
M: Antes de seu nascimento, estava Jesus consciente de aparecer em uma forma? Não pode ser. Ele não pode ser uma exceção à regra.
V: Há alguma testemunha de suas descobertas supremas?
M: Se há qualquer testemunha, tenha certeza de que é tudo uma mentira. Enquanto não há testemunhas, está tudo em perfeita ordem e na Verdade. No estado Absoluto não há outros. Eu sou a única testemunha de mim mesmo.
V: A ajuda do Guru é obrigatória para perder a identidade física?
M: Sim. Depois disso o discípulo fica mais próximo do Guru.
M (para um novo visitante que está de olhos fechados): Não medite aqui. Ouça com os olhos abertos. Quando você estiver sozinho, vá para o estado em que seus pais não o reconheciam e você não os reconhecia e medite profundamente.
Você entende que seu surgimento numa forma foi espontâneo?
V: Sim. Foi sem meu conhecimento e sem minha cooperação.
M: Embora você (corpo) não tivesse conhecimento, você, o não-manifesto Eu Real, é responsável por sua manifestação física.
21 de dezembro de 1979
COMO FICAR LIVRE DA DOENÇA “EU SOU”?
Maharaj: Há manifestação devido à quintessência da comida. O corpo nasce com o surgimento dos três estados: vigília, sono e conhecimento.
Visitante: Existe algo além de saber: “eu não sou este corpo”?
M: Depois disso você passa a saber que também não é a vigília, o sono e o estado de ser. E também passa a saber que não tem nascimento e que é Aquilo que não tem início nem fim.
Seus pais foram responsáveis pelo corpo, no qual a notícia “você é” apareceu. Cada um dos pais contribuiu para o aparecimento da notícia. Do leite, você obtém manteiga e ghee. Ambos estão latentes no leite. Da mesma forma, a consciência está latente no alimento. Portanto o alimento sustenta a consciência em seu corpo. Sua atenção (a deusa Laxmi) serve sua consciência (o deus Vishnu).
V: Na imagem do deus Shiva, o rio Ganges é mostrado fluindo de sua cabeça.
M: Então como ele conseguia dormir? Shiva é um grande Guru e cada palavra sua é conhecimento profundo. O Ganges não é um fluxo d´água e sim de conhecimento.
V: Por que o deus Brahma é mostrado com quatro bocas?
M: Para indicar os quatro tipos de fala: Para, Pashyanti, Madhyama e Vaikhari.
V: Aqui todos estão sem fala.
M: Por fora você parece estar em silêncio, mas por dentro o fluxo de pensamentos continua. Alguém está sentindo um estado livre de pensamentos?
(Nenhuma resposta)
M: Neste mundo vivemos muitas coisas. Alguma experiência fica permanentemente conosco?
V: Não.
M: Quando seu alento vital e sua mente saírem e o corpo cair, o que você será? Você ama existir. O que acontecerá com isso? Sem corpo-mente, que aparência você terá?
Haverá qualquer sensação de dia e noite? Quais seriam suas preocupações com todos os seus parentes próximos e seu dinheiro e posses arduamente obtidos?
(Silêncio)
M: Quem são os pais de tudo que você vê agora?
V: A consciência.
M: “Sem consciência, tudo é inútil”. Sabendo disso, você vai continuar a luta por mais e mais?
V: Devemos cuidar de continuar a consciência?
M: Mas ela é qualidade de um corpo alimentar (saudável). Logo a consciência vai perder sua moradia. Enquanto durar, tente descobrir o que você era sem consciência e como ela fez seu súbito aparecimento.
V: Este é o melhor uso da consciência.
M: Se não posso sobreviver sem água, ela se torna meu Atma (Eu Real). Se a consciência não é, “Eu Sou” não é. Então a consciência se torna meu Eu Real e deve ser mais importante para mim do que Deus.
V: Tudo isso se aplica tanto ao ignorante quanto ao Jnani.
M: O ignorante se identifica com o corpo, mas o Jnani sabe que não é corpo nem consciência. Ele faz uso da consciência enquanto ela dura. Ele é anterior à consciência e está sempre neste estado.
V: O que um buscador deve descobrir?
M: “Eu” por quê, “eu” por quê?
V: É um milagre ver o mundo numa gota de essência alimentar.
M: Cada gota ou grão de essência alimentar ajuda a sustentar a consciência. Você vivencia o mundo por causa da consciência. Portanto, o milagre acontece. Assim, podemos dizer que Sattva é o pai-mãe do mundo inteiro. Diz-se que o mundo é muito antigo, mas seus pais são gotas de sucos frescos. É como se uma cobra de borracha tivesse picado e os efeitos do envenenamento não terminassem nunca.
V: O mundo está na consciência. Portanto, o conhecedor da consciência que está no mundo também deve estar na consciência.
M: O conhecedor da consciência não está na consciência. A consciência não pode conhecer seu conhecedor, o Absoluto. Um astrônomo faz uso do telescópio para observar os planetas e as estrelas. O observador está separado do telescópio, de modo a também poder observar o telescópio. Da mesma forma, o Absoluto faz uso da consciência, mas não está na consciência. O testemunhar da consciência acontece para o Absoluto e o conteúdo é como o conteúdo de uma tela de TV. O Absoluto não pode ser visto lá. É sempre quem vê. Como você definiria uma pessoa pobre?
V: Alguém que tem poucas posses ou nenhuma.
M: Eu decido a pobreza pelo número de desejos. Os ricos têm mais desejos. Não se pode esperar muito dos ricos, pois são pobres em generosidade. Todos os movimentos dos ricos, inclusive as doações que fazem, são direcionados para ganhar cada vez mais.
V: Enquanto há consciência, há expectativa.
M: Eu quero. Eu quero.
V: Como acabar com todos os “queros”?
M: Conheça a origem da consciência. Então aquele que exige ou espera, desaparece.
V: Como você diz que não há nascimento, quando há uma data e uma hora específicas de nascimento?
M: É o nascimento do tempo e não do nenê. O tempo nasce, não o nenê. Em seu verdadeiro estado, você não tinha conhecimento do tempo. O tempo começou e terá fim. Você é o intemporal para quem o tempo apareceu por certo período. Você é independente do dia, da noite e das estações. O que depende disso é o que flui, o transitório. Você é a testemunha de todos os aparecimentos. Você imagina ser alguém no mundo que aparece para você. Portanto, você vive a dor e o medo. Sua infelicidade resulta de sua própria autoria.
V: Como nosso conhecimento difere do autoconhecimento?
M: O verdadeiro conhecimento é conhecer o Eu Real. O seu é conhecimento material. Seu conhecimento surge devido ao material denominado sucos alimentares. O que você sabe está só no campo dos cinco elementos, que também é material. Você só conhece as questões familiares dos cinco elementos, que são limitados pelo tempo. Meu conhecimento é diferente disso. Eu não dependo de seu conhecimento. Eu sou intemporal. Não vivi dia e noite e era completo e perfeito. Seu dia começa com expectativas. Como você pode ser completo?
V: Como ficar livre do problema “Eu Sou”?
M: Às vezes, em nossas aldeias, as crianças de repente desenvolvem coceira e sensação de vômito sem motivo aparente. Os mais experientes aconselham a tirar a camisa da criança. Na pele eles notam um inseto que normalmente incomoda o gado. Quando o inseto é tirado, a coceira e os vômitos cessam. Da mesma forma, você tem que descobrir a causa de seu “Eu Sou”, de modo a estar confortável sem isso. Sua ignorância da origem de sua consciência é responsável por todos os seus problemas. O ladrão chamado “estado de eu sou” desaparece quando é notado. Você já notou de onde vem sua visão, seu paladar, etc.?
V: Do cérebro.
M: Acontece no Sahasrar Chakra no centro da cabeça.
V: Como o alento vital e a consciência estão relacionados?
M: Na essência alimentar o senso de ser está latente, como se adormecido. Com o surgimento da pulsação, devido ao alento vital, o senso de ser ou consciência cuida de obter os suprimentos alimentares.
V: O nome e a forma ajudam a identificar uma pessoa.
M: Mas o corpo não é nossa imagem. O autoamor é nossa imagem. A questão de viver surgiu devido ao aparecimento de sua consciência. Portanto, adore sua consciência como Deus. Seja um com ela. Com isso você conseguirá o conhecimento espiritual exigido e estará livre da infelicidade. Todo o conhecimento da consciência se desenrola para um devoto deste tipo.
V: Qual conquista suprema deste devoto?
M: É a convicção do Eu Real.
V: Ele (o devoto) será útil para outros buscadores?
M: Ele lhes dará conhecimento e os ajudará segundo a necessidade e o mérito. Os que não são sinceros ficam satisfeitos com o conhecimento verbal. Eles se tornam gurus.
V: Muitos buscadores não se ligam só a um Guru.
M: Um buscador foi embora depois de me visitar por vários dias. Ele não ficou muito impressionado, pois eu era facilmente acessível. Ele esperava obter conhecimento mais profundo em alguma caverna remota no Himalaia. Ficou surpreso quando ouviu o mesmo conhecimento de um buscador avançado no Himalaia e voltou para não partir mais. O importante não é o lugar e sim quem é ele, aquele que divulga. O Verdadeiro Guru aponta a coisa mais importante, que está dentro do discípulo e não fora. Quando você sabe que “você é”, todas as outras coisas se tornam importantes para você. Quando “você é” não é, o que tem importância para você? Em vez de perder tempo e energia buscando lá fora, por que não sentar confortavelmente e buscar internamente?
V: O simples e o fácil são sempre inacreditáveis.
M: Alguns acreditam que a autorrealização está no final de grandes sofrimentos e tristezas. Para eles, o diamante Kohinoor não pode ser encontrado quando se caminha por uma estrada. Eles acreditam que todas as grandes coisas exigem grande esforço.
V: Com o autoconhecimento nossa vida se torna significativa.
M: Quando o Eu Real, que está além de todas as emoções e da consciência, é realizado, todas essas coisas perdem o sentido e a importância.
22 de dezembro de 1979
VOCÊ É A PROVA DE QUE DEUS EXISTE
Visitante: Embora a gente ouça você dizer vezes sem conta que não somos o corpo, não conseguimos deixar de tomar todo cuidado para mantê-lo seguro e saudável.
Maharaj: Um sábio não espera nada do corpo. Ele o entrega à natureza para fazer o necessário.
V: Ele tem algum dever a cumprir?
M: O sábio não tem nome nem forma, portanto nenhum dever. Ele é intemporal, mas o tempo começa com a consciência. Você também sente o dia e a noite por causa da consciência. Com o fim de seu último dia, a consciência também não existirá mais. Quando não há consciência não há felicidade ou infelicidade.
O que acontece com a água no pano molhado que é estendido para secar? Da mesma forma, nosso senso de ser é a qualidade dos sucos alimentares molhados. Quando os sucos secam, o senso de ser desaparece como a água no pano molhado.
V: Houve buscadores da Verdade no passado?
M: Príncipes como Mahavir e Buda saíram de seus reinos em busca da Verdade. Para eles, o autoconhecimento era mais importante que os confortos da ignorância.
V: Como é a companhia de um sábio, é útil?
M: O indivíduo passa a conhecer a importância de vairagya (desapego). Sua prática ajuda a compreender o Sadguru. Quando visitei minha cidade natal recentemente, após longo intervalo, não havia ninguém lá para me reconhecer. Todos os meus conhecidos já tinham morrido. Da mesma forma, o que eu conhecia de mim mesmo como “fulano de tal”, este conhecido também tinha partido. O conhecedor dos conhecidos também não existe mais. Meu estado está além de todos os conhecidos e reconhecidos. No processo de conhecer houve indício de eu ter nascido. Mas isso foi visto como inverdade. Assim como todas as nossas identidades, de um nenê a um idoso, mudam com o tempo, todo o meu conhecimento sobre mim mesmo foi apagado e perdido. Não me preocupei nem um pouco. Até o sinal do nascimento foi reconhecido, mas ficou claro que também não me dizia respeito. Assim como em minha cidade natal eu não sou dono de nada, este nascimento também não me pertence.
M: (a um novo visitante): Há 100 anos seu estado de conhecimento estava ausente. Agora está presente. Por quê?
V: Devido a meu nascimento.
M: Seu estado de conhecimento estava ausente no nascimento. Do contrário, você teria lembrado dele. O estado de conhecimento surgiu três a cinco anos após o nascimento do corpo. Você é responsável por seu nascimento?
V: Não. Aconteceu sem meu conhecimento.
M: Duas pessoas desfrutaram um pouco e uma terceira teve que sofrer sem nenhum motivo. Há 82 anos um jovem casal se divertiu junto e tenho sofrido todos esses 82 anos. Depois que você sabe que não é seu nascimento e que não tem nada a ver com ele, você está livre.
V: Somos responsáveis por nossos pensamentos?
M: Enquanto há respiração, o fluxo de pensamentos continua. Você usa alguns pensamentos e ignora outros. Por que você deveria ser responsável? Mas não se envolva com os pensamentos. Permaneça livre.
Como sua existência está relacionada a de Deus?
V: Deus é grande, portanto “Eu Sou”.
M: Porque Deus é, você está aqui. Mas você é a prova de que Deus existe. Sua existência e a de Deus são mutuamente interdependentes. Você existe por causa de seus pais. Agora os pais existem em sua forma. Você prova a existência de seus pais. Você é um verdadeiro buscador?
V: Sim.
M: O verdadeiro buscador ama estar em companhia do sábio. Ele o ouve com grande atenção. O sábio o livra do corpo. Esta é a verdadeira cerimônia do fio. Os brâmanes começam a usar o fio depois desta cerimônia.
Um mumukshu é aquele que deseja libertação. Quando ele aprende que não é o corpo, torna-se um buscador, um sadhaka. O nome é dado ao corpo. Portanto, o incorpóreo (videhi) se torna sem nome. Nossa verdadeira natureza sem nome e sem forma deve ser realizada. De que depende a existência?
V: De Deus.
M: Ele não tem nome. Vamos chamá-lo de Paramatma para entender o que quero dizer. É sem palavras, intemporal e até sem consciência. Assim como a Terra sustenta a vida em si, toda a existência se deve a Paramatma. A existência de Paramatma é como se fosse não existência. Ainda assim, é Eterna. Todas as outras existências parecem ser muitas e tão verdadeiras, mas todas são limitadas pelo tempo. O limite de tempo pode ser conhecido, mas não o Eterno, que é sempre o conhecedor e não o conhecido.
V: Este era nosso ser há 100 anos.
M: Sim. Não pode ser conhecido na dualidade, mas você é Isto, não dualidade. As pessoas querem a alegria de conhecê-Lo, o que não é possível. Neste sentido, não é do mundo.
Tudo que é limitado pelo tempo, inclusive as grandes encarnações, é inverdade. Só o Eterno é a Verdade. Todos os deuses com nome e forma não são eternos.
V: Todos os nomes e formas têm um início e, portanto um fim.
M: Pode o estado de vigília falar com o estado de sono profundo?
V: Não.
M: Um lado da moeda não pode ver o outro. Nada é terminado. O pequeno desaparece para se tornar grande. Uma gota de água evapora para se tornar um oceano. Os estoques de grãos alimentares aumentam ano após ano. Há consciência em várias formas, então temos um homem, um cavalo ou um jumento. Por causa da consciência há um senso de ser. Depois que o senso de ser se vai, não fica novamente disponível.
V: O que é responsável pela luz da consciência?
M: A queima de essência alimentar (Sattva) no corpo. Você está sentado aqui e sabe disso sem esforço. Antes disso, o Princípio sem consciência sabe disso. Depois, você passa a saber disso e seu “eu” e “meu” começam.
De manhã este Princípio, que é sem consciência, sabe que há o despertar. Depois disso a identidade física começa com o “eu” e o “meu”. Então as atividades mundanas começam.
A palavra em marati para “acordar” é Jagrati. Esta palavra pode ser dividida em Jag (acordar) + Rati. Rati significa pequeno e também a alegria da união entre masculino e feminino. Assim, o estado de vigília é o resultado do curto desfrute sexual de nossos pais. Nossa vida mundana é a operação do estado de vigília. Se você meditar nisto, conhecerá o segredo da consciência e de sua separação dela.
Estou deixando esses segredos bem claros e abertos para você, mas falta-lhe a capacidade de entender isso e ser livre. Brahma é muito antigo e tem dois aspectos que também são antigos: um é Prakriti e o outro é Purusha. Nenhum dos dois têm forma, mas sem eles, nenhuma forma é possível. Ambos são responsáveis por toda a criação, inclusive a do menor brotinho. Eles merecem sua atenção mais do que Vaikuntha e Kailas, que diz-se serem as moradas dos deuses Vishnu e Shiva.
V: Todo mundo sabe que nossos pais foram responsáveis por nossa chegada. Não conhecemos sua importância espiritual.
M: Meditar sobre a ventura conjugal de seus pais lhe mostrará como é o nascimento de uma ilusão e não de você. Você, o Eterno, não sabia que “você é”. Depois disso o Eterno começou a saber que existia. O sempre existente começou a conhecer Sua existência. A bem-aventurança desfrutada por seus pais era sem forma e a notícia “Eu Sou”, que também era sem forma, apareceu numa forma, isto é, o corpo físico. Você é a marca da presença de seus pais.
Sua consciência é o resultado da bem-aventurança desfrutada por seus pais. Daí o termo Chidananda (chit, perceber + ananda, alegria), isto é, consciência-bem-aventurança. Sua importância é acentuada acrescentando Sat, isto é, Satchidananda (existência-consciência-bem-aventurança).
(Silêncio.)
M: Todas as formas vivas têm consciência, resultante da consciência-bem-aventurança dos pais. Sua consciência é um sofrimento resultante daquela felicidade. Sua consciência contém seu mundo. Portanto, seu mundo é o resultado da consciência-bem-aventurança de seus pais. Os pais não são indivíduos e sim Prakriti e Purusha, sem forma. Muitas pessoas eruditas ficariam encantadas com minhas palavras simples em marati.
V: Seu conteúdo é muito profundo e conscientizador.
M: O que entrou no ventre e foi responsável pelo crescimento?
V: Chidananda (bem-aventurança-consciência).
M: Esta bem-aventurança tinha alguma forma? Não. Então o que aconteceu? Medite sobre isto. A bem-aventurança-consciência se tornou o conteúdo de um ventre e depois o “Eu amo” de alguém, em seu devido curso.
23 de dezembro de 1979
SEUS PAIS SÃO O OURO E VOCÊ O ORNAMENTO
Maharaj: Todo seu conhecimento é só de ouvir falar. O que você realmente sabe além disso?
Visitante: Nós também aprendemos com as experiências.
M: Você é anterior a todas as experiências e tem que aprender seu Eu Real. Você entende que está vivenciando o mundo sem nenhum esforço?
V: Sim. É espontâneo.
M: Você tem que ir à raiz e ter convicção de sua verdadeira natureza. Seu entendimento, que muda com o tempo, é mentiroso. O intemporal é verdadeiro.
Quando você sabe que “você é”, suas atividades mundanas começam. Mas antes de saber que “você é”, o que é você? Esteja lá. Seu verdadeiro estado é sem o conhecimento “você é”. Tendo se estabilizado no estado anterior à consciência, o sábio Tukaram disse: “Agora Deus cuida de todas as minhas atividades. Eu não conseguia me expressar de modo adequado. Ele me deu clareza. Eu era tímido e medroso. Ele me fez ousado.”
V: Qual a origem deste mundo?
M: Do estado de não conhecimento (ajnana) aparece o conhecimento (jnana) “Eu Sou”, no qual está seu mundo. O estado ajnana vai do ventre até mais de três anos de sua idade. Isto se aplica a todos os heróis mundiais e até a encarnações como Ram e Krishna. O nascimento do conhecimento (consciência) é na ignorância.
V: O termo ignorância (ajnana) é perturbador.
M: Então você pode chamá-lo Vijnana – o que é anterior ao conhecimento ou além do conhecimento (jnana).
M: (para um visitante): A lembrança “você é” não é a lembrança de que seus pais eram?
V: Sim.
M: É como um ornamento de ouro. Você é o ornamento, mas os pais são o ouro.
V: Como reconhecer um Jnani?
M: Ele não tem nenhum ego. Até o sentimento de que sou um Jnani e diferente dos outros está ausente.
V: Ganhei muito por ter vindo aqui.
M: Mas você perdeu seu próprio nascimento. Você pode ir a qualquer lugar, mas o conhecedor do Eu Real é muito raro de encontrar. Você encontrará grandes acadêmicos, palestrantes e mahatmas. Mas eles são inúteis para os verdadeiros buscadores. Quando você chega a sua Verdadeira identidade, fica maravilhado ao descobrir: “Serei realmente nada?”
V: Os quatro Vedasapresentam o conhecimento do Eu Real.
M: Com as mãos postas, eles aceitaram sua inabilidade para apresentar a Verdade. A Verdade não tem cor, não tem forma. Está além das palavras. Nenhuma prática religiosa pode levá-lo à Verdade Eterna.
Embora a existência mundana seja um sofrimento sem sentido, os ignorantes não têm opção. O discípulo de um sábio se esforçou arduamente pela autorrealização, mas sem êxito. No último dia de sua vida, ele disse: “Eu confio em meu Guru que sou Brahman, íntegro e completo” e abandonou sua espiral mortal.
(Silêncio.)
M: (para um visitante): Você é realmente livre para viver como quer e evitar o sofrimento?
V: Os sábios podem minimizar o sofrimento. Eles não conseguem evitá-lo.
M: Até essa forma me foi imposta. Ela tem mudado ao longo de minha vida. Tente descobrir sua mais humilde identidade imutável. Nesta existência, tudo muda tão rapidamente que a estabilidade é só imaginária ou um pensamento muito positivo. A desonestidade é a regra. Mesmo se você imagina condições imutáveis, você não é imutável para desfrutá-las. A criação de vegetação na estação chuvosa dura pouco. Nós também somos o resultado de uma chuva (de espermatozoides). Lembro de algumas frases de “Dasbodh”:
Tudo que parecia existir desapareceu.
O que não existia, não era.
O que ficou depois dos dois acima,
o indescritível, existiu como se não existisse,
apenas Paramatma existe como nada,
mas está na raiz de tudo.
“EU SOU AQUILO”
V: Eu não sei quem eu sou.
M: Esta existência física é como um acidente. Antes do acidente, digamos uns 100 anos atrás, você não tinha conhecimento direto daquele estado.
V: Depois do conhecimento do Eu Real o que resta para ser feito?
M: Nada. Nenhum dever permanece.
V: Buda disse: “seja sua própria luz”.
M: Se você não tem sua própria luz, tem que pegar ajuda da luz alheia. Devido à ignorância você consulta os outros. Quando tem luz própria, os outros vêm a você. Não há arrependimentos do passado nem preocupações com o futuro. Seu estado é descrito como Sahajawastha – o estado mais natural e espontâneo. Eu pareço igual aos outros, mas minha ilusão se foi, portanto não há expectativas.
V: Por que o conhecimento “Eu Sou” (consciência) é tão importante?
M: É a alma de seu mundo – sem “Eu Sou” não há mundo. A raiz da consciência é um momento ou, para ser preciso, apenas a fração de um momento. De que é este momento, você tem que descobrir. Aquele que conhece o momento vê a si mesmo como não nascido.
Quando você acorda de manhã, por um período bem curto existe o ser puro sem palavras. Tente observá-lo antes que os pensamentos perturbem isso. O mesmo estado puro existiu até três anos mais ou menos após o nascimento do corpo. Durou até você reconhecer sua mãe. Eu lhe dou dicas úteis e tento despertá-lo. Respeito os visitantes por todo o interesse que têm, mas eles acham difícil me entender.
V: Quem recebe a notícia “Eu Sou”?
M: Claro que é o não nascido que a recebe. Antes disso ele não tinha a notícia. Por causa da notícia parece que o não nascido ficou preso na cadeia de nascimentos. Quem conhece o segredo desta notícia conhece o momento da raiz da consciência. Então vemos a nós mesmos como não nascidos e livres. A convicção de seu próprio nascimento é a servidão.
V: Nossa verdadeira natureza é sem atributos. É quase uma não entidade.
M: A existência é grande, mas é como um sonho. Houve a concepção devido à felicidade conjugal. A consciência bem-aventurança entrou no ventre e cresceu no feto. O feto tinha uma forma, mas não a consciência-bem-aventurança. Era o crescimento do “autoamor” em condição latente.
V: Devemos estabilizar antes do “autoamor”?
M: Apenas medite sobre “autoamor”.
V: Uma mulher grávida cuida muito de si mesma.
M: É a consciência, que é responsável por toda a proteção – inclusive a do feto. O mundo que eu vivencio é por minha conta. Não é obséquio de ninguém para mim.
V: Diz-se que Brahman é real e o mundo é falso.
M: Há este mundo e nós temos seu conhecimento. Os dois, bem como Ishwara (Deus) são falsos. Eu sei. Ainda assim, continuo minhas palestras.
V: Como Parabrahman, qual a sua experiência?
M: A experiência da alma individual, o mundo e Brahman estavam ausentes. A experiência agora é como ter febre. Já que toda criança é o aparecimento do Absoluto em uma forma, ela tem que começar a experiência mundana com não conhecimento. No Absoluto não havia nada. Agora a criança acha muitas coisas novas e diferentes e seres ao seu redor. Daí vêm as perguntas intermináveis de toda criança, que são só naturais. A criança pode ter uns poucos dias ou meses de idade apenas, mas lá está o Eterno.
V: Conheci um sadhu que alegava ter o conhecimento de Brahman. O conhecimento do Eu Real não tinha importância para ele.
M: Se ele vier falar comigo, eu lhe perguntarei: “há 100 anos você não tinha problemas. Agora eles estão aqui. Como e por quê? Enquanto você não descobrir, seu sofrimento continuará intacto, apesar do suposto conhecimento de Brahman que você tem.” Há pessoas que se tornam Gurus tendo umas poucas visões de deuses. Ilusões não levam ninguém à Verdade.
V: Qual a importância da espontaneidade?
M: Todas as suas ações devem ser suaves e sem esforço. Você não pode se esforçar para dormir. Se fizer esforço, ficará acordado. Com o conhecimento do Eu Real, o ego se dissolve. A vida se torna espontânea.
24 de dezembro de 1979
O QUE É SAHAJA YOGA?
Maharaj: A criação inteira se deve aos cinco elementos. Existe algum lucro ou perda para os elementos? Só os seres humanos têm essa ideia.
Visitante: E os outros seres viventes?
M: Na ausência de inteligência, não há nenhuma questão de lucro e perda. As atividades dos cinco elementos continuam sem qualquer controle.
V: O homem desenvolveu muitas coisas neste mundo.
M: Ele tem prazer em desenvolver até as moradas imaginárias de Vishnu (Vaikuntha) e Shiva (Kailas). Todas as coisas feitas pelo homem têm vida curta. O que tem início também deve ter fim. Só o Eu Real é imutável. Para percebê-Lo você deve meditar na consciência, isto é, permanecer em estado livre de pensamentos pelo maior tempo possível. Com realização, você passa a saber que a experiência do mundo que está tendo é toda inútil. Você passa a saber que seu mundo está na sua mente. Para sabê-lo, deve estar livre de qualquer envolvimento. Caso contrário, não vai conseguir aceitar a realidade e preferirá permanecer em sua imaginação. Com realização, o “Eu Sou” desaparece e o que fica é o Eu Real.
V: O que é irreal?
M: Você considera ser aquilo que não é. Aceitar o irreal é seu problema e vai durar até que a Verdade seja percebida. Não culpe a ninguém por insinceridade. O que muda a cada momento não pode ser sincero. Aqui tudo está mudando, inclusive sua própria identidade.
V: Você também tem preocupações?
M: O que existe aqui com que se preocupar? De sua própria experiência, você pode dizer que não há ninguém para se preocupar?
V: Não. Tenho muito medo da morte. E um Jnani?
M: Suponha que um paciente tem um problema urinário e não há urinação por três dias. Se o problema é resolvido e há urinação normal, como ele vai se sentir? Um Jnani tem a mesma alegria quando o alento vital sai do corpo e a consciência se torna não consciente. É descrito como Paramananda.
V: A autorrealização parece ser a única solução para todos os problemas.
M: Fui acusado de ter nascido e estava sofrendo, mas meu Guru me mostrou que eu nunca nasci. Eu sou Aquilo que sempre existe e que não pode nascer. Daí meu sofrimento acabou.
V: O que é Sahaja Yoga (yoga fácil e natural)?
M: É meditar em sua consciência como Deus. Você não precisa ir a lugar nenhum para isso. Medite onde estiver. Não é exigido equipamento para isso. Nenhuma ajuda externa é requerida. Esteja consigo mesmo.
V: Como meditar?
M: Sabendo que você não é o corpo, mantenha a consciência em si.
V: Não devemos só imaginar como nos dizem, mas realmente ser aquilo.
M: Quando você acordou de manhã, quem tomou conhecimento disso?
V: Leva algum tempo para saber que estou realmente desperto.
M: Todas essas palestras são realmente para acordá-lo. Há 100 anos você não tinha vivência do dia e da noite, de acordar e dormir e também de estar consciente ou não consciente. Isto é experiência intemporal. A atual é limitada pelo tempo.
V: Perguntaram a Sri Ramana Maharshi e a Sri Anandamayi Ma se eles dormiam. Eles disseram: “Não”. Um Jnani sente qualquer atração pela existência em alguma forma?
M: Não. Todos veem o sonho do nascimento no qual alguém nasce e no mesmo sonho veem seus pais. O nascimento é o acontecimento da ventura da união sexual, junto com o aparecimento da memória latente “Eu Sou”. O nascimento é a transição do estado do não “Eu Sou” para o estado “Eu Sou”.
V: Como posso ser completo, total e perfeito?
M: Você já é Aquilo de onde seu conhecimento “Eu Sou” e a vivência de dia e noite surgiram. É apenas sua ignorância que tem que cair. A experiência é temporal como o mundo. Não se impressione demais com grandes coisas. Na verdade, é a grandeza de sua visão que é concedida a essas coisas. Sua visão é a ilusão primária ou o grande Deus.
V: Qual a tarefa do Guru?
M: O conhecimento de meu Eu Real já estava disponível para mim. Meu Guru apenas me recordou disso. Tudo é minha expressão e tudo acabará por se fundir em mim.
V: Em que você se diferencia do tempo?
M: O tempo tem início e fim. Eu não.
V: Como eu me diferencio de meu senso de ser?
M: O senso de ser é qualidade das três gunas (qualidades) de Sattva, Rajas e Tamas. Você não é essas qualidades e está separado delas.
V: Posso conhecer meu Eu Real lendo as escrituras?
M: Você sabe que “você é” por ler livros?
V: Às vezes tenho o sentimento de que conheço meu Eu Real.
M: Enquanto este sentimento estiver lá, tenha certeza de que a liberdade e a alegria da autorrealização não estarão lá. Enquanto o conceito de nascimento estiver lá você ainda não estará fora da ignorância.
V: Por que ainda não sou livre?
M: Você está tentando lembrar a si mesmo de ser o Eu Real, mas sua identidade física está intacta. O que você é antes de dizer “Eu Sou” é seu Eu Real.
V: Qual é minha dificuldade?
M: É fácil fazer uso da consciência, mas é difícil se estabelecer como consciência. A identidade física permanece ao fundo. Você vê com seus olhos, mas não vê os olhos. Enquanto faz uso da consciência, você também deve estar consciente da consciência. O uso da consciência não lhe dá paz e tranquilidade. Isto só é possível ao se estabelecer como consciência.
V: Qual a razão de nosso medo e da nossa infelicidade?
M: Se você é pintor mas trabalha como dentista, haverá medo e infelicidade. Da mesma forma, você aceitou o trabalho das três gunas (qualidades) como seu próprio trabalho. Portanto, todos esses problemas o preocupam.
V: O que nós somos, se não somos o corpo?
M: Você não é nem o corpo nem a consciência. No corpo há a notícia “você é”. Como pode você ser sua notícia? Você é separado dela. Você dá nomes diferentes a corpos alimentares vivos de tamanhos e formas diferentes, como homem, cavalo, jumento, etc. A fotografia é usada para criar corpos dos mesmos tipos.
V: Se nós somos a Realidade, para que seguir qualquer prática religiosa?
M: Os ignorantes as seguem pela satisfação de seguir uma tradição e também por entretenimento.
V: Nossa existência é quase como um sonho.
M: Nossa consciência é como a luz de um lampião a óleo, que queima enquanto houver óleo. Quando não há nada para queimar, a luz se extingue. Não há ida e vinda. Não há céu, não há inferno.

25 de dezembro de 1979
ESTOU EM ESTADO DE NÃO CONHECIMENTO
Visitante: Temos alguma escolha na vida?
Maharaj: A consciência vem sem que saibamos e somos forçados a viver com ela. O autoconhecimento ajuda a minimizar o sofrimento e depois a ficar livre dele.
V: Meu corpo é minha servidão.
M: Se você não é o corpo, como isso vai prendê-lo? Não há nem servidão nem infelicidade para você.
V: Eu sou Atma (Eu Real)?
M: Sim. Você teve a companhia de J. Krishnamurti. Como você continua ignorante?
V: Quando eu acordo de manhã, por um curto período de tempo eu não sou meu corpo.
M: Você, o sem nome e sem forma, testemunha primeiro a consciência e depois as outras coisas, inclusive o corpo. Então você age considerando a si mesmo um corpo.
V: Qual é a diferença entre um Jnani e um nenê?
M: No Jnani há o fim de todo conhecimento e no nenê isso ainda está por começar.
V: O que é Shaktipat?
M: Eu entendo isso como uma fraqueza após meditar ou um sentimento de leveza. Eu não sei o que outros querem dizer com este termo.
V: A perda da identidade física é autorrealização?
M: É apenas o início da autorrealização.
V: O que se aplica a você também pode se aplicar a mim?
M: Nós somos um. Não há diferença. O Princípio que há em você está falando com você através de mim. Você esqueceu de si mesmo. Mas eu, que estou em você, não o esqueci. Assim como amo a mim mesmo, amo igualmente a você. Quando você se realiza, todas as escrituras fluem para fora de você e você simplesmente escuta. Sem conhecimento do Eu Real, tudo que você tiver acumulado neste mundo, quem será o dono depois de você? Porque “você é”, você se preocupa com os outros. Quando você “não era” quais eram suas preocupações? Não é da maior importância descobrir a causa de “Eu Sou” do estado eterno de “Não Eu Sou”? O segundo nome do deus Ganapati é Vinayak. Eu chamo isso de Vina yeka, isto é, sem um. Com a contagem de um, a continuação da contagem de dois, três, etc. continua até o infinito. Vinayak é anterior a um, no Absoluto não dual.
O inspirar e expirar cria sons. Um som parece ser uma pergunta sobre nossa identidade seguida por outro som que dá a resposta. Vamos ver como? Inspirar produz o som ko (quem) ham (eu sou?). O próximo expirar responde So (Aquilo) ham (eu sou). Este perguntar-responder sobre nossa identidade acontece continuamente todas as 24 horas e um buscador só precisa dar atenção a isso.
V: Você parece ter um bom estoque de conhecimento.
M: Não. Eu estou em estado de não conhecimento. Para cada pergunta, a resposta vem de Nirvikalpa (estado livre de pensamentos) e o testemunhar acontece para mim. Estou aqui para ajudá-lo a se livrar de seus estoques arduamente adquiridos.
V: É possível se enganar com o próprio eu e considerá-lo autorrealizado?
M: Com certeza. É o que notamos ao nosso redor. Mais do que enganar os outros, esses Gurus enganam a si mesmos. Seu conceito mais estimado é que eles estão livres de todos os conceitos. Todo Guru tem muitos seguidores e o relacionamento entre os discípulos de diferentes Gurus está longe de ser amistoso. Eles evitam até ficar frente a frente.
Aquele que tem conhecimento puro do Eu Real é um verdadeiro Guru.
O Eterno é a Verdade e está aberto a todos. Um verdadeiro Guru não consegue produzir uma testemunha, pois não há outros neste estado.
V: Só há paz e tranquilidade na companhia de um sábio.
M: O que você é na verdade é tão pacífico que não precisa de nada para acalmá-lo. O que você não é, isto é, o corpo, a mente e a consciência, é tão perturbador que não pode ser acalmado por nenhuma ação. Todas as atividades mundanas são feitas para ser confortáveis na identidade errada.
V: As pessoas continuam com suas práticas religiosas e mesmo com adoração a ídolos.
M: O ídolo não pode proteger a si mesmo. Está coberto de sujeira de corvos. As oferendas feitas pelas pessoas são comidas pelos ratos. Com todo este cenário de fundo acredita-se que o ídolo seja muito poderoso e que dê tudo que é desejado. Esta fé em si faz maravilhas.
V: Como as pessoas têm visões dos deuses de sua preferência?
M: A consciência é como o diamante Kohinoor. Você tem visões de Vishnu, Shiva, Hanuman, Ganapati ou mesmo de espíritos, se escolher.

26 de dezembro de 1979
MEU GURU É PARABRAHMAN
Maharaj: Por causa de sua consciência você sabe tudo, mas não sabe quando e porquê esta consciência surgiu. É necessário saber isso.
Visitante: Meu Atma (Eu Real) é responsável por meus desvios?
M: Tudo que você fizer com a identidade física, seu Atma não é responsável por isso. O Atma é só uma testemunha.
V: E a meditação com a identidade física?
M: Jamais lhe dará paz e tranquilidade.
V: Você nunca nos dá conselhos sobre atividades mundanas.
M: Eu o levo à fonte. Depois que você A conhece, suas atividades ficam em ordem. Nenhum tipo de atividade pode levar ao conhecimento.
V: Qual a utilidade da mente?
M: Seu fluxo de pensamentos é a mente. É um perturbador da espiritualidade. Deve ficar sob controle, assim como você controla um animal puxando a corda que passa pelas narinas dele.
V: Como as ideias se tornam realidade?
M: Sua atenção é atraída para a ideia que lhe ocorre. Você estava em Antuérpia (Bélgica) e agora está aqui em Bombaim (Mumbai). Como? Porque a ideia de visitar Bombaim lhe ocorreu depois de ler “Eu Sou Aquilo”. Se você não tivesse lido o livro, teria ficado só em Antuérpia. O rei Shah Jahan pensou num lindo memorial para sua esposa morta Mumtaj Mahal e houve a construção do Taj Mahal em Agra.
V: Alguns Gurus têm uma profissão espiritual.
M: Mas meu Guru é Parabrahman e tenho plena fé Nele. Sou anterior a todos os conceitos, portanto eles não me afetam. Assim como você não é perturbado pelas nuvens que se movimentam no céu, eu observo os pensamentos que surgem ocasionalmente.
V: Paramatma não parece estar interessado em publicidade.
M: O conhecimento “Eu Sou” é a propaganda Dele. As várias encarnações são a publicidade Dele.
V: Sem consciência nós somos Paramatma. Depois de cometer suicídio, nós somos Paramatma?
M: Não. O suicídio é uma ação deliberada. A transição deve ser espontânea.
V: Se alguém tem vislumbres de sua verdadeira natureza, isso é realização?
M: Temos que estar convictos de nossa verdadeira natureza. No verdadeiro estado Eterno não se encontra testemunha para nossa verdadeira condição. E também não se precisa disso. Enquanto houver necessidade de provar nossa realização, não há realização. O falso pode ser provado como verdadeiro com métodos falsos.
No Verdadeiro estado perde-se todos os atributos. No Eterno estado não consciente e sem atributos, o surgimento de “Eu Sou” tem uma duração relativamente muito curta, como se nunca surgisse.
Um Jnani nunca se incomoda com a existência porque ela tem o mesmo valor de algo falso. Seja como for, não afeta o Eterno.
V: O que vem primeiro, o ovo ou a galinha?
M: A notícia “você é” é o ovo de seu mundo. Aqui o ovo vem antes e depois a galinha. Eu sou separado da notícia e não sou afetado pelo mundo. Onde você pegou a lembrança de onde você é?
V: No ventre de minha mãe.
M: O que não havia lá e apareceu depois?
V: A notícia “Eu Sou”.

27 de dezembro de 1979
O QUE É BODDHISATTVA?
Maharaj: A imensa árvore fica acima do solo por causa das raízes subterrâneas. Onde fica seu mundo, se o conhecimento “Eu Sou” estiver ausente? Seu mundo é a luz de seu Eu Real (Atmaprakash).
Visitante: O que está implícito no sentido do seguinte verso em marati: “O nenê Hari urinou no berço, como se uma pedra o cutucasse.”?
M: Todas as formas vivas, inclusive os seres humanos, são expressões do deus Hari. Nosso senso de ser é como a cutucada de uma pedra. Para esquecer isso, fazemos uma coisa ou outra. Aqui a chuva não é de urina, mas de espermatozoides. Diz-se que há sofrimento neste mundo, mas a população aumenta cada vez mais, ano após ano.
V: Para onde vão todas essas pessoas no fim?
M: Suponha que haja um grande incêndio. Para onde ele vai no fim?
V: Nenhum lugar.
M: Ele se funde em si mesmo. Da mesma forma, nós surgimos do estado de não ser, no qual nos fundimos no fim. Quando estamos cansados vamos dormir, mas o estado de não ser é anterior até ao sono. A manifestação tem aurora e crepúsculo. A aurora é chamada despertar e o crepúsculo é chamado dormir. O estado de não ser não tem aurora nem crepúsculo. Tudo que existe somos nós apenas e tudo que desaparece também somos nós.
V: Por que não progredimos mais rapidamente?
M: Se você quer fazer perguntas, deixe a identidade física de lado e fale. Com a identidade física intacta nenhum problema seu será resolvido. Uma pessoa saiu em busca das trevas com um archote na mão. Ela não conseguiu encontrar trevas em lugar nenhum. Da mesma forma, não é possível para o manifesto procurar o não-manifesto. Só há o não-manifesto na ausência do manifesto.
V: O que devo saber?
M: Você deve ter conhecimento completo de sua consciência assim como pode ver claramente uma frutinha em sua mão.
V: Qual é meu principal obstáculo?
M: Sua identidade física. Nem a menor parte dela é permissível. Aquele que habita na identidade sem corpo progride.
V: Buscadores diferentes têm problemas diferentes.
M: Embora a consciência seja uma e a mesma, sua expressão muda de forma (pessoa) a forma. Dez filhos da mesma mãe podem ter dez diferentes qualidades. A expressão é travessa.
V: Um Jnani é cheio de conhecimento?
M: Não há conhecimento e sim puro ser. Uma montanha de atributos aparece no Eterno estado sem atributos.
V: Por que as pessoas vão atrás de diversão?
M: O senso de ser é infeliz. A fim de esquecê-lo, busca-se entretenimento ou alguma ocupação. O estado “Eu Sou” é como a picada de um escorpião. Tem-se que fazer alguma coisa para tolerá-la ou esquecê-la. Você a chama de trabalho ou diversão. No sono profundo você não tinha problemas. Há 100 anos você também não tinha problemas. É porque não havia o estado “Eu Sou”.
V: Você é uma encarnação de Deus?
M: Não. Eu sou como você. Todos os seres humanos são iguais e têm a capacidade de conhecer a si mesmos, mas só um ser raro usa esta capacidade e fica livre.
V: Existe algum remédio para defeitos herdados?
M: Os defeitos nos sucos alimentares chamados pais são passados adiante para a geração seguinte. A yoga, isto é, as posturas iogues (asanas) e pranayam são o remédio. É a melhor prevenção e também uma cura.
A palavra marati para semente é beeja. Também quer dizer copiar, como fotocopiar. Daí a natureza idêntica ou semelhança dos ramos.
O deus Hari é uma manifestação do Absoluto. Ele usa um dhoti cuja cor é uma mistura de amarelo e branco. Em marati nós o chamamos de Peetambara, isto é, amarelo+branco. Amarelo é a cor de Prakriti e branco a de Purusha (Panduranga).
V: Como você pode dizer que não há nascimento?
M: Eu sei que houve uma época em que nosso senso de ser estava ausente. Seu surgimento é nascimento, de acordo comigo. No Absoluto este é o único acontecimento extraordinário. Todos os seres vivos têm que agir de acordo com os pensamentos ou inspiração que fluem de seu interior.
Qual é a coisa mais fundamental de cada ser humano?
V: O sentimento ou pensamento “Eu Sou”.
M: Outros pensamentos e ações seguem este pensamento fundamental. Quando não havia senso de ser, havia alguma infelicidade? Havia alguma necessidade de felicidade?
V: Não.
M: Existe uma história de um homem bem sucedido. Ele ganhou bilhões, ajudou milhares e ficou mundialmente famoso. O que estava na raiz de todo seu sucesso? Era o senso de ser. Sem isso ele não poderia ter feito nada. Portanto, o senso de ser é a coisa mais importante em você. Dê atenção a isso. Medite nisso e isso lhe contará todos os seus, isto é, os segredos que você tem. Este é o conhecimento do Eu Real ou autorrealização. Com o senso de ser existe nosso mundo e nosso conceito de que existe Deus. Portanto, no centro de tudo está nosso “Eu Sou”.
V: Você nunca visita nenhum sábio ou mahatma.
M: Todo o nosso conhecimento e seu conteúdo, inclusive sábios e mahatmas, dependem do conhecimento “Eu Sou”, que é falso e limitado pelo tempo. Assim, não visito ninguém.
V: Ontem você disse que não quer transmitir esse conhecimento para ninguém, por quê?
M: Quando investiguei o conhecimento “Eu Sou”, ele se voltou contra mim, liquidando tudo em que eu acreditava. Por que devo irritar os outros com este conhecimento? As pessoas estão bem confortáveis como estão, sem este conhecimento. O que você vai fazer num estado onde não existe lembrança nem esquecimento?
V: Mas nosso atual estado não dá paz e felicidade.
M: Isto também é verdade. Todo o seu conhecimento está baseado no conhecimento “Eu Sou”, que apareceu espontaneamente. Você não sabe o como e o porquê disso. Mas para a paz e felicidade este conhecimento é obrigatório.
V: Um homem pode ser muito grande e famoso, mas toda sua grandeza depende da notícia “Eu Sou”, que apareceu espontaneamente e que pode ir embora a qualquer momento. Quando ela parte, onde está a grandeza deste homem?
M: Felicidade e paz só são possíveis depois que o segredo “Eu Sou” é conhecido. Então não permanece nenhuma notícia, mas se alcança a divindade.
V: O que as pessoas que fazem bhajans diários e visitam o deus Vithoba de Pandharpura regularmente ganham com isso?
M: Essas pessoas estão mergulhadas em bhajans e Vithoba. Eles o veem até em sonhos e visões. Isto as ajuda a esquecer todas as preocupações e a serem destemidas no dia de sua passagem. O alento vital desses devotos parte em grande alegria. Pelo último dia que eles têm você pode avaliar como devem ter vivido a vida toda.
Para outras pessoas, até o pensamento de morrer é horrível. Elas veem mensageiros do deus Yama e têm uma morte miserável.
Não há céu nem inferno. Só importa como você morre - se alegremente ou com medo. Você inicia a construção de um prédio com uma pedra. Como você chama isso?
V: Pedra fundamental.
M: Seu conhecimento “Eu Sou” é o fundamento de seu universo. “Eu Sou” são os pés do deus do Universo (Vishwambhara). Medite no “Eu Sou” sem palavras, a fim de propiciá-lo. Ele lhe contará todos os segredos dele (isto é, seus). Ficará claro que você não é o corpo nem a mente. Haverá uma transformação em você. Seu fluxo de pensamentos continuará, mas com menos quantidade e com uma qualidade mais elevada. Eles serão pensamentos de Brahman. Suas necessidades diminuirão e serão atendidas espontaneamente, sem esforço. As atividades do corpo, da mente e do alento vital continuarão, mas você será apenas a testemunha delas.
V: Como verei minha morte?
M: A partida do alento vital e da mente será testemunhada por você. Você verá o corpo inerte na cama e a consciência se tornando não consciente. É como testemunhar a passagem da urina ou das fezes. Os observadores dirão que você está morto, mas esta não será sua experiência. Eu gosto de perguntas profundas. Você tem alguma?
(Silêncio)
M: Você sabe que “você é” (Swavishaya) e tudo está contido nisto. O que mais você sabe?
V: Que isto em si já é tudo.
M: Quando você é tudo, não pode ter nenhum problema. Seu maior erro é a identificação com o corpo. Sua identidade física é incompleta. Quando você sabe disso e ela parte, você já está completo.
V: O que é tão singular em sua consciência?
M: O sol é grande mas não consegue ver as trevas. E as trevas também não conseguem ver o sol. Mas você (consciência) consegue ver os dois. Esta é sua grandeza.
V: Tivemos sorte de nascer.
M: Há 100 anos você era completo em todos os sentidos. O suposto nascimento é da incompletude.
V: O que é bodhisattva (de Buddha)?
M: Você tem bodha (conhecimento) de que “você é” por causa do corpo sátvico. Portanto, você é um bodhisattva.
V: Ter uma vida longa é útil?
M: Alguém vive 200 anos. De que adianta? É tão significativo quanto urinar em pé num canto remoto (alusão a um popular aforismo marati, que significa “que diferença faz…?”).
28 de dezembro de 1979
O “DESTINO” É UM CONCEITO?
Visitante: Tenho medo da morte. Por quê?
Maharaj: Seu corpo nasceu e vai morrer. Seu medo é devido à identificação com o corpo. Saiba quem você é. Então desfrutará da alegria de se livrar da dor e do medo.
V: Como meditar?
M: Eu chamo Dhyan (meditação) de Jnana (conhecimento “você é”). Você pode ser sem o conhecimento “você é”?
V: Não.
M: Portanto, a meditação continua em você. Ela só precisa de sua atenção. Tome o conhecimento “você é” como Guru e lhe dê atenção pelo maior tempo possível. Mantenha-se na sua consciência, que é a semente do conhecimento do Eu Real. Com isso você conhecerá o Eu Real.
V: Por que sofremos tanto na vida?
M: Você reduz a grandeza de seu Guru ao nível do corpo. Daí você sofre.
V: O que é Maya?
M: Aquilo que não tem existência afirma a si mesmo como presente. Isto é Maya. Ma significa “não”, ya significa “qual”. Aquilo que não tem existência é Maya.
V: Você acredita em milagres?
M: Quando eu não conhecia minha existência, não havia nada. Minha existência e o mundo surgiram simultaneamente. Não é um milagre?
V: Meu mundo vai durar indefinidamente?
M: Só vai durar pelo tempo que sua consciência durar.
V: Por quanto tempo me interessarei por este mundo e por seus objetos?
M: Enquanto sua identidade física continuar.
V: Qual a origem de todas as artes?
M: A inteligência se deve à consciência na forma humana. A consciência se deve a Sattva ou essência alimentar, que por sua vez se deve aos cinco elementos, portanto todas as artes se devem aos cinco elementos.
V: Todos os seres vivos seguem algum mandamento?
M: Eles seguem algumas regras por medo e instinto e não para agradar a Deus.
V: Todos os corpos vivos são feitos dos cinco elementos.
M: Em certo sentido, todos os corpos são parecidos.
V: Eles são alimento da consciência.
M: Eles também são alimento mútuo. Nenhum Deus equilibrado criaria um sistema de sobrevivência assim. Portanto, toda a criação é espontânea.
V: Por que estamos sempre necessitando uma coisa ou outra?
M: Por causa da individualidade. O Jnani perde a individualidade e é livre de desejos. Suas atividades acontecem espontaneamente. O sábio Jnaneshwar escreveu sobre o Jnani como: “o universo inteiro se torna seu lar ou, para ser mais preciso, ele se une a tudo que é móvel e imóvel.” Ele se torna um com todos os cinco elementos. Um Jnani conhece o mundo, mas o mundo o conhece só por seus milagres.
V: Como o Jnani tem tanta certeza de não ser o corpo?
M: O corpo é feito dos cinco elementos, que o Jnani não é, portanto o Jnani não é o corpo. O mesmo se aplica a todos os outros que insistem que são o corpo. Toda existência é limitada pelo tempo, mas o conhecedor do tempo é intemporal. Onde há consciência, há tempo. Mas o conhecedor da Consciência é intemporal e o intemporal não pode ser limitado pelo tempo. O relógio da ilusão primária funciona muito lentamente. Quando bilhões de anos passam, o relógio de Maya funciona só um segundo. Ele indica que é como se nada tivesse acontecido. Você experimenta o mundo em sua vida ou você experimenta sua vida em seu mundo?
V: Nós experimentamos nossa vida neste mundo.
M: Se você não é, onde está seu mundo? Portanto, você vem primeiro e depois seu mundo. Você vivencia o mundo em sua vida.
V: Você não vivencia o tempo agora?
M: O tempo está aqui pelos últimos 82 anos apenas. Mas é muito claro o que eu era eternamente, quando o tempo não era. Assim, eu digo o que quero. Não é minha imaginação, mas o que realmente é. Como pode o Eterno ser medido pelo tempo, isto é, de-a? Eu não preciso de testemunha para corroborar esses fatos.
V: Mas você usa a consciência para falar do estado não consciente.
M: Sem consciência, como posso transmitir alguma coisa? Eu não sou consciência, mas faço uso dela quando necessário. Eu sou a testemunha da consciência, que é meu instrumento.
V: O que é Prarabdha (destino)?
M: “Os efeitos dos atos bons e maus desta vida e de vidas passadas ficam armazenados em nossa conta. Temos que desfrutar ou sofrer de acordo com nossas ações.” Esta é a crença normal sobre Prarabdha. É tudo inverdade para mim. O ponto principal é que o homem deve obter força de algum lugar para enfrentar a vida como ela vem e quando vem. Quando penso em Prarabdha, lembro das colunas construídas em nossas aldeias para aliviar a carga. Antigamente, nas aldeias indianas não havia carros nem ônibus. Os ricos tinham carros de boi e os outros caminhavam, distâncias curtas ou longas. Quase todo mundo tinha uma carga leve ou pesada de pertences pessoais como lenha para o fogo, mercadorias compradas, legumes para vender, bagagem, etc. Normalmente a carga era levada na cabeça. Depois de viajar longas distâncias, era necessário aliviar a carga para descansar um pouco e beber água, etc. Mantendo esta necessidade em mente, colunas curtas da altura de uma pessoa eram construídas em vários lugares nas áreas rurais. Era um grande alívio para os viajantes transferir a carga para o topo da coluna e ficarem livres por algum tempo. Assim reanimados, eles reiniciavam a viagem. O conceito de Prarabdha ajuda as pessoas de modo parecido. A morte inesperada de jovens é explicada como seu Prarabdha. Eles receberam de Deus apenas vidas curtas nesta vida. As pessoas costumavam se consolar dizendo que haviam feito algo de ruim em vidas passadas e que agora era necessário sofrer para limpar o mal das vidas passadas. Sem esta explicação e consolo, a vida teria se tornado muito difícil e até intolerável para muitos. Portanto, o conceito de Prarabdha serve para dar alívio às pessoas ignorantes. Mesmo nesses tempos modernos muitos se utilizam do auxílio deste velho conceito para enfrentar a vida como ela vem.
V: O que é o nascimento?
M: É o aparecimento de uma minúscula bola de cinco elementos com consciência latente. Quando sei que não posso ser esta bola, por que devo aceitá-la como meu nascimento?
V: O que acontece quando medito em minha consciência?
M: Você obtém conhecimento de seu verdadeiro ser. A Verdade fica límpida como o cristal. “O que é” se abre.
V: Isto produziu sábios.
M: Se eu encontrar um sábio, verei a bola dos cinco elementos como sua raiz. Você não investigou suas próprias raízes. Daí você não se sente confortável com seu estado de ser. Para paz e felicidade você tem que visitar um sábio, que lhe diz o que você é e o instrui a meditar. Um sábio não é diferente de você, mas você tem que realizar a Unidade.
V: Onde se originam as palavras?
M: Palavras são qualidade do espaço. As palavras se originam no espaço e finalmente aterrissam na Terra. Elas se tornam parte da vegetação. Isto é consumido pelas várias formas vivas, de cujas bocas as palavras saem. As primeiras palavras são o senso de ser “Eu Sou”.
V: Nossa vida não é limitada?
M: A duração de sua vida é como a duração dos jogos Olímpicos. Esses jogos tem início e fim. No fim todos os participantes, etc., vão embora. O testemunhar que aconteceu não acontece mais. É isso. Da mesma forma, na realidade você é a testemunha de sua vida. Você é o não nascido, para quem o testemunhar acontece por uma certa duração. O fim do corpo não significa a morte da testemunha. Nossa vida é a duração do testemunhar.
V: Deve-se cometer suicídio em caso de fracasso?
M: Não. A qualidade da consciência é misteriosa e imprevisível. Pode tornar alguém novamente muito exitoso, num piscar de olhos. Numa partícula de consciência está o mundo inteiro.
V: Se eu souber a origem da consciência, isto é suficiente?
M: Então seu trabalho estará feito. Você verá a si mesmo como não nascido. Perderá nome e forma e se tornará intemporal.
V: Eu morro com o corpo?
M: Você é aquilo que se separa do corpo na morte.
V: Eu estou no mundo ou o mundo está em mim?
M: Você e seu mundo são um.
V: Como consciência, eu deveria estar sempre feliz.
M: Você está vivendo como corpo e se tornando infeliz.
V: Tenho liberdade para agir?
M: Você, como Absoluto, não é o autor e sim apenas uma testemunha. Suas atividades acontecem por causa do Deus em você. Você sabe que ações como dormir e excretar acontecem. Você não pode fazê-las.
V: Como se diferenciam “eu amo”, Maya e Ishwara?
M: Todas são apenas uma.
V: Devo transmitir este conhecimento para meus parentes e amigos?
M: Não. Ele é feito só para você. Medite nisso.
29 de dezembro de 1979
VOCÊ ESTÁ SENDO CUIDADO
Maharaj: Um astrônomo usa o telescópio para ver objetos distantes, mas ele não é o telescópio. Da mesma forma, a testemunha da consciência e de seu conteúdo não é a consciência.
Visitante: Qual a causa de nosso medo?
M: O medo é por causa da identidade física. Só o informe pode ser intrépido.
V: Se não sou o corpo, minha tendência será negligenciá-lo?
M: Eu não sou este vaso de flores nem as flores, mas cuido delas. A perda da identidade física não significa negligenciar o corpo. Haverá cuidado com o corpo sem qualquer preocupação ou ansiedade.
O que você vê de olhos fechados?
V: Nada.
M: Você vê azul profundo ou preto profundo. O corpo funciona enquanto Aquilo puder ser visto. É chamado de Megha Shyam ou Krishna de pele escura e também de Savla Ram ou Ram de pele escura.
V: Você disse que já somos perfeitos antes de fazer qualquer coisa. A única exigência é o correto entendimento.
M: Em outros lugares vão pedir a você que faça isso e aquilo. É coisa deles. O Jnani é o conhecedor da transição do estado de não conhecimento para o estado de conhecimento. Quando você acorda do sono, quem passa a saber disso?
V: A consciência.
M: Com os olhos fechados você vê o azul ou preto profundo. Quando abre os olhos, primeiro vê o espaço e depois as outras coisas. O discípulo raro do sábio declara que encontrou sua morada eterna. O intemporal está além de ser e não ser.
V: O mundo tem existência independente?
M: Um sábio vê o mundo como seu estado de ser.
V: Nós podemos encontrar o sábio que tem corpo. Como contatá-lo quando ele está sem corpo?
M: Ele é um e o mesmo que você era há 100 anos. Você existia, mas sem o conhecimento “você é”. O mesmo estado continuou no útero e depois disso, até além dos três anos de sua idade.
V: Como o conhecimento “Eu Sou” se desenvolve do estado de não conhecimento?
M: É como o amadurecer de uma manga verde.
V: Do estado de não conhecimento, como se pode planejar nascer de novo?
M: Os ignorantes dizem isso e os ouvintes acreditam. Todo seu suposto conhecimento é deste tipo.
V: Se você é o Princípio não nascido e sempre existente, não é uma ofensa falar de seu nascimento?
M: É. É como me acusar de liderar uma gangue de ladrões que roubou um banco em Nova Delhi. Como posso aceitar a responsabilidade por este crime? Portanto, eu rejeito meu nascimento como uma impossibilidade.
V: Existe percepção na não-dualidade?
M: Como existiria? A menor diferença ou mudança tem que ser notada. Na unidade, quem percebe quem? Onde “você” existe, também existe o “eu”. Só Parabrahman existe. É só ele, ou tudo. Ele não conhece sua existência ou não existe conhecimento “Eu Sou” ou estado de ser em Parabrahman. No completo não há experiência. Quando existe qualquer experiência, é incompleta.
V: Você é um depósito de conhecimento.
M: Não. É tudo vazio. Eu falo do que não sei. Você acha que é meu conhecimento e o aprecia.
V: Que prática espiritual você recomenda para mim?
M: O que você vê sem ver deliberadamente, de olhos fechados, esteja ali (medite nisto). É chamada beleza azul escura (Shyam Sunder). É a expansão da consciência (Chidakash). Quando você abre os olhos, vê a grande expansão da existência (Mahadakash).
V: Nossa ignorância é a causa do orgulho.
M: A ilusão primária encarna a partir de uma secreção (sêmen). Quem pode se orgulhar disso?
V: O estado de Parabrahman é cheio de conhecimento?
M: É o estado de não conhecimento, verdadeiro e eterno. Diz-se que quando as brincadeiras de uma bela jovem não atraem alguém é porque o indivíduo é um Jnani ou um animal.
V: O Jnani é indiferente ao que acontece?
M: O Jnani deixa a natureza tomar conta das necessidades que ele tem. O que o embrião faz para alimentar a si mesmo? Quem o protege e providencia um parto em segurança? Há mais cuidado no estado de não conhecer do que no de conhecer. A ação deliberada de um indivíduo não pode ser tão perfeita. Essas ações podem ser distraídas e ineficientes. Nas escrituras está dito que um Jnani deixa que o destino faça o necessário com seu corpo. Ele não tem nada a dizer sobre isso. Eu igualo Prarabdha (destino) à qualidade sátvica responsável pelo estado de ser. As atividades do Jnani acontecem sem o sentimento “Eu Sou”. Nós observamos os cinco elementos. Existe alguma mente?
V: Não.
M: Mesmo assim observamos conflitos entre eles. As atividades acontecem sem uma mente. Esses elementos não sabem que existem. Quando eles se combinam para formar Sattva, existe “estado Eu Sou” e mente ali. O desenvolvimento das formas e de suas atividades acontecem espontaneamente. O que é anterior a mente e atenção?
V: O senso de ser.
M: Assim como azedo, doce e picante são qualidades do material alimentar, nosso senso de ser ou consciência também é sua qualidade ou expressão. Portanto, o material alimentar e o estado de ser são um só. O conhecedor da consciência está separado dela. A consciência é a qualidade ou o estado mais elevado do material (alimentício), de onde o Supremo pode ser realizado.
V: Apesar de seu testemunhar passivo, tudo ocorre tranquilamente aqui.
M: Todos são acontecimentos espontâneos. Eu não participo disso. É como o embrião recebendo tudo que é necessário.
V: O que temos que entender disso?
M: A pessoa tem que entender sua verdadeira forma ou natureza.
V: Seus visitantes o conhecem por sua aparência e fala externa.
M: Sou bem diferente do que parece e do que pode ser conhecido. Não sou isso (aponta para sua forma) nem nada ligado a isso. Aqui você vê a qualidade sátvica, que eu não sou. Seu principal obstáculo para entender corretamente é a atração que você tem por suas posses e por seus parentes e amigos.
V: É difícil ficar livre deles.
M: Eu trabalho em você como um escultor numa pedra, mas o trabalho dele parece ser mais fácil que o meu. Uma pedra não oferece nenhuma resistência. À medida que o artista trabalha na pedra, ela fica cada vez mais leve. Por outro lado, meu pessoal parece acrescentar mais conceitos, em vez de ficar livre deles.
V: Quando estou meditando, o que sou?
M: Você é consciência sem forma. Você sabe que “você é” por causa do corpo, mas você não é o corpo.
V: Eu me torno um com a testemunha.
M: Você é a testemunha o tempo todo. De manhã houve o acordar do estado de sono. O testemunhar do acordar aconteceu para você e depois disso você testemunhou o que havia no ambiente. Tudo que você fala quando vê, saboreia, cheira, etc., não é coisa sua, mas o acontecimento do seu testemunhar. Você é anterior a todas as experiências e atos. A testemunha nunca dorme. A testemunha dos estados de acordar e dormir está além desses estados. O que está operando agora é o estado de vigília. Você ouve estas palestras e não consegue falar, e a testemunha das palestras não precisa falar. A vigília e o sono resultam do material alimentar (Sattva), mas o conhecedor dos estados está além de Sattva. Os estados têm aurora e crepúsculo. O crepúsculo é considerado como morte pelas pessoas que ignoram a origem do despertar, isto é, da consciência. Para o sábio não existe morte e sim bem-aventurança. O conhecimento do Eu Real é o fim do medo e da morte.
V: Qual a relação entre o Jnani e a luz?
M: Não há relação só o testemunhar acontece. As três eras (Yugas) passaram e a mesma coisa foi testemunhada. A testemunha está sempre presente e não tem vinda (nascimento) nem ida (morte). Inúmeras formas aparecem, permanecem e desaparecem, mas a testemunha é só uma e permanece para sempre, completamente desafetada.
30 de dezembro de 1979
A MANIFESTAÇÃO NÃO TEM PROPÓSITO
Visitante: O que é a verdadeira renúncia?
Maharaj: É esquecer o nome e a forma que temos.
V: Como o sadhaka (buscador espiritual) se diferencia do homem comum?
M: O homem comum confia em si mesmo para o sustento, ao passo que o sadhaka confia no Guru ou em Deus para tudo. O sadhaka conhece a si mesmo como consciência e não como corpo.
V: Como superar o medo da morte?
M: A identidade física tem que cair. A consciência não morre nunca. Viva como consciência e seja destemido.
V: Todos os nossos conceitos se devem a Sattva?
M: Todo conceito, inclusive o primeiro “Eu Sou” é devido a Sattva.
V: Se o mundo todo está na consciência, onde está o Jnani?
M: Ele está fora do mundo. É intemporal e além do ser e do não ser.
V: Você pode me abençoar para que só o bem aconteça?
M: Na verdade, você não tem forma. Que bem ou mal podem lhe acontecer? Tudo muda muito rapidamente, mas sua verdadeira natureza permanece desafetada. A melhor bênção é perceber o que se é eternamente. Só o imutável permanece desafetado em todas as circunstâncias.
V: Você raramente fala dos indivíduos.
M: Falo da relação coletiva da consciência. Quando os cinco elementos se juntam para formar Sattva, aparecem várias formas. Uma só e a mesma consciência opera através de todas as formas. Todos os indivíduos são imaginários. Há consciência infinita e ilimitada, sem qualquer propósito. O alento vital também aparece junto com a consciência.
V: A manifestação é sem propósito – este é um insight muito valioso. Que você possa viver muito para nos guiar.
M: Não preciso viver nem mais um dia inteiro. Vida significa problemas, que começam com acordar todas as manhãs. Você não consegue evitar ou postergar o fato de ter que sair correndo para o banheiro. Cuidando das necessidades do corpo você não pode esperar paz duradoura.
V: É o estado “Eu Sou” ou consciência nossa verdadeira natureza?
M: Não. Este é nosso problema. Até agora três eras (yugas) passaram. São Satya, Treta e Dwapar. A atual é Kali Yuga. Neste vasto tempo, a natureza (Nisarga) é afetada de algum modo? Nisarga não está consciente, portanto não é de modo algum afetada.
A notícia “Eu Sou” é a causa do sofrimento. Onde se originou?
V: No ventre.
M: Esta notícia era o conteúdo do ventre. Minha atual experiência de existir e vivenciar o mundo depende desta notícia. Ela é o fundamento desta existência.
V: Qual era a condição, quando a notícia estava ausente?
M: Aquele era meu verdadeiro estado eterno, intocado pelas várias dissoluções do universo.
V: Como as pessoas têm visões de deuses e sábios?
M: Nossa consciência tem o poder de aparecer nessas formas. O que é preciso é ter fé e grande anseio para ver essas formas.
31 de dezembro de 1979
MAIOR A GRANDEZA, MAIOR A SERVIDÃO
Maharaj: Ocorre muita atividade no ventre para a transição do não ser para o ser. O não ser continua, mesmo depois do nascimento do nenê, até cerca de mais de três anos de idade.
Visitante: Alguns têm sorte de se tornar grandes na vida.
M: Maior a grandeza, maior a servidão. Até um pequeno incidente na vida da pessoa tem grande publicidade no mundo inteiro. A pessoa precisa ter cuidado o tempo todo. Só há liberdade no conhecimento do Eu Real.
V: O Guru dá iniciação ao discípulo. O termo sânscrito para iniciação é Anugraha. Qual a sua importância?
M: Você tem que aceitar (graha) sua verdadeira identidade do seu Guru. Ele lhe diz que você é consciência atômica (anu). Os discípulos continuam a se identificar com o corpo. Mas isso é não aceitar iniciação.
V: A partir de que idade começa o acúmulo de conhecimento?
M: Para acumular conhecimento, a criança primeiro tem que saber que existe. É autoconhecimento (não conhecimento do Eu Real). Isso acontece por volta dos três a cinco anos de idade. É quando a criança começa a reconhecer a mãe. O acúmulo de ignorância começa depois disso.
V: Se ensinarem a criança que ela não é o corpo e sim a consciência ou Eu Real, ela perceberá o Eu Real mais rápido?
M: A criança não vai entender. Vai lembrar as palavras e repeti-las como um papagaio. Isso não a ajuda em nada. No fim de seu tempo de vida, todo o conhecimento acumulado desaparece. A força também diminui a cada dia que passa e no final não sobra energia nem para levantar uma colher.
V: Nós, pessoas ignorantes, sempre temos pensamentos sobre a família, pensamentos mundanos fluindo. E os pensamentos do Jnani?
M: Esses pensamentos estão ausentes aqui. No seu caso, existem esperanças, desejos e vontades. Seu fluxo de pensamentos é por causa disso. No caso do Jnani, as esperanças, etc., não morrem, mas são atendidas espontaneamente.
V: Vejo muitos exageros nas escrituras.
M: No épico Mahabharat está escrito que no reino de Krishna viviam seus seguidores, chamados Yadavas, totalizando 560 milhões. Qual é a população atual da Índia?
V: Mais ou menos 700 milhões.
M: Numa pequena parte do atual estado de Gujarat, como poderiam tantos Yadavas ter vivido confortavelmente? A gente lê muitas coisas assim. O que há de verdadeiro e o que há de falso aí?
V: O que um Sadguru faz por seu discípulo?
M: Ele acaba com o estado “Eu Sou” do discípulo e com a existência irreal. No infinito e ilimitado a infelicidade não consegue permanecer.
V: Qual o significado da deusa Laxmi servindo ao deus Narayan?
M: Aqui a consciência é Narayan e nossa atenção (lakshya) “Eu Sou” (mi) a serve. No mar da consciência, seu senso de ser é ínfimo. Quando ele se vai, tudo é uma consciência só.
V: Ram era Parabrahman. Ele nunca foi ignorante?
M: Quando jovem, ele era como você. Os ensinamentos de seu guru, o sábio Vasistha, o mudaram.
V: O que é o verdadeiro conhecimento?
M: É saber que não sou nem o corpo alimentar sátvico, nem sua qualidade de consciência.
V: Você acredita em milagres?
M: Uma esfera ínfima de consciência se tornou a grande expansão da existência – o universo de matéria e energia. Não é um milagre?
O tamanho da Terra é ínfimo, comparado à existência total. Uma pequena partícula de Sattva na Terra tem consciência, que contêm a existência toda. O que mais você precisa para acreditar em milagres?

1 de janeiro de 1980
VOCÊ PROCURA A VERDADE SIMPLES – QUE FOI DIFICULTADA
Visitante: O que eu ganho por conhecer o Eu Real?
Maharaj: A ideia de ganho e perda é um sinal de identificação com o corpo e se aplica ao indivíduo. Com o conhecimento do Eu Real, esses conceitos não permanecem. Quando o indivíduo não é mais, na contabilidade de quem você anota o ganho ou a perda? No informe não há contas separadas para registrar ganho ou perda. É tudo uma conta só ou nenhuma. Se você está buscando lucro, este (Nisargadatta Ashram) é o lugar errado para você.
V: Os ricos têm muito cuidado para obter o máximo de lucro.
M: A vida deles é uma luta desnecessária. Outros na família não têm trabalho. Sua função é levar o cachorro para passear. Eu vi um cavalheiro parsi dormir com o cachorro em cima de sua barriga. Agora esqueça ganho e perda e me diga qual a utilidade de seu estado de ser quando você perde a individualidade.
V: Nenhuma utilidade. Então não existe felicidade ou infelicidade.
M: Todos os rios deságuam no mar. E também todos os esgotos. Como isso afeta o mar? Da mesma forma o sábio não é afetado pelo bem ou mal do mundo. Nosso conhecimento “Eu Sou” (consciência) é um conhecimento emprestado. Está destinado a partir. Seu estado há 100 anos era semelhante a seu atual estado de sono profundo. Não havia pensamentos em nenhum dos estados. Portanto, tente ficar sem pensamentos (meditação) pelo maior período de tempo possível. Assim você obterá o verdadeiro conhecimento.
V: O que é o verdadeiro conhecimento?
M: Sua experiência no mundo se deve a seu estado de vigília e de sono. Quando você sabe o “como e porquê” desses estados, é o fim de toda a busca pelo conhecimento.
V: Para onde irei no fim desta vida?
M: Você sabe que não veio para cá de lugar nenhum. Você apareceu sem saber e quase de repente. Você também vai desaparecer do mesmo modo. Se tiver coragem suficiente, conseguirá dizer “adeus” no fim.
Assim como seu mudo começou com sua consciência, também acabará com a separação da consciência. Seu ser e o mundo são um só. Assim como o sol e a luz do sol, você é o sol e o mundo é sua luz.
Você não fez nada para sua consciência surgir. Quando ela se separar (morte), você não poderá impedi-la. E também não está em suas mãos se livrar dela.
V: O estado de conhecer é a mesma coisa que consciência ou estado de ser?
M: Sim. Este é seu capital principal. Você tem que pensar no estado de conhecimento, quem vem a conhecer e como acontece. O que é visto no estado de conhecimento é a transformação do conhecimento. O que você sabe é por causa de seu estado de conhecimento. O que você conseguiria fazer sem ele? As pessoas se interessam pelo que conhecem e não pelo estado de conhecimento em si. Quando você passa a conhecer o segredo do estado de conhecimento (sua origem), alcança plenitude e todas as suas necessidades chegam ao fim. Lembre-se de que você não é nem o conhecido nem o estado de conhecimento e sim o conhecedor do estado de conhecimento. Hoje estou falando sobre o estado de conhecimento e não sairei deste assunto. Não permitirei que você venha para o nível físico. Você vai ao teatro e ao cinema mas eu não, e por quê? Porque você ama seu estado de conhecimento mas não consegue tolerá-lo sem estar fazendo uma coisa ou outra. Para estar confortável, você precisa manter seu estado de conhecimento ocupado. No meu caso, não preciso de meu estado de conhecimento. E também não é um problema para mim. Não sou o estado de conhecimento e sim seu conhecedor.
Antes do surgimento do estado de conhecimento, havia alguma necessidade de existir ou de continuar a existir? Assim como o estado de conhecimento teve início, também terá fim. É como se um réu fosse condenado à morte por enforcamento. Só a data ainda não foi marcada.
V: Como os cinco elementos estão ligados ao estado de conhecimento?
M: Eles são o conteúdo do estado de conhecimento e não podem existir independentemente dele.
V: Se a Verdade é tão simples, como ainda estamos nos conceitos?
M: Esta é sua própria contribuição. Minha tarefa é lhe dizer “o que é”. Depende de você como entende ou não entende isso. Sua busca pela Verdade simples foi dificultada. Por isso você não consegue evitar embrulhá-la em seus próprios conceitos. Você pode ser desculpado pelos erros que comete, mas existem supostos Gurus que não são muito diferentes de você. O conceito que mais estimam é seu Brahman. Eles ficam ansiosos para compartilhar suas grandes descobertas com os discípulos. A grandeza do Guru não é medida por sua percepção do Eu Real e sim pelo número de seguidores que tem. Quanto mais seguidores, maior é o Guru. Não os culpo (Gurus), pois não sabem que ainda são ignorantes. Seus desejos, suas esperanças e vontades são a medida de sua ignorância. Como poderia o informe ter qualquer esperança ou desejo?
V: Por que é difícil transcender todos os conceitos?
M: É seu apreço e amor pelos conceitos que o prende. Você promove seus conceitos à estatura de Brahman.
V: Por que existe tanto amor pela existência?
M: No caso de cada ser vivo, o que é nascido é “eu amo”, o amor por existir. Este é um sinal de ignorância. A preciosa vida é usada pelos seres humanos para passarem o tempo de algum modo. O valor da vida só é conhecido no fim, quando só restam uns poucos últimos dias ou horas. Exigem dos médicos que mantenham o paciente vivo a todo custo. Este “eu amo” desaparece quando o segredo da transição do “não conhecer” para “conhecer” é conhecido. O sábio não tem “eu amo”. Portanto não precisa de guarda-costas. Ele (ou ela) abandona o corpo voluntariamente, o que é chamado de Maha Samadhi iogue, ou deixa o corpo para a natureza ou Prarabdha (destino). Qual era seu nome, sua forma e qualidade há 100 anos?
V: Nada.
M: O mesmo está agora testemunhando inúmeros nomes, formas e qualidades.
V: Nossos pensamentos são sobre o tempo, os preços que sobem, a política, etc. Como são seus pensamentos?
M: Eu penso no conteúdo de escrituras como o Mahabharat, etc. Há uma descrição sobre o nascimento dos pandavas e dos kurus. Imagino até que ponto são verdade! Existe concepção a partir de machos inexistentes. Será possível? Etc. Qual a realidade deste grande mundo nosso? A única resposta que obtenho é que tudo é imaginação.
As pessoas leem o Bhagavad Gita para saber quais foram as dúvidas de Arjuna e como Shri Krishna o ajudou. Eu digo aos leitores que Krishna se refere aos problemas que eles têm e está tentando ajudá-los em vida. Será que o leitor consegue saber quem é e como? O autor do Mahabharat, o sábio Vyas, criou Arjuna apenas como um instrumento para despertar os leitores para sua verdadeira natureza.
V: As palavras desempenham um papel importante em nossa vida.
M: Com a forma do nenê diante de si, os pais lhe dão um nome de acordo com a palavra que lhes ocorre. Todo nome tem um significado. Um homem age de acordo com o significado dos pensamentos que lhe ocorrem. Podemos esperar ação correta quando pronunciamos palavras sem sentido?
(Silêncio.)
Seu dia começa com ações que seguem os pensamentos que vêm depois que você acorda pela manhã. O testemunhar do dia todo acontece para o estado de vigília que se inicia de manhã. Para perceber sua verdadeira natureza, você deve se estabilizar no estado anterior ao despertar. Não há palavras nesse estado. Sua experiência do mundo e suas atividades começam depois do surgimento da notícia “Eu Sou”. Antes disso, o que havia? Você era homem ou mulher?
V: Nada.
M: As primeiras palavras silenciosas são “Eu Sou”. Seu dia começa com palavras e mais palavras todas as manhãs. Seus atos dependem delas. Você as chama de pensamentos. As palavras se combinam para formar uma frase. Só então você consegue fazer uma pergunta. Que sabão você usa para limpar sua ignorância?
V: Não se encontra este tipo de sabão.
M: É o sabão do conhecimento, que você recebe de um Guru. Quando a ignorância lida e ouvida é lavada, junto com seus próprios conceitos imaginados, permanece o conhecimento puro do Eu Real. O Eu Real é permanente e está sempre pronto e sem isso a ignorância temporária não poderia existir. Mas a ignorância é tão destacada que o Eu Real parece ser imaginário e temporário. A ignorância parece ser muito antiga e bem estabelecida. A pior parte da ignorância é a identidade física, que é a mais difícil de erradicar. A ignorância, inclusive a identidade física, pode ser menor ou maior, mas o Eu Real é sempre pleno e completo. Com o verdadeiro conhecimento a ignorância obtém libertação, mas não o Eu Real, que nunca está na servidão.
V: O que acontece quando a identidade física é perdida?
M: Então você sabe que é a manifestação inteira – vasta e ilimitada.
V: Certa vez você disse que “estou acordado” também é um conceito. Como?
M: Sua verdadeira natureza está além de acordar, dormir e do estado de conhecimento, está sempre acordada. Desse ângulo, dizer: “estou acordado” é estranho e é um conceito.
V: Por que aceitamos como verdade tudo que ouvimos?
M: Todo seu conhecimento se baseia apenas no que você ouve. Você acha conveniente seguir a maioria. Qualquer coisa que 99 pessoas acreditem, a centésima pessoa também facilmente acredita nisso. O nascimento não é a experiência própria de ninguém. Mesmo assim, é aceito como verdade.
V: Qual a solução para isso?
M: Todo o conhecimento de ouvir falar deve ser descartado. Não dê ouvidos à opinião pública. O que somos deve ser de nosso próprio conhecimento. Todas as religiões se baseiam em ouvir dizer, o Eu Real não é afetado por isso e é independente disso. A qual religião o sono e a consciência pertencem?
V: A nenhuma religião.
M: Nosso nascimento significa o surgimento da vigília, do sono e da consciência. A combinação dos três faz surgir a lembrança “Eu Sou” que aceita as religiões segundo as tradições.
V: O pecado ou o mérito religioso são reais ou imaginação?
M: Se fossem reais, você saberia deles até no sono profundo ou também há 100 anos. Nestes dois estados, você era perfeitamente puro em todos os aspectos. Todos os seus problemas são devidos à lembrança “Eu Sou” e à identidade física. Na ausência de identidade física não há nascimento, não há morte e não há servidão. Supondo que você seja o corpo, o que acumula neste mundo é tudo apenas ignorância. Você se supõe homem ou mulher por causa da forma física, que também é ignorância.
V: Depois de ignorar todos os boatos, o que se deve fazer?
M: Deve-se permanecer no Eu Real. Sem perguntar nada a ninguém você só pode estar certo de uma coisa, que é seu senso de ser, sua consciência. Este é seu capital principal. Fique com ele. Medite nele e ele lhe dirá a Verdade. Isso não será boato, mas seu próprio conhecimento direto. Quando o corpo é esquecido há paz e pureza.
V: Quanto tempo devo meditar?
M: Até esquecer que está meditando. Isso é possível com a prática, desde que você seja diligente. Se não der, medite uma ou duas horas entre 3h e 6h da manhã, todos os dias, ou como for mais conveniente para você.
V: Qual é a causa do medo?
M: Havia algum medo antes de pegar conceitos dos outros?
V: Não.
M: Não aceite os conceitos alheios e seja destemido. Qual é sua principal exigência?
V: Que eu continue vivo.
M: Todas as suas atividades são para continuar vivo. “Estou vivo” é um conceito do ponto de vista de sua verdadeira natureza, que nunca morre. Assim, o conceito “eu estou vivo” precisa ser descartado.
V: O que é Moola Maya (ilusão)?
M: Em seu verdadeiro estado Eterno, o senso de ser estava ausente. Seu surgimento é o mais atraente. Isto é Moola Maya. O senso de ser é definido e limitado pelo tempo.
V: Como pode um homem alcançar Brahman?
M: Quando falamos de homem ou mulher, entende-se que eles têm identidade física. Esta pessoa não pode conhecer Brahman.
V: O que é visto realmente, como pode não ser verdade?
M: Você vê um sonho. É verdadeiro? No estado de vigília você também vê, mas não é muito diferente de um sonho. Seu senso de ser sempre contém várias cenas cheias de objetos. Você não pode separar a cena do senso de ser. O senso de ser é a qualidade sátvica da essência alimentar. Quando não há Sattva, não há nada.

2 de janeiro de 1980
QUEM VEM A SABER QUE TODA EXISTÊNCIA É FALSA?
Visitante: Como você pode dizer que todo nosso conhecimento é de ouvir dizer?
Maharaj: Qual é seu próprio conhecimento? Você sabia que era uma menina?
V: Não.
M: Uma gota conhece o oceano, mas quando ela se une ao oceano, não sabe que é um oceano.
V: Existem deveres depois de conhecer o Eu Real?
M: Depois você fica livre de todos os deveres e de toda servidão. Todos os deveres e atividades normais são para proteger você e para preservar seu “eu amo”. Para o Jnani não há “eu amo” e assim não surge a questão de protegê-lo.
V: Por que Deus não é uma necessidade de todos?
M: Você só precisa de água quando tem sede.
V: Um Jnani é livre para fazer qualquer coisa?
M: Quando você trabalha numa empresa, tem que seguir as regras e a regulamentação da empresa. A expectativa de um salário regular é sua servidão. O Jnani está livre de todas as expectativas, inclusive da necessidade de existir. Portanto, ele é realmente livre. Para ele, a vida é uma brincadeira (leela). Mesmo assim, suas palavras e atos estão em sintonia com o Absoluto. Um Jnani não precisa seguir nenhuma religião. A maioria das religiões começou com Jnanis. Aquele que viu a si mesmo corretamente, sua autoentrega é completa. Isto aconteceu aqui (em meu caso) e agora não há necessidade de nenhuma religião. Esta palestra que acontece agora é qualidade do material alimentício (Sattva). O Jnani é sempre o conhecedor da consciência e está separado dela. Ele faz uso da consciência como um instrumento, para comunicar.
V: Por que os Gurus de meia tigela não vêm aqui para encher a tigela deles?
M: A pose deles é um obstáculo. São sadhus, mahatmas, santos ou rishis. Têm seus próprios seguidores. Não podem sacrificar tudo isso pelo conhecimento do Eu Real. Aqui (em meu caso) não há pose. É tudo espaçoso e aberto. No caminho da devoção (Bhakti Marga), de início o discípulo tem que considerar a si mesmo como Brahma. Quando ele consegue isso, não é preciso repetir “eu sou Brahman”. Vive-se como Brahman, que é o verdadeiro Brahmacharya (celibato), sem nenhum anúncio ou publicidade. Está é a imagem da plenitude e o fim de todos os desejos. Como eram Ramakrishna Paramahansa, Shirdi Sai Baba, Nityanand, Ramana Maharshi e outros grandes sábios? Os conceitos de lucro e perda não têm lugar aqui, inclusive nenhuma servidão, tudo isso reservado para os de meia tigela.
As pessoas vêm aqui com suas próprias ideias e inocentemente tentam me envolver. Uma vez uma mulher veio aqui trazendo um pouco de prasad, depois de visitar Pandharpur. Queria que eu aproveitasse o fato de ela ter visitado Vithoba. Eu lhe disse para deixar o prasad ali, para que eu o consumisse mais tarde.
Outras senhoras me convidaram a acompanhá-las a uma visita ao milenar Babaji, que tinha vindo a Bombaim (Mumbai) para uma visita. Eu lhes disse para irem visitá-lo e depois me contar sobre o encontro.
V: Um buscador sem posição social pode fazer sua meditação sem nenhum incômodo?
M: Suponha que haja uma garota pobre e merecedora que precisa de sua ajuda. Você assume a posição do pai dela. Então acaba tendo que gastar tempo, dinheiro e energia com ela. Os sadhus andam tão ocupados com atividades mundanas que não têm tempo para meditar. Não têm tempo nem para pensar nos ensinamentos de seu Guru. Eles passam a maior parte do tempo indo de lugar a lugar para fazer palestras. Ficam no nível intelectual e não conseguem ir além. Por algum tempo eu também tive uma certa posição. Vi as desvantagens e desisti. Agora não há nenhuma posição aqui.
V: O que você pode dizer sobre o conhecimento do Eterno Eu?
M: Esta consciência não permanecerá por muito tempo. Enquanto durar, deve-se saber conhecer o estado em que estamos, depois a consciência não estará mais. Para este conhecimento, não se pode esperar pela partida da consciência.
V: Quando o Jnani não tem posição, está livre de todas as responsabilidades.
M: Por outro lado, sua responsabilidade aumenta. Ele tem que cuidar do universo inteiro. Mas não há envolvimento aí. Além de todos os conceitos, existe liberdade total.
V: Quando você fala para nós, como nos considera?
M: Eu falo para o princípio não nascido, mas vocês me ouvem como seres nascidos. A consciência é Atma e Paratma é o Princípio não nascido.
Antes de vir aqui, você estava vivendo com a ideia “eu sou o corpo”. Como vai viver agora?
V: Após perder a identidade física, viverei como consciência. Pode a consciência conhecer Parabrahman?
M: Não. Mas Parabrahman conhece a consciência, embora não haja necessidade de conhecê-la. Você adora ver TV. O que há lá?
V: É tudo ilusão.
M: Se os atores não estão vivos, estarão mortos? Se estão mortos, você deveria poder ver cadáveres ali. Quem está vendo a TV?
V: Eles também são uma ilusão.
M: Aquele que diz que houve dissolução do Universo, mas eu nem a notei, é ele conhecedor ou ignorante?
(Silêncio)
M: Um pescador joga a rede para apanhar peixe. Tudo que for apanhado na rede é sua pesca. Da mesma forma, tudo que é apanhado pelo seu intelecto é seu conhecimento. Quando você ouve a palavra Parabrahman, ela não é compreendida pelo intelecto. Você pode ouvir a palavra, mas não pode ter nenhum gosto ou experiência dela. Você não entende o que está antes de seu ser, durante seu ser e também após seu ser. Na verdade, é Parabrahman quem entende e não você. Nunca é um objeto e sim sempre o Sujeito.
A única chave que você tem para Parabrahman é sua consciência. Purifique-a cantando o mantra (Mahavakya) dado pelo Sadguru. Parabrahman já está lá, esperando, quando o falso é visto como falso.
V: Se toda existência é espontânea, qual é meu dever?
M: Você só tem que saber que “você” não está nela.
V: Quem vem a saber que toda a existência é falsa?
M: Seja quem for, também é falso.
V: Como pode ser irreal aquele que tenta conhecer a verdade?
M: Ele é irreal. Isto é um fato.
V: Qual é o motivo para a busca da Verdade?
M: Inquietude.
V: Qual a causa da inquietude?
M: Identidade errada. Achar que você é aquilo que não é, é a causa de todos os problemas e confusões.
V: Então qual a solução para este problema?
M: Recordar as palavras de Sadguru o tempo inteiro. Com isso a Verdade se manifestará em você. Shri Krishna fala para Arjuna: “Entregue-se para mim apenas, completamente.”
Todo mundo recebe a chamada interna para conhecer a Verdade. Mas ela nunca é ouvida pela maioria das pessoas.
Agora eu lhe pergunto: qual a despesa do mundo todo e depois de debitá-la, qual o balanço de créditos?
(Silêncio)
V: O que é a verdadeira entrega?
M: É largar a ideia “eu sou o corpo”.
V: Por que dizem aos devotos que eles devem se entregar a Ram, Krishna, etc.?
M: Isso é nos estágios iniciais, quando é difícil para os iniciantes largarem a identidade física.
V: Qual a causa da infelicidade e da dor?
M: Você se apegar ao corpo como “Eu Sou”.
3 de janeiro de 1980
O QUE VOCÊ ACEITA COM PLENA FÉ, ACONTECE
Maharaj: Seu mundo todo é criação de seu estado de ser. Você talvez ache isso difícil de aceitar, mas o que me diz de seu mundo onírico?
Visitante: O falso acordar no sono profundo resulta no surgimento do mundo onírico. Não é preciso Deus para criá-lo.
M: O que se aplica ao estado onírico também se aplica à vigília. Sua consciência não é nada menos que Deus. Você já percebeu sua grandiosidade?
V: Sou um mortal miserável, batalhando para conhecer a Verdade.M: O que é você sem a forma física? Estou me referindo a isso. À noite, você não consegue ver objetos na escuridão. Quando o sol se levanta, os mesmos objetos ficam visíveis. Igualmente, no sono profundo os objetos são invisíveis. Você despertar equivale ao sol em cuja luz o mundo se torna visível.
Quando você se limita ao corpo, você sofre. Sem o corpo você é invisível. Dê atenção a isso. Mesmo na escuridão completa, você sabe que é. Mantenha isso. Medite nisso.
V: Nós nunca questionamos a realidade das experiências na vigília ou nos sonhos, enquanto elas duram.
M: Todas as experiências acompanham seu senso de ser. Quando o senso de ser está ausente, como no sono profundo, não existe nada. Você vê a brilhante luz de uma tarde mesmo numa meia-noite sem luar. Você chama isso de sonho.
V: Como a meditação pode ajudar a despertar do sonho? Nós sonhamos até enquanto estamos caminhando.
M: Quando você medita corretamente na consciência, no devido tempo você mesmo vê nela todos os cinco elementos, as três qualidades e Prakriti e Purusha. Para paz e felicidade completas, torne sua consciência propícia, meditando nela. Depois disso, você fica tão pleno em todos os aspectos que não há necessidade de nada.
V: Se a morte é um mito, como pode um Jnani morrer?
M: Se um Jnani diz que vai morrer, não pode ser um Jnani.
V: Nós adoramos deuses como Rama e Krishna. Eles eram seres humanos como nós? Se sim, também podemos nos esforçar para ser como eles.
M: Eles eram iguais a você. Se os chamar de encarnações, você também é “encarnações”. Esta é a grandeza da consciência em forma humana. O único requisito é seu uso correto sob a orientação de um Sadguru.
V: Embora a Verdade seja muito simples, algumas pessoas sofrem muitas adversidades pela autorrealização.
M: Se o discípulo não tem nenhuma dúvida sobre os ensinamentos do Sadguru, ele percebe o mais elevado bem rapidamente. Mas estes são casos raros. A plena fé na própria consciência opera maravilhas. Nos estágios iniciais, as pessoas ouvem que têm que cantar mantras e fazer bhajans. Elas também chegam lá, mas depois de um longo tempo.
V: Você pode sugerir algum atalho para mim, para eu praticar regularmente?
M: Durante o dia você está ocupado com muitas atividades. Pelo menos quando for para a cama à noite, diga o seguinte: “Meu corpo é feito dos cinco elementos. Se não sou os cinco elementos, como posso ser o corpo? Meu prana (alento vital) é informe. Minha consciência e minha mente também são informes. Como posso estar limitado a uma pequena forma? Sou infinito e ilimitado. Sou sempre existente. Como posso ter nascido? Portanto, também não posso ter morte. Sou o Princípio Eterno e sempre existente.” Com sua insistência, as mudanças necessárias ocorrerão em você durante o sono e seu progresso espiritual será mais fácil e rápido. O que você aceita com plena fé em realidade acontece.
V: Outro dia eu vi você curar a doença grave de um discípulo.
M: Ele estava em condições realmente péssimas. Eu lhe disse: “você não tem nada. Está perfeitamente saudável.” Ele tinha plena fé em mim e veio aqui como última esperança. Aceitou minha palavra como verdade absoluta. Minha tarefa foi criar autoconfiança nele. O que funcionou foi sua própria fé. Ele ficou livre da doença em pouco tempo. Algumas pessoas me dão crédito pelos milagres que acontecem. O fato é que não faço nada. Se eu fosse responsável por fazer milagres, poderia fazê-los até na ausência da fé em mim. Nem todos se beneficiam vindo aqui.
V: Se Atma é um em todos, deveria ser mais fácil ter plena fé no Sadguru.
M: Atma é um. O Atma que se manifestou (Jagadatma) ou o Atma universal (Vishwatma) finalmente se funde no Paramatma sem atributos. Mas a fé que se tem no Sadguru varia de discípulo a discípulo. O indivíduo é livre para não ter fé e sofrer por causa disso. Em um de nossos bhajans, foi dito que até Deus é obrigado a ajudar um discípulo que tem plena fé que seu Sadguru é Parabrahman.
V: Embora eu não seja o corpo, ele aparece mais que a consciência, que é invisível.
M: Nunca traga a consciência para o nível do corpo. A consciência ou Atma parecem estar restritos ao corpo e isso nunca é assim. Ela está em tudo, é infinita e ilimitada. Você passa a saber que existe por causa de seu corpo, mas você não é o corpo.
Você concorda que o espaço é ilimitado, mas o espaço e os outros quatro elementos se originam na consciência. Isto significa que a consciência é maior que o espaço. Então, como pode a consciência ficar restrita ao corpo? Ela também é infinita e ilimitada.
V: Após o conhecimento do Eu Real, quem devo consultar em caso de dúvida?
M: A existência de qualquer dúvida indica falta de conhecimento do Eu Real. O conceito “eu tenho conhecimento do Eu Real” também deve ser abandonado.
V: Sou um iniciante. Você pode me dizer onde devo começar minha autoinquirição?
M: Há 100 anos você não sabia de sua existência. Até seu corpo surgiu sem seu conhecimento. Sua existência estava em estado de não conhecimento. Agora você sabe que você é. Você deve conhecer a transição do estado de não conhecimento para o estado de conhecimento. Qual o motivo da transição e como ocorreu? Sua mente não pode ajudá-lo a descobrir, pois estava ausente durante a transição. Veio depois. Já é o bastante se ela não o perturbar durante sua inquirição. Sem ela você terá uma meditação boa e profunda, onde todas as dúvidas serão esclarecidas.
Sua autoinquirição começou por causa do corpo. Quando não havia corpo você não sabia de sua existência, portanto não havia necessidade de qualquer inquirição. Enquanto o corpo estiver lá, você tem que completar a autoinquirição. A meditação é a chave para a solução deste enigma espiritual.
V: Qual a descoberta suprema na espiritualidade?
M: Seu senso de ser (consciência) é a qualidade da essência dos alimentos que você come. Alguém passa a saber que é. Quem é ele? Ele deve estar presente antes de conhecer sua presença. Então, por que ele não soube quando seu corpo nasceu? Então a essência alimentar também estava pronta, mas estava verde. Na manga verde não há doçura. A doçura vem quando a manga amadurece depois de alguns meses. Da mesma forma, o estado de conhecer surgiu três a cinco anos após o nascimento do corpo. Qual a coisa mais importante em sua vida?
V: Meu senso de ser.
M: O que existe sem isso? Nada. Portanto, este é seu capital. Isto é tudo para você e sua chave para o Autoconhecimento. Medite nisso, Quando sua consciência for acalmada, será o fim de todas as dúvidas e perguntas. Então você terá felicidade duradoura.
V: Eu existo e tenho ideias próprias sobre mim mesmo. Quanto tempo elas vão durar?
M: Pelo tempo que seu corpo se mantiver intacto. Aqui (em meu caso) não há ideias. “O que é” não pode ser descrito como assim ou assado. É diferente de qualquer outra coisa. Eu não me acho útil para o mundo, mas mesmo assim Eu Sou. Minha existência física é a notícia “Eu Sou” no corpo. Chegou sem ser solicitada e pode partir a qualquer momento. Que importância devo dar a esta existência física não confiável? Minha verdadeira existência é independente do corpo. Eu existia quando o corpo não era. Mesmo agora, existo independentemente do corpo. Meu corpo não é exigido para minha existência, é apenas a notícia “Eu Sou” que precisa dele. Sem o corpo eu não conheço “Eu Sou”. No futuro, também estarei lá sem o corpo e sem a notícia “Eu Sou”.
V: O surgimento do estado de ser é como acordar de um sono profundo.
M: Um, que não tinha nenhum atributo e que estava além da consciência, de repente se tornou consciente. Não é alguém vindo de algum lugar, mas apenas se tornando consciente de sua existência. Do “estado sem notícia” surgiu a notícia “Eu Sou”.
V: Existe alguma experiência permanente?
M: Todas as suas experiências dependem de seu senso de ser, que em si é impermanente. Só o estado de não experiência é permanente.
V: O que falta fazer depois de conhecer um sábio?
M: Tente lembrar das palavras dele o tempo todo e segui-las o mais que puder. Isso manterá você mais próximo da Realidade. Você deve olhar para si mesmo e não para Deus ou para os outros.
4 de janeiro de 1980
O SÁBIO É RICO SEM POSSES
Visitante: Nosso corpo tem valor por causa da consciência. Qual o valor da consciência?
Maharaj: A consciência é Deus. Quem existe além dela mesma (consciência) para avaliar? O buscador avançado diz: “Eu sou a consciência informe.”
V: Quem é pecador?
M: A consciência nunca morre, apenas se separa do corpo. Aquele que diz “eu estou morrendo” é um pecador.
V: Nós recebemos tanto de nosso Sadguru. Que valor damos a isso?
M: Um milionário perde a memória e está mendigando numa calçada. Um amigo o reconhece e lhe oferece toda a ajuda para que ele volte ao normal. Diz ao amigo o quanto ele vale e cita o nome do banco em que ele tem milhões. Você espera que o mendigo continue sentado na calçada? Na espiritualidade acontece o mesmo. Eu lhe digo o que você é. Você não é um mortal miserável e sim um Princípio sem forma, imortal, infinito e ilimitado. Se continua se apegando a sua identidade antiga, o que posso fazer?
V: Ganhar uns poucos milhares de rúpias tem mais importância para nós que o conhecimento de nossa verdadeira natureza. Não conhecemos sua importância. Nós entendemos ganho material, mas não ganho espiritual.
M: Tudo fica visível por causa da consciência, que em si é invisível. Os sábios conhecem a importância da consciência agora, mas os torpes têm que esperar até o fim. Quanto um indivíduo tem que gastar para manter um paciente vivo? Muitas vezes o dinheiro não ajuda em nada.
V: Os ignorantes vivem como homens e também morrem como homens. O que o Saguru faz?
M: Ele rega a semente de Brahman em você e no devido curso de tempo haverá a árvore plenamente crescida de Brahman em você.
Você é sempre o Chaitanya Brahman no qual há uma aparência ilusória de ser humano. O auxílio do Sadguru é exigido para conhecer e perceber nosso verdadeiro ser.
V: Qual foi meu último nascimento?
M: Esta pergunta surge da identidade física, que é feita de terra, água, fogo, ar e espaço. Responderei a pergunta depois que você me disser qual foi o último nascimento do conteúdo da terra em você. E também qual foi o último nascimento da água em você. Igualmente, diga-me o último nascimento do fogo, do ar e do espaço em você. Assim como os cinco elementos não têm nascimento, o corpo feito dos cinco elementos também não tem nascimento.
V: Todo nosso conhecimento neste campo é só ignorância. Por que os Sadgurus são tão raros?
M: O número deles segue a demanda. Existem muitos buscadores do conhecimento do Eu Real? O que é existe na maioria são os autobuscadores e raramente buscadores do Eu Real. Aquele que está além de todas as necessidades dá as boas-vindas aos verdadeiros buscadores. O sábio posa de ignorante ou até de louco a fim de manter longe as pessoas erradas. Os buscadores sinceros não têm dificuldade em encontrar o homem certo.
V: As pessoas ricas e poderosas podem ajudar a dar publicidade.
M: Mas quem precisa de publicidade? A necessidade de consciência acabou aqui, portanto o que se pode ganhar através da consciência? O sábio é rico sem posses. Seus desejos e necessidades o fazem rico ou pobre. Você consegue se deparar com ricos mendigos, mas um pobre sem desejos é raro de encontrar.
V: Onde devo buscar a Verdade?
M: Ela está dentro de você e não fora. Toda a busca externa deve cessar para que a busca interior fique concentrada. Depois que a Verdade é localizada interiormente, ela está em todos os lugares para você.
V: Como me livrar da ideia “eu sou o corpo”?
M: Você nunca diz que é o alimento que come. Deveria estar bem claro para você que o corpo não é nada além de material alimentar. Sua consciência come o corpo durante um jejum. Lembrando constantemente disso, a ideia errada cairá.
Você é informe, mas seu corpo é a forma mais próxima pela qual você soube que “você é”. Por causa desta proximidade, você mantém o corpo como sua forma.
V: Eu existo sem o corpo?
M: Sim, mas a existência é sem “eu”. Esta era sua existência há 100 anos. É a eterna existência. Não há “eu” nem “você” Nele. Tudo é um (apenas). O mesmo atma está em todos os seres vivos. Só as formas são diferentes e são denominadas de acordo.
V: Se eu buscar internamente, conseguirei liberação?
M: Todos os seus conceitos serão liberados. Sem eles você já é livre, sem precisar nenhuma liberação. Ser livre de conceitos é ter conhecimento genuíno do que é a vida.
V: Por que os sábios ficam a maior parte do tempo em silêncio e só falam com poucas pessoas?
M: Por que Jesus foi crucificado e Mansur foi morto por seus companheiros muçulmanos? Só uns poucos podem ouvir a Verdade pacientemente e digeri-la. A Verdade não pode ser dada a todos. As massas estão destinadas a permanecer só na ignorância. Assim, os sábios transmitem conhecimento a uns poucos escolhidos.
No meu caso, tanto Deus quanto o devoto desapareceram e aqui estou eu. O que você entende daí? Neste estágio, sinto que é inadequado que as pessoas me visitem e me escutem. Brahma é o deus criador da Trindade hindu. Diz-se que o último dia e a data estão anotados na testa de cada ser vivo. Mas quem escreve o último dia na testa do próprio Brahma? Shiva ou Shankar é o grande destruidor responsável por todas as dissoluções. Quem escreve o último dia na testa de Shankar? Todos esses enigmas foram resolvidos aqui (no meu caso). Todos os segredos encontraram liberação neste lugar. Com tudo isso, minha verdadeira natureza se manteve não afetada e intacta. Não posso apresentar uma testemunha para confirmar tudo e não há necessidade disso.
Se alguém perguntar se eu tenho uma mente e quais são meus pensamentos, as frases acima lhe darão alguma ideia.
V: Todas as formas deveriam ser eternas, já que Atma é a única Verdade.
M: Todas as formas se devem aos cinco elementos, que não são eternos. Sua verdadeira natureza é incorpórea e independente dos cinco elementos, portanto é Eterna. Você conhece o mundo por causa da consciência, que você não é. A consciência é seu instrumento e você é o usuário e o conhecedor. Sem consciência, o que você testemunha?
V: Nada.
M: Portanto, esqueça o corpo e esteja só com a consciência, o mais que você puder e pelo maior tempo que puder. Isto é chamado de meditação. Depois você verá o mundo como a “peça” de sua consciência.
Sem conhecer a origem da consciência, tudo que você fizer nunca lhe dará felicidade real e duradoura. O verdadeiro conhecimento liberta você da servidão ilusória.
V: Eu amo existir. A consciência é uma bênção para mim.
M: Então por que você dorme? Tente viver sem dormir.
V: O sono regular é uma exigência.
M: Dormir é esquecer a consciência e é uma exigência para sobreviver. O que se deve esquecer regularmente não pode ser uma bênção. Mesmo quando você está acordado tem que esquecer a consciência, por causa de alguma atividade física ou mental. Tanto a comida quanto o sono são necessários para a sobrevivência.
V: O que você me diz da alma individual (jeeva), do mundo e de Brahman?
M: O testemunhar acontece devido à consciência e há a alma individual, o mundo e Brahman. Sem consciência não há nada e nenhum testemunhar. “Eu sou” é um conceito e tudo é sua criação. Seu senso de ser é a alma (Sarvatma) de toda a existência.
V: O que me diz de seu “Eu Sou”?
M: Quando foi investigado, desapareceu.
V: Você não aconselha seus discípulos a observarem nenhuma restrição.
M: Para mim, esta existência é a filha de uma mulher estéril. Que diferença faz se a criança se comporta de um jeito ou outro? O sábio Ramdas disse a seus discípulos que eles lhe pediam que desse detalhes de algo que nunca tinha acontecido.
V: Você já encontrou Sri J. Krishnamurti?
M: Se eu o encontrar, o que devo falar? Talvez haja uma troca de palavras, mas não de conhecimento. Aqui também é igual. Eu sou o que J. Krishnamurti é. Ambos perdemos o falso eu ou a falsa individualidade. Ambos estamos convictos de não ser separados como indivíduos, mas sim um só como existência total.

5 de janeiro de 1980
Existência é apenas uma aparência
Maharaj: A mesma consciência de criança continua ao longo da vida, até o último dia. Muitas mudanças ocorrem no corpo e ao seu redor, mas a consciência de criança continua igual. O testemunhar de toda uma vida acontece à consciência de criança. Quando ela se separa do corpo, tudo acaba.
Visitante: De que modo os conceitos afetam a consciência de criança?
M: O fluxo de conceitos continua durante a vida. Novos conceitos vêm, ficam um tempo e se vão, mas a consciência de criança continua imutável. O que chamamos de morte é o crepúsculo da consciência de criança. Até aí, a qualidade de semente é molhada. Quando ela seca, a consciência de criança se põe. Todas as atividades humanas acontecem no período entre aurora e crepúsculo da consciência de criança.
V: É possível se livrar dos pensamentos por tempo indefinido?
M: Não. Só por um período. Enquanto houver consciência e respiração, os pensamentos vão surgir. Você a chama de mente. Você é perturbado pelos pensamentos. A questão é: quem controla quem? Você controla a mente ou a mente controla você? Sua mente é como um elefante que o leva para passear. No caso do sábio, a mente é como uma mosca passeando no elefante.
V: Se na verdade somos Brahman, para nós deveria ser fácil manter o Eu Real.
M: É mais fácil manter aquilo que você não é. Como manter a si mesmo e que parte você vai manter? Você é Ele (Eu Real) o tempo todo e qualquer ação sua é se distanciar Dele.
V: Se somos um com o mundo, por que esta multiplicidade?
M: É porque sua devoção ao Sadguru não é completa.
V: Existe mesmo um terceiro olho na testa?
M: O terceiro olho é de conhecimento, que você recebe do Sadguru.
V: Um sábio é livre mesmo quando pronuncia palavras irrelevantes em estado febril?
M: Aquele que é liberado e livre assim o é em todas as circunstâncias.
V: Vemos pessoas velhas ocupadas com suas atividades mundanas até o fim.
M: Elas têm medo da morte e sua vida é apenas um esforço para esquecer isso. O buscador espiritual vive só para perceber sua imortalidade.
V: Por que sacrificar confortos e diversão na realização do Eu Real, que pode não se materializar?
M: Você é consciência e a criação inteira é suas formas e seus nascimentos. Evitar a espiritualidade não é nada de novo para você e sim sua prática normal. Então por que não optar pelo mais elevado, pelo menos nesta vida? O potencial humano é ser Deus e vale a pena tentá-lo a qualquer preço.
V: Sua graça está sempre em ação e muitas vezes somos respeitados sem razão aparente.
M: Tenha sempre o sentimento de que através de você as pessoas estão respeitando seu Sadguru.
V: Devo continuar meus bhajans mesmo depois de conhecer o Eu Real?
M: Sim. Isto vai aumentar ou manter seu valor e salvá-lo de uma queda.
V: Vale a pena viver?
M: O melhor uso da vida é continuar sua devoção ao Sadguru.
V: Até onde posso progredir sem plena fé no Sadguru?
M: Sem ela você não conseguirá realizar sua unidade com o Absoluto.
V: Temos muitos Gurus na vida. Qual a grandeza do Sadguru?
M: Quando você constrói um templo, muitos desempenham um papel na realização da obra. O arquiteto, o engenheiro civil, os operários da construção e os transportadores desempenham seu papel. O escultor também tem um trabalho importante a fazer, mas a instalação final e a execução do rito de dar vida à imagem é feita unicamente pelo sacerdote brâmane. Da mesma forma, só um Sadguru pode despertá-lo para seu Eu Real.
V: A espiritualidade perdeu a importância na era moderna?
M: Sua tecnologia progrediu, mas seus problemas e sofrimentos não mudaram. Antigamente vocês tinham problemas com carretas de boi. Agora os problemas são com seus carros e aviões a jato. Sua ganância, seu ódio, sua raiva e sua tristeza são os mesmos de antes. Vocês riem da pessoa que viaja de trem ou de ônibus com a mala na cabeça. Até agora, vocês se acostumaram a viver com problemas e medos imaginários. Ganhos e felicidade de curta vida demandam grandes esforços, que vocês não hesitam em empregar. Mas a verdadeira facilidade, paz duradoura, felicidade e espontaneidade natural são desconhecidas de todos vocês. Um ser raro é exceção a tudo isso. Voltar-se para a espiritualidade requer sabedoria para entender as limitações da vida mundana. Alguns poucos a têm e eles são o sal da terra. Os outros vivem para lutar e morrer.
A era moderna possibilitou ao homem ter o bastante, mas isso é inútil para ter paz e felicidade duradouras. Assim, cada vez mais pessoas se voltam para a espiritualidade para experimentar seu valor.
V: Por que os sábios permanecem imperturbáveis diante de acontecimentos perturbadores?
M: Os sábios não são nada menos que Parabrahman, que ficou totalmente desafetado mesmo durante as várias dissoluções do universo. Um oceano não é afetado por algumas gotas de chuva que nele caem aqui e ali. Os sábios não fazem nada, mas as pessoas perto deles se beneficiam e têm seus problemas resolvidos. O sábio Ramdas era o Guru de Chhatrapati Shivaji Maharaj, que lutou para salvar o hinduísmo da destruição total sob invasões muçulmanas e más administrações.
V: A maioria das pessoas não têm devoção.
M: Todo ser humano tem devoção por estar vivo. Não poupa nenhum esforço para permanecer vivo.
V: Como posso ter certeza de estar no caminho certo na espiritualidade?
M: Quando você se mantém fixo na consciência, sem usá-la para outras atividades.
V: Minha mente me incomoda durante a meditação.
M: Seja um verdadeiro devoto do Sadguru. Assim irá além da mente.
V: Eu concordo que o mundo onírico é falso, mas e o mundo de vigília?
M: Ambos são o conteúdo de sua consciência e limitados pelo tempo. Como podem ser verdade?
V: Quero me livrar do amor pela vida.
M: Então conheça seu Eu Real.
V: O que é a verdadeira adoração a Deus?
M: A verdadeira adoração é saber que em forma pura você é Deus.
V: Diz-se que Paramatma não tem senso de ser ou conhecimento “Eu Sou”.
M: A notícia “Eu Sou” está ausente no Paramatma sem forma. Esta notícia é qualidade da forma física. A notícia apareceu por causa do corpo e erradamente considerou o corpo como sua forma. O mundo existe na consciência e a consciência em Paramatma.
GLOSSÁRIO
Ajnana – Ignorância
Ananda – Bem-aventurança
Anugraha – Iniciação
Atma – O Eu Real
Atmananda – Bem-aventurança do Eu Real
Atmaprakash – Luz do Eu Real
Estado de ser – Consciência, estado “Eu Sou”, conhecimento de que “eu sou” ou “você é”
Bhaktimarga – O caminho da devoção
Bodhisattva – A essência da inteligência
Brahmasutra – A mente cósmica
Consciência de criança – Consciência pura de uma criança
Chaitanya – Consciência
Chakras – Plexo (muladhar, swadhishthan, manipur, anahat, vishuddha, ajna)
Chidakash – Brahman em seu aspecto de conhecimento ilimitado, a expansão da consciência
Chidananda – Consciência de bem-aventurança
Dhyan – Meditação
Guna – Qualidade
Hiranyagarbha – Inteligência cósmica, consciência universal
Ishwara – Deus
Jagadatma – O Ser Supremo
Jagruti – Estado de vigília
Jnana – Conhecimento, consciência
Jnani – Sábio
Kailas – Morada de Shiva ou Shankar
Karma – Ação
Mahadakash – A grande expansão da Existência, o universo de matéria e energia
Mahasamadhi – Abandono do corpo por um sábio
Maya – Ilusão, o poder ilusório de Brahman
Maha-Tatva – A grande realidade, a consciência suprema
MoolMaya – Ilusão primária
Mumukshu – Buscador espiritual
Nirguna – Não-manifesto, sem atributos
Nisarga – Natureza
Nirvikalpa – Sem modificações mentais
Paramatma – A Suprema Realidade
Paramananda – Suprema bem-aventurança
Peetambara – Dhoti de seda de cor amarela
Prakriti – Substância Cósmica
Pranayam – Controle iogue da respiração
Parabrahma – A Suprema Realidade
Prarabdha – Destino – efeitos armazenados de ações do passado
Purusha – O espírito cósmico
Rajas ou Rajoguna – Uma das três qualidades, inquietude e atividade
Saguna Bhakti – Idolatria (saguna significa o manifesto)
Sarvatma – O Eu Real em todos, o Eu Cósmico
Estado Sahaja – O estado mais natural (do Jnani)
Sahajawastha – Estado natural
Sahaja Yoga – A yoga fácil
Sadananda – Sempre em bem-aventurança
Samadhi – União com o Eu Real
Sadhaka – Buscador avançado (sério)
Satchidananda – Existência, consciência, bem-aventurança
Sattva – Essência verdadeira, uma das três qualidades
Shaktipat – Um tipo de yoga espiritual
Shyam Sunder – De pele escura
Siddha – Um ser aperfeiçoado
Swavishaya – Meditar no Eu Real
Tamas ou Tamoguna – Uma das três qualidades, alegar autoria
Vaikuntha – Morada de Vishnu
Vasudeva – Um dos nomes de Krishna
Veda – Escritura hindu antiga
Videhi – O que está em estado incorpóreo
Vijnana – Princípio de inteligência pura, além do conhecimento (Jnana)
Vishwambhara – Deus Universal
Vishwatma – O Ser Supremo
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